Ayoria tinha um clima bastante diverso. Na região de Serra Antiga, vales áridos eram esculpidos pelos ventos vindos de Tantra. Na capital, Vitória, oscilava entre verões secos e invernos chuvosos. Ao Sul, para onde seguiam os jovens à galope, as temperaturas eram menos intensas. No outono, caiam bruscamente com chuvas esparsas, no inverno, gelava.
Na fronteira sul, uma densa névoa se erguia até o topo do céu. : Jamiel, a gigantesca parede de neblina; o obstáculo que separava o mundo dos homens dos deuses. As águas do rio Steinn se perdiam dentro do nevoeiro, junto com a existência de qualquer mortal que ousasse cruzar a muralha sem permissão divina. Parcialmente engolida por essas névoas, ficavam as Montanhas Reais. A cidade mais próxima desses imperiosos picos era Brumas.
Brumas era uma grande e antiga cidade do império. Governada pelo Barão Real Nicholas de Akirys, a cidade contava com vários barões importantes na Câmara Imperial. Dentre esses, o mais distinto se chamava Arcanjo Le Fey, um homem de sangue azul, rico e com grande admiração por artes e corridas de cavalos. Ele era pálido e apesar de muitos cabelos grisalhos, possuía rosto quase sem sinais de velhice. Ambos os nobres estavam aguardando a vinda da comitiva do príncipe Thon, acreditando se tratar de uma mera visita formal.
O Barão Real de Brumas apenas cumpriu o rito protocolar, dando votos de boa estada ao príncipe e o séquito dele. Já o Barão Le Fey, os convidou para se hospedarem na quinta que possuía. Thon aproveitou-se do convite e esperava excelente estada no chalé requintado do nobre barão.
A propriedade era cercada de belos vinhedos, era majestosa e agradável. Um exército de servos estava à disposição para atender os caprichos dos convidados. As montarias foram tratadas e alimentadas. Água quente foi disponibilizada para o banho, em banheira, com vários sais. Roupas para os convidados foram oferecidas e em seguida o jantar.
Lorde Le Fey se sentava à ponta de uma magnífica mesa e cadeiras com cavalos adornados. Os convidados apreciaram a beleza da prataria e taças de finos cristais vitorianos, os mais belos do mundo. O barão conversou sobre a politica de promoção das artes na capital pelo imperador enquanto era servida a refeição. Uma entrada frugal agradou aos olhos de Abimalek, que pela primeira vez se sentia agraciado com um banquete adequado aos seus votos religiosos. Valkiria desapontou-se. Veio o prato principal: um levíssimo suflê e patê de fígado de ganso. As fatias, finíssimas, eram cortadas com esmero por um serviçal para que pudessem sevir a todos. Mais de um estômago roncou esfomeado.
Valkíria ainda achava que estava na entrada, mas o barão, de pouco apetite, já se sentia saciado. Ele mandou servir o seu melhor vinho, um garrafa de Vine de Capra, e quebrou a formalidade da ocasião.
- Damas e cavalheiros, fico eu por deveras agradecido que venham se hospedar no meu humilde lar - falou com falsa modéstia. – E mais feliz ainda de saber que algumas formas de entretenimento que me agradam estão muito relacionadas com alguns dos senhores aqui presentes. Ou deveria eu dizer, senhorita aqui presente.
Sobrancelhas se altearam.
- Ora, não é segredo nenhum que haverá um grande combate entre Lady Valkíria e a Amazona Selvagem. E que uma grande aposta orbita em torno desse combate – o barão explicou, enquanto balançava sua taça.
Aurora tomou a iniciativa.
- Eu fiquei sabendo dessa aposta de vocês… – dissimulou. – O que quer de nós? – sorriu em posição de negociação.
Para ela estava claro que o vinho foi oferecido com o propósito de fazê-los relaxar e estarem mais suscetíveis às propostas que viriam.
- Saber eu quais as chances da desafiante – flechou Valkíria com um olhar- de vencer a campeã? Soube eu que vós tivéreis uma grande caçada no norte rústico, mas também ouvi falar que o comportamento acadêmico dessa jovem dama é extraordinariamente gentil. Não tenho dúvida que não sinta ela remorso em atacar animais ou monstros, mas ferir um outro ser humano…não seria demais para ela?
- Minha irmã?! Queria eu que vossas palavras fossem verdadeiras!
- Eu asseguro, barão, que essa Amazona fajuta não tem nenhuma chance – Aurora disse bebericando.
- Que aposta é essa da qual falam? – Hagen quis se inteirar sussurrando aos colegas.
- Deixe com Aurora que ela sabe o que está fazendo – Abimalek dissuadiu Hagen e o demoveu da idéia de se aprofundar nos detalhes da história onde Allis, Aurora e ele estavam envolvidos.
- Percebo que falas tu com muita veemência, princesa de Yoria. Estou eu tentado a apostar na sua lutadora.
- Ele falou “sua lutadora”? – Hagen sussurrou de novo.
- É modo de dizer. Relaxe! – Abimalek interveio novamente para preservar o segredo.
- Então se tu me confirmas que ela segue um código de conduta tal que é capaz de separar as situações de combate das cotidianas, isso representa para nós uma vantagem, não?

Alguns estranharam esta descrição tão inusitada de Valkíria. A própria, entretida demais com o delicioso vinho, não prestou atenção. Abimalek aproveitou a deixa.
- Ela e eu somos da mesma fraternidade. Ela é capaz de vencer qualquer um, quando é necessário. Quando não quer, ela é doce como um…- ele pensou num mamute- cordeirinho.
- Vai ter cordeiro para janta? Eu quero – disse a guerreira.
- Excelente! Mas que grande oportunidade. Se as pessoas conhecerem apenas este lado dócil da lutadora, não darão muito crédito a ela. Isso fará a bolsa de apostas subir e…
- …quem apostar nela…- Aurora completou.
- …levará o grande prêmio! – Abimalek concluíu .
- Senhores, sinto que temos um acerto. Tão bem acordado que é desnecessário qualquer tipo de compensação, pois tenho certeza que os benefícios serão mútuos para nós.
- De fato, de fato – disse Allis para mostrar que estava no arranjo também.
- Eu tenho quase certeza que esses três fizeram algo que desconhecemos – Hagen falou para Thon e Ualfo.
-E eu tenho é certeza! – disse o monstrinho.
- Damas e cavalheiros, aproveitem a sobremesa – chegara uma pequena taça dourada com frutas cristalizadas – eu já estou por deveras satisfeito.
- Lorde Le Fey – falou Thon – além dessa visita, nós viemos para cavalgar pela região, algum conselho para cavaleiros inexperientes?
- Aconselho que não se dirijam muito para o sul, as névoas de Jamiel costumam ser traiçoeiras com os mais ousados. Se chegarem até o rio, cuidado com a margem, às vezes, o solo é instável e alguém pode cair e ser levado pelas águas. No resto, se se mantiveréis vós deste lado da margem, não há evidências de monstros há décadas. Será um passeio agradável.
- O senhor pode nos disponibilizar mantimentos – pediu Abimalek.
- Não negaria alguns dias de mantimentos a meus distintos convidados – respondeu já limitando o pedido inoportuno do clérigo, que agradeceu a ajuda.
A primeira refeição da manhã foi tão regrada quanto o jantar anterior. Escaparam deixando apenas votos pouco sinceros de agradecimento e foram comer algo substancioso em taverna. Eles viram uma estalagem, com o desenho da cabeça de uma medusa e um esqueleto armado esculpidos em uma placa de madeira. A fome tornou a comida mediana em verdadeiro manjar.
- Allis, venha comigo para um dos quartos! – disse Aurora.
- Aurora…- ele corou.
- Imbecil! – xingou quando percebeu o corar do mago. – Preciso falar com Malus – sibilou irritada.
Já no quarto, protegidos dos olhares, o dracomago estabeleceu contato visual com Malus e ela perguntou:
- Malus, nós estamos indo para o local onde você escondeu seu cajado. Porém, vi no mapa que fica na outra margem do grande rio, próximo das Montanhas Reais, que demarcam as névoas de Jamiel! Há algum perigo oculto, além do local, que você gostaria de nos alertar, antes de partirmos?
- Ele disse que não lembra! – Allis relatou depois de ler os lábios da forma espectral do ancião.
Aurora franziu a testa.
- Eu tenho mais uma pergunta para este… - calou - Quando achei seu corpo na sala, você segurava um papel com anotações. O que estava fazendo naquela hora?
Malus se contorceu e virou o rosto. Ele acreditava que ela não tinha descoberto aquilo. Allis viu tudo e sabia que não era boa coisa.
- Ele respondeu que vai contar tudo quando recuperar o corpo dele. E que os incômodos que ele está sentindo estão ficando maiores. Aurora, eu vi um insetos no corpo dele!
- No corpo astral?
- Sim. Ele disse que os parasitas astrais estão comendo o cordão prateado! E eu achava que já era desagradável ter que ver um velho nu! Que nojo! – cuspiu.
- Isso não está me cheirando nada bem, Allis. Vamos partir imediatamente.
A viagem fora marcada por chuvas esporádicas que atrapalhavam bastante os sobrevoos de Cereja e encharcavam o pelo de Ualfo. O fremlin precisava lubrificar os pelos a todo instante, espremendo óleo de sua glândula uropigial, o que não era uma visão bonita.
Como guia, mais uma vez, Valkíria procurava se orientar usando o céu e levar a todos, em segurança, para a margem do rio.
Um sentimento de desconfiança nas habilidades da guerreira, que sempre os colocava em maus lençóis, pairava na maioria. Qualquer neblina mais intensa era motivo para que eles parassem ou desviassem o caminho. O céu nublado não ajudava. Somente o horizonte de densas neblinas servia como alerta, de para aonde não se deveria ir. Mesmo assim, os declives e caminhos escolhidos pela guerreira, os deixaram próximos demais da barreira divina.
Uma neblina súbita os engolfou, deixando-os com visibilidade bastante reduzida. A reação foi de nervosismo, mas eles se mantiveram frios. Não era a neblina divina, só fenômeno natural; se acalmaram. O silêncio repentino os fez escutar o som do rio nas pedras.
Os ayorianos de Brumas diziam que o rio Steinn despencava em Jamiel como uma cachoeira. Eles ouviam o ruído; estavam muito próximo da área perigosa.
Um torvelinho se formou na neblina. Ualfo e Allis sentiram uma dor angustiante, rasgando-lhes a pele. Os gritos de dor assustaram os cavalos. Vapores de tom rubro os atacavam.
O sangue do fremlin e do dracomago estava sendo drenado pela névoa através dos poros. Nem as proteções mágicas do fremlin, envolvido completamente pelo vapor sanguessuga, conseguiam evitar o dano. Os guerreiros não sabiam o que atacar e balançavam as espadas a esmo, numa tentativa desesperadas de se defender. Ualfo e Allis não conseguiam reunir a concentração para lançar nenhuma mágica e a espada do dracomago de nada adiantava.

Aurora, com seu rápido pensamento, rememorou todos os livros que lera sobre monstros em forma de névoa. A luz do dia excluía a hipótese dos terríveis vampiros, mas havia algo similar: névoas vampiras. Criaturas malignas feita de vapor, que se alimentam de sangue. Algumas lendas falavam de ataques destes seres nas cidades. Armas comuns não poderiam feri-las, apenas as encantadas, mas com risco de atingir as vítimas envolvidas por elas. Os monstros se fortaleciam quando drenavam sangue.
Só havia uma saída: os monstros deveriam ser rapidamente fulminados. Todo raciocínio durou frações mínimas de tempo e ela agiu.
Aurora se concentrou nas suas unhas de rubi. Essas brilharam e dispararam cinco fagulhas escarlates. A névoa que encobria o pequeno fremlin se dissolveu, condensando-se em sangue e água. Allis sofreu um pouco mais, mas foi salvo por outra rajada de potência máxima disparada por Aurora, que atingiram o monstro vulnerável à magia.
Allis ficou prostrado, lívido. Ualfo, em pior estado, murcho. Abimalek aproximou-se e usou seus dons de cura que os fizeram regenerar parte do sangue perdido.
- Temos que ter muito cuidado- Aurora falou. – Malus? Você poderia ter lembrado disso, não é velho maldito?!- reclamou em direção ao vazio. – Estou começando a me arrepender de estar ajudando você!
O vale do rio não era tão alto quanto era mais ao norte. No caminho, espinhas de peixe na margem eram prova de ainda havia muita névoas vampiras ali. Os monstros se alimentavam dos peixes que saltavam para evitar o fluxo da corredeira rumo às brumas eternas. Quando vislumbraram o rio, margearam o leito contra a correnteza, se afastando.
Antevendo o perigo da travessia, Thon aproveitou a estiagem para levar, um a um, os amigos para outra margem. Eles puderam finalmente percorrer o caminho que faltava para atingir as Montanhas Reais.
Allis consultou o mapa e encontrou a fenda que deveria seguir. Um corte estreito na montanha, de largura suficiente para passar apenas um homem por vez. Hagen avançou pela fenda e se deparou com uma inscrição no corredor rochoso com o seguinte dizer: “Cuidado, Gigantes!”.
Quando Hagen alertou aos demais, o burburinho começou. Allis, mais uma vez, usou de sua mágica de ver o invisível para visualizar Malus.
- Você não disse que havia gigantes!!! – exasperou-se o dracomago olhando na cara do velho clérigo.
- Eu nem lembrava que gigantes moravam aqui… – o velho coçou a cabeça na sua forma espectral.
- Existe mais alguma coisa que o senhor não esteja lembrando? – Allis insistiu.
Ele assentiu e com bastante expressão facial, para que Allis lesse os lábios enrugados dele, falou:
- Se eu não lembro, deve ter!- respondeu o clérigo com sinceridade.
- Agora não há mais volta. Malus acha que ainda haverá outros imprevistos, mas não soube informar de que natureza. Cautela pessoal, cautela – Allis, conformado, alertou e fez sinal para que Hagen prosseguisse.
- E as montarias? – Thon abraçou-se com Cereja, enquanto Aurora afagava Mu.
- Prendam-nas por aqui. Vou pedir a minha deusa uma proteção para que eles fiquem em segurança – falou Abimalek, com o intuito de tranqüilizar os amigos, mas preocupado realmente com a segurança dos animais. – Não os amarrem com força, a fuga é uma opção que eles devem ter.
Eles subiram um aclive e a fenda se alargou numa abertura quase semicircular. Um pedregulho suspeito estava rente ao paredão bem em frente à fenda. Hagen e Valkíria removeram a pedra, deixando à vista a passagem: uma porta de madeira com símbolos místicos.
Havia alças na base da porta, para facilitar que a mesma fosse erguida. Mas antes que Hagen pudesse se curvar para pegá-las, Abimalek o impediu.
- É uma armadilha! – alertou o prudente clérigo, que rezara a sua deusa pedindo proteção contra perigos desse tipo, e tinha ouvido um alerta devido assim que se aproximou da porta para examiná-la.
Hagen se afastou, por precaução.
- Essa porta está cheia de energia, segurar as alças é um engodo. Deixe que minha deusa torça essa porta. Madeira faz parte da Flora, mesmo morta essa madeira vai atender ao comando da deusa.
A porta possuía proteções divinas do deus da morte e o duelo entre os poderes divinos foi mais difícil que Abimalek esperava. A porta foi torcida, e dobrou-se para cima, abrindo uma passagem. Mas a mágica mortal não foi anulada. Enquanto o feitiço do clérigo permanecesse, a porta ficaria daquele jeito. A invasão teria que ser rápida.
Thon curvou-se e passou pela abertura, ao lado de Ualfo, que entrou sem problemas. Abimalek se esgueirou, seguido pelos demais. Aquele lugar era um corredor para uma catacumba.
Abimalek passou por Thon e Ualfo guiando o grupo. Eles usavam suas pedras de luz para clarear o local, que estava com o ar abafado. Caminharam cautelosamente por vários passos quando viram caveiras. Na parede à direita, quatro esqueletos com as juntas presas por fios, estavam lado a lado. Todos estavam amarrados por uma mesma corrente, que os prendia à parede.
- Isso é obra de Malus, mais uma coisa que ele esqueceu de mencionar – reclamou Allis.
- Não toquem neles – Abimalek alertou – eles estão parados.
- É claro, clérigo da natureza, eles estão mortos – zombou Aurora do comentário.
Pouco depois de passarem peles esqueletos, Abimalek encontrou uma escadaria, na ânsia de descer quase não viu um fio quase transparente. A ajuda que pedira à deusa tinha se esgotado, mas ele era ágil e percebeu a tempo reflexo da luz que sua pedrinha mágica emanava.
- Fiquem por aqui! – ordenou o clérigo.
Ele desceu a escada, e percebeu que havia um ziguezague de fios que ele teria que se contorcer para passar. Com dificuldade ele descia sem tocar nenhum fio, com o coração batendo forte pela adrenalina do desafio.
Ualfo e Thon observavam o com atenção. Aurora acotovelou os companheiros, enfezada com a demora dos amigos que não andavam.
Ela viu Abimalek naquela cama de gato e também notou o fio. Fez a unha de rubi crescer e o cortou. O fio partido soou um estalo elástico. Ela sorriu. Abimalek protestou lá em baixo, pois já estava quase chegando ao fim da escadaria.
Três segundos depois, eles ouviram, lá atrás, o eco de correntes caindo ao chão. O sorriso dela se desmanchou.
Sons de correntes se arrastando vinham da escuridão. Hagen estava na linha de combate e empunhou a espada.
Uma placa de pedra caiu do teto fechando a passagem que dava acesso à escadaria, assustando Thon, Allis e Aurora que estavam muito próximos com o barulho e a possibilidade de esmagamento.
Antes o som de silêncio e apreensão, Ualfo juntou forças para dizer:
- Foi Aurora!
Já quase no fim.