
Baralho Armorial
Estou chegando na metade do projeto. Já comprei até os baralhos para testar o jogo no próximo encontro de RPG aqui na Paraíba, o HQPB.
Sobre o baralho, descobrir que a COPAG, maior fabricante da América Latina, está perdendo uma grande oportunidade de lançar um baralho com tema nacional. A falta que a legalização do jogo faz.
Na internet, achei dois projetos independentes interessantes. Um é o baralho do cangaço e o outro é o baralho armorial, ambos bem a cara de Lajedos & Lagartos.
Esta semana, estive em São Paulo e pude descobrir algumas coisas sobre o texto que estou empregando no jogo. A mais relevante é que eu precisava de um paulista para saber o que é nordestinês ou não. Por incrível que pareça, não é nas gírias e sim nas pequenas expressões que reside o modo peculiar nordestino de falar. Muitas conjugações verbais, comumente usadas no Nordeste, caíram em desuso em outras regiões, mesmo estando corretas. Já outras, mais arcaicas se mantiveram por aqui e o Sudeste não homologou na gramática.
Como Lajedos & Lagartos está sendo feito para ser mais que apenas um jogo popular Nordestino, e sim um jogo Armorial, a cultura popular prevalecerá sobre a formal. Contudo, a escrita do livro está sendo feita de modo didático, sem abrir espaços para achincalhação e respeitando a tradição, concordem os gramáticos ou não. É mais fácil dizer que o “E” tem som de “I” , o “O” tem som de “U” (o cearense falando inglês) e o “S” em fim de frase tem som de “IS”, entre tantas outras regrinhas de pronúncia mais obscuras como o “V” virar “B” em algumas palavras e próprio “V” tomar som de “R” em outras.
Se a moça do Google soubesse falar nordestinês, ela leria a frase “O vaqueiro pegou a vaca no meio da pastagem” assim:
” O raqueero pegô a raca no meida paxtagi!
Melhor não chocar as pessoas.

Baralho do Cangaço
E para fechar, conto meu relato semanal com seu Firmino e Dona Inácia. Expliquei algumas dúvidas que tive sobre o RPG e eles me tranquilizaram um pouco.
Perguntei a seu Firmino como eu poderia encaixar tantos tipos diferentes em uma mesma história e continuar fazendo sentido. Ele deu uma bicada no cigarro de palha e respondeu:
- Sei não! Tu se embrulhou agora se desembrulhe.
- Ô home abestalhado! O que te aperreia? – disse Inácia, mas caridosa, comigo.
Eu disse que não fazia sentido um Doutor engomadinho andar junto de um cavalo de duas patas. Ela sorriu e tentou me ajudar como pôde.
- E como é nos jogos que tu joga?
- Eu disse que nos jogos que jogava elfos magos lutavam ao lado de humanos paladinos, anões guerreiros, halflings ladrões, meio-orcs bárbaros. Tive que explicar que meio-orcs eram pessoas com cara de porco e halflings eram pessoinhas miúdas feito crianças.
- E como é que esse povo se conheceu? – perguntou ela.
Eu respondi que em geral, na taverna bebendo.
- Num é mais fácil um doutor e um homem bruto estarem bebendo junto e ficarem amigos do que esse menininho pequeno ficar amigo de um cara de porco? – ela disse.
- Eu mesmo sou amigo de Doutor Araújo Soares, que homem de cultura alta e posição e também de Da Luz que é filha de cangaceiro e dava de mamar a onça – se meteu Seu Firmino, baforando fumaça enquanto falava.
- Eu num acredito que alguém vai ter a maledicência de achar que um neguinho que joga capoeira e um amarelo aprontador de traquinagens num podem ser pariceiros?
- Se não fosse eu, Da Luz, Pilora e João Guilhermino, Doutor Araújo Soares não tava mais vivo para contar história. Hoje aquele velho encruado diz que foi ele que salvou a gente. Só porque Dona Honorina não está mais entre a gente. Mas o tempo apaga tudo não é? Depois vem esses livros de histórias para fazer o povo acreditar em um monte de besteira que um besta escreveu. E a Verdade, que é a Verdade fica só na boca de um e de outro e com o tempo se perde – divagou – Se avexe não, meu filho, vá escrevendo, na hora que o povo for jogar, como a cambada se ajuntou é o de menos. Tem vezes, que a gente se conhece de um jeito que ninguém pode adivinhar. Pode ficar assossegado.