Ventos da Guerra- Capítulo 48

Ventos da Guerra- Capítulo 48

Um fim inesperado

Aurora se ergueu sentido dores pelo corpo devido ao baque. Tentou correr, mas as garras do zumbis agarram-se ao vestido dela impedindo-a de se evadir. O bafo moribundo insuflava-lhe a nuca.

A maga, em desespero, usou todo o poder que tinha nas suas unhas de rubi da mão direita. Os dardos mágicos, pegando de raspão,  não conseguiram derrubar o zumbi, mas o fizeram soltar a roupa. O outro monstro acertou-lhe um golpe nas costas. Ela fraquejou, sentindo o sangue escorrer. O sangue quente fez com que os dois zumbis ficassem mais sedentos.

O zumbi gemeu e avançou contra ela. A maga recuou, mas não pôde evitar ser mordida no braço por este. Ela gritou de dor. O sangue dela ferveu. A maga pôs a palma da mão esquerda na cabeça do zumbi – ele fincaca os dentes na carne dela – a energia rubra concentrada efluiu com toda potência. A fronte do zumbi foi desintegrada. O zumbi tombou com a mandíbula escancarada.

O cheiro de carne podre tostada incensou o ar. Só restava um inimigo; tão alquebrado quanto ela. Porém, um morto-vivo não sentia medo e ela tinha esgotadas as suas habilidades mais poderosas. Além de sangue quente, suor frio escorria dela.

Não longe, Thon preparava o ataque contra a gárgula cinzenta que voava para pegá-lo. As pequenas presas eram levadas por ela e degustadas no alto da torre da catedral. A gárgula salivava e tentou abraçar o halfling. Thon aguardou esse momento.

Quando a gárgula cinzenta retardou o voo para capturar Thon, o halfling acertou-lhe a pata. A espada mágica foi capaz de ferir a gárgula, mas o ataque não saiu como esperado. A couraça do monstro era muito resistente. A gárgula pousou numa tumba ao lado e não demonstrou sinais de o corte fosse grande incômodo.

A besta alada abriu as asas, alçou voo e manteve-se a meia altura. Thon gingava, evitando ficar na mesma posição. A criatura deu o bote, ele se esquivou. O ataque continuou  – mais próximo – com a outra garra e com as patas traseiras, que acertaram o peito de Thon. O metal élfico da malha que ele usava resistiu, mas o halfling foi projetado para trás. A gárgula pousou na laje da tumba, rodopiou e tentou mordê-lo. Thon defendeu-se com a espada e pulou no chão. Ao cair, olhou de lado e viu que Abimalek estava em apuros também.

Abimalek se engalfinhava com a gárgula guardiã da cripta. O monstro o surpreendera saltando em cima dele. Apesar de ser menor que um humano, a besta tinha muita força e agressividade. Tanto a pele quanto as garras eram duras, sendo estas afiadas também. O couro da armadura do sacerdote de Arina foi perfurado com facilidade.

Passado o susto, Abimalek conseguiu escapar das garras do inimigo. Sua defesa vinha de seus braceletes mágicos, bem mais que da armadura. A gárgula pulou para um dos túmulos e rosnou para que ele se mantivesse longe do mausoléu que ela protegia. Abimalek tomou o açoite e  maça de pedra em mãos e mostrou que também não tinha medo.

O clérigo bradou o chicote e com a  maça acertou impiedosamente as costas da gárgula. A fera mal sentiu o impacto das frágeis armas e tornou-se mais confiante. Novo ataque. A gárgula nem fez menção de se esquivar. Os golpes eram inúteis. Abimalek sentiu isso no olhar sádico da besta, que, cada vez mais, o empurrava para fora da área protegida. Ele percebeu que fora repelido e decidiu então lutar para valer. Até ali, ele estava apenas brincando com ela. Sorriu.

xxx

Na ponte perto de Imperatriz, uma frecha goblin cortou os ares e atingiu o peito do comandante da torre. O robgoblin arqueiro urrou e gritou para o seu pelotão que o líder inimigo fora abatido e ordenou que a tropa avançasse, aproveitando-se do caos gerado pela morte do líder inimigo.

Desalentados, os comandados que estavam no alto, abandonaram suas posições nas ameias e tentaram, em vão, socorrer o chefe. Antes de morrer, ele tentou balbuciar que voltassem às posições, mas a voz não saia, o que deixou mais desesperados seus besteiros.

Os monstros aproveitaram-se da diminuição dos ataques vindos do alto da torre e puderam intensificar a destruição da estrutura. Despejaram tonéis de óleo e atearam fogo. Enquanto se empenhavam na tarefa, mal viram Ualfo chegar.

Ualfo dominou o fogo apontando as mãos para a chama. Recitou palavras em uma das muitas línguas esquecidas que os magos usavam para moldar a realidade. As labaredas se expandiram e queimaram os sapadores próximos com um tentáculo de fogo.

Os robgoblins se assombraram com aquilo. Porém, Ualfo sentiu que os prejuízos foram mínimos para o exército invasor.

- Ei, fremlin- gritou um  goblinoide carrancudo – o que você está fazendo aqui? – falou nas língua geral dos goblins, na qual Ualfo também era fluente.

- Tô ajudando, não tá vendo?! – havia quatro soldados com graves queimaduras.

- Você está nos torrando, maldito! – o carrancudo desembainhou uma kopesh.

- Eu tô conjurando uma cobra de fogo. Seus soldados ficaram na frente e atrapalharam a magia – mentiu sem constrangimento.

Com um estalar de dedos, Ualfo apagou o fogo.

- Pronto! Agora ninguém se queima – ele protegeu aquela parte da ponte das chamas.

- Ora! Suma daqui, sua praga. Isso não é uma balbúrdia goblin onde você pode se infiltrar. Vou te colocar no espeto e derreter sua banha no fogo brando – disse de arma erguida.

Ualfo correu gritando. O monstro tentou acertá-lo, mas o caos da batalha o atrapalhou. O monstrinho escapou voando.

No ar viu que parte da força entrara em combate corpo-a-corpo com os guardas que protegiam a cabeceira da ponte. Se a linha de defesa caísse, rapidamente a torre seria tomada.

- Eu não sou um mago qualquer ! Sou um ilusionista!- Ualfo caiu em si. - Vou fazer o que eu sou bom.

Ele planou aproveitando as correntes de ar e fez com magia que o vento produzisse sons. Ele recriou os som de trombetas ayorianas, tal qual escutara em Vitória,  em uma das muitas exibições da guarda imperial. Para ficar mais convincente, adicionou som de cavalos e brados de valentia. Tudo para levar a crer que a cavalaria estava a caminho, já no bosque, bem perto da ponte.

O som da cavalaria aumentou o moral da tropa de Imperatriz, que lutou com mais vontade. O robgoblins foram contidos por um momento.

Ualfo sabia que seu plano não seria eficaz por muito tempo. Então empregou outro ardil.

- Recuem! Recuem!- os robgoblins que estavam na linha de combate ouviram o chamado.

O fremlin encorpou a voz e gritou para que soldados inimigos debandassem. A voz projetada dele parecia provir da direção do chefe do pelotão, junto aos arqueiros. Os soldados da linha de trás ao combate, após terem ouvido o som da cavalaria chegando, não duvidaram da veracidade da ordem que escutaram. Desguarnecida, a linha de frente abortou o ataque, recuando também, sendo perseguida pela infantaria que os combatia.

Um enorme bando correu ao encontro dos próprios arqueiros, que não esperavam a quebra de formação ofensiva. Eles foram forçados a abandonar a proteção dos escudeiros, cujos escudos largaram. A chuva de setas vindas da torre aumentou o pânico entre eles.

O grupo tentou se reunir ao pelotão dos sapadores, bem atrás, que ainda arruinava a ponte. Durante a fuga, Ualfo criava ilusões auditivas de robgoblins gritando: “cavalaria”, “fujam” e “socorro”. Os monstros acabavam dando coro aos gritos e espalhando o terror.

Ualfo voou para baixo da ponte, vendo os barcos que golpeavam violentamente os alicerces. Usou seu último truque: ordenou que os robgoblins pulassem no rio.

Deu certo. Quando a ideia foi insuflada, e o primeiro robgoblin se jogou do alto da ponte na água, outros fizeram o mesmo. Quem não foi rápido em tomar a decisão foi ferido pelos guardas e forçado a cair.

Enquanto os robgoblins despencavam, o fremlin se deleitava em ser um herói anônimo. Contudo, a ponte estava ruindo e perdê-la seria idêntico a uma derrota. Ele sentiu que precisava parar os barcos e planou até as colunas atacadas.

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A varinha não estava mais com ela. Caira novamente durante a reação súbita para se defender do zumbi que a mordera. A penumbra e o inimigo iminente impossibilitavam qualquer tentativa de procurá-la. Sem a varinha, o repertório de mágicas que ela poderia usar foi consideravelmente diminuído. Nenhuma magia que ela sabia fazer apenas recitando palavras e fazendo gestos seriam úteis contra um morto-vivo.

O cadáver ambulante não esperou ela se decidir. As mãos frias e sujas de terra fizeram um colar entorno do pescoço da maga. A força dos músculos mortos a ergueram do chão.

Para ela só restou um último recurso. Com o suspiro que restava, dedilhou os pulsos do monstro com os polegares. Ela se concentrou e fez com que as unhas de rubi crescessem. As unhas se projetaram como facas afiadíssimas, cortando os tendões do zumbi. As mãos que a esganavam fraquejaram e a liberaram.

Por reflexo, ela estocou o tórax com a palma da mão em riste.  Penetrou o coração do zumbi como uma adaga. O sangue negro escorreu lentamente do cadáver, que caiu em espasmos.

Aurora ficou no chão, de joelhos, retomando o fôlego. Ela tateou o chão e encontrou sua varinha. Ergueu-se com dificuldade e foi até os amigos. Deu as costas cedo de mais ao oponente.

A gárgula cinzenta estava ficando furiosa. Thon corria por entre o estreito espaço entre os túmulos, impedindo-a de atacá-lo pelo ar. A gárgula pulava de pedra em pedra, mas Thon se esquivava, se escondia e a atacava de surpresa.

Em pouco tempo, a gárgula cinzenta percebeu que o halfling tinha lhe armado uma cilada. O monstro não conseguia localizar o príncipe. As muitas lápides serviam de perfeito esconderijo para ele. E os pés silenciosos não davam sinal de qualquer movimentação, até a estocada traiçoeira. Era um jogo de gato e rato, onde o rato estava levando a melhor.

Mas a gárgula era astuta. Mensurou o desafio e percebeu que o ardiloso pequenino não era o seu rival verdadeiro, era só uma distração. O principal inimigo era o invasor que estava tentando se aproximar do mausoléu do sumo sacerdote. Ela emitiu um grito agudo, inaudível para humanos, mas que Thon escutou bem.

- Parece um morcego?- pensou ele.

Não tardou, e logo uma nuvem de morcegos surgiu. A gárgula cinzenta deixou a cabo deles dar conta do animal de sangue quente mais próximo: Thon.

Abimalek tocou a maça na terra e clamou por Arina. A deusa atendeu o apelo ungindo a arma com poder divino. A gárgula guardiã estava certa de que os golpes do clérigo eram inertes e negligenciou a defesa.

A pancada da arma fez o monstro alado esbarrar entre lápides. Assustada, a criatura voou antes que fosse acertada por outro golpe da arma, que arrebentou o pedestal onde se apoiara.

- Desça, covarde! – estalou o açoite.

A gárgula guinchou. Atacou cautelosa. Ela sentiu que o adversário estava confiante e se vangloriava a cada golpe certeiro. Procurou usar a vantagem das asas e forçou Abimalek a ter que andar de um lado para o outro. Para ele, a gárgula estava sendo acuada e fugia, mas na verdade ela queria cansá-lo.

Tanto a gárgula quanto o sacerdote se minaram mutuamente. Abimalek arfava e sua adrenalina mascarava a dor dos ferimentos. Ele percebeu tarde demais que a guardiã cumpriu o papel dela, o manteve distante do mausoléu. Tempo suficiente para que a sua irmã viesse em auxílio.

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Os aríetes dos barcos menores balroavam a estrutura dos pilares, que já ameaçavam ceder. As chamas do óleo dilatavam a pedra fazendo-a rachar. A tensão da velha ponte sobre a cada vez mais frágil estrutura  causava estremeceres.

Os guardas da ponte recuaram e mais robgoblins saltaram na água. Os goblinoides eram esmeros nadadores e  não foi problema acalçarem os barcos. Os que estavam nas embarcações haviam prendido uma correte nas colunas de modo que se uma cedesse, arrastaria a outra para o fundo.

Ualfo chegou em uma das correntes. Ela estava bem presa e era muito pesada. Ele pairou de um lado a outro tentando procurar alguma falha. Partes da ponte  começavam a ruir. Os três barcos já manobravam de forma evasiva.

Em uma tentativa desesperada, o fremlin tentou partir a corrente com as próprias mãos, mas seus dedinhos sequer contornavam um dos elos. Era a última tentativa do pobre herói anônimo. Os pilares de sustentação entraram em colapso e parte da ponte começou a desabar, enquanto os robgoblins nos barcos vibravam.

A ponte se desfazia. Ualfo tentou escapar, mas um pedregulho o acertou. O fremlin afundou.

Ualfo se recuperou rápido do impacto. Sem encantamento, a pedra ordinária só representou um ligeiro transtorno. Os ossinhos voltavam rápido ao lugar. Porém, ele não sabia nadar e, precisava respirar.

A ponte finalmente desmoronou, produzindo uma pequena onda. Os robgoblins eram ótimos canoeiros. Manobraram os remos e se seguraram nas cordas e conseguiram aproveitar o impulso aos barcos.

Por sorte, a água deslocada pela ponte caída, trouxe Ualfo junto com ela. Arrastado pela marola, Ualfo boiou. Seu pêlo impermeável aliado ao seu pouco peso o fizeram voltar logo à tona. Boiando, viu os barcos dos monstros descerem a correnteza, com remos à força máxima.

A correnteza do rio Steinn levou Ualfo até à margem. Ele se sacudiu para tirar a água e bateu asas. Logo chegou na cidade e contou aos demais o ocorrido.

- Pessoal! – berrou assim que chegou no templo. - Os robgoblins derrubaram a ponte! Tinha um montão deles e tinha até três barcos de guerra.

- Temos que ir até a ponte! - Hagen disse.

Ualfo ficou fora de si e berrou:

- Como é?! “Temos que ir até a ponte!” – remedou Hagen. - Eu não tô acreditando. Seu porcaria, se você não tivesse com a bunda sentada na escada da igreja você tava na ponte!Seu…

- Vamos para a ponte! - Allis interrompeu. - Erramos em não termos ido com você imediatamente. -Ualfo se calou, mas ainda estava enfezado com Hagen.

A cavalo chegaram na ponte e viram o estrago. Foram recebidos sob os protestos dos guardas. Alguns poucos tinha morrido, mas muitos estavam feridos, uns seriamente. Os guardas ficaram esperando um bom tempo pela cavalaria que ouviram e não chegara. Julgaram que Hagen, Allis e Valkíria fossem apenas batedores.

- Agora não precisamos de vocês!- disseram uns. -  Podem voltar para o estábulo! – protestaram outros.

Salvo o fremlin, os demais ficaram sem entender. Valkíria teve vontade de puni-los pela ofensa, mas Hagen, que estava a pé, apaziguou os ânimos:

- Nós somos viajantes! Nosso pequeno amigo voador nos avisou do apuro que corriam e viemos o mais rápido que pudemos.

- Não tão rápido…- Ualfo remoeu baixinho.

Um homem curvado e barbudo com um alvião na mão se tornou o porta-voz dos guardas.

- Eu sou Glaw, o chefe dos guardas da mina de ferro.  Meu primo Gwythyr, guarda-mor da aldeia e protetor da ponte, foi morto em batalha. Nunca vi um ataque robgoblin em toda minha vida, achava que estavam todos mortos nesta região. Os porcos malditos chegaram de surpresa. Se eu e meus dez homens não tivéssemos chegado na hora certa…

- Senhor, para onde foram os robgoblins? – Hagen perguntou devagar quebrando ritmo acelerado do homem.

- Os porcos desceram pelo rio -apontou para o sul. - Eles remam pelas águas como demônios!

- Allis? Se seguirem naquela direção eles podem chegar à Brumas, estou correto?

- Sim, Hagen. Com a correnteza favorável, podem chegar muito rápido.

- Estarão eles tentando lançar ataques surpresa em vários pontos estratégicos?! Brumas precisa ser alertada, eles estão muito longe dos ventos da guerra. Devem pensar que estão seguros.

- E o que podemos fazer, não temos Cereja para ir voando até lá.

- Então eu preciso ir só. Correndo sem parar, sou mais rápido que um cavalo. Eu irei a Brumas!

Hagen, de posse de sua mochila de viagem, se despediu dos companheiros e rumou pela estrada em marcha acelerada. Mal sabia que os inimigos tinham escolhido um destino muito mais próximo e indefeso e sua viagem seria em vão.

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Aurora sentiu uma mordida no calcanhar. O zumbi não sucumbira. A maga caiu, e aquilo foi a última gota. Com sua varinha, invocou uma carga dupla de energia mágica destrutiva que varou o crânio do monstro. Pensou mil palavrões.

Com muito sofrimento, eliminou as ameaças.Deitada de costa no chão, suspirou e aquilo causou dor. Ela moveu a cabeça levemente e viu que não tinha forças para subir o muro sozinha. Sua bacia doía, as costas latejavam. O braço e tornozelo certamente ficariam infeccionados. Desejou sorte aos amigos e encolheu-se junto à parede.

Os morcegos surgiram em dúzia. Thon não podia se esconder deles e nem era silencioso o bastante para aqueles ouvidos sensíveis. Eram morcegos grandes e carnívoros. Sempre que um o mordia, era morto com uma estocada certeira,mas logo outro chegava.

Ele correu para o corredor do cemitério, uma área mais aberta. Naquele momento, precisava de espaço para enfrentar tantos adversários. Os morcegos voavam em círculos e eram difíceis de atingir, mesmo quando voavam próximos. Só no momento do bote tornavam-se vulneráveis.

Thon se concentrou no chiado que os morcegos emitiam. De alguma forma que ele desconhecia, os morcegos o enxergavam pelo som que produziam. Thon conseguia ver o calor dos morcegos na escuridão, porém o som era a chave para a sua defesa.

Com ouvido apurado, ele identificou os guinchos de ataque dos morcegos. Antes que um animal o mordesse, era abatido pelo espadim mágico. Contudo, a gárgula cinzenta que o atacara, chegara em Abimalek.

O sacerdote não era tolo como a gárgula supusera. Enquanto corria de um lado para o outro, ele observava a vegetação do local. Quase inexistente, com exceção do campo gramado em torno do mausoléu. Durante a luta, repetia louvores à deusa. As plantinhas cresciam ficando cada vez mais altas, sem que a gárgula notasse, pois ela estava sempre de costas para o campo.

Entretanto, a gárgula cinzenta apareceu e o acertou numa investida aérea. A gárgula que o enfrentava ficou mais confiante e hostil. Enquanto a irmã atacaria em investidas pelo alto, ela manteria a tática de ataques evasivos.

A segunda investida foi simultânea. Mesmo o ágil rapaz não podia evitar tantos ataques em sincronia. Ele não podia revidar, pois ambos os monstros se afastavam logo em seguida.

Era só o tempo da gárgula cinzenta voar até o alto e cair em arco, que a outra investia frontalmente. A grama já estava alta como capim; as preces tiveram resultado. Abimalek soltou a maça de pedra e rolou para perto da gárgula guardiã.

Vendo que a arma que podia feri-la estava longe. A inimiga aceitou aquele gesto como uma rendição e atacou displicente. Abimalek ainda tinha o seu açoite em mãos. A gárgula sabia que aquilo não poderia machucá-la, por isso ignorou a açoitada.

As cordas da arma se enrolaram no braço da criatura – graças a perícia do atacante – se prendendo firmemente após uma torção. O heroico rapaz rolou por cima da gárgula como um gato e deu um balão nela. A criatura caiu na grama que tinha crescido enormemente. A gárgula tentou se mover, mas as plantas animadas pela deusa Arina prenderam-na com firmeza.

A outra oponente ainda assim atingiu o clérigo, mas ela não ascendeu novamente. Ao invés, voou até o topo da cripta. O clérigo sabia que não era páreo para outra gárgula e o inimigo ardiloso notou que não podia pisar na grama.

Abimalek podia. As plantas o roçaram gentilmente assim que pisou lá, reconhecendo o servo da deusa.

Ele tirou o cajado preso às costas.

- Malus! Se prepare para voltar para casa!

Abimalek correu até o bloco. A gárgula pulou sobre ele e feriu-lhe o rosto e ombros. Ele se abaixou e passou por ela, alcançando o objetivo. Bateu com a ponta do cajado ladrão de corpos na cova e gritou em pânico:

-Saia daí, Malus!

A magia do cajado atravessou a terra, cruzou pedra maciça e penetrou no caixão. O raiou atingiu o corpo do professor e o teletransportou para a superfície. O corpo agora estava repousando no chão, sem violar a sepultura e os princípios religiosos do “morto”.

A alma correu para o corpo físico. O cordão prateado sumiu e a dispersão da energia astral baniu todos os parasitas. O corpo reabriu os olhos e respirou.

A gárgula cinza retomou o ataque. Abimalek, em desespero, pediu ajuda.

- Malus!Rápido, faça algo, a gárgula esta vindo! – gritou olhando para a rival.

- Eu não posso me levantar- resmungou o velho.- Estou preso nessa droga de planta!

xxx

Quando Hagen já estava longe, Allis, Valkíria e Ualfo retornaram à aldeia. Havia pânico na rua, pessoas corriam.

Além da igreja, a prefeitura da cidade, também abrigava pessoas. Em sua maioria os que trabalhavam para o barão local, que pouco visitava o domínio. Os robgoblins atearam fogo em algumas casas e foram direto ao velho casarão do lorde Fergus, o centro administrativo da aldeia.

Eles encontraram algumas pessoas feridas e muitas mortas. Os monstros arrombaram a porta e buscaram os cofres da localidade. Com os guardas da casa tendo ido ajudar na emergência da torre, apenas civis foram massacrados.

Eles seguiram o rastro de sangue e vandalismo que os levou à sala do tesouro.

Era uma sala modesta. O barão real não tinha nada de grande valor ali, apenas as economias da humilde aldeia. Por ali, um homem gordo respirava com dificuldade. Um kopesh robgoblin o ferira.

Via-se a chave ainda na porta do cofre aberto. Allis chegou no homem gordo- o escrevente do tesouro- que estava deitado. Ele só se mexeu quando viu que humanos que chegavam.

- O que ocorreu aqui senhor? – ele tentou amparar o homem.

- Monstros de pele cor de barro… orelhas grandes e caídas…levaram tudo!

- O que eles levaram? - Allis insistiu, já sabendo que eram os robgoblins.

- O…ferro-frio e três mil coroas, em moedas cristal – mesmo ferido o homem recitava com precisão a quantia levada.

- Ferro-frio?! – Ualfo se espantou, enquanto Allis enfaixava o ferimento do escrevente. - Para que vocês querem ferro-frio?

- Era da mina. Lingotes-o gordo gemeu. - Uma lei nova proibiu que tirássemos ferro da mina e os lingotes ficaram aí.

Ualfo achou uma moeda: a cristal, que valia três coroas. Eram raras, principalmente numa aldeia tão esquecida. O fremlin recitou um encanto para encontrar mais moedas como aquela que tinha em mãos. A moeda girou na palma da mão dele apontando a direção das demais: os ladrões não estavam longe.

-Vamos rápido. Os pestes ainda tão por aqui. Devem estar voltando para os barcos! Eu mostro o caminho – Ualfo avisou e os olhos da guerreira brilharam.

- Quantos eram ao todo?- Allis, temeroso, perguntou ao escrevente.

- Não sei…uns de cinco.

Valkíria não tinha escutado a resposta, tinha posto Ualfo no ombro e caçava os ladrões. Ualfo sentia que tinham tomado um caminho pela mata ciliar, densa demais para o cavalo deles passar.

A guerreira abandonou a montaria. Seguiram os inimigos, que estavam mais lentos, pois carregavam pesado baú.

A noite caiu e os goblinoides enxergavam muito bem no escuro. Valkíria tinha uma tocha e foi por este ponto de luz, que Allis a seguiu.

Valkíria vislumbrou os robgoblins sob a luz da lua. Dois carregavam a caixa com o tesouro roubado, seis faziam a guarda.

– Ualfo, desça já!- ordenou. - Vou matar esses desgraçados! – ela fincou a tocha no chão e gritou para eles, que pararam: - Ei! Eu, Valkíria vou matar vocês!

Os robgoblins viram a guerreira correndo como um touro furioso de encontro a eles. Ela era uma fortaleza ambulante, com espada sedenta de sangue.

Três se posicionaram com arcos, outros três com lanças e o restante seguiu com a caixa.

A visão noturna apurada e mira precisa fizeram as frechas goblins penetrarem a couraça dela. Valkíria sentiu o golpe, mas resistiu aos ferimentos, sequer cambaleando. Mais um pouco alcançaria os inimigos e mataria a todos.

Outra saraiva de flechas. Todas atingiram o alvo. A visão dela turvou, mas a determinação cotinuou a mesma. As pernas continuavam a se mover.

Ela sabia bem que a espada vampira curaria os ferimentos dela assim que matasse o primeiro inimigo. Quando liquidasse todos, não teria sequer um arranhão. Sua espada a tornava invencível.

Ualfo avançou marginalmente. Percebeu que os arqueiros não teriam tempo de preparar os arcos outra vez. Valkiria estava perto demais deles. Allis encontrou a tocha fincada no chão e pôde ver a silhueta de sua irmã gêmea aterrorizando os inimigos.

Um tropa menos treinada fugiria só pelo medo causado por aquela imponente armadura de ornamentos dracônicos. O robgoblins mantiveram-se firmes.

A guerreira golpeou o primeiro arqueiro que encontrou. A espada talhou o inimigo matando-o na hora. O sangue fluiu pela espada, fazendo a guerreira se recuperar do dano de uma flecha.

Mal havia tombado o primeiro inimigo, ela removeu a lâmina e buscou outra vítima. Os arqueiros mal tiveram tempo de largar o arco e empunhar suas espadas. A espada de lâmina larga vinha certeira contra o pescoço de um deles.

A decapitação era iminente, mas o golpe foi desviado por uma lança que perfurou o ombro da guerreira. Outra lançada, varou o ventre dela em seguida. Valkíria parou o ímpeto do braço e tentou matar o lanceiro. Suas forças se esvaiam, mas eram suficientes para trucidá-lo.

A espada descia como uma estaca. Ela sofreu outra perfuração; o terceiro lanceiro. A haste penetrou-lhe o flanco esquerdo. Valkíria sentiu a força dela desaparecer por completo.

Sua a espada caiu da mão. Resvalou no corpo do agressor, que ainda forçava a lança a entrar mais ainda no ventre,  caindo no chão.

Os olhos dela se encheram de lágrimas. Não eram dor. Não eram medo da morte. Ela sentia tristeza. Vivia para lutar, mas havia perdido o combate. O pai, Simack Allis, ficaria envergonhado, não a criou para perder, mas ela o desapontara.

As lanças foram removidas e o sangue dela jorrou em abundância.

Sob os olhos ainda incrédulos do Ualfo e os desesperados de Segundo, Valkíria tombou morta.

O sacerdote não era tolo com a gárgula supusera. Enquanto corria de um lado para o outro, ele observava a vegetação do local. Quase inexistente, com exceção do campo gramado em torno do mausoléu. Durante a luta, repetia louvores à deusa. As plantinhas cresciam ficando cada vez mais altas, sem que a gárgula notasse, pois ela estava sempre de costas para o campo.

 

Contudo, a gárgula cinzenta apareceu e o acertou numa investida aérea. A gárgula que o enfrentava ficou mais confiante e hostil. Enquanto a irmã atacaria em investidas aéreas, ela manteria a tática evasiva.

 

A segunda investida foi simultânea. Mesmo o ágil rapaz, não podia evitar tantos ataques concomitantes. Ele não podia revidar, pois ambos os monstros se afastavam logo em seguida.

 

Era só o tempo da gárgula cinzenta voar até o alto e cair em arco, que a outra investia frontalmente. A grama já estava alta como capim, as preces tiveram resultado. Abimalek soltou a maça de pedra e rolou para perto da gárgula guardiã.

 

Vendo que a arma que podia feri-la esta longe. A inimiga aceitou aquele gesto como uma rendição e atacou displicente. Abimalek ainda tinha o seu açoite em mãos. A gárgula sabia que aquilo não poderia machucá-la, por isso ignorou a açoitada.

As cordas da arma se enrolaram no braço da criatura graças a perícia do atacante, se prendendo firmemente após uma torção. O heroico rapaz rolou por cima da gárgula como um gato e deu um balão nela. A criatura caiu na grama que tinha crescido enormemente. A gárgula tentou se mover, mas as plantas animas pela deusa Arina prenderam-na com firmeza.

 

A investida ainda assim atingiu o clérigo, mas ela não ascendeu novamente. Ao invés, voou até o topo da cripta. O clérigo sabia que não era páreo para outra gárgula e o inimigo ardiloso notou que não podia pisar na grama. Abimalek podia. As plantas o roçaram gentilmente assim que pisou lá.

 

Ele tirou o cajado preso às costas.

 

  • Malus! Se prepare para voltar para casa!

 

Abimalek correu até ao bloco. A gárgula pulou sobre ele e feriu-lhe o rosto e ombros. Ele se abaixou e passou por ela, chegando no ponto. Bateu com a ponta do cajado ladrão de corpos na cova e gritou:

 

-Saia daí, Malus!

 

Magia do cajado atravessou a terra, cruzou a pedra maciça e penetrou no caixão. O raiou atingiu o corpo do professor e o teletransportou para a superfície. O corpo agora estava repousando no chão, sem violar a sepultura e os princípios religiosos do “morto”.

 

A alma correu para o corpo físico. O cordão prateado sumiu e a dispersão da energia astral baniu todos os parasitas. O corpo reabriu os olhos.

 

A gárgula retomava o ataque. E Abimalek entrou em desespero, pedindo ajudada.

 

  • Malus!Rápido, faça algo, a gárgula esta vindo! – gritou olhando para rival.

  • Eu não posso me levantar.- resmungou o velho- Estou preso nessa planta!

     

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