Lajedos & Lagartos: Caetana

Este conto é uma continuação de outro, A coluna de fogo e serve para ambientar os jogadores de Lajedos & Lagartos dentro do Nordeste Fantástico.

Também é uma homenagem ao Dia da Mulher, cuja importância no meu jogo também é evidenciada.

 


Dona Honorina recebeu o telegrama do filho desesperado. “A coluna está em Icó. Mande os tropeiros.” dizia a mensagem telegrafada. A senhora sertaneja, após a morte do esposo, comandava as terras e os empregados.

 Ela sabia bem o que aquela mensagem significava: saques e destruição. A Coluna marchava pelo sertão comendo tudo feito a saúva, nada deixavam para a semente. Homens desalmados e guiados por uma ideologia estrangeira como zumbis.

 Tal com os cangaceiros, o primeiro bando era pouco numeroso. Estariam sondando a cidade. A casa grande era um alvo fácil. Graciliano, sozinho, era impotente ante os invasores. Ela olhou para Pilora e cenho de preocupação era conhecido. O mulato foi num pé e voltou noutro. Trazendo as pessoas de mais alta confiança.

 Firmino, o vaqueiro da fazenda. Tinha o mapa do Cariri ao Seridó como escrito na palma da mão. Ele poderia guiar o grupo de resgate tão ligeiro que tiraria os invasores de tempo.

 A afilhada de Honorina, Maria da Luz. A cabocla e caçadora sozinha desmantelou o bando de Corisco Sete Estrela que ousou invadir Uiraúna. Cada tiro, dois mortos.

 Ernesto, primo carnal de Graciliano, que acabara de ser expulso do seminário. Mesmo que irmão, insistiu em salvar o primo. Ninguém poderia demovê-lo da empreitada. Graciliano, o salvara de morrer afogado no açude, quando criança. No coração de Ernesto, tal gratidão ainda estar por ser paga.

 E Pilora, ruim de recado, mas bom de serviço. Ligeiro como um pé de vento.

 Firmino, montado em Trovão, puxou a cavalhada, a galope, na planície árida sertaneja. Pelos atalhos nas caatingas, levariam menos de meio-dia de viagem, chegando na tarde alta. Vendo-os sumir nos ermos do horizonte, Dona Honorina recebeu uma visita conhecida, mas indesejada. No alpendre, sentada na mureta, a Caetana se deixava revelar aos olhos da senhora.

 A onça fitava-a. Mesmo firme, se sentia gelada nos ossos, como se estivesse na invernia da Borborema. A visitante rugiu e o hálito afastou de vez o sol. Honorina procurou uma das cadeiras de balanço do alpendre e arqueou-se sobre ela, com o coração apertado. A Caetana chegara para avisá-la, e ela compreendeu perfeitamente o alerta:

-  A Senhora eu não posso levar, mas levarei um dos teus – disse a onça que sumiu num salto que alcançou as parcas nuvens.

A velha ergueu-se e foi até o altar, no corredor, ajoelhou-se e rezou para que Nossa Senhora protegesse seu filho, a afilhada Da Luz, o sobrinho mesmo que filho, Ernesto e os demais tropeiros das garras da Onça Caetana.

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