Valkíria era contida por Hagen e por Thon. A guarda se fazia presente, discreta, no local. O barão Everest tinha um brilho dos olhos e um sorriso largo, aumentado pela maquiagem espalhafatosa no rosto.
- Quem pode negociar o acordo pela amiga do príncipe? – o barão quis logo saber.
- Eu sou o irmão dela – Allis respondeu.
- Mas eu sou o tutor de ambos!- Abimalek, que jamais se sentiu responsável pelo papel alegado, agora contrariava todos os princípios para não abrir mão do oportunismo.
- E eu sou mais nobre que os dois! – Aurora apelou a sua nobreza yoriana, que sabia que tinha muito valor na cultura ayoriana, mais do que no próprio reino.
- Ah!- o bufão gingou. – A garota deve ter mesmo potencial, tantos por uma só.
- Sim, seremos os três – Aurora decidiu antes que a contenda levasse por caminhos que ela sabia que seriam tortuosos. - Só não acho que seja adequada qualquer negociata neste local.
- Basta me seguirem – e retirou-se por um dos corredores.
Quando Valkíria se desvencilhou, não havia sinal da Amazona Selvagem ou dos outros dois lutadores na arena. Havia sumido, assim como parte dos amigos.
Uma pequena saleta, que o barão Everest usou para adotar seu alter-ego, serviu de local de reuniões.
- O que proponho – disse de já com um pano retirando a tinta do rosto – é um duelo entre a Amazona Selvagem e Valkíria.
- Isso não vai dar certo, barão. Valkíria foi a única entre nós que não percebeu que aquela luta era uma grande armação. Em uma briga, ela lutaria para valer! – Aurora enfatizou.
- E é o que eu desejo – o bufão respondeu secamente, perdendo totalmente seu tom picaresco.
- Mesmo sabendo que a Amazona Selvagem pode morrer? – Allis perguntou em tom de alerta, também tirando a máscara.
- O mesmo risco corre sua irmã – replicou no mesmo tom.
- Valkíria é uma guerreira – Allis treplicou.
- Então será uma batalha justa. Quanto mais equilíbrio melhor para o respeitável público – ele riu.
- Não é ele que vai correr riscos, por isso não está preocupado com a vida de ninguém. Vamos direto aos negócios! – Abimalek tomou a frente.

- As lutas movimentam dinheiro. Porém, muitos sabem que são teatrais e não querem meter seu dinheiro nisso. Uma luta real seria bem diferente… nobres de sangue celeste seriam atraídos. As apostas seriam em ouro, não em prata, entendem?
- E de quanto ouro estamos falando? – o clérigo ladino balnaçou a sua sacola de moedas.
- Para inscrição: mil coroas douradas.
Abimalek franziu o cenho. Aurora torceu o nariz. Allis desabou os ombros.
- Isto é aposta mínima. Vocês podem entrar com mais se quiserem – ele riu irônico.
Os três fizeram as contas. Contaram cada moeda. Allis tinha fortuna avaliada em exatas setenta e duas moedas de ouro. Aurora apostou quase tudo que possuía, chegando à metade da quantia estipulada para a inscrição. Abimalek completou a aposta, sem, contudo, ficar na bancarrota. Ainda lhe restou boa soma nos bolsos.
Por um tempo eles ficaram olhando aquela fortuna em silêncio. Riram. Nenhum deles confiou deixar o próprio tesouro nos quartos do palácio, por medo de serem roubados. Agora apostavam tudo na roda da fortuna.
Moedas de vários metais e cunhagens cobriam o baú onde o barão depositara as roupas de bufão. O nobre tirou um par de braceletes cintilante dos pulsos e colocou em cima das moedas, dando sinais de que estava coberta a aposta, ao menos de maneira simbólica. Todavia ele não pretendia se desfazer dos braceletes, nem perder a aposta.
- Agora que provamos que podemos nos inscrever. Não vamos nos precipitar, vamos aos detalhes – a maga se pronunciou retomando a altivez.
- Primeiro: as regras do combate devem buscar a igualdade e para isso as armas e as armaduras serão iguais para as duas gladiadoras. Neste ponto, sou intransigente.
- Para nós é mais do que justo – respondeu ela.
- Segundo ponto: eu escolherei o local e pode ser em qualquer lugar do reino.
- Eu não esperava que fosse noutro reino - ela ironizou.
- Terceiro: a cotação da bolsa de apostas será determinada após avaliação do potencial das lutadoras e será divulgada na semana anterior à luta.
- Que será quando?- Abimalek perguntou.
- Em trinta dias, acham razoável? –sugeriu o barão tendo consentimento tácito deles. – Então podem considerar feito, os informarei de todos os detalhes do evento com antecedência. Os senhores, e a senhorita, serão meus parceiros.
- E quanto será nossa comissão nesta parceria? – Abimalek quis saber.
- Há muitos outros custos envolvidos e eu terei que arcar com todos eles. Todos nós teremos riscos. Vocês sabem quanto vão perder- se sua lutadora perder- mas o meu risco é muito maior, natural que eu me proteja. A questão é: vocês conseguem convencer sua amiga a lutar?
- Se depender de Val, a luta seria hoje – Aurora falou angustiada com a demora na finalização do arranjo. A maga já estava querendo sair dali e procurou acreditar na sinceridade de Lorde Everest.
- O duelo não será até a morte, mas será o mais próximo que puder disso. Terei curandeiros no local para evitar que uma tragédia ocorra com nossas meninas. Quem for claramente derrotada, tombar inconsciente, ou se render, perde.
- Ah! Prepare as curas para a sua amazona – zombou o clérigo.
- Então vamos lá – Allis recolocou a máscara – devem estar se perguntando onde nós estamos.
A masmorra foi esvaziada, restando apenas Thon, Hagen, Lisandra, Valkíria e Sir Gareth. Thon já havia sido informado onde estavam os demais, mas não fazia idéia dos propósitos da reunião dos seus amigos com o lorde. Em pouco tempo, as dúvidas deles se dissiparam.
- Valkíria, você quer se vingar daquela vagabunda que te xingou – Aurora atiçou o fogo em brasa da guerreira.
- Eu quero matar! - a guerreira bravejou. Hagen lançou um olhar reprovador para a meia-irmã, pela linguagem chula.
- Nós já acertamos tudo. Daqui a trinta dias você vai enfrentar a guerreira em um duelo justo – ela respondeu com altivez. - Agora vamos nos retirar, foi muita coisa para quem acabou de chegar na cidade.
Ela virou-se para Thon e disse:
- Eu prefiro dormir nos aposentos da minha fraternidade, já vi nobres demais por hoje.
- Sem problemas!
- Eu também vou para lá, vossa alteza.
- Me chame de Thon, Hagen.
- Vossa Alteza – Lisandra fez uma cordial deferência.
- Nos dividimos, mas não estamos separados – Thon filosofou. – Eu sei onde posso achá-los e vocês podem mandar mensageiros para falar comigo mediante o reitor, David. Eu não sei a noite de vocês como será, mas a minha vai ser ótima – disse com um sorriso lascivo, as amantes já tinham sido mandadas para o quarto real.
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No caminho para a universidade Aurora insistiu para o colega Allis acompanhá-la ao templo do deus da morte para lidar, outra vez, com Tiffus, o temível sumo-sacerdote. Aurora não havia esquecido o desejo de tirar o corpo do velho mestre de lá, vontade negada pelo clérigo negro. Agora sabendo que o mestre estava vivo, a tarefa seria mais fácil. Ressabiada, jogou uma conversa mole para Allis, caso algo saísse do previsto. “Melhor ter alguém para servir de distração”, pensou ela.
O templo de Arden não era um lugar convidativo. Se durante o dia, o cemitério, que era o jardim do templo, era sereno, à noite era assustador. As torres da catedral serviam de ninho para as corujas, que se alimentavam dos ratos que se escondiam nos esgotos e eventualmente saiam para a superfície. As gárgulas das calhas projetavam seus olhares para os transeuntes. O portão metálico e com o símbolo da divindade deixava claro que não era hora, nem o dia, para a visita dos mortos.
Aurora bateu nas grades do portão com sua adaga, indo e vindo, até que alguém aparecesse.
- Preciso falar com Tiffus, o sumo-sacerdote! – disse para o primeiro acólito que surgiu com um facho de luz apontando para eles. – Diga que eu sou a aluna de Malus, ele sabe quem eu sou – completou guardando a adaga.
O acólito lançou o facho no rosto dos dois, ofuscando-os e regressou sem nada dizer. Allis sugeriu que voltassem pela manhã, mas a maga estava decidida e por lá ficaram, até que o acólito retornou com uma chave grande para abrir o cadeado do portão. A grade foi aberta, apenas o suficiente para deixar um homem passar. Mu teve que ficar de fora, amarrado em uma arvore de outro lado da rua.
- Sigam-me e não se afastem de mim. Não garanto a proteção de vocês se ficarem muito distantes – disse com voz fria o acólito, mas Allis e Aurora não se intimidaram com homem tão decrépito se achando importante.
Desta vez, Tiffus recebeu Aurora em uma sala dentro do templo. Ele fez questão de recebê-los sozinho. Sentado em uma mesa muito longa, em uma sala de boa acústica, Tifus tomava uma rala e fria sopa de legumes. Havia pratos nos lugares opostos da mesa, mas o aspecto insalubre da refeição, os fez desistir de participar da ceia. Aurora foi direto ao ponto:
- Vossa eminência Tiffus – Aurora não costumava usar pronomes de tratamento pomposos e ficar à vontade. – Deves lembrar que há pouco tempo pedi que o senhor me entregasse o corpo do meu professor, Malus, para que eu pudesse revivê-lo.
- Minha memória recorda desse evento – disse de maneira teatral, sem parecer jocoso. – E certamente a senhorita também recorda o que te disse à respeito.
- É por isso que estou aqui novamente, Tiffus. O senhor me disse que eu não poderia levar Malus para ser revivido porque é contra os dogmas de Arden. “Não permitirás o retorno à vida de nenhum ser vivo.”, não é isso? – citou as Tábuas da Alma, livro sagrado de Arden, esperando confirmação. Tiffus balançou a cabeça positivamente enquanto terminava a refeição.
- Pois eu vim para pegar o meu mestre de volta. Malus foi enterrado vivo! E ainda está vivo, em animação suspensa, embaixo de sete palmos de terra! E se ele está vivo, o seu deus não ficará irritado se trouxê-lo de volta, não é? – ela sorriu vitoriosa.
- O que você tem em inteligência, falta em sabedoria. As Tábuas da Alma também nos ensina: “Protegerás os santuários dos mortos.”
O sangue de Aurora ferveu, mas ela se conteve.
- Tiffus, eu imaginava que um sacerdote sábio como você tivesse percebido que Malus não estava morto de fato. E por sua pouca vontade em me ajudar, vejo que você está feliz com isso. Você sabia que Malus estava vivo e nos fez entrar naquele logro? E agora distorce as palavras de Arden para manter a sua farsa.
- Eu não vejo violação dos dogmas sagrados em nenhum ponto por minha parte. Não revivi ou matei ninguém, como você bem sabe. Também não menti para vocês. Quando o reitor me chamou para ver o que havia com Malus, eu tentei me comunicar com os mortos e disse-lhe que o espírito do morto não respondia, o que era verdade.
- Você induziu o reitor a acredita que Malus estivesse morto!? – Allis arregalou os olhos.
- Não há nenhum pecado no que fiz – sorriu sombriamente o sumo-sacerdote.
- Você está mantendo um homem prisioneiro.
- Sim. Uma pena adequada para alguém desprezível – Tiffus pensou em quanto tempo o antigo mestre levaria para escavar a tumba com as próprias unhas, caso se atrevesse a voltar ao corpo e abriu um tétrico sorriso.
- Não ganharemos nada aqui – disse Allis – é melhor nós irmos embora, Aurora.
- Você tem razão, Allis. O sumo-sacerdote já disse tudo que precisávamos saber e não há nada que possamos fazer – respondeu em bom som.
Quando saíram do templo, Allis tranqüilizou Aurora, que fazia mil planos.
- Eu posso ver Malus! – ele disse e esperou alguns segundos para que ela se tocasse.
- Como?
- A magia de ver o invisível. Lembra que você disse que teria que estudá-la? Para mim ela é óbvia.
- Estamos esperando o que para usá-la? Malus, você está aqui não está?
Eles prefiriram sair das ruas e retornaram para a segurança da universidade. Allis, um Blue Dog , conseguiu negociar sem problemas a entrada naquele horário noturno. A salvo, eles rumaram para um pátio iluminado por luzes mágicas tênues. Allis usou sua nova magia.
O dracomago teve um grande susto e virou o rosto. Ele viu uma luz cálida em forma de velho. Um velho de aspecto fantasmagórico. Um homem nu, no perigeu da idade. Uma visão repugnante. Abrindo novamente os olhos, ele tomou coragem e encarou o espectro.
- Onde ele está? – perguntou Aurora inquieta. – Ele está ao meu lado, não é?
- Sim – limitou-se a responder.
- Allis, Malus escuta tudo que dizemos e a magia tem duração limitada. Você precisa ler os lábios daquela boca desdentada. Só você poder fazer isso! – ela tinha dúvida na voz, logo dissipada. - Malus! Você viu o que seu antigo aprendiz fez, não viu, velho? O que podemos fazer por você agora? – ela olhou, para Allis esperando uma tradução.
Malus, compreendendo o drama da situação, procurou ser o mais expressivo possível na sua fala, já que sua na forma astral não era possível produzir sons físicos. A boca se mexia devagar, transfigurando o rosto envelhecido numa sucessão de caretas.
- “Minha cela…sala..crânio… mestre. Mapa, tesouro meu. Cajado proibido escondido. Se pagar…pegar, falar comigo.”
Malus evanesceu.
- Allis, nós precisamos invadir a sala de Malus. Espero ninguém tenha feito alguma mudança no período que nós estivemos fora.

Sem muita relutância, Allis concordou com o ato ilícito. Para sorte dos dois, não houve mudanças significativas na masmorra onde Malus se ocultava. O calabouço, que ele chamava de sala, tinha cheiro de mofo durante a primavera. Lendas sombrias que cercavam o local fizeram como que o trabalho de remoção dos pertences do professor moribundo fosse bastante problemático.
A primeira equipe que chegou ao local se assustou com os símbolos nos corredores. A segunda ouviu ruídos anormais quando desciam os degraus e não tiveram coragem de entrar na sala. O terceiro grupo foi acometido de uma doença misteriosa, assim que começou o trabalho de busca pelo patrimônio da universidade. O reitor David Holly, impaciente, decidiu deixa a cargo do professor elfo Nym a missão de limpar a sala. O elfo não tinha medo dos espíritos dos homens, não era suscetível a maioria das doenças que acometiam a raça humana e era acostumado a viver tanto na luz, quanto na escuridão. O professor estava pronto para adentrar nos domínios do seu antigo colega assim que o sol raiasse.
Contudo, à meia-noite, Aurora e Allis entraram no prédio dos professores por uma janela aberta. Andaram sem serem perturbado pelos corredores, até chegarem à escadaria decorada com símbolos do deus da morte e desceram para o andar inferior tateando as paredes. Um ruído mórbido percorreu o local. Aurora retirou a pedra luminosa que tinha e descobriu que era o vento nos dutos de ventilação obstruídos que provocavam tais barulhos. Chegaram até a porta. O lacre colocado pelo último grupo de servos foi quebrado com uma magia simplória. Eles entraram na sala, que Aurora conhecia bem, quase não houve mudanças na posição das peças.
Ossos e crânios existiam por todo lugar. Malus dissera: crânio e mestre. Ela lembrou-se que, numa discussão passada, Malus mostrou que tinha a ossada do antigo mentor dele como espólio. A ossada macabra teve suas faixas removidas e o interior do crânio violado, por Aurora, que não estava nenhum pouco receosa como o que fazia. Allis teve nojo daquela manipulação dos mortos e apesar de ser um mago, não procurou qualquer conhecimento sobre necromancia, na ordem dele. Limitado a manter o local iluminado, ele viu quando Aurora desenrolou um pergaminho dobrado da boca da caveira. Era o procurado mapa.
Tão rápido quanto entraram lá, eles escaparam e cada um rumou para o próprio alojamento. Assim que Aurora chegou na fraternidade dos Mysticals e abriu a porta de seu modesto dormitório, o anão Bodva a surpreendeu:
- Me siga. Épsilon me disse que é algo urgente e de seu maior interesse.