Um gigante vindo de encontro a alguém era uma visão apavorante. As passadas daquele gigante trovejavam pela montanha. Mas era o gigante que estava apavorado. Hagen estava assustado também, mas dominou o próprio medo e colocou a mão no cabo da espada, com a mão inábil. Ualfo voou para o outro lado da fenda, deixando Hagen solitário encarando o gigante que vinha.
Era um gigante do tipo que vive no sopé das colinas. Um dos menores gigantes, contudo tinha o dobro da altura de um ser humano médio e bem mais pesado. Um gigante em carga poderia derrubar um cavalo, mas aquele sangrava. Tinha os olhos esbugalhados, mais que o normal para um gigante.
O gigante saltou. Pulou por cima de Hagen e caiu do outro lado da fenda, onde Ualfo estava. Os que estavam baixo só viram o gigante passar por eles deixando algumas pedrinhas e gotas de sangue caírem. Ualfo entrou em desespero, gritou e tentou voar mais alto.
- Não me coma! – gritou Ualfo, o que fez com que todos se apavorassem.
O gigante escarrou o monstrinho voador, que foi derrubado pela viscosidade da gosma. Hagen saltou para o outro lado também para proteger o pequeno amigo. Enquanto ele ainda estava no ar, do alto, três corujas mergulharam. Flechas chisparam no ar, penetrando fundamente na carne do gigante.
O monstro olhou para cima com os olhos esbugalhados, colocou as mãos da cabeça e urrou. Era um urro de de desespero e dor. Seu corpo estava alvejado por diversas flechas élficas. Acima do gigante, pairaram três grandes corujas. Tão grandes que elfos podiam montá-las, como de fato estavam.
O descomunal ser pulou para dentro da fenda. Os elfos pousaram suas montarias e ignoraram os questionamentos de Hagen, como se ele não existisse.
Aurora nunca tinha visto um gigante tão amedrontado. Ela segurou no ombro de Valkíria para impedir a guerreira de atacar o gigante acuado. A maga não queria pagar para ver o que aconteceria numa situação de desespero da parte do monstro.
Os elfos se aproximaram da beira da fenda com suas armas em riste: lança, espada e martelo. Eram elfos de prata, a raça de elfos mais poderosa de todas. Suas peles eram alvas, os olhos claros e tinham um cabelo branco, outro de cor cinza e último, azul. O lanceiro vestia uma cota de malha élfica, mesmo tipo que Thon usava. Os outros dois usavam um proteção mais poderosa: armadura de batalha arcana élfica. O aço élfico fazia aquelas proteções leves e os ferreiros daquele povo, perfeitamente anatômicas.
O gigante da colina, já ferido, desesperado e cansado, tentou enfurnar-se na passagem de onde Hagen e os outros tinham saído há pouco. Foi ele tocar nas alças da porta protegida pelas runas feita por Malus e receber uma terrível descarga de energias fatais.
O monstro tombou para trás, ainda vivo. Rolou pelo chão e viu os algozes no alto da fenda com olhares de predador. Usando as últimas forças o monstro agarrou a pedra que serviu de proteção à porta da catacumba, que estava próxima. Um gigante podia arremessar um pedregulho longe. E foi o que ele fez.
Allis quando viu o gigante rolar se apoderar da pedra, ainda caído, fugiu pela fenda. Aurora fez o mesmo e os demais seguiram procurando se proteger de um ataque terrível. Os elfos fizeram menção de se afastar, mas notaram que o ataque não teve eles como objetivo.
A pedra voou pelos ares, na vertical. Quando alcançou o ponto mais alto da trajetória, inverteu o sentido e ganhou velocidade contrária. Aquele pesado objeto de pedra acertou em cheio o alvo pretendido: a cabeça do gigante que o lançou.

Um estrondo foi ouvido reverberando pelos corredores da fenda, junto com o som de um crânio se espatifando. Os miolos do gigante estavam todos reduzidos a uma pasta sobre o pedregulho.
Os elfos desceram, Hagen saltou, mas o elfos não se mostraram impressionados. O corpo do gigante era a única coisa importante e passaram a revistá-lo.
- Viram o que vocês elfos fizeram? – Hagen demonstrou frustração pela morte trágica do gigante, que pare ele era inexplicável.
Os elfos foram até a pedra e rolaram-na para observar o estado que tinha ficado a cabeça do monstro. Era como se Hagen não estivesse ali para eles.
Aurora, Thon e os demais retornaram.
- Eu quero saber o que está acontecendo? Eu sou Thon Storm, príncipe do reino – anunciou-se para na língua feérica de Celine. Além dele, só Aurora era fluente no idioma.
- Estamos em uma missão secreta jovem príncipe – respondeu o lanceiro de cabelos cinzentos. – Vossa alteza, não deveria estar nessa área.
- Por que não? Estou no meu reino, posso estar onde eu quiser! – protestou tentando impor autoridade que não convenceu o elfo.
- São os novos planos de guerra alteza imperial, em curso há meses. Os mesmo que nos informavam que o príncipe desse reinado ficaria longe dos ventos da guerra, bem como seus amigos igualmente nobres. - explanou ficando a lança no chão de pedra.
Hagen sussurrou para Thon que perguntasse algo, tendo em vista que só a Thon eles respondiam. O pequeno príncipe traduziu a pergunta do amigo.
- Quero saber quem era esse gigante e o que querem com ele?
- É um espião que roubou segredos importantes. O perseguimos para evitar que caísse em mãos erradas. Ou deveria dizer tentáculos errados.
- E por que ele se matou? – Aurora perguntou no idioma feérico.
- Os mestres dele são poderosos controladores de mentes. Eles podem ter implantado uma sugestão hipnótica nele para que cometesse suicídio caso fosse pego por nós. Nossa magia pode acessar informações da mente do inimigo, então eles se precaviram.
- Vocês lidam com adversário poderosos em magia e intelecto – Aurora comentou.
- Por isso, vamos levar o corpo daqui. Vamos estudá-lo – falou como se fosse algo natural. – Príncipe, eu ordeno que guarde segredos sobre esses acontecimentos, seu Visconde está sendo informado de tudo que ocorre na nossa operação militar, bem como o chefe do serviço secreto.
Thon ficou mais tranqüilo por saber que seu tio Barn sabia que elfos estavam rondando o território próximo das montanhas e dos perigos que estavam por ali. Ele ficou preocupado por não ter contado ao tio que a viagem que faria com os amigos os enviaria para aquele território hostil. Talvez se ele soubesse, ele teria tentado dissuadi-los. Uma tarefa impossível, conhecendo o gênio de Aurora e necessidade da missão.
Os elfos amarraram cordas no gigante o ergueram pelos ares com as corujas. Ualfo estava com o pelo eriçado pelo muco do gigante e estava com um cheiro pior que o costumeiro. Acamparam junto aos cavalos.
`Pela manhã Allis estabeleceu contato com Malus. O professor o informou que a situação dele estava crítica, não teria mais que cinco dias até os parasitas astrais partirem o cordão de prateado que o ligava ao corpo dele, enterrado vivo a centenas de quilômetros dali.
Allis interrompeu a refeição de uns e as preces matinais de Abimalek, que tentava, sem sucesso curar o braço de Hagen do ataque da aparição.
- Se Malus não for salvo em cinco dias, ele morre para sempre. E se isso ocorrer, Aurora, não haverá meios de revivê-lo.
- Não se pode reviver um corpo sem alma, todo mago aprendiz sabe disso.
- A não ser que vocês coloquem outra alma nele – Ualfo sugeriu.
- Ualfo, não nós crie mais problemas! Eu sei muito bem disso! – ela se zangou com o monstrinho.
Há tempos atrás, o pai de Aurora – Íkarus – perdera a alma, e a avó dela- Smirrah – tinha dado a própria alma para animar o filho. O pai dela recuperou a própria alma, mas a avó perdeu tudo. Aurora não esqueceu a promessa que fez de salvá-la.
- Eu posso chegar antes disso voando com Cereja - disse Thon. – Sou pequeno e posso levar mais alguém na garupa. Venha comigo Aurora.
- Vocês estão não estão se esquecendo de alguma coisa? – perguntou Abimalek.
- Creio que não, o cajado ladrão de cripta já está comigo- a maga respondeu.
- E de que isto adiantará sem um herói no grupo?
- Não vi herói nenhum não batalha contra os mortos-vivos – ela brincou.
- Eu também não vi ninguém. Só Hagen chorando, como um bebê que perdeu a mãe.
Hagen não gostou da brincadeira e quase perdeu a compostura, mas se conteve segundos antes de entrar em ebulição. Ele poderia suportar as brincadeiras de Abimalek contra ele, mas falar da mãe dele trouxe à tona sentimentos que ele jurava que havia esquecido. A raiva se transformou rapidamente em divagação.
- Onde estará a minha mãe? – pensou ele olhando para as nuvens, deixando o sacerdote esperando uma resposta que acabou não vindo.
Thon cortou o silêncio, enquanto selava Cereja para montaria.
- Você não pode vir conosco Abimalek, com seu peso Cereja vai ficar lenta e não chegaremos a tempo.
- Muito fácil, basta que eu me transforme numa abelha gigante. Ficarei leve e posso ir com vocês dois.
- Você resolveu o problema.
- O herói salva mais uma.
- E quanto aos demais, – Aurora apontou – tomem cuidado com Mu.
Os três arrumaram os equipamentos e voaram para o norte. O restante voltou pelo caminho pelo qual vieram.
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O som do rio estava audível. Allis se lembrou de um pequeno detalhe sobre a travessia:
- Hagen, como é que vamos passar sobre o rio desta vez?
- Do mesmo modo que passamos quando viemos.
- E justamente isso, que queria saber. Quando viemos contamos com a ajuda de Thon. Eu encolhi nossos cavalos com magia, você usou teus poderes de levitação para ajudar a carregar os mais pesados e pudemos passar. Não temos mais Cereja, mas ainda temos um monte de cavalos que não voam!
- E Mu!- gritou Ualfo.
Eles pararam e olharam o mapa de viagem.
- Há outro caminho – disse o dracomago – se seguirmos pela margem do rio, encontraremos uma ponte que nos levará em segurança para aquela aldeia, Imperatriz. Que é uma passagem obrigatória da nossa rota original.
- Mas isso nos levará a uma longa viagem, sem estradas através desses campos – opinou o guerreiro, o braço dele ainda doía.
- Então tá ruim, Hagen. Uma viagem é longa e a curta nenhum de vocês pode fazer! Só eu que posso ir voando – o fremlin agitou as asas.
- É isso!Hagen, vamos pelo caminho curto como você sugeriu – Allis exclamou erguendo o indicador.
- Mas como?
- Você pode nos levar, Ualfo?- o dracomago se ajoelhou para falar com o monstrinho.
- Como?! – tanto Ualfo quanto Hagen responderam com surpresa. Valkíria apenas olhou a discussão, mas com desatenção. Esses problemas a deixavam com raiva.
- Hagen levita Valkíria, a mim e si, assim não teremos peso. Eu encolho meu cavalo e Mu, assim eles ficarão mais leves. E Ualfo nos puxa voando pelo rio!
- E o meu cavalo! – reclamou Valkíria.
- Tem muito capim por aqui, ele ficará bem.
- E o cavalo de Abimalek?- perguntou Hagen.
- Ele é um sacerdote de Arina, eles não gostam da fauna e da flora? Libertar o cavalo dele não deve ser pecado- conjeturou. Ele respirou fundo e disse: - O que importa é chegarmos rápido. Mesmo a pé – ele fez os cálculos usando o mapa - seremos mais rápidos do que andando por terreno desconhecido a cavalo. E lembrem-se, desta margem do rio, estamos em terra de ninguém!
Hagen e Valkíria assentiram, mas sentiram uma ponta de covardia na voz do dracomago. Ualfo voou até ficar na altura dos rostos deles e interveio:
- Ei! Você por acaso tu voa? Esqueceu do meu tamanho, maluco. Carregar vocês abraçados não é só questão de peso. Já ouviu falar em arrasto? Mesmo que vocês não pesassem nada, carregar vocês ia me atrapalhar muito. Tente correr contra o vento para ver o que estou dizendo. E outra sabidão! Vocês ainda querem que eu carregue dois mini-cavalos. Quando vocês acham que entrei na academia de musculação? – exasperou-se o fremlin demonstrando também grande saber em matéria de aerodinâmica.
- Eu não tinha pensado nesse aspecto do plano-Allis coçou a barba.
- Segundo é burro.
- Por fim, iremos pelo caminho desconhecido que tu sugerira, Allis.
- Ainda não! Vocês acham que só Aurora tem boas idéias? E se usar minha mágica para crescer você e deixar meu cavalo de lado?
Ualfo ficou pensativo e respondeu:
- Que idéia mais…maluca! Tou dentro.
- Mu ainda ficar pesado. Ualfo fraco! Mu saber nadar bem- a guerreira havia percebido que o plano do irmão ainda tinha falhas, mas percebeu que Mu poderia atravessar o rio nadando.
- Lady Valkíria teve uma boa ideia! Eu levitar-la-ei para que possa conduzir a montaria até a outra margem, guiando o animal através da água.
- Nós temos um plano definitivo, afinal?
Definido o plano conjunto, eles descarregaram os alimentos das montarias, só suficiente para chegar até Brumas. Valkíria agrupou os animais e os fez partir. Eles ficaram por um tempo vendo os cavalos se afastarem cada vez mais para longe, até se transformarem em pontos na paisagem.
Mu e Valkíria desceram até a margem, num ponto onde as águas não estavam bravias. Hagen a tornou leve e o Mu foi entrando na água.Ela segurando-o pelo chifre o “montava”. A água estava fria.
Hagen concentrou-se para que Allis e ele ficassem leves. Os pés deles mal tocavam o chão. O guerreiro os abraçou o dracomago. Ualfo deu um risinho malicioso, constrangendo-os.
- Ualfo, eu vou torná-lo maior. Quando a magia atingir o ápice você voa e nos puxa por esta corda, entendeu?
- Sim. Tô pronto! – ele bateu asas.
Allis apontou a espada dos dracomagos para Ualfo e recitou as palavras do encanto de crescimento.
O fremlin sentiu algo dentro dele acontecer.
- Sim! O poder! A força! Eu estou crescendo. Maior – ele ria – maior, maior. Isso! – e abriu as asas coriáceas quando atingiu o auge.
- Isso é o tamanho máximo!? – Hagen perguntou.
- Ele deve ter crescido um palmo, não é?- Allis observou. – Para ele ter quase meio metro deve ser gigantesco. A magia foi só para elevar o moral dele, não espere um voo rápido.