Ventos da Guerra- Capítulo 48

Um fim inesperado

Aurora se ergueu sentido dores pelo corpo devido ao baque. Tentou correr, mas as garras do zumbis agarram-se ao vestido dela impedindo-a de se evadir. O bafo moribundo insuflava-lhe a nuca.

A maga, em desespero, usou todo o poder que tinha nas suas unhas de rubi da mão direita. Os dardos mágicos, pegando de raspão,  não conseguiram derrubar o zumbi, mas o fizeram soltar a roupa. O outro monstro acertou-lhe um golpe nas costas. Ela fraquejou, sentindo o sangue escorrer. O sangue quente fez com que os dois zumbis ficassem mais sedentos.

O zumbi gemeu e avançou contra ela. A maga recuou, mas não pôde evitar ser mordida no braço por este. Ela gritou de dor. O sangue dela ferveu. A maga pôs a palma da mão esquerda na cabeça do zumbi – ele fincaca os dentes na carne dela – a energia rubra concentrada efluiu com toda potência. A fronte do zumbi foi desintegrada. O zumbi tombou com a mandíbula escancarada. Continue reading

Ventos da Guerra – Capítulo 47

INVASORES

O tempo de Malus se esgotava com em uma ampulheta. O tempo que o restava, contudo, era mensurado pela espessura do cordão mágico entre o corpo do professor e o espírito dele, não por grão de areia.

O sacerdote estava apreensivo, mesmo sendo um seguidor do deus da Morte. Ele acreditava que a morte era somente uma porta para a vida eterna, mas não naquele caso. Malus sabia que se o cordão se partisse, sua alma cairia no Abismo e ele não teria vida posterior.

A esperança dele era ver Vitória resplandecer ao horizonte. Em forma astral, ele voava ao lado de Cereja, cavalgada por Thon. Aurora estava na garupa, trazendo o Cajado Ladrão de Corpos à mão. Vendo o rosto dela compenetrado, ele sentiu que havia esperança, se conseguissem recuperar o corpo dele antes do nascer do sol. Continue reading

Ventos da Guerra- Capítulo 46

CABEÇAS EM CHOQUE

Um gigante vindo de encontro a alguém era uma visão apavorante. As passadas daquele gigante trovejavam pela montanha. Mas era o gigante que estava apavorado. Hagen estava assustado também, mas dominou o próprio medo e colocou a mão no cabo da espada, com a mão inábil. Ualfo voou para o outro lado da fenda, deixando Hagen solitário encarando o gigante que vinha.

Era um gigante do tipo que vive no sopé das colinas. Um dos menores gigantes, contudo tinha o dobro da altura de um ser humano médio e bem mais pesado. Um gigante em carga poderia derrubar um cavalo, mas aquele sangrava. Tinha os olhos esbugalhados, mais que o normal para um gigante.

O gigante saltou. Pulou por cima de Hagen e caiu do outro lado da fenda, onde Ualfo estava. Os que estavam baixo só viram o gigante passar por eles deixando algumas pedrinhas e gotas de sangue caírem.  Ualfo entrou em desespero, gritou  e tentou voar mais alto.

- Não me coma! – gritou Ualfo, o que fez com que todos se apavorassem. Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 45

A CATACUMBA SOMBRIA

Hagen apontava a katana celestial na direção da escuridão de onde provieram os ruídos de correntes sendo soltas. Cuidando da retaguarda do grupo, o confiante guerreiro tinha certeza que sua armadura o protegeria de qualquer inimigo. O corredor estreito impedia que qualquer outro combatente entrasse na linha de combate, cabendo a ele o dever de vencer.

Ele já tinha visto os esqueletos da entrada. Hagen carregava uma certeza de que eles seriam impotentes ao peso de sua arma de titânio. A pedra encantada que Hagen empunhava na mão esquerda iluminava como uma tocha o escuro corredor.  Os quatro esqueletos porém, não eram tão ordinários. A corrente que os prendia se partiu em quatro; se tornou as armas que os esqueletos carregavam. Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 44

BRUMAS

Ayoria tinha um clima bastante diverso. Na região de Serra Antiga, vales áridos eram esculpidos pelos ventos vindos de Tantra. Na capital, Vitória, oscilava entre verões secos e invernos chuvosos. Ao Sul, para onde seguiam os jovens à galope, as temperaturas eram menos intensas. No outono, caiam bruscamente com chuvas esparsas,  no inverno, gelava.

Na fronteira sul, uma densa névoa se erguia até o topo do céu. : Jamiel, a gigantesca parede de neblina; o obstáculo que separava o mundo dos homens dos deuses. As águas do rio Steinn se perdiam dentro do nevoeiro, junto com a existência de qualquer mortal que ousasse cruzar a muralha sem permissão divina. Parcialmente engolida por essas névoas, ficavam as Montanhas Reais. A cidade mais próxima desses imperiosos picos era Brumas.

Brumas era uma grande e antiga cidade do império. Governada pelo Barão Real Nicholas de Akirys, a cidade contava com vários barões importantes na Câmara Imperial. Dentre esses, o mais distinto se chamava Arcanjo Le Fey, um homem de sangue azul, rico e com grande admiração por artes e corridas de cavalos. Ele era pálido e apesar de muitos cabelos grisalhos, possuía rosto quase sem sinais de velhice. Ambos os nobres estavam aguardando a vinda da comitiva do príncipe Thon, acreditando se tratar de uma mera visita formal. Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 43

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SEGREDOS

O bom relacionamento dos Blue Dogs com os Mysticals possibilitou que Allis tivesse uma recepção cordial na sede desta fraternidade. Como temia, o dracomago não encontrou Aurora no alojamento. Ele procurou ao acaso em outras celas, interrompendo a meditação e estudo de alguns estudantes esquisitos.

A porta do quarto do líder da fraternidade estava trancada. Ele colocou o ouvido na porta; não conseguiu escutar nada. Tentou forçá-la para ver se cedia, mas a madeira era maçica e tinha fechadura. O truque usou para abrir a porta de Malus não funcionaria daquela vez. Allis ficou pelo pátio esperando Ualfo trazer Hagen. Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 42

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JOGADA ARRISCADA

Aurora estava cansada, esgotada por uma manhã de viagem, uma tarde de festa e negociatas escusas e uma noite de decepções e furto. Bodva trouxe um chamado que a fez adiar o repouso.

O quarto de Épsilon estava impecavelmente limpo e minimalista: um catre e um baú apenas. O líder dos Mysticals estava deitado de lado, ao canto, olhando a porta com um olhar vazio. Uma vela de chama mágica tremulava. Bodva abriu a porta e, quando Aurora passou, a trancou.

- Senhor, – disse Bodva – eu a trouxe conforme me ordenaste.

Antes que Aurora falasse, uma voz sussurrante se desprendeu do homem moribundo: Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 41

Uma noite longa

Valkíria era contida por Hagen e por Thon. A guarda se fazia presente, discreta, no local. O barão Everest tinha um brilho dos olhos e um sorriso largo, aumentado pela maquiagem espalhafatosa no rosto.

- Quem pode negociar o acordo pela amiga do príncipe? – o barão quis logo saber.

- Eu sou o irmão dela – Allis respondeu.

- Mas eu sou o tutor de ambos!- Abimalek, que jamais se sentiu responsável pelo papel alegado, agora contrariava todos os princípios para não abrir mão do oportunismo.

- E eu sou mais nobre que os dois! – Aurora apelou a sua nobreza yoriana, que sabia que tinha muito valor na cultura ayoriana, mais do que no próprio reino. Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 40

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O BUFÃO

- Ninguém me falou nada sobre isso – Aurora disse para Allis e Abimalek, assim que ambos explicaram que ela e Valkíria  seriam as acompanhantes deles no baile.

- Hagen se esqueceu de ler os detalhes do convite – Allis explicou. – Estamos tão chocados quanto você!- passou para ela o convite que tinha em mãos. - Por isso, apelo para o seu bom senso, Aurora – clamou enquanto a maga lia as entrelinhas do convite e percebia que não havia margem para má interpretação, sob pena de cometer uma gafe.

- Não tente nada de ousado – ela consentiu ameçando o dracomago fazendo um das unhas de rubi crescer diante dele . Allis entendeu o recado e falou: Continue reading

Ventos da Guerra: Capítulo 39

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Seguindo o Protocolo

As ladeiras íngremes de Serra Antiga se revelaram um alívio para os aventureiros. Eles carregavam as macas dos dois soldados falecidos, o que tornou o regresso mais lento, contudo a viagem chegava ao fim. Valkíria trazia a presa do dente de sabre às costas e não via a hora de retornar, para completar a tarefa. Abimalek ajudava no transporte de um dos mortos, coberto com um lençol encardido, preocupado com o dragão. No final da fila, montada no seu fiel caprino gigante Mu, Aurora tinha a mente distante.

Thon havia se adiantado e contatado os sacerdotes locais a cerca da ressurreição dos soldados. O clericato local não tinha capacidade de trazer à vida os mortos. Thon ficou muito desapontado e se sentiu culpado. Durante a viagem de regresso, lembrou de várias estórias que havia lido em que uma morte trágica era revertida pelo poder dos deuses agindo pelas mãos dos clérigos. A realidade era menos romanceada. Nem todos os deuses concediam tais poderes aos seguidores. Dos que concediam, nem todos os sacerdotes tinham alcançado tamanha espiritualidade. E mesmo quando se encontrava alguém, nem todos os mortos poderiam receber tais favores, pelas mais diversas razões.

Thon retornou aos demais apenas para contar aos leais soldados sobreviventes que os amigos deles teriam um funeral digno de heróis e a bravura deles não seria esquecida.

No funeral, além do clericato, compareceram algumas autoridades locais: o barão real e outros nobres. O sacerdote lia os ritos fúnebres de Martaud, que garantiam boa morada eterna para os leais súditos do Império. Durante o rito, Abimalek se esgueirava através dos presentes e se aproximou do barão real.

- Preciso falar com o senhor! – sussurrou.

- Jovem, já não foi dito que a reunião será após o funeral?! – resmungou para o incômodo interlocutor.

- Não sabia que havia reunião? – sibilou o sacerdote surpreso, enquanto sentia cutucões nas costas.

- O príncipe sabia, é o que importa! – murmurou secamente o lorde.

Abimalek se sentiu traído pelos companheiros. Ele estava preocupado com a região e os amigos o ignoravam. Sentiu mais um cutucão e virou-se para ver quem o importunava: Allis.

- Abimalek, Thon marcou uma reunião com o barão e me pediu para te avisar.

- E porque você demorou tanto para me dizer? – disse irritado, mas contendo a voz.

- Eu estava com minha mente trabalhando em um novo feitiço e acabei esquecendo-desabafou.

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A mesa do salão da caça estava farta mais uma vez. Já a atmosfera, não era de festejo. Thon, Hagen e Abimalek contaram ao Barão Real o resumo dos últimos acontecimentos no protetorado dele. O barão e os seguidores ouviram sem interrupções. Só após, discursou inflamado:

- Há muito tempo não surgem dragões nesta terra. Minhas sentinelas já haviam me alertado sobre sinais de dragões por aqui, mas com poucas evidências. Este é o sinal definitivo. Não vou ficar sentado esperando um ataque!

- Eu estava pensando em formar um grupo de caça contra este dragão! – sugeriu Abimalek inflando o peitoril.

- O dragão está na minha área de caça. Ele é meu por direito! Não quero outro grupo de caçadores na região.

- Mas nós vimos o dragão! – contrariou.

- Sr. Lafer, o barão já decretou. É possível que tu aceites sem contrariá-lo? – Hagen interveio olhando para os céus.

O barão sorriu de canto de boca, pensou em mandar o rapaz insolente paras a minas, mas achou melhor deixar aquele ato passar impune. O rapaz era valente e não costumava se ajoelhar perante outros, uma qualidade muito rara em pessoas de sangue vermelho. Por fim, ele sabia que Abimalek não estava agindo  mal em tentar caçar o dragão, porém havia o príncipe herdeiro do trono. A morte de único sucessor legítimo levaria todo o império ao caos. O reino era mais importante que os desejos de valentia de um jovem audaz.

- A vida do príncipe é um bem precioso… –falou para si mesmo o barão após longo período de reflexão – não poderia nunca deixá-la correr risco indevido – falou.

- Então, meu senhor, tome muito cuidado. Enquanto estávamos nas serras ,vindo para cá, eu encontrei uma ossada…

- Nós encontramos… – Hagen completou com a humildade que faltava ao sacerdote.

- Os ossos estavam carbonizados, por eletricidade – completou Allis.

- Posso terminar! – reclamou Abimalek com ar tão indignado, que os amigos não contiveram o riso.

- O morto tinha junto dele esta espada – o clérigo tirou uma lâmina dos pertences que foi passada de mão em mão até o barão Estefânio.

- Não é mágica! – Allis foi logo adiantando.

- É de uma sentinela! – constatou o barão com franzir .

- Foi da sua sentinela, Barão. Foi! – Aurora enfatizou com leve rudeza, enquanto com os dedos massageavam as têmporas.

- O caso é mais grave do que pensei. Recomendo que vocês retornem para a capital!- e dirigindo-se ao capitão que fazia a segurança disse: - Mande preparar minha montaria alada, armadura e armas, o inimigo nos espreita.

- E o meu problema? – perguntou Valkíria fazendo o barão e capitão olharem para ela confusos, pois já haviam dato por encerrada a reunião. – Os leões! Tenho que juntar – contou nos dedos – cinco! Eu tenho – contou de novo – três!

- Os ventos da guerra estão soprando muito próximos. Vocês caçaram três leões, um deles um dragone. Você tem a prova de que matou um tigre dente-de-sabre.  Seu professor é meu filho. Vou mandar para ele um documento que provará que seu empenho foi acima do esperado e que você demonstrou todas as qualidades requeridas para cumprir a tarefa com louvor.

Valkíria fez cara de quem não entendeu patavina.

- O barão disse que a senhorita conseguiu completar a prova. – Hagen traduziu.

- Tendo em vista os novos rumos dos fatos, partiremos amanhã Lorde Griffin. Tenho completa confiança no seu êxito – elogiou Thon e em seguida deu-se por satisfeito.

A jornada em Serra Antiga tinha finalizado, uma viagem lenta os aguardava até Vitória.

O outono passava da metade quando chegaram, com o dia na metade, à capital. Foi só entrar nos portões interiores da metrópole de prédios verticais e arcos ogivais que eles se depararam com uma celebração de chegada. Para o príncipe.

Pétalas eram jogadas das arcadas. Clarins eram tocados à plenos pulmões. Cavalos brancos trotavam carregando cavaleiros de capas esvoaçantes. Uma camarilha veio dar às boas vindas ao príncipe e os companheiros e logo um servo palaciano estava ao lado trazendo o convite da festividade de recepção que aguardava a chegada de Thon.

Hagen olhou aquelas pétalas cadentes e guiou o olhar contra o vento. No alto ele viu quem suspeitava que lá estivesse: Lisandra. A líder da fraternidade a qual ele involuntariamente pertencia, junto com aos outras meninas jogavam aquelas honrarias. Lisandra o viu e acenou para ele.  Hagen acenou  de volta discretamente e  aproximou-se de Thon.

- Algum problema, vossa alteza.

- Não, nenhum, Hagen. Só que fui, aliás, fomos convidados para uma festa, que já começou e estão nos esperando.

Hagen fez ar de espanto e Thon o acalmou.

- A nossa carruagem já está nos esperando, os cavalos serão levados aos estábulos. No palácio escolheremos algumas roupas, tomaremos banho e vamos para festinha. Os detalhes da festa estão nos convites. Porém, já está tudo preparado para nós, não se preocupe com os detalhes menores. - Thon sorriu.

- Um príncipe aqui, vive como um rei.

Na universidade, Ualfo estava impaciente. Enquanto seus companheiros estavam em Serra Antiga, ele foi para Yoria, pegou os livros do mestre dele e também o couro da quimera que haviam enfrentado em Deshnok. Já pensando em galgar influência, o monstrinho, que estava contaminado pelo ambiente dos Blue Dogs, resolveu presentear o visconde com uma magnífica capa de pele leonina. E havia ficado majestosa. O melhor trabalho que ele já havia feito na vida inteira e que, certamente, nunca seria superado.

O visconde Austragésio e o senhor de Ualfo, o elfo Tímonten,  se atritaram no passado. Ualfo imaginava coser uma união entre os dois. O monstrinho aproveitou e também costurou um vínculo entre o mestre dele e a universidade, sem conhecimento daquele. David Holly, o reitor, foi a ponte que ele precisou para unir os pontos e o status de Blue Dog seria a ferramenta que usaria para construiriam a ponte seguinte.

A principio, Hendrix, o líder dos Blue Dogs, achou suspeita a reclusão de Ualfo. Todavia, Hendrix era muito bem informado e soube da viagem que Ualfo havia feito para Yoria junto ao reitor. Isso fez com que ele não se metesse nos assuntos do fremlin, até descobrir o que o monstrinho fazia. Ualfo tinha incrível esmero com linhas e tesoura. Trabalhou o couro da quimera transformando-o em um lindo tecido. Ele fixava pedras preciosas  e prendia fios de ouro, que conseguira gastando suas economias.

O gordo e articulado Hendrix começou a tratar a mascote da fraternidade com mais candura e respeito. Ualfo se abriu e confessou para o fraterno colega as reais intenções dele. Hendrix farejava oportunidades de ascensão  social e o monstrinho peludo era uma mágica de levitação, não só para ele, mas para toda o grupo. Aproveitando-se da abertura que Ualfo lhe concedia nos últimos dias, Hendrix trouxe uma bandeja de uvas para os aposentos de Allis, onde Ualfo trabalhava.

- Ualfo, meu estimado amigo, há dias eu percebo seu esmerado trabalho. Seria lamentável que ele não tivesse propósito.

- Ah! Mas não se preocupa. Dô um jeito disso chegar na mão do visconde – Ualfo já falava com Hendrix com bastante proximidade. – Deixo na mão de David e tá feito!

- Lamentável, lamentável – falou Hendrix, balançando a cabeça desapontado.

- Lamentável por quê? – disse com a pequena agulha de coser na boca.

- Não seria de bom grado entregar o presente pelas mãos do magnífico reitor- disse com voz mansa.

- Oxê?!Por que não? – falou com ar contrariado.

- Ualfo, você, aqui na nossa fraternidade, trabalhou arduamente. Cada linha – disse dedilhando a capa – cada gema, cada adereço foi pensando,  planejado e executado por você, que gozou da tranquilidade que os Blue Dogs ofereceram. E depois de todo esse esforço, será o reitor que presenteará o Excelentíssimo Ilustríssimo Visconde?

- E daí? – falou ele dando os ombros. – Ela vai dizer que fui que fiz a capa.

- Este é o erro que arruinará seu plano. Se o reitor disser quem fez a capa, parecerá que apenas citou o nome do mestre-artesão. Aos olhos do Visconde, ele será o quem estará dando o presente –explicou.

Ualfo colocou a agulha da boca na sua bolsa natural na barriga e a mandou  para o papo sem maiores problemas. Ele regurgitou uma gema e a limpou em um lenço finíssimo.

- Deixa de ser burro, Hendrix – disse sem papas na língua. – Claro que ele vai dizer que sou eu que estou mandando o presente! – e voou para um poleiro mais alto onde fixou a pedra na capa.

Hendrix arfou e procurou ser mais didático.

- Meu amiguinho pouco respeitoso. A sua esperança é vã. Caso a sua hipótese se concretize, e eu não tenho dúvidas da amizade que o reitor tem por ti, o resultado será miserável ainda assim.

- Tu é boca de praga, saí pra lá!

Hendrix se aproximou dele, ficando bem próximo e olhando nos olhos.

- Se o reitor disser que você ofereceu a capa e que ele é um simples emissário, algo  aparentemente inverossímil, o Visconde pensaria que você não teve coragem de ir entregar pessoalmente. Aliás, o Visconde é um homem muito tradicionalista, ele nem sequer receberia alguém de uma raça não aliada. Se fosse um elfo, ele receberia por puro protocolo. O seu mestre é um elfo, não é fremlin?

Ualfo ficou pensativo. Hendrix prosseguiu:

- Agora, caso uma audiência fosse marcada pelos Blue Dogs, e te digo que tenho meios para isso, pois minha ascendência é nobre, muita coisa mudaria. – ele se abriu.

- Como? – Ualfo perguntou com as orelhas em pé.

- O Visconde se sentiria lisonjeado pela oferenda. Os Blue Dogs são formados por filhos da mais alta estirpe, estudamos para adquirir saber e cultura, não por necessidade de desempenhar alguma profissão. Certamente, ele receberia de muito grado sabendo que uma fraternidade digna como a nossa o homenageia.

- Ué? Mas o que eu ganho com isso, tu taria roubando minha fama!

- Não, Ualfo. O Visconde ficaria curioso ao saber que a belíssima capa teria sido feita por um membro da fraternidade. Certamente ficaria curioso em saber quem foi. Inicialmente, ele pensaria que tinha sido as mãos delicadas de uma dama…

- Tá me estranhado?!

Hendrix sorriu, fez um gesto negativo, apesar de não ver sinais que pudessem identificar o sexo do rechonchudo fremlin.

- Você não sabe o poder que as damas prendadas despertam. Agora imagine a surpresa do Visconde em saber que as mãos finas foram as suas. Antes que ele sonhe que poderia ter sido um gesto de zombaria, coisa que os Pégasos Negros fariam, nós enfatizaríamos sua humildade e respeito pelos nobres ayorianos. Diríamos que você se ocultou por não querer colocar o nobre em vergonha, mas que seu desejo de agradar o visconde soou mais alto do que o de se recolher a sua insignificância.

- Tu me tá me elogiando ou xingando, caramba?

- O que ocorrerá é que toda a fraternidade ganhará o crédito pelo presente aos olhos dos outros nobres, mas no coração do sábio e honrado ancião, você será o querido – concluiu com ar de ternura.

- Ah! Desgraça, sai pra lá! Ta querendo chupinhar meu trabalho e ganhar fama. Vai cuidar da tua roupa! – reclamou.

- Ualfo, eu insisto. Desde que vi o seu trabalho tomar forma, pensei na melhor maneira de promovê-lo. E estou prestes a conseguir uma oportunidade inigualável para encontrar-me com o visconde na próxima semana. Seria o grande momento, haverá uma aguardada cerimônia no palácio imperial e o visconde está à procura de um traje novo para comparecer. O seu seria perfeito!

- E ainda tramou tudo sem nem me dizer. Que bicho falso! – Ualfo ficou perplexo.

- Ualfo, eu jamais faria algo que te prejudicasse- falou com a mão no peito -  você é um dos nossos. Como líder dos Blue Dogs, eu enxergo mais longe que os demais, inclusive do que você. Não deixe seu egocentrismo te cegar.

 

Ualfo mudou de expressão e deu um sorriso.  Ficou calmo, balançou a cabecinha e disse:

- Vou pensar no seu caso, acho que cê tá certo, mesmo!  Agora tu pode me deixar sozinho enquanto eu termino esta obra-de-arte?

Hendrix esboçou um sorriso cândido e colocou as uvas em uma mesinha. Deixou Ualfo no quarto para que trabalhasse sossegado. Quando ele se retirou, Ualfo pode falar com os seus botões:

- Vai sonhando gordo interesseiro! – pensou desmanchando a carinha de comoção. - Além de puxa-saco é aproveitador. Eu vou fazer é tudo do meu jeito que é melhor.

Thon abdicou da carruagem imperial e preferiu voar com Cereja até o palácio. Seus amigos seguiram na charrete e foram conduzidos a aposentos de hóspedes apropriados, mulheres em um lugar, homens em outro. A criadagem surgiu como formigas trazendo os mais variados vestuários. Abimalek rememorou que havia mandado fazer uma roupa em Yoria, de pele de pantera deslocadora e que não tinha o dinheiro para pegá-la. Teceu elogios à peça, feita do mesmo material do corselete que usava como armadura, aos criados que penavam para agradar-lhe o gosto. Allis balançava a cabeça com o gesto do súdito, que pelo visto , já se esquecera da classe social a qual pertencia no próprio reino. “Espere quando voltarmos para casa”, pensou o dracomago.

Hagen escolheu uma roupa negra e com poucos acessórios, calças não tão largas, camisas não tão bufantes e cintos pouco espalhafatosos. Como ele se aprontou rapidamente, leu o convite da festa. Tratava-se de um  baile de máscaras e cada um deveria levar  uma acompanhante. O guerreiro olhou para o sol despencando pelo céu e avisou aos companheiros:

- Cavalheiros. Não sabem o que descobri. Nós temos que levar uma consorte para o baile – Hagen falou com uma preocupação que não julgou ser possuidor, influência da fraternidade Dendrória.

- Então eu vou com Aurora – respondeu Allis.

- E eu vou com Valkíria – disse Abimalek.

Hagen ficou sem opções e protestou:

- Eu gostaria de ir com minha irmã – pediu.

- Ah! Eu pedi primeiro. E Abimalek já vai com a minha irmã gêmea. Aurora é só sua meia-irmã, que você mal conhecia. Não vai me dizer que está com ciúmes? Eu não estou.

Hagen torceu o nariz. Em seguida, teve um lampejo. Só havia uma mulher que ele conhecia que estaria pronta num piscar de olhos para uma festa dessa natureza: Lisandra.