Ventos da Guerra: Capítulo 23

FESTA DE DESPEDIDA

Durante uma semana os arautos anunciaram a grande festa, foi decretado feriado e os órgãos públicos ficariam fechados. A festa seria realizada no pátio do castelo real, que teria os portões abertos durante toda a noite. Pavilhões foram erguidos e bandeirolas e faixas fixadas na cidade, que logo se contaminou com o clima festivo.  Os convidados ilustres da festa passaram o dia provando roupas e relaxando. Valkíria recebeu sua roupa leonina, que havia encomendado com o alfaite Ernanys e estava muito feliz.

O povo se fez presente como há muito não se via, naquela festa que começou ao entardecer, numa época incerta como aquela, onde muitos estavam sendo chamados para compor o exército. O povo passava a valorizar mais a presença dos entes queridos, amigos e compatriotas em tempos difíceis. Muitos populares traziam sua própria comida e bebida para juntar aos pratos preparados pelos cozinheiros do rei Argel, contundo faziam isso mais por hábito local do que por necessidade. Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 22

MODA SUSPEITA

Allis e Valkíria andavam pelas vielas de Miliciana até o Bairro da Fumaça, local onde os fornos da cidade se concentravam. Padeiros, oleiros e ferreiros viviam naquela região juntamente com seus familiares. Eles seguiram a pé pela via do ferro, uma importante rota da cidade, de grande trânsito de carroças. A estrada serpenteou por entre casas e prédios e os levou até a cidade baixa, já próxima à serra onde ficavam as minas de ferro.

Allis perguntou se alguém sabia onde morava Allis, o ferreiro, pai de Simack. O dracomago sabia que seu pai fora grande salvador yoriano, antes de se casar com a mãe deles e se tornar lorde em Jandy. Os homens mais velhos lembravam-se das comemorações para o guerreiro herói que resgatara a princesa Áurea do Castelo Vermelho, há cerca de 28 anos,  e que nascera  se criara naquele bairro pobre da capital. O jovem jandita percebeu, que entre os mais moços, o nome do pai dele,  já não era tão vivo e grandioso. Muitos homens jovens haviam lutado nas guerras entre Ayoria e Jandy, como aliados dos ayorianos, e sabiam que o antigo herói Simack tinha mudado de lado. Simack Allis II sabia que o pai sempre fora uma pessoa muito ambígua nas alianças que fazia. Em algumas de suas estórias Simack estava com Argel Punhos de Prata, noutras com Agamenon – Imortal – ou ainda, com Ramalid Ben Kazar – a Pérola Negra do Deserto. Simack Allis I enfrentou o arquimago Richard Manto Negro, foi corrompido por um demônio, despertou a Árvore da Vida de Argos, fez um pacto com a Deusa Arina, maculou as lágrimas de Íris em Tantra, entre tantos feitos notáveis. Por conta desta extensa carreira, Simack II sabia que era quase impossível fazer o pai se orgulhar dele, já que não se sentia capaz de superá-lo em glórias. Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 21

ASSUNTO DE FAMÍLIA

Hagen dava voltas, já impaciente. Havia chegado em Miliciana há tempos e nada dos demais companheiros. O guerreiro resolveu ir ao encontro do seu avô, o rei Argel, o único familiar que se encontrava na cidade. O pai dele liderava um batalhão no norte. Genitor seria o termo mais adequado, já que Hagen nunca conhecera realmente o pai. O único diálogo paterno que eles tiveram foi no confronto de vida e morte no qual a Espada de Avalon – a relíquia destruída – foi restaurada. Naquele dia, as palavras daquele homem alado com asas cristalinas não fizeram o menor sentido. Ele falou de amor, mas de um amor que ele não compreendia: amor paterno. Com o avô, ele teve mais contato, soube que Argel o procurara enquanto treinara nos Sete Céus. Foi o rei-avô que o aconselhou a julgar melhor as ações do paladino Argon de Lentis. Talvez ele o entendesse.

O jovem ruivo acordou cedo e foi visitar o monarca. Lembrou que fazia cerca de dez anos que não sabia o que era uma família. De sua mãe, Carolina, ele guardava poucas lembranças. Quando pequeno, aos oito anos, fora do tirado dos braços maternos pelos três homens a quem ele futuramente chamaria de mestres. O treinamento fora intenso e Hagen se lembrou dos perigos que passara, os pavores que sentira o impedira de chorar de saudade. Hagen aprimorou o corpo, a mente e o espírito em três anos, ainda criança.  Durante a jornada, ele percorrera a estrada para o poder, um caminho cheio de dor que apenas em sofrimento levá-lo-ia aos portões dos Sete Céus. Perdido nas próprias memórias, deu-se por conta que estava quase em frente à porta do quarto do avô. Ele bateu à porta, despertando o rei de sono profundo. Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 20

FORÇA LEONINA

Como ninguém estava indo com ele, Ualfo voou para Élfica sozinho. Queria se mostrar útil para o mestre dele, que sempre confiava ao monstrinho a tarefa de observar os reticentes empregados. Hagen iria para a Cidade do Lago, ao sul. Os outros iriam para Miliciana, à oeste, só ele iria para o norte do reino, já próximo das colinas yorianas.

Havia um entroncamento que ele deveria tomar na Aldeia do Mercado – chamada simplesmente Mercado -  voltar para o lar dele em segurança. Yoria era um reino abençoado pelo deus do bem – Avalon – que transformou o lugar em paraíso de tranqüilidade, porém isto não impedia que os instintos naturais das criaturas que lá viviam, ainda deixassem viagens longas incertas. Por isso, mesmo podendo voar, o fremlin optou por continuar em vias seguras, do que cortar caminho pelas planícies.

Ualfo escutou um grito o chamando. Eram seus companheiros que iam lhe alcançando.  Eles estavam surpresos quando viram o monstrinho voando esbaforido e zombaram dele pela pressa  que não o levou a lugar algum. Hagen, correndo, a muito passara por ele e não vira o colega, cochilando dentro de uma moita. Achando gozada a situação, os amigos decidiram que era muito melhor acompanharem o peludo monstrinho até Élfica. Aurora, que já levava Thon na garupa de Mu, não fez questão de dar a mão para ele, que se acomodou facilmente em cima do caprino. Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 19

O MESTRE QUE NÃO ESTAVA LÁ

Thon acordou abalado com a imagem macabra que vira na noite anterior. Apesar de ter se irritado com o homem que o fez dançar, a ponto de desejar retaliação, ver aquela cabeça decapitada em uma bandeja não era algo que gostaria que tivesse ocorrido. Ter sido responsável por uma morte banal, fez com que ele sentisse remorso e impotência. Agora ele compreendia porque Hagen sempre desejou sigilo na jornada.

Eles estavam de volta na cabana onde foram recebidos e todos, bem cedo, já empacotavam os equipamentos nas mochilas e verificavam as armas para ver se nada faltava, cada flecha foi contada, cada adaga foi conferida. Thon procurava esconder um pequeno problema com o seu equipamento, sua armadura élfica, recém recebida, possuía uma falha. Não que os elfos tivessem a fabricado de maneira errada,  o problema surgiu quando ele enfrentou a erynie, ainda em Deshnok. As chamas que ela evocou foram mais graves do que todos pensavam e  o mithril da armadura,  que tinha  protegido Thon de uma morte imediata  pagou o preço pela ousadia de reter o calor das chamas infernais. A princípio, Thon não tinha percebido a falha, mas com o passar das semanas, aquela deformidade foi ficando cada vez mais perceptível para ele, a ponto de ter que evitar combates diretos. Thon esperava chegar a sua terra natal para que pudesse encontrar ferreiros que pudessem consertar o estrago. Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 18

PENA DE MORTE

ventdguerraAo nascer do sol, bem cedo, os apreensivos “convidados” se levantaram. Prepararam um pouco da ração de viagem e comeram, não esperando qualquer recepção mais hospitaleira daquele bando de soldados que guardavam a torre. Ualfo ainda roncava alto, quando todos já estavam de pé, tendo o bicho só acordado quando escutou os ruídos de biscoitos de viagem sendo mastigados. Hagen transparecia calma, mesmo sobre os olhares apreensivos dos companheiros.

Um dos soldados, com a boca suja de comida, veio dar-lhes a ordem para irem para a cidade. Alguns homens começaram a desmanchar a tenda onde eles deitaram. Outros preparavam um animal para carregar alguns  equipamentos, um caprino enorme como um cavalo. No meio da carga, estavam as armas deles. Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 17

TRAIÇÃO

Os olhares aquilinos recaíram sobre Allis, que estava acanhado devido àquela desconfortável situação. Ele ainda se sentia mal pelo efeito do veneno que havia na bebida, mesmo tendo tomado o antídoto. Homens erguiam um pavilhão improvisado perto da torre, destinado aos repentinos convidados. Eram meados da noite daquele vigésimo sétimo dia do quarto mês do ano – Arinir- e a lua nova deixava a noite escura e  ornada de estrelas. A tenda serviu  para encobrir dessas estrelas o constrangimento que Simack II passou. Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 16

DELATOR

O segundo de tensão que prenunciou o embate durou uma eternidade, até o brado expresso do superior do grupo de emboscada:

 - Não ataquem!

 Aquelas palavras causaram espanto em todos,principalemente aos guardas, que já se preparavam para a carnificina. O soldado que estava frente a frente com Allis engoliu o orgulho de guerreiro e esmoreceu, mesmo ainda mantendo a espada em riste. Os demais ainda faziam todos os outros de reféns. Os aventureiros estavam tensos, porém a tensão se transformou em surpresa e a surpresa em curiosidade. Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 15

REVELAÇÃO

Valkíria se orientava não apenas pelo sol, mas também pelas estrelas e pelo vento. Graças ao treinamento que teve com o pai, o grande Simack Allis, desenvolveu habilidades gerais que ajudariam na sobrevivência. Desde de criança, Valkíria sempre teve um tratamento diferenciado em relação ao irmão gêmeo. O pai sempre quis ter um filho guerreiro e não desistiria dos planos mesmo sendo este filho uma filha.

Ela trilhou um novo caminho pela floresta, cortando alguns arbustos que eram obstáculos. Saltou pequenos riachos, assustou alguns pequenos mamíferos. Chutou algumas pedras, se impôs perante os demais e os liderou até o final da trilha secreta. Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 14

EMBOSCADOS

Thon saiu da toca do avaliador com bastante receio. Ele contou todos os detalhes para o impávido Hagen, que também ficou apreensivo ao saber que o príncipe Thon, filho do Imperador de Ayoria, havia sido identificado tão facilmente. Ao se encontrarem com os demais colegas, a notícia logo se espalhou. “Quem seria Caco?” se perguntavam. Com os guardas de Suiren ainda no portão principal e passeando pelas vias da aldeia, não era seguro perguntar informação a ninguém. Os próprios habitantes não davam muita margem para abordagens de estrangeiros.

Sem alternativas, regressaram, conforme combinado, para pegar as gemas que deixaram para serem avaliadas. As pedras ornamentais foram de pouco e médio valor, sendo algumas  usadas para pagar os serviços e produtos que encomendaram. À noite, Thon e Hagen retornaram para casa de Caco, com todos os cuidados possíveis em não serem vistos ou seguidos. Entraram sem barulho e logo estavam ao encontro do proprietário. O halfling os recebeu e levou-os ao interior da sua loja. Um cortinado escondia uma porta metálica. Caco abriu a porta com uma chave guardada em um pote de fumo e revelou uma escadaria. O teto desta escadaria era alto suficiente mesmo para Hagen, que tinha grande estatura. O guerreiro ficou desconfiado, pois aquela construção tinha proporções incompatíveis com o resto da casa. Caco os guiou com uma lanterna, e após  mover uma alavanca, trancou a porta. Desceram alguns lances de escada e logo estavam em outra porta, esta de madeira, que quando aberta revelo uma sala de reuniões. A sala tinha vários ornamentos, mas a iluminação mágica evidenciou um belo mapa fixado sobre a mesa ao centro. Continue reading