
- Ninguém me falou nada sobre isso – Aurora disse para Allis e Abimalek, assim que ambos explicaram que ela e Valkíria seriam as acompanhantes deles no baile.
- Hagen se esqueceu de ler os detalhes do convite – Allis explicou. – Estamos tão chocados quanto você!- passou para ela o convite que tinha em mãos. - Por isso, apelo para o seu bom senso, Aurora – clamou enquanto a maga lia as entrelinhas do convite e percebia que não havia margem para má interpretação, sob pena de cometer uma gafe.
- Não tente nada de ousado – ela consentiu ameçando o dracomago fazendo um das unhas de rubi crescer diante dele . Allis entendeu o recado e falou:
- Abimalek vai acompanhar minha irmã – e dirigindo-se a Valkíria, que estava trocando de roupa atrás de um biombo, disse: – Por favor, irmã, não custa nada as damas cooperarem.
Valkíria saiu de trás da divisória, com sua roupa preferida: a roupa de leão que mandou fazer em Yoria e que estava muito bem guardada no meio da mochila de equipamento de aventuras.
- Pronta!- falou pueril.
- Que bom que é um baile de máscaras! – Allis suspirou.
- Baile de máscaras?! – Aurora franziu o cenho – Ufa! Pelo menos assim talvez ninguém me reconheça andando com você.
- Isso vai dar em namoro – Abimalek interrompeu fazendo reverência e dando o braço para Valkíria acompanhá-lo.
- Onde está Hagen? – Aurora perguntou, como se percebe-se naquele momento a ausência do meio-irmão.
- Ele pulou a janela, literalmente, e foi atrás de uma acompanhante. Já deve estar na universidade se depender só da velocidade dele – Abimalek respondeu já com Valkíria, feliz, ao lado.
Serviçais conduziram o grupo pelas galerias do impressionante castelo imperial ayoriano e foram guiados até um caminho inesperado: as masmorras.

As masmorras do castelo imperial possuíam ornamentação mais sombria, o que contrastava com o brilho da superfície. Séculos atrás, era uma área usada para aprisionar inimigos importantes: generais, príncipes e altos sacerdotes; prisioneiros que não mereciam ser jogados em valas pútridas e tinham mais valor vivos. Com raras exceções, nas últimas décadas as masmorras caíram em desuso, salvo na guerra Ayoria-Jandy e também quando o último imperador humano de Ayoria – Owen Gadur – foi mantido prisioneiro e libertado pelo desconhecido Bred Storm e seus amigos.
Para esquecer este período negro da história, no reinado do pai de Thon, a área foi tornada aberta para uso dos nobres da corte imperial, com exceção de um único cômodo, a cripta onde foi assassinada da mãe de Thon – a imperatriz Ana – transformada em um memorial. Apesar da abertura, ainda corriam estórias de passagens secretas antigas ainda estão ocultas e salões enormes ainda continuam de acesso restrito, ou mesmo lacradas.
A festa foi oferecida por um lorde – o Barão Everest – um homem boêmio e perdulário. Na ante-sala, centenas de máscaras aguardavam os convidados. Aurora escolheu uma máscara aquilina vermelha brilhante. Abimalek uma máscara de felina e Valkíria escolheu uma leonina que cobria todo o rosto, deixando visível apenas o queixo, transformando-se em uma leoa. Allis procurou, procurou e não achou uma máscara de dragão, ficou com uma máscara de camurça com face chorosa.
Quando chegaram ao salão do baile, Thon estava sentado em um trono apropriado para o tamano dele, usando uma máscara de prata e ouro e trajando majestosa vestimenta. Ao lado dele, várias halflings para servi-lo.
- Vossa Alteza vos convida para sentarem-se ao lado dele – disse uma mascara azul com voz rouca e grave. O mascarado carregava uma espada curta e tinha um broquel em um local onde todos estavam desarmados.
- O anfitrião não chegou ainda – Thon disse aos seus amigos, após serem trazidos pelo mascarado. - Obrigado por trazê-los aqui Sir Gareth, mas ainda falta um a chegar. O que houve com Hagen?
- Ele pediu mil desculpas, Thon, mas ele virá – explicou Allis.
- Está tudo bem. Sir Gareth, onde está o barão?
- Lorde Everest já se encontra nas masmorras, vossa alteza imperial. Ele está organizando a terceira e última parte da festa – Thon e os outros haviam chegado durante a segunda parte – e não tardará. A previsão é que isso ocorra assim que aquela grande ampulheta se esvaziar. A festa será no fosso.
- Fosso?! – Thon fez uma expressão encoberta pela máscara.
- Meus homens estão no local. Como chefe da guarda, asseguro que todo o entretimento será em ordem– a voz grave e rouca de Gareth não deixava claro se ele estava tranqüilizando ou deixando as pessoas ressabiadas. Como ele era um Paladino Defensor Nobre, Thon entendeu que tudo estaria bem.
Hagen chegou com Lisandra vestida em um vestido longo e singelo. Ele com máscara alada e ela com máscara floral. Mesmo chegando atrasados, conseguiram dançar a última música. Pouco hábil na arte da dança, Lisandra conseguiu instruí-lo a acompanhar os passos dela e ele cometeu mínimos erros. A garota atraiu muitos olhares da nobreza e dos demais presentes, um deles em especial: o de Aurora.
Sentada em uma cadeira ao lado do príncipe e absorta em pensamentos, a maga voltou a si, assim que percebeu a chegada da exibida Lisandra. A moça dançava e distribuía sorrisos para os velhos cortesãos. A líder da fraternidade Dendrória era mestre nas relações sociais, apesar da juventude. Como sorrir, como portar-se, o tom de voz que se deve empregar com cada classe social, para ela era natural. Outra habilidade era a de perceber se havia algum observador lançando olhares invejosos: Aurora tinha sido notada logo que lançou um olhar aquilino flamejante sobre a não tão inocente colega.
Lisandra fez com que Hagen entrasse no jogo sem saber. Para ele, era uma dança, para ela uma exibição. “Quem é ela?”, “ De onde veio?” , “É filha de quem?” enchiam o salão, logo após a dança terminar. Hagen, mais cortês do que nunca, conduziu a dama até o assento como um verdadeiro cavalheiro. Eles sentaram-se próximos de Aurora e Allis.
- Que sorte você ter conseguido entrar na festa – disse Aurora com ar de ironia perceptível nas últimas palavras.
- Querida! – o ar de falsidade imperou. – Nada é impossível quando feito com amor – ela bateu palminhas.
- Eu sei o tipo de amor que mulheres como você querem – pensou Aurora. O sorriso amarelo dela, contudo, revelou parte dos sentimentos para Lisandra. A rival sentiu o repúdio invejoso da colega e ficou muito satisfeita com o resultado.
Dois percussionistas quebraram a harmonia do baile e um arauto anunciou o começo da última parte da festa; no fosso. Uma parede de pedra se moveu revelando um ambiente, escuro. Tochas bruxuleantes acenderam-se e uma sombra apareceu contraluz. Um bufão de roupa branca e púrpura e máscara brilhante e sorridente surgiu diante de todos.
- Boa tarde meus camaradas! – falou em tom excessivamente circense. – Venham ver o maior espetáculo de Aexis! – o palhaço sumiu dentro da câmara.

As damas e os cavalheiros se dirigiram até o novo salão. Este era oval e tinha um fosso ao centro. Dentro do fosso, jaulas nas paredes, onde era possível ver animais ferozes aprisionados. Thon e os demais sentaram-se na extremidade oposta do salão, em arquibancada de visão privilegiada para o interior fosso. Alguns convidados ficaram escorados em parapeitos à borda vendo aqueles animais selvagens.
Luzes calendoscópicas brilharam revelando o palhaço no topo da câmara. O bufão se lançou, preso a uma corda colorida e fez piruetas no ar. Abimalek estudou os movimentos e se sentiu incomodado por aquela exibição. O sacerdote ladino estava acostumado em realizar tais proezas, não em assisti-las.
O bufão acrobata se balançou em pêndulo cônico e aprensentou o evento em tom circense:
- Digníssimas damas e corteses cavalheiros. Proeminentes príncipes e princesas. Vós viestes ver vibrantes venturas? – pausou. Quando completou uma volta completa disse rufante: - Farei as ferozes feras ficarem face-face!
As platéia aplaudiu.
- Vejam o mais novo animal da masmorra. Trazido pelo príncipe Thon e seus amigos. O temíveeel: DRAGONE! – gritou enquanto as luzes do fosso se acenderam, num passe de mágica, revelando uma jaula encoberta por um pano vermelho que a poucos segundos não estava lá.
O bufão se balançou na corda, prendeu-se em uma haste de apoio da corda, ficando de ponta-cabeça, e tirou o pano da jaula. O dragone estava lá e mesmo amordaçado e acorrentado ainda era temível. As pessoas recuaram, algumas damas soltaram gritinhos e Lisandra segurou mais forte no braço musculoso de Hagen.
Valkíria sentiu-se roubada e se levantou:
- Meu dragone!
- Calma, Valkíria – Thon se apressou em intervir. – Está tudo certo, é só uma brincadeira.
O bufão desceu no fosso rodopiando pela corda. Cobriu a jaula e a empurrou uma cela da masmorra, fechando a porta.
- Qual animal lutará aqui? O mais perigoso. O senhor de todos eles: o bicho homem!
- Thon – perguntou Hagen. - Que tipo de espetáculo bárbaro é esse? Onde está o anfitrião?
- Hagen, não está claro para você? O bufão é o anfitrião. Aquele é o lorde Everest.
Hagen fez ar de surpresa.
- Ouvi falar de um lorde que era patrono das artes cênicas, mas que também promove “artes marciais”. Me falaram que ele era um rico excêntrico. Quer mais excentricidade do que um nobre de sangue azul se passar por palhaço?
No meio do salão, o bufão anunciava o que viria a seguir.
- Do lado esquerdo da arena, um homem que teve que toda sua honra destruída depois de lutar por tudo que é mais sagrado e justo: O Cavaleiro Exilado!
Uma das jaulas se abriu e um homem robusto com uma brunea, um capacete que lhe cobria o rosto e carregando uma espada bastarda e um escudo retangular, trazendo o símbolo do império.
- Do lado direito, ele que viveu à sombra da nossa civilização e por isso a odeia e quer destruí-la: O Gladiador do Deserto!
A grade metálica é arrombada com escorão do escudo de aço. Um homem vigoroso e torneado, com armadura parcial cobrindo-lhe o peitoral, uma máscara metálica escondendo a parte inferior do rosto e elmo protegendo a cabeça. Um mangual foi empunhado ameaçadoramente em direção do público e o homem rugiu.
O palhaço subiu na corda colorida e ficou acompanhando a luta do alto e deu o sinal para que a luta começasse.
Gladiador do Deserto não esperou e urrou na direção do inimigo. O mangual se chocou contra o escudo do Cavaleiro Exilado, que mal teve tempo de defender. Outro golpe veio em seguida e cavaleiro teve que recuar.
Valkíria ficou empolgada. O clima de êxtase tomou conta da multidão. Cada golpe dado era narrado espalhafatosamente por lorde Everest.
- O Gladiador lança seu ataque esmagador. Ele tem sangue nos olhos. Ele odeia o império e o símbolo do escudo do Cavaleiro o deixa mais furioso. O cavaleiro nada pode fazer a não ser tentar se evadir. Pelos deuses! O escudo do Cavaleiro não aguentará mais esta temível ofensiva.
O Cavaleiro se afastou do alcance do gladiador e matinha distância. O Gladiador fez uma finta e arrebentou o escudo do Cavaleiro. O gladiador desferiu o golpe final, mas o cavaleiro se esquivou e passou a lâmina nas costas do rival provocando um rasgo na armadura.
- Espetacular reação do Cavaleiro Exilado. Ele agora gira a espada e se esquiva dos golpes do mangual do gladiador. Ele segurou a espada com as duas mãos e…Não pode ser! O gladiador defendeu o golpe com o escudo.
Enquanto a platéia vibrava, com a sequencia de golpes e contragolpes perfeitos. Para Hagen, aquilo estava perfeito demais. Em poucos minutos, Aurora, Allis, Thon e Abimalek foram percebendo que aquilo era apenas uma encenação de combate. Muito bem feito, mas uma encenação. Feito para entreter nobres obesos e carentes por emoções mais viris. Valkíria adorava aquele jogo, para ela tudo era real. Os amigos preferiram não a desiludir.
Os dois homens, desarmados, mediam forças com as mãos. O cavaleiro tropeçou e o gladiador, aproveitando o deslize, pegou um pedaço de madeira do chão e acertou as costas do rival antes que esse se levantasse. O gladiador pegou a primeira arma que viu, a espada bastarda, e a ergueu para fulminar o adversário.
- O Cavaleiro Exilado esta tonto. Ele não está vendo que o Gladiador do Deserto quer matá-lo com um golpe pelas costas. Ele vai matar! O Cavaleiro esquiva – a multidão delira – e chuta o gladiador para as grades. Oh, não!
O gladiador bateu na grade da jaula do dragone e um som de metal despedaçando foi escutado de dentro da cela. Um urro leonino ameaçador gelou a platéia.
- O dragone quebrou se soltou das correntes!!! Ele pegou o Gladiador do Deserto!- gritou desesperado o bufão.
Aurora acalmou os amigos avisando que o urro que ouviram era uma ilusão barata, encomendada pelo barão para assustar os trouxas. A pata do “dragone” era menor que o do monstro verdadeiro, mas todos concordaram que o ator que interpretava o Gladiador do Deserto fingia bem estar sendo mutilado, até sangue falso havia. Valkíria morria de rir.
Uma flecha precisa acertou a garra do monstro, que liberou o gladiador. O barão Everest aproveitou a confusão para chamar o último ato da peça.
- Quem será que lançou esta a flecha salvadora? Pelos deuses – exaltou-se no momento que outras luzes mágica se acendiam – é a Amazona Selvagem!!!
A mulher surgiu do lado oposto de onde o barão surgira. No alto da câmara ela desceu por outra corda colorida até a arena.
- Deixe que eu cuido dessa fera. Não a monstro que os homens temam que uma mulher não possa enfrentar! - falou a fleumática arqueira encapuzada.
A guerreira sacou duas espadas e forçou a entrada na jaula, que estava só encostada. Ouviram-se rugidos – todos ilusórios – e sons de espada. A Amazona Selvagem apareceu , ensangüentada, e trouxe, num rápido relance, a cabeça de leão metálico para provar a vitória, e em seguida jogá-la de volta à cela.
Valkíria, que acreditou todo o tempo que aquilo era real, viu em choque o ocorrido com o seu dragone e bravejou:
- Meu dragone, ela matar meu dragone!
- Calma, Valkíria- Aurora tentou em vão acalma-la.
Ignorando os apelos dos amigos ela derrubou o que viu pela frente e foi até o parapeito.
- Agora você vai morrer! – espumou ódio para a Amazona Selvagem.
- O que houve minha dama? – o bufão interveio saltando da corda para lá.
- Meu dragone morto, agora ela morre! – apontou para a amazona.
O silêncio súbito que tomou conta da platéia fez com que a amazona ouvisse a ameaça feita contra ela. E não deixou barato:
- E quem vai me matar? Você e mais quantos?
- Eu, matar você sozinha!
- Nossa! Que medo! – debochou. - Não tenho medo de leão, nem de leoa.- zombou. - Já matei um agora mesmo, posso matar outro.
Valkíria arrancou a máscara de leão que usava e procurou a espada que não estava onde costumava estar. Antes que pudesse descer, o barão tentou um último trunfo.
- Seu dragone não está morto. Ele foi só ferido e já está sendo curado.
Hagen, Thon , Abimalek, Aurora e Allis se entreolharam e disseram a mesma coisa, em silêncio, um para o outro:
- Sem cabeça?!
- Meus clérigos vão deixá-lo novo em folha e não há razão para esta briga inútil.
Valkíria acreditou e cuspiu a espuma que se acumulava na boca. Depois retomou a fúria:
- Ela disse que me matava! Eu vou matar ela- Hagen e Thon tentaram pará-la. Sir Gareth se aproximou do local.
- Ah! Entendo… Eu tenho um jeito muito interessante, tanto para mim, quanto para você, de resolver isso.