Mais uma semana se passou e Lajedos & Lagartos avançou mais um capítulo rumo à versão de teste. Por enquanto está com 42 páginas, pode parecer muito, mas ainda isto ainda não é suficiente para tornar o jogo jogável. O que pretendo fazer em mais cinco semanas.
Para me ajudar, ajudar os leitores, entusiastas e apoiadores do projeto a entender o jogo, eu conto com a ajuda de Seu Firmino do Seridó e sua esposa Inácia, que possuem grandes conhecimentos sobre o Nordeste Fantástico e contam histórias que não devem na as histórias das Zoropa de Seu Ninguém.
Perguntar as coisas para seu Firmino é difícil, quis saber sobre os reinos encantados, mas ele fala o que bem entende, no jeito misturado de contar estórias dos matutos sertanejos. Transcrita, a explicação ficou deste jeito:
- Já fui em todos, meu filho! Antonte tava falando isso mesmo, com o Doutor Araújo Soares, que veio aqui me chamar para ir na fazenda dele, ver o cavalo novo que comprou. Comprou caro e vai ficar sem serventia, o doutor não cavalga mais – debochou.
- O menino quer saber das tuas viagens, home! Quer uma cafezin pra comer com bolacha e bolo? – Inácia me perguntou.
Veio café, bolo, bolacha, queijo de coalho assado, um de manteiga, leite para eu colocar no café, uma lata de doce de caju e uns umbus, se eu quisesse chupar, pois estava no tempo e ia se perder se ninguém chupasse.
- Quando te falei do Nordeste Fantástico você pensou que fosse só aquilo, cabra bom de peia? O mundo verdadeiro sempre tentou se esconder do mundo que vemos. São muitos mundos amontoados no mesmo lugar. Doutor Araújo Soares teimou comigo que isso é impossível, mas você vai me dar razão.
- Doutor tá velho e já se esqueceu, meu preto – disse Inácia botando a mesa.
- O Nordeste Fantástico é como eu te disse. Ele é a porta de entrada para uma tuia de mundo. O mais perto da gente são os reinos encantados. Reino é até exagero. Os lugares encantados são mundos escondido, que ninguém pode ver, ficam ocultos aos olhos e não se pode entrar. Às vezes, eles aparecem do nada e se encantam de novo. Eu já entrei em uma casa encantada quando tava cavalgando lá pela serra do Apodi. Fui recebido por uma mu…véia feia que só a derrota!Ela me ofereceu guarida, quando amanheceu, eu tava no relento, meu cavalo amarrado num pé de pau. A infitete roubou minhas patacas. Fui liso até o Ceará! Eu entrei só numa casa, mas existem lugares muito maiores, dizem que Canudos também não foi destruído, se encantou, assim como Palmares. Não sei…mas o maior desses reinos e o reino de São Saruê.
- Teve a vez, que em Petrolina, cai no Velho Chico quando ele tava dormindo. O rio acordou e me jogou lá no oceano. Quando dei fé, e abri o olho, tava debaixo de meio mundo d’água! limpinha e transparente. Tinha gosto de sal na minha boca. Vige! Pensei que tava no Céu, mas tava no mar. A Mãe d’água me pegou e me arrastou para o fundo. Na cidadela do fundo do mar, o castelo dela era um coral e lá dentro eu respirava a água como se fosse ar. E pra escapar? Que lá fora se afogava e tava cheio de cação! Sem jeito, fiz o que um homem tem que fazer, cantei de galo. Bati o pé no chão, falei grosso, e num é que a Mãe d’água gostou de mim?! Parece que ela tava viçando – sussurrou o velho para mim.
- O senhor escapou como dessa Mãe d’Água, seu Firmino? – Inácia fungou.
- Você não sabe que só tenho olhos para você, minha nega. Eu mostrei a minha aliança de casamento e disse pra ela que eu era casado na Igreja de Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Ela vendo que eu era comprometido, me levou para praia de Maragogi e nunca mais vi ela.
- É bom mesmo, seu velho sem-vergonho!
- Tem outro mundo também, esse é bem viajado. É o Mundo da Lua, onde os doidos são esperados. Só se entra no mundo da lua, quando se perde o juízo. Você fica zuretando, andando feito aluado, falando coisa com coisa. Mas sua cabeça está lá, lúcido, vendo a terra lá embaixo. De lá, você vê tudo que acontecesse e conhece a sabedoria dos loucos, que eles não conseguem revelar para quem está na terra. O Mundo da Lua é comandado por São Jorge que vigia o dragão adormecido com a lança em riste e montado no cavalo branco. Quando eu ia falar com o Santo, Inácia fez uma promessa para eu ficar curado e voltei.
- Todo dia de Nossa Senhora do Rosário, eu entrego uma renda para pagar promessa que fiz para que Firmino se curasse da pancada que levou quando caiu do cavalo na vaquejada.
- Nem me alembre! Quando eu tava doido o povo pelo menos não me mangava. Agora não posso ir beber que sempre tem um velho curvado que se alembra do dia que me estoporei na vaquejada.
- Existe dois outros mundos que são muito aparentados, mas diferentes e existem desde antes do mundo ser mundo. O primeiro é que todo mundo quer ir quando se for: o Portão do Céu. Cheio de nuvens, branquinha feito coalhada, cheio de anjos, arcanjos, serafins e querubins. Os homens vivos lá não podem entrar, pois são barrados por São Pedro, que guarda as chaves do céu. Minha lavoura tava se perdendo pela seca, eu ia pegar a chave das águas do céu, para encher a barragem, mas peguei a chave errada. Levei um choque de arrepiar os cabelos do fiofó e o Santo me deu um sermão de me deixar com os zuvidos ardendo. Desorientado, errei a saída e cai lá em baixo. E quando digo lá em baixo, é Lá em Baixo: o Quinto dos Infernos. Lascou! O diabo me acorrentou e fiquei na beira do fogo, cozinhando feito buchada.
Ele vendo minha cara troncha, me disse:
- Sabe como fugi? Tu se alembra da chave, no alarido no Céu eu não esqueci de devolver ao Santo, home! Eu tava era com a chave que trancou Lucifer. Uma chave mestra que abria tudo que lá tava trancado. Me soltei dos cadeados e das correntes. Abri as portas do purgatório e soltei tudo quanto foi rapariga que tava pagando os pecados – Inácia trancou a cara de ciúme – e no atropelo escapei pela porta da frente sem dar nem bom dia ao Tinhoso. Devolvi a chave ao Santo e ficou tudo em ordem!!!
- Para fechar, só tem mais um canto – ele olhou para Inácia, que fazia birra. – Esse ninguém quer ir. Nem o cabra mais macho, nem o religioso mais fervoroso: A Cidade dos Pés Juntos. Quem entra de lá não sai.
- E quem disse que tu já morreu, Firmino? – Inácia falou séria.
- Já morri No dia que te conheci, fiquei sem viver até eu te ter, e nesse dia, renasci.
A velhinha sorriu. Seu Firmino piscou para mim. Deixei os velhinhos a sós em casa, me despedi ligeiro e avisei que ia passar lá semana pra semana.