Ventos da Guerra: Capítulo 45

Ventos da Guerra: Capítulo 45

A CATACUMBA SOMBRIA

Hagen apontava a katana celestial na direção da escuridão de onde provieram os ruídos de correntes sendo soltas. Cuidando da retaguarda do grupo, o confiante guerreiro tinha certeza que sua armadura o protegeria de qualquer inimigo. O corredor estreito impedia que qualquer outro combatente entrasse na linha de combate, cabendo a ele o dever de vencer.

Ele já tinha visto os esqueletos da entrada. Hagen carregava uma certeza de que eles seriam impotentes ao peso de sua arma de titânio. A pedra encantada que Hagen empunhava na mão esquerda iluminava como uma tocha o escuro corredor.  Os quatro esqueletos porém, não eram tão ordinários. A corrente que os prendia se partiu em quatro; se tornou as armas que os esqueletos carregavam.

O primeiro açoitava o chão com a corrente como um chicote enquanto se aproximava. Hagen anteviu que a batalha poderia não ser simples. Seus ossos de platina era vulneráveis à golpes de concussão. Ele torcia para que a armadura o protegesse, mas não esperou  dar chance ao inimigo. Hagen avançou e a espada de titânio cortou o ar na direção do crânio do morto-vivo.

A corrente do inimigo serpenteou no ar e acertou a lâmina, desviando-a. Em um súbito movimento, chicoteou o peitoral da armadura de bronze dele. Hagen sentiu o impacto e recuou um passo. O inimigo era habilidoso e perigoso. Havia mais três, além daquele.

O guerreiro tentou trombar com esqueleto, mas este recuou com uma perícia incomum para um morto-vivo, esquivando-se do golpe. Hagen levou outra correntada, que o fez se chocar contra a parede.  Mal teve tempo de exalar o ar que prendia, a corrente girou contra a cabeça dele.

O guerreiro se abaixou. A corrente bateu na parede produzindo um estrondo. Aproveitando-se da guarda aberta, ele cortou tíbia do esqueleto, que prostrou-se. Hagen girou o corpo e atingiu a clavícula do esqueleto partindo-a  junto com a caixa torácica. Após o golpe, retomou postura defensiva; o segundo inimigo se apresentava.

O segundo esqueleto era mais alto que o primeiro, do tamanho de Hagen. Trazia uma corrente espinhosa enrolada em volta do antebraço e punho. Hagen não podia recuar demais, pois esbarraria em Allis. Não se tinha espaço suficiente nas laterais para manejar a espada com desenvoltura, o que limitava sua capacidade de combate.

O esqueleto investiu preparando o punho de aço. Hagen estocou a espada. O golpe do inimigo acertou o ombro do guerreiro, a dor foi sentida nos ossos. A espada atravessou o peito do esqueleto porém, ele não tinha órgãos vitais. Antes que ele se afastasse sofreu outro golpe no mesmo ombro.

Valkíria estava impaciente com a luta. Ela estava certa de que fulminaria os esqueletos com facilidade. Mas sabia que Abimalek estava preso do outro lado e que Ualfo, Thon e Aurora não encontravam mecanismo para abrir a passagem que se fechara. Entre Hagen, que ela sabia o que enfrentava e Abimalek que ele desconhecia o que estaria acontecendo, ela decidiu ajudar o clérigo.

Abimalek estava próximo do fim da escadaria, um negrume encobria a sala. Desconfiado de perigos, ele jogou sua pedrinha luminosa para visualizar o caminho. A sala se iluminou parcamente, mas ele pode ver que havia três portas no final daquela sala. Porém, um vulto se aproximou da pedra.

O jovem observou uma silhueta sombria aproximando-se e lançando as mãos escuras sobre a fonte de luz. A pedra começou a piscar, piscou cada vez mais fracamente, e se apagou. Ele sentiu um vento gelado vir na direção dele.

Ele retirou a perderneira da mochila e produziu uma chama. Acendeu uma tocha antiga que ornamentava a escadaria. Quando o fogo iluminou,  ele viu a sombra perto dele e por instinto jogou a tocha em cima daquilo. O archote atravessou a sombra, que voou lentamente na direção do fogo, consumindo-o.

Abimalek riscou a pederneira e notou que havia mais tochas nas paredes. Começou a acendê-las e jogá-las para a sombra. A sombra apagou a tocha que ele lançou e começou a subir. Ele jogou outra tocha pela escadaria fazendo com que o monstro fôsse na direção da luz. Porém, não existiam muitas tochas. O plano só retardaria o monstro.

No corredor, Hagen se deu conta de que o inimigo era muito bom no combate em espaços fechados. Mesmo com sua katana, ele não teria muita vantagem, enquanto o inimigo estivesse muito perto. Ele só teve uma saída, embainhou a espada.

Na universidade, Hagen dedicara seu extenso tempo livre no domínio da técnica do combate desarmado. Ele havia aprendido com um dos seus mestres terrenos – Kano – o estilo Chien, o caminho do céu. Era a hora de pô-lo em prática. Ele assumiu a postura de combate e aguardou o ataque do monstro.

O monstro não estava preparado para enfrentar o estilo Chien. O soco de aço foi repelido como uma nuvem por um furação e contra-atacado com golpes meteóricos. O esqueleto tornou-se mais agressivo e Hagen sabia que com armadura não era tão ágil. Ele deixou a força do inimigo agir contra si próprio. Segurou o punho metálico do esqueleto e usou a força do golpe do oponente para derrubá-lo. Desembainhou e atacou com a katana num único movimento. Antes que o monstro pudesse se erguer, parte do crânio rolou nos pés de Allis.

Valkíria afastou os fracotes da porta e procurou um ponto de apoio. Abimalek já havia chegado do outro lado e estava acendendo a última tocha. Ela começou a forçar e o portão não cedia.

O terceiro esqueleto estava com uma parte comprida da corrente e girava-a nas duas pontas. Hagen suou frio. Este esqueleto era muito mais rápido que o primeiro e desferia muitos ataques que o segundo. Hagen soltou a pedra luminosa que segurava no chão e com as duas mãos empunhou a espada, defendendo-se dos golpes impiedosos.

Vendo a situação difícil de Hagen, Allis usou uma mágica que aprendera na academia dos dracomagos. Ele disparou das mãos uma esfera cromática flamejante na direção do teto, para que o musgo ressecado em chamas caísse sobre os esqueletos. Porém, o ataque não foi tão preciso quanto Allis pretendia. As chamas se espalharam e começaram a pingar brasas em Hagen. O fogo se alastrou para o teto, para desespero de Allis na direção do grupo também.

- Maldição o que eu fiz – o dracomago entrou em desespero, pois sabia que a magia era difícil de controlar.

A fumaça começou a se espalhar. Ualfo saltitava entrer as brasas que caiam. Valkíria urrou de começou a erguer a barreira de pedra. Abimalek não tinha mais nada para lançar e sentia a sombra se aproximar dele.

Para impedir que sufocassem Aurora tentou algo ousado. Usou um feitiço para deixar as superfícies antiaderentes, no teto. O truque funcionou e o musgo em chamas caiu todo de uma vez. Todos se chamuscaram, mas a produção de fumaça cessou.

Hagen teve os braços presos pelas correntes. Ele sabia que elas tinha um poder incomum, que deixavam os inimigos mais fortes. O esqueleto puxou a corrente, forçando-o a se ajoelhar, mas os ossos de platina Hagen o tornavam muito pesado. O esqueleto não esperava por isso. O mostrou balançou as correntes, desenrolando-as. Com os braços soltos, Hagen aproveitou o descuido. Um golpe lateral cortou a coluna da criatura.

Valkíra ergeu a barreira completamente e a jogou para cima, travando o mecanismo. Thon viu um vulto sombriu se aproximando de Abimalek. O halfling lançou uma pedra com a funda, mas esta atravessou a sombra. Abimalek pôde ver o monstro – havia luz no corredor – e conseguiu escapar, saltando para o lado, do ataque do inimigo sombrio.

- Saiam da frente, eu matar esse! – Valkíria disse desembainhando sua espada larga.

Na outra ponta, o quarto esqueleto carregava uma corrente com uma bola de ferro na outra ponta. Hagen esmoreceu por um momento, já alquebrado pelos golpes anteriores. Aurora, porém, não deixou que ele testasse a perícia dele e fulminou o monstro com disparos mágicos de suas poderosas unhas de rubi.

A espada  vampírica de Valkíria não tinha o que sugar, mas o encantamento da arma fazia a sombra se contorcer a cada golpe. A armadura completa dos Wyrmslayers a deixavam tão pavorosa quanto a própria sombra e o escudo de aço impedia que a sombra se aproximasse. Abimalek e Thon tentavam atacar a sombra, mas eram nada, comparado à fúria implacável da guerreira. A sombra em poucos instantes foi pulverizada e se desfez em negrume rasteiro.

Eles desceram a escada.

A fumaça negra subiu a escadaria e escorreu pelo corredor, ao encontro dos esqueletos espatifados.

Abimalek voltou ao salão, desta vez acompanhado pelos demais. Uma sala semi-circular, na borda da sala havia um fosso, separando a sala das três portas que ele vira.

- Pela indicação do mapa de Malus, o Cajado Ladrão de Cripta está atrás de uma dessas portas, mas não diz em qual- disse Allis.

- Pergunte a ele – falou Aurora chateada. – O velho deve estar por aqui mesmo!

Allis estabeleceu contato visual com Malus e o velho apontou a porta da esquerda. Era tudo que precisavam saber.

- Ualfo, voe para aquela porta –Allis apontou – e traga o cajado.

- Caramba! Ninguém pode pular uns três metros! Tudo sobra pra mim. Vai dar um trabalhão abrir a porta.

- Pare de reclamar e vá lo…

Um barulho de correntes se fez ouvir descendo a escada. Eles pararam o que estavam fazendo e olharam para o que descia.

- Volto já! – Ualfo partiu em disparada em direção da porta.

O morto-vivo era um misto de fumaça negra sólida, garras e tronco esquelético e crânio envolto por névoa negra com orbitas vermelhas. As correntes flutuavam servindo de ligamento entre as partes ósseas. Sem pernas, a aparição fantasmagórica flutuava arrastando os elos metálicos no chão, produzindo ruído lúgubre. Mesmo para guerreiros experientes, aquela visão era assustadora.

- Aurora, o retarde – gritou um apavorado Abimalek.

Aurora  sabia que aquele monstro morto-vivo, comumente chamado de aparição, se alimentava do medo. A aparição poderia sugar a alma das vítimas diretamente dos corpos. Qualquer pessoa sugada até a morte por uma aparição se tornaria uma. Mais do que ninguém, Aurora sabia que não enfrentariam um simples morto andante ou esqueleto.

- Eu vou convocar globos de luz para que o monstro fique afastado – e assim ela fez, globos luminosos foram jogados em volta do monstro de sombra e terror. – Apresse-se Ualfo!

Ualfo sentiu vertigem. A pequena revoada até a porta se revelou uma armadilha. A distância entre a borda do fosso e a porta era três vezes maior que se via. Ualfo percebeu rápido que algum efeito mágico distorcia magicamente a distância.

- Pelos deuses! Quem pulasse aqui tava ferrado!-constatou.

Ele chegou do outro lado e com dificuldade, já que era muito pequeno,  abriu a porta. Ao invés do cajado esperado, uma chave.

- Gente! Só tem uma chave! – gritou o monstrinho com sua voz embolada.

- Era só o que faltava – lamentou Allis. -  Malus qual é a porta certa, mesmo! – Malus apontou para a porta do meio.

A aparição encobriu os globos luminosos com um hálito negro e as luzes se apagaram de pronto. As luzes mágicas que eles carregavam enfureceram o monstro.

Ualfo voou até a outra porta, esta trancada. Girou a chave na fechadura. Olhou para trás, viu a aparição entrar no salão. Morrendo de medo do monstro, fingiu que a chave não abria.

- Ualfo não está conseguindo abrir – disse Allis recuando. – Detenham o monstro.

- Ele não é ferido por armas comuns. Cuidado! – Aurora recuou também.

Thon empunhou a espada curta que fora do pai dele. Valkíria, a espada larga que fora do pai dela. Hagen, a katana de Solania.

Valkíria ficou na frente e Hagen e Thon nos flancos. Os três atacaram em sincronia mas, com cautela. Eles não poderiam ser engolfados pela fumaça negra do monstro.

O ar em volta do monstro se tornou frio. Eles lutavam e golpeavam e sentiam os próprios músculos enrijecerem. A sensação de cortar o vazio dava uma sensação de desespero. Eles não sabiam se as armas surtiam efeito ou não.

As garras do monstro deixavam aranhões nas armaduras. Eles podiam sentir as garras tocando a pele deles por baixo das couraças de placas. Mesmo partidas, as correntes e os ossos teimavam em se recompor.

- Não está adiantando – gritou Thon amedontrado e esquivando-se das correntes do monstro.

- Vai morrer! Morre! – bradou Valkíria e bateu com raiva.

- Cuidado Valkíria! – Hagen gritou e se interpôs entre ela e o monstro.

A espada de Valkíra acertara o crânio do monstro mas, ela baixou a guarda. A aparição  lançara as duas mãos esqueléticas contra o pescoço dela. Hagen colocou o braço para protegê-la.

As garras fincaram-se na armadura e o guerreiro sentiu como se as falanges tivessem-na atravessado, chegando até os ossos dele. Todo o frio que sentiam foi canalizado para dentro do corpo de Hagen. O mostro drenou a luz que havia dentro dele naquele instante. Nem o poderoso guerreiro pode conter o grito de dor.

Hagen soltou a espada no chão. Aurora usou o último poder das suas unhas de rubi e descarregou tudo o que ainda tinha na sua mão esquerda.  O monstro largou Hagen. Allis lançou seus projéteis mágicos, que eram mais fracos do que Aurora, mas naquele momento sabia que precisava ajudar. Abimalek estava apreensivo e gritava para Ualfo se apressar.

Thon passou para trás do monstro e viu que por trás do torso esquelético, já castigado pelos ataques anteriores, existia um elo prateado. O elo conectava as correntes. Sem perder tempo, tomou impulso, saltou e desferiu o golpe final. O ele se partiu, as correntes se soltaram, a fumaça negra se dissipou e os ossos viraram pó.

Hagen estava ajoelhado, segurando o braço direito, com lágrimas nos olhos. Abimalek tocou no ombro dele; estava gelado.

Ualfo, como num passe de mágica, abriu a porta e voltou trazendo o cajado.

- Tava dura demais aquela fechadura – mentiu sem se preocupar em ser convincente.

Allis olhou para Malus. Já tinham o cajado. O espírito do mestre de Aurora gesticulava algo e Allis pode prestar atenção.

- Vocês só têm cinco dias para me salvar. Os parasitas estão corroendo o cordão prateado – era possível para Allis perceber uma quantidade bem maior de parasitas concentradas no cordão mágico que ligava a projeção astral de Malus ao corpo físico dele.

Aurora tomou o cajado das patas do fremlin e foi alertada sobre o tempo exíguo que possuíam para salvar o mestre da tumba. Eles correram para escapar da catacumba, pois a magia que Abimalek lançara estava se enfraquecendo e a passagem se fecharia a qualquer momento.

Eles se esgueiraram pela abertura que rangia e passaram todos antes que se fechasse.

Antes que pudessem se recompor, escutaram sons de pesados passos vindos da montanha, logo acima da fenda onde se encontravam. Hagen, mesmo tendo o braço incapacitado, saltou para ver o que era. Ualfo o acompanhou voando. Um gigante corria na direção deles.

 

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