Aurora estava cansada, esgotada por uma manhã de viagem, uma tarde de festa e negociatas escusas e uma noite de decepções e furto. Bodva trouxe um chamado que a fez adiar o repouso.
O quarto de Épsilon estava impecavelmente limpo e minimalista: um catre e um baú apenas. O líder dos Mysticals estava deitado de lado, ao canto, olhando a porta com um olhar vazio. Uma vela de chama mágica tremulava. Bodva abriu a porta e, quando Aurora passou, a trancou.
- Senhor, – disse Bodva – eu a trouxe conforme me ordenaste.
Antes que Aurora falasse, uma voz sussurrante se desprendeu do homem moribundo:
- O Jogo.
Aurora ficou surpresa, ela achava que Épsilon fosse mudo, pois nunca ouvira uma palavra dele diretamente.
- O que tem o jogo? – ela perguntou.
- O jogo está a sua volta. O jogo maldito – ele reunia forças para falar e se escorou na quina da parede – eu te induzi a ele.
Ela preferiu escutar o que ele tinha a dizer e fez um gesto para que ele continuasse. Bodva o ajudou a se sentar. Épsilon estava muito fraco.
- O jogo de Gehena não pode ser só…visto. Ele deve ser entendido. Eu falhei… tentei destruí-lo, mas ele ainda está ao meu redor… me tragando. Minha alma se esvaira e logo será a tua, Aurora. Precisas aprendê-lo e vencer o desafio. É sua única…chance. Se tu aprender, se salvarás e poderá me salvar também…tu és minha última esperança.
Ele cambaleou e tombou na cama, reuniu forças, com lágrimas nos olhos demonstrando sentir uma enorme dor.
- Meu fim está iminente. Eu te nomeio a nova líder dos Mysticals!
Aurora se sentiu entre a cruz e a espada. Um turbilhão de informações. Um profusão de sentimentos. E agora forçada a fazer algo contra a vontade.
- Onde está o livro, vou estudá-lo! – ela disse tento mal pressentimento.
Épsilon fez um sinal para o anão e disse palavras que não saíram da boca. Bodva fez com que o líder deitasse e Épsilon soltou o último suspiro e diante deles: o corpo foi consumidos por chamas esverdeadas, deixando apenas o pó na cama intacta. O anão, com visível abalo, mas sem lágrimas, dirigiu-se à parede secreta. Ele removeu um tijolo e girou o mecanismo codificado para que a sala onde o livro estava fosse aberta.
Aurora abriu o velho manual de regras, sabendo do perigo real que corria. Ao contrário da primeira vez, ela se empenhou em lê-lo e fazer anotações sérias, tentando compreender a complexidade das instruções. As horas se passaram e ela não percebeu. Ela lia rápido, incansável. De repente, a vista dela ardeu, o corpo ardeu, os ossos também, ela sentiu-se queimando até a alma.
Era um livro amaldiçoado como ela já suspeitava. Estava em outro mundo: céus vermelhos, com nuvens negras tempestuosas e montanhas erodidas e íngremes, flutando no espaço. O solo, árido, vermelho e acidentado, beirando um precipício. Bem próximo, uma mesa de pedra áspera, logo ali uma caverna escura. A feiticeira olhou para si, estava nua.
- Olá, menina! – disse Malus tocando no ombro dela.
Ela virou-se fazendo as unhas crescerem. Malus também estava nu. Ela teve um susto tremendo e virou o rosto, em seguida cobrir-se envergonhada.
- Onde estamos? Mortos? - ela falou de olhos fechados, protegendo as partes íntimas e os seios como pôde.
- Não temos esta sorte. Veja, você também está com um cordão de prata – ele apontou para um quase invisível fio argênteo que ligava o corpo dela ao infinito, Malus também possuía um desse – estamos vivos. Entramos em um dos nove mundos inferiores. As almas dos seres que não acreditam na bondade podem acabar aqui: Gehena. Um mundo sem cura para as feridas, de morte sem ressurreição, de dor sem consolação.
Uma ventania de fumaça quente e sufocante os pegou desprevenidos. Malus foi arrastado, caindo em direção ao precipício. A baforada negra se abriu para Aurora, revelando que havia um ser sentado na mesa de pedra, na cabeceira, de onde vinha a fumaça. Quando a nuvem negra se dispersou, Malus estava aprisionado, na beirada do abismo, por um monstro flutuante gasoso de tentáculos de carne apodrecida. Uma voz poderosa ressoou nas mentes dos presentes:

-Jogadora-convidada sente-se à mesa – disse o pavoroso hominídeo alto, magro, de pele branca, vestindo apenas um capuz negro que deixavam a mostra seus olhos grandes ovalados e amarelos, que refletiam como espelhos.
Estando todos nus, ela parou de se esconder, e sem escolha, sentou-se no lado oposto. Malus dependia dela mais uma vez, assim como ela mesma.
- Este é Gehena: o jogo das almas – disse mostrando uma caixa fechada. – Eu sou o Jogador-ancião, vou te ensinar a função das peças uma única vez. Se aprender, deixarei voltar ao teu mundo para tentar lutar por tua alma, do contrário certamente morrerás.
Ela viu, na caverna, as almas de muitos seres prisioneiro. Uma das, era a de Épsilon. Engoliu seco.
O monstro abriu a caixa: cartas, três tabuleiros interligados, dados e peças.
- Cada tabuleiro representa as dimensões do multiverso: os superiores, onde os primordiais desejam chegar; os inferiores, onde as almas arruinadas irão; e o mundo primário, onde as escolhas são feitas. As cartas são as forças ocultas do destino que regem os seres. Os dados são os agentes do caos, que supera o destino. E as peças são os espíritos elevados, que estão acima dos mortais comuns.
O Jogador-ancião ia revelando a sua coleção para Aurora que olhava fixamente e escutava com máxima atenção.
- Peças andam por outros caminhos em cada tabuleiro, cartas possuem efeitos diferentes e um limite de dados deve ser empregado. Cabe ao jogador reunir a melhor estratégia, mas sabendo que lutará em três campos simultâneos. E mesmo as falhas em um território podem fortalecer outro campo.
O monstro explicou a função das principais peças, pois cada jogador poderia compor suas próprias, conforme as regras.As melhores cartas e peças eram feitas com almas, isto tornava o jogo famoso entre várias castas demoníacas.
- Para que serve esse jogo? – Aurora fez a primeira e única pergunta.
- Ele vai além do divertimento. Guerras podem ser travadas por ele. Séculos podem ser antecipados em horas. Almas podem ser obtidas como espólio. Não há batalha mais importante do que as travada numa partida de Gehena. Quando alguém se torna um mestre, tudo flui naturalmente.
Um jogo para disputar almas foi a parte que mais chamou a atenção. A avó de Aurora, Smirah estava presa por um demônio. Se ela aprendesse o jogo, poderia recuperar a alma da avó. O jogo ganhou um novo interesse, que ela nunca havia sonhado.
O Jogador-ancião colocou-a em prova. Ele usava apenas o mínimo das suas capacidades e testava os conhecimentos de Aurora para perceber se ela era digna da própria alma. A vitória não era importante, bastava ela se sentir segura com os movimentos das peças, usar os dados corretamente e saber o efeito das cartas que tinha em mãos. Se errasse, estava condenada.
Preocupada unicamente em não errar, uma a uma as peças dela iam caindo. A maga ia sendo encurralada nos três tabuleiros, com facilidade, mas não errava.
O dragão imperial rubro dele avançou sobre o solitário pajem celestial dela no tabuleiro infernal. Uma carta de destino de “anulação de magia” ampliava os poderes do dragão deixando-o imune a a feitiços. Jogador-ancião tinha uma pilha de dados de múltiplas faces para lançar. Era a vez dela. A maga só tinha um carta e um dado de quatro faces.
Aurora lançou a carta “plano improvável”. Somente um valor máximo nos dados seria computado como êxito no ataque. O jogador-ancião lançou sua pilha de dados de cem faces. Aurora lançou seu único dado piramidal. Os dados quicaram e giraram. Ela conseguiu o valor máximo, ele falhou.
- Você não escapará do próximo ataque do meu dragão imperial rubro! – desdenhou o monstro após a contagem dos resultados.
- Sim, eu vou! Porque o seu dragão está destruído. O pajem celestial pode realizar um sacrifício heróico, o que torna seu ataque vorpal, o que multiplica por dois o dano causado. Apesar do dano dele, mesmo assim, ser incapaz de matar o seu dragão imperial, este tem uma fraqueza muito séria! Se ele for atacado por uma arma vorpal e o acerto for crítico, ele é destruído definitivamente. Apesar de um ataque crítico ser normalmente obtido com vinte ou mais pontos, minha carta de destino inverte a lógica, fazendo que o meu 4 seja um acerto crítico e o seu 88 seja um erro! Meu pajem morre, Jogador-ancião, mas seu dragãozinho também!!!
A vitória do Jogador-ancião teve gosto acre. Nunca havia perdido o seu dragão em batalha. Aurora havia preservado a alma. E por ter tido uma compreensão do que é o jogo, mesmo que apenas no final, o Jogador-ancião decidiu contar a ela segredos.
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Allis tinha certeza que algo de extremo ocorreria. Com Malus vivo, era questão de tempo para o grupo se organizar e partir na busca do cajado mágico que salvaria o professor de Aurora. Ele acordou cedo, preparou o equipamento de viagem, que nem sequer havia sido desempacotado e foi ter a refeição matinal como um estudante qualquer.
Na mesa, sentou-se no local habitual, junto aos amigos. Todos presentes, menos Aurora. Allis preferiu deixar que ela comunicasse a importante e inadiável missão, mas ela não veio. Ele esperou, os colegas comeram e se foram. Ele ficou lá até que o último aluno saiu do salão, restando apenas ele.
Valkíria foi fazer a entrega de seus leões -e também do valente cão Espuma- ao professor dela . Ela ficou bastante triste – e o animal também – ao passar a corrente do mastim ao verdadeiro dono. Sem mais o que ensinar, o professor limitou-se a ouvi-la relatar os detalhes da aventura em busca dos leões, e também, do incidente na festa do barão Everest. Lionel ficou bastante interessado nessa parte.
Hagen retomou os treinos com artes marciais, até ser interrompido pelo colega Clotário, enviado pela própria Lisandra.
- Hagen, – disse o colega – sua professora perguntou bastante por você na tua ausência. Seria prudente procurá-la – alertou.
Hagen sentia-se inseguro. Os treinos faziam-lhe a mente relaxar. Procurou a mestra. A halfling ensinava outros alunos. Ele esperou que ela terminasse.
- Vejo que o cavaleiro de armadura bronze retornou - disse ela com um sorriso sarcástico.
- Sim, estive no norte do reino – respondeu indiferente.
- Oh! Eu soube, ajudando sua amiga a passar no exame dela. Lionel me contou. E por ti, o que fizeste?
- Ajudar o próximo me traz grande satisfação.
- E quem é o teu próximo, Hagen? A quem deve um pretenso herói ajudar?
- As pessoas que eu amo – respondeu de cor.
- E devem ser apenas os conhecidos dignos de tua ajuda? Lembre-se Hagen: A ignorância do bem é a semente do mal.
Ele nada disse. Ela nada completou. A reunião estava tacitamente acabada.
Abimalek retornou orgulhoso ao seu professor, o elfo Nym. O mestre preparava-se para inspecionar o quarto de um professor falecido, mas a chegada do aluno interrompeu a saída. Abimalek trouxe um presente: uma fera-cactos que ele capturara. Curiosamente, o monstro estava muito ressecado. O elfo botânico decidiu atrasar-se. Elfos vivem muito tempo, minutos perdidos seriam irrelevantes.
- Que belo espécime, muito bem preservado, Abimalek.- disse após ouvir os relatos de proeza do clérigo.
- Ela está morta?
- Não, as plantas do deserto conseguem sobreviver sem alimento por muito tempo. Esta se alimenta também de sangue, veja!
O elfo arrancou um espinho da planta e furou a própria orelha pontuda. Uma gotícula de sangue foi colhida e levada para um dos espinhos da criatura, que logo a absorveu. Por reflexo, o monstro estremeceu, mas logo parou de se mexer.
- Viu?! Ela apenas hiberna. Se eu não tivesse colocado a fera-cactos nesta câmara fria, ela teria despertado e nos atacado – explicou o professor.
- Que interessante – impressionou-se com a astúcia e a engenhosidade do professor.
- Sim, bastante. Este é um vegetal animado ayoriano que nós, elfos, temos pouco conhecimento a respeito. Nesta universidade, eu tenho poucos recursos para estudá-lo. Vou pedir ao reitor autorização para a universidade de Gamal, no meu reino. Meus colegas vão ficar muito excitados com a chegada desse espécime.
- Que ótimo, professor!
- Os elfos sempre ficam muito gratos a quem lhes façam favores – ele sorriu. – Você quer me acompanhar em uma tarefa, Abimalek? Um grupo de estudantes e eu estamos com um trabalho de revitalização de ambientes internos, por deveras interessante.
- Pode contar comigo e com as bençãos da minha deusa.
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Allis reencontrou o amigo e colega de fraternidade Ualfo limpando a preciosa capa que fizera com uma escovinha, quando voltou ao prédio dos Blue Dogs. O monstrinho vibrou quando o viu chegar. Eles não se viam desde a viagem dos demais para o norte. Allis desejava ir ver Aurora, mas o bate-papo com o amigo revelou-se bem prazeroso e o fez esquecer-se da pressa.
Ualfo e Allis conversavam descontraidamente quando um colega deles entrou na sala. Contou que acabara de encontrar um corpo no museu, onde era auxiliar. Ele estava procurando Hendrix para contar o ocorrido. Ualfo e Allis se informaram onde estava o corpo, e como bons Blue Dogs, partiram rápido para a cena do crime, para obter mais informações.
Eles entraram no museu e foram na direção da área de história natural. Monstros empalhados lançavam olhares vazios e ossadas de criaturas projetavam suas sombras.
- Quanta bobagem! Grande porcaria um esqueleto de dinossauro. Queria ver um dragão! – reclamava Ualfo, indignado intimamente com o desprezo humano pelos monstros.
- Ualfo, veja – Allis apontou. – É o corpo!
Eles chegaram antes da polícia do campus. O corpo de um anão estava caído de bruços. Marcas de perfuração atingiram as costas da vítima, causados por projéteis mágicos, certeiros e mortais. Allis ouviu passos chegando e Ualfo voou da cena do crime. O dracomago revistou a vítima e a reconheceu:
- Bodva! –deixou escapar quando viu o rosto pálido do segundo em comando dos Mysticals.
Em um dos bolsos, um bilhete, que Allis pegou. Antes que a guarda se aproximasse, se afastou do local. Pouco depois que a polícia adentrou a área, ele voltou para ver o que acontecera, fingindo ser um curioso visitante. Ele , assim como outros que se aglomeravam, foram retirados do museu. Desamassou e leu a mensagem. Dizia: Entregue a encomenda no museu- área de história natural.
Ele supôs que Bodva soubesse da natureza da entrega devido à ordem ser específica e o texto, geral. Porém, assim que a “encomenda” foi deixada, o entregador foi atraiçoeirado. Os dardos místicos que mataram o anão foram evocados por alguém que queria restringir o conhecimento do segredo.
Allis não conseguiu fazer muitas suposições. Sendo Bodva um Mystical, e Aurora também uma, ela estaria em perigo. Assim que ele reencontrou-se com Ualfo, e após explicar duas vezes o que descobriu, pediu:
- Procure Hagen, que eu vou ao alojamento dos Mysticals. Aurora está em perigo. Que os deuses permitam que ela ainda esteja bem.
Ahhhhhhhhhhhh, agora entendi onde a gente foi se meter. Tomamos ou não tomamos???
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk