Ventos da Guerra – Capítulo 47

Ventos da Guerra – Capítulo 47

INVASORES

O tempo de Malus se esgotava com em uma ampulheta. O tempo que o restava, contudo, era mensurado pela espessura do cordão mágico entre o corpo do professor e o espírito dele, não por grão de areia.

O sacerdote estava apreensivo, mesmo sendo um seguidor do deus da Morte. Ele acreditava que a morte era somente uma porta para a vida eterna, mas não naquele caso. Malus sabia que se o cordão se partisse, sua alma cairia no Abismo e ele não teria vida posterior.

A esperança dele era ver Vitória resplandecer ao horizonte. Em forma astral, ele voava ao lado de Cereja, cavalgada por Thon. Aurora estava na garupa, trazendo o Cajado Ladrão de Corpos à mão. Vendo o rosto dela compenetrado, ele sentiu que havia esperança, se conseguissem recuperar o corpo dele antes do nascer do sol.

Os últimos fachos de luz se despediam da metrópole. Thon não podia usar o trajeto mais curto até a Catedral de Arden. O halfling precisava seguir rotas predeterminadas pela segurança imperial. Para evitar uma retaliação da guarda da cidade, seguia um controle rígido de voo. Aquele caminho era eficaz para descobrir eventuais impostores ou um invasor, mas naquele momento roubava-lhe tempo precioso.

Quando finalmente chegaram próximos à catedral, Aurora pediu que fossem a pé.

- A catedral é alta, Tiffus pode ter vigias no alto do prédio. Mesmo à noite Cereja pode ser notada e como não há espaço próximo ao mausoléu onde ela possa pousar, seria um risco desnecessário para nós, Thon – ela falou alto para superar o barulho do vento.

- Certo! Eu vou parar próximo e vamos com cuidado -respondeu no mesmo tom.

Assim que pousaram, Abimalek reassumiu a forma humana, após dias como inseto.

- Não se preocupe Malus – se vangloriou  girando nos calcanhares -  eu estou aqui e posso te salvar num instante!

Eles andaram por ruas secundárias, buscando a escuridão minimizada por lâmpadas mágicas em postes das avenidas principais que conduziam ao templo. O pináculo da  catedral se projetava com um dedo tocando o céu. O muro alto do cemitério estava logo diante deles e ali estariam em área de fraca penumbra.  Era possível sentir a imponência da morada terrena de um deus. Eles sentiam que estavam para entrar em um lugar proibido.

Thon amarrou Cereja com um nó frouxo. Os três atravessaram a rua e caminharam rente ao muro rumo ao portão; gradeado, de metal,  pontiagudo no topo e já trancado. Lá dentro um breu.

- A grade está lacrada – Abimalek observou e começou a remexer sua bolsa à procura de ferramentas para abrir a tranca sob iluminação precária. – Isso vai me dar um trabalho, quem construiu essa fechadura realmente não queria invasores.

Thon atravessou o vão entre as grades, deixando Abimalek um tanto quanto desapontado.

- Ainda tem muita coisa em Ayoria que só é segura contra humanos – o halfling riu.

- Parece que Thon não quis esperar você abrir a porta, Abimalek- Aurora ironizou.

- Eu queria ajudá-lo com a porta, já que ia ser difícil para um baixinho como ele saltar esse muro – guardou as ferramentas. – Para nós, Aurora, essa mureta não será difícil de saltar.

Aurora olhou para cima e fraquejou.

- Você me ajudando…

- Claro, princesa.

Abimalek ajudou Aurora a subir e o escalou a murada com facilidade. Eles ficaram sentados com os pés balançando no alto, bem ao lado do portão. Thon estava se apoiando na grade, já do lado de dentro.

- Eu tenho um plano, – Abimalek estendeu a mão – me dê o cajado.

- Qual é? – Aurora relutou um pouco antes de entregar o bordão.

- Eu nunca vim aqui antes, não sei onde Malus está enterrado – o cemitério estava muito escuro – mas se você me indicar o caminho, eu me transformo em serpente e vou até lá. Tudo que carrego  se transformará junto comigo, pelo poder de Arina, minha deusa. Se você me entregar o cajado, quando eu alcançar o lugar, me destransformo e tiro Malus da cova.

- Eu gostei do plano, eu posso gerar alguns globos de luz e guiar-te-ei com eles.

Ele tomou o cajado e saltou para dentro do campo santo, permanecendo ela sentada no muro.

- Fique tranqüila, vai dar tudo certo- e virou serpente.

xxx

Arrastando-se pela trilha, Allis percebeu o quanto era complicado prescindir de montarias. Haviam deixado Mu como animal de carga, o que os liberava, facilitando a marcha. Para ele ainda era cansativo.

Allis sempre levava enorme quantidade de equipamento, mais do que podia carregar sem realizar grande esforço físico. Mesmo distribuindo as sacolas, o dracomago se esbaforia. Hagen o ajudava com a carga – mesmo com o braço ainda doendo – coisa que a irmã gêmea dele não fazia.  Ela prefeira estar pronta para lutar, do que virar uma mula de cargas. Ualfo ria-se todo.

Ualfo ria porque conhecia um feitiço muito interessante, ele poderia convocar uma bestade cargas. Fazendo o animal surgir a partir do nada, o feitiço invocava as forças primordiais da criação espontânea. O monstrinho poderia fazer a magia sem esforço maior que recitar algumas palavras, agitar os dedos e os braços e manipular seu prisma de cristal.  Porém, preferiu se divertir com a penosa situação dos companheiros, enquanto repousava, confortável, na sela de Mu durante a viagem.

Em Brumas, compraram alguns cavalos e o esforço ficou para trás, junto com muitas moedas douradas. Quando Thon não estava por perto, o triste peso dos preços se fazia presente nas economias dos demais. Hagen quase não carregava moedas, ele sequer possuía cobiça por ouro ou gemas. No mundo onde treinara, o precioso era banal. Ele via aquelas moedinhas e pedrinhas coloridas como brinquedos e, no fundo, ainda não compreendia o significado das trocas a partir delas.

Allis e Valkíria vinham de um feudo pobre em um reino rico. Valkíria, pelo treinamento que recebera do pai, não absorvera os conceitos de acumulação de capital. O dinheiro era algo que deveria ser usado para se obter o que um guerreiro precisava: armas, montarias, castelo e bebida, nada mais que isso. O valor verdadeiro estava na espada. Allis adquiriu visão mais ampla estudando como dracomago em um condado mais rico, porém a filosofia que recebeu tratava o dinheiro como algo a ser possuído com grande responsabilidade. A riqueza só é justa quando compartilhada.

Ualfo achava aqueles perdulários uns trouxas. Ele engolia algumas moedas deixando-as em um dos seus estômagos, podendo regurgitá-las mais tarde. Sabia quantas moedas tinha, quantas havia enterrado no quintal e quantas caíram nas frestas da casa de Tímonten. Sempre que precisava gastar, chorava miséria e se maldizia da condição de escravo.

A aldeia chamada Imperatriz era o fim da jornada iniciada em Brumas. Com centenas de quilômetros, a Estrada Sul ligava a cidade à aldeia, ao norte. As estradas eram tão vitais ao reino que um nobre consagrava-se marquês, quando adquiria direitos vitalícios sobre uma.

Na aldeia, eles esperavam encontrar o conforto de uma estalagem. Ouviram o  som de sinos badalando violentamente. Não era o que aguardavam em uma bucólica aldeota. Os aldeões corriam para única igreja do local.

Imperatriz centrava-se em torno de uma igreja grande para o tamanho da cidade. O templo de Ellis, o signo do Amor e da Fidelidade fora construído, há sessenta anos, durante o início do reinado do último imperador humano de Ayoria, Owen Gadur, o benevolente. A aldeia floresceu em torno do templo e por muitos foi a casa de primavera da imperatriz. A égide do antigo rei, ainda adornava a parede da igreja, mesmo após o regicídio deste.

Num rápido galope, Valkíria, Hagen e Allis adentraram no interior da pacífica aldeia desprovida de muros, arrastando Ualfo com eles. Um casal de clérigos organizava a entrada dos moradores na igreja.

- O que se passa por aqui! Vós podeis dizer? – Hagen indagou já pressentindo os ventos da guerra soprarem.

- Inimigos na nossa ponte! – gritou um morador que passava ligeiro.

- Os guardas da aldeia foram ajudar os vigilantes da cabeçeira da ponte, eu nunca ouvi os sinos tocarem com tanto vigor – disse o clérigo, um homem maduro. -Por isso convoquei o povo para se abrigar na igreja sob meus auspícios.

- Toda a nossa guarnição foi deslocada para lá – completou a clériga, que parecia ser filha daquele, e que organizava os moradores, que se apinhavam no templo.

- Quantos soldados a aldeia dispõe? – Allis perguntou, já tomando a espada dos dracomagos nas mãos.

- Acho que uns cinqüenta – respondeu a mulher, aumentando a preocupação deles.

- Uma cidade sem muros pode ser atacada facilmente – Hagen constatou e dirigindo-se ao patriarca disse: - Me permita proteger seu povo!

As portas da igreja se fecharam e Hagen e Valkíria ficaram protegendo o templo pela parte externa. Allis estava no prédio e subiu até a torre do sino. Ele viu fumaça vindo da ponte e avisou aos amigos.

- Ualfo! Vá investigar a causa do fogo – ordenou Hagen para o monstrinho que que estava junto de Allis.

- Eu!!! Vá você! – respondeu.

- Eu prometi guardar esse povo, não posso quebrar meu voto me afastando.

- E eu prometi conservar meu couro no meu corpo! - O fremlin protestou.

Valkíria lançou um olhar zangado sobre o monstrinho. Era o incentivo que precisava para bater asas.

Xxxx

Aurora conjurou quatro globos luminosos e os mandou, um a um, na direção do mausoléu de Malus. A Abimalek – a serpente – seguiu os globos flutuantes, que pairavam pouco acima das tumbas.

Não havia nenhum sinal de observadores. Thon tinha olhos mais adaptados à escuridão e sabia que outros olhares poderiam observá-los ocultos, por isso correu para trás de uma das tumbas, se afastando do portão.

Do alto do templo, gárgulas espiavam. Enquanto algumas serviam apenas como grotescas bicas para água da chuva, outras eram moradoras do lugar. Vigias impiedosos que Tiffus – o sumo-sacerdote – criava como animais de estimação.  Do pináculo, uma gárgula olhava os globos de luz formando uma trilha que serpenteava o cemitério, aproximando-se de onde o corpo de Malus repousava.

Além das gárgulas, Tiffus usava de zumbis, feitos de corpos de indigentes para proteger os túmulos contra vândalos e saqueadores de tumbas. O cheiro do sangue quente logo despertou os mortos-vivos das tumbas. O passo lento e silencioso deles fez com que se aproximassem deles sem que ela percebessem.

Thon tinha uma visão especial, ele pôde ver quando um corpo andante se aproximou dos globos de luminosos. O halfling tirou a funda do cinto e catou uma pedra do chão, vindo de alguma lápide danificada. Girou a pedra e lançou-a certeira na cabeça do zumbi. A abominação cambaleou, mas não caiu. Ao invés disso, apressou o compasso trôpego na direção do agressor.

Thon vibrou em pensamento por conseguir tirar o inimigo do caminho de Abimalek. Porém ignorava a ameaça que se aproximava de Aurora.

A maga orquestrou o caminho das luzes dançantes usando sua varinha mística de carvalho. A primeira delas chegara ao destino: o mausoléu. A construção se destacava das outras ao redor, por estar no centro de um campo verdejante, sem nenhuma outra cova ao lado. O caixão se encontrava abaixo de uma pesada laje, coberta por sete palmos de terra, onde tinha sido posto uma lápide enorme. No alto da lápide, três gárgulas miravam o firmamento.

Aurora viu as gárgulas na lápide. Tais criaturas, por terem a pele de pedra, não podiam ser distinguidas de uma estátua sem uma análise minuciosa, quase sempre próxima demais.  Ela olhou em volta,  algumas gárgulas estavam espalhadas pelo cemitério. Se todas fossem monstros, eles estariam em apuros. O  som do impacto do ataque de Thon ao zumbi quebrou a busca visual que ela empreendia. Foi quando percebeu que dois outros quase lhe alcançavam os calcanhares.

Ela saltou, desajeitada, para fora. Na queda, desequilibrou-se  e caiu sentada. Largara a varinha, e tratou de tatear o chão procurando o objeto. Escutou o baque seco dos zumbis caindo logo atrás dela. Ela esqueceu a dor da queda e se ergueu. O mortos-vivos se levantaram como se a queda não tivesse feito nenhum mal.

As luzes pararam no ar, pois não havia ninguém para comandá-las. Thon lançou o segundo ataque com a funda e afundou a testa do zumbi, finalmente morto. O halfling percebeu que a maga não estava mais sentada no muro. E quando fez menção em retornar ao portão, viu uma gárgula descendo em voo, cruzando o campo santo.

- Ela vai pegar, Aurora! – deduziu. – Não posso permitir! – pensou já girando a funda.

Thon arremessou outra pedra na gárgula,  emitiu um silvo e subiu em uma das tumbas.  A gárgula sentiu um ligeiro incômodo com a pedrada. O ataque, forte o suficiente para esmagar o crânio de um zumbi, no monstro alado de feições draconianas, foi apenas uma picada de inseto.

As asas e cauda manobraram. O monstro de olhos amarelados escolheu o pequeno e aparentemente indefeso halfling invasor como primeira presa.

Thon não esperava que uma simples pedra surtisse efeito em um ser de pele rochosa. O que queria era apenas atrair a atenção da criatura e trazê-la para junto da lâmina mágica que portava:  a espada curta mágica que tinha recebido do pai.

Com as luzes paradas, Abimalek, na forma de serpente se desnorteou. Rastejando, não conseguia ver bem o caminho. Ele estava alheio aos zumbis e a gárgula. Impaciente, retornou à forma humana. O cajado estava na mão. O sacerdote de Arina ficou de pé e logo viu a curta distância que o separava do espaço gramado onde pretendia chegar.

- Fácil demais! –ele pensou sorrindo.

Um das gárgulas que estava na lápide do mausoléu moveu a cabeça e saltou em cima dele guinchando.

 

Xxx

Uma trilha no arvoredo levava da aldeia à ponte. Voando alto, Ualfo pôde sentir o peso dos seus quilos a mais. Cada rajada de vento era um sofrimento. Contudo, quanto mais próximo da ponte, mais evidente ficavam o som das sinetas de alarme e o cheiro de fumaça vindo dela.

A ponte era grandiosa, uma construção antiga, mas imponente. Por ela, os viajantes passavam de Ayoria para o reino vizinho de Yoria. Por décadas a ponte esteve em completo abandono, devido aos reinos não terem relações amistosas. Somente quando os reinos vizinhos voltaram a estreitar laços, a ponte passou a receber os cuidados merecidos, mas sua antiga glória nunca mais retornou. O marquês que cuidava dessa preferia guarnecer a ponte que ligava Vitória às cidades do noroeste, uma rota bem mais lucrativa.

Talvez fosse esse abandono que tornou a ponte um alvo fácil para os robgoblins.  Dezenas deles enchiam-na. Trazendo grandes escudos para se protegerem das setas dos besteiros na cabeceira da ponte, eles despejavam óleo e ateavam foco sobre a estrutura.

Ualfo estava assustado pela dimensão da batalha. Mas por desconhecer a existência de robgoblins naquela região do mundo, sua curiosidade falou mais alto. Ele sobrevoou o campo lateralmente, para não ser visto. Flechas não podiam feri-lo, mas o fogo sim.

A ponte era alta, amparada por pilares dentro do rio. Só quando chegou no leito que o fremlin se deu conta da verdadeira dimensão da batalha. Três barcos manobravam no rio Steinn. Duas grandes canoas de guerra goblin acertavam com aríetes um dos pilares de sustentação da ponte, enquanto uma barcaça de guerra ateava fogo-grego noutro pilar, minando a velha estrutura.

- Que porcaria!- falou consigo mesmo – Eles querem quebrar a ponte! Eu tenho que fazer alguma coisa.

O Ualfo voou para o meio da formação dos robgoblins. Desviando de setas de ambos os lados, pousou no meio dos goblinóides, entre várias chamas ardentes e lâminas afiadas. 

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