Abimalek havia capturado um dos cães espinhosos, acossado na vegetação hostil. Logo em seguida, largou o vegetal amarrado em meio aos restos fibrosos das plantas derrotadas e tratou de atender Mu. Aurora estava abraçada ao fedorento animal, aos prantos, clamando ao sacerdote para que ajudasse a estimada montaria.
Valkíria segurava com firmeza a corrente de Espuma, que estava ensandecido: no caos da batalha Aurora acertou-lhe com as unhas de rubi. O cão pensava que a maga fosse uma inimiga. A guerreira precisou gritar, para que o cão se aquietasse. Espuma se acalmou e todos gelaram com o grito. O clérigo de Arina, após assistir o caprino, reanimou com magia um dos soldados que havia tombado em combate, deixando-o fora de perigo.
Allis jazia tombado. O sangue lhe encharcava a vista e seu corpo estava coberto de chagas, provocadas pelas mordidas dos cães espinhosos que o atacaram. Os ferimentos provocavam dor tão aguda que ele não conseguia desfalecer. Sentia uma paralisia tomar conta do corpo e um formigamento voraz pelas extremidades. Ele não conseguia falar, nem ver, mas escutava o que se passava ao redor. Allis ouviu que todos estavam sendo acudidos, menos ele. Hagen estava de pé ao lado, havia matado os cães espinhosos que atacavam Allis caído, mas não sabia com ajudar o companheiro. O dracomago agonizava e filetes de sangue minavam pelos espinhos cravados no corpo. A morte chegava lenta e inexoravelmente; a cura do clérigo a evitou uma tragédia naquele dia.
Refeitos, eles cruzaram o vale, indiferentes à cara de descontentamento de Allis, que remoia e resmungava palavras ininteligíveis. A rota que trilhavam os levou por caminhos tortuosos e acidentados. Os cavalos demandavam muitos cuidados. Mu ainda estava alquebrado e Aurora precisava guiá-lo também. Só Thon ainda montava, Cereja não tinha se ferido tanto no combate. A noite chegou como seu manto estrelado acalentando as feridas.
Valkíria, enquanto preparava o acampamento, viu um sinal de fumaça subindo de uma grande pedra plana que emergia na paisagem. Ela chamou a atenção dos demais para aquele evento singular. Eles ainda estavam longe de Serra Antiga, para vislumbrarem, tão próximo, um sinal de civilização.
- Eu posso investigar melhor do que vocês quem está acendendo a fogueira – disse o clérigo. – Tomarei a forma de uma pantera negra e vou furtivo até a fonte desta fumaça!

Abimalek concentrou seu espírito e mente e o corpo dele foi se transmutando numa besta selvática. As vestes e armas se fundiram ao corpo e o jovem assumiu a forma da pantera, que havia anunciado. O clérigo se pôs sentado e girou a cabeça, lentamente, apontando um olhar perfilado em direção a lua fina. Pura exibição.
Quando ele correu, logo se notou algo estranho. O andar era desengonçado e trôpego. Era visível que aquilo não daria certo, mas era tarde mais para avisar a confiante pantera que aquilo seria um fracasso. Todos se entreolharam, riram sinistramente, e decidiram esperar pelo malogro da missão, para que pudessem ser a cavalaria. Abimalek estava muito orgulhoso, um fracasso o deixaria mais humilde, foi o consenso geral. Thon foi enviado logo atrás da pantera para que emitisse o sinal de alerta assim que algo desse errado.
Abimalek não estava ciente nem de Thon ao seu encalço, nem da própria inabilidade como felino. Sem noção de tamanho, ele se abrigava por trás de arbusto que não o encobria. Se ocultava em sombras ignorando que os olhos dele brilhavam como vaga-lume e escondia-se em pedras deixando a cauda balançando de fora. Thon possuía excelente visão noturna, e por isso, perdia um tempo precisos prendendo-se para não rir a cada demonstração de “desenvoltura” do colega.
No alto do platô, um bando de homens-lagartos realizava uma importante cerimônia. Pediam aos deuses um sinal que os orientasse naqueles tempos de guerra. Desde que os rituais de adivinhação tinham ficado incertos, a dúvida havia pairado sobre os guias religiosos, mesmo entre os monstros e seus xamãs.
Sem querer, Abimalek participou de forma oportuna ao rito conduzido pelo cacique reptiliano. Julgando-se infiltrar sigilosamente no campo inimigo, o clérigo metamorfo aproximou-se sob os olhares fascinados das criaturas, que dançavam em volta deu uma fogueira ao som de batucada.
As criaturas dançavam curvadas em volta do fogo, remexendo as caudas em frenesi. Alguns deles carregavam maracás, enquanto outros, atabaques. O chefe do ritual carregava dois chocalhos e estava paramentado com um cocar de ossos. Abimalek sentiu a música reverberar no corpo, fazendo-o estremecer. O clérigo escalou um bloco de pedra lavrada que se sobressaia daquele rochedo, sem saber que se tratava de uma pedra sagrada, onde os répteis humanóides talhavam runas há séculos.
Quando o xamã girou com os dois chocalhos entre o peitoral, a música e a dança pararam de pronto. O som do chocalho esquerdo quebrou o silêncio quando foi apontado para a pantera em cima da pedra. As maracás se agitaram uma única vez. A pantera congelou. O segundo chocalho soou novamente, agora os dois braços do monstro estavam estendidos na direção do clérigo, ainda na forma de fera. As maracás ,novamente, com mais vigor soaram e cessaram ao mesmo tempo. O xamã sacudiu as maracás para baixo e se curvou com o focinho quase tocando o chão, enquanto as balançava. Abimalek saltou da pedra ficando diante a fogueira. O xamã rugiu, ainda com a cabeça rente ao chão, fitou a pantera, e agitou e a cauda. A dança recomeçou. Os homens-lagartos dançavam em um grande círculo em torno da fogueira. O xamã e a pantera giravam mais próximos dela.
Contra a própria vontade, o clérigo estava preso pelo ritual e dançava faceiro sem conseguir se desvencilhar daquele feitiço. A cada passo ele perdia mais noção de quem era e se sentia mais bestial. Sentiu a besta tomar conta dele e para logo ter o espírito quebrado pelo poderoso xamã e sua música trovejante. Naquele momento ele não era mais um homem, era só uma pantera, nem isso; um simples gatinho.
Thon tratou de voltar e trazer ajuda. Ele não era bobo de enfrentar sozinho um grupo de monstros que faziam uso de magia.
Uma rocha pontuda sangrou a cabeça da fera e o sangue foi colhido em um vasilhame de pedra bruta. O xamã bebeu o sangue, para em seguida gargarejá-lo e cuspi-lo no fogo, que vibrou com a oferenda. A chama foi apagada pelas fêmeas e os machos colheram as cinzas daquela fogueira e, um a um, passaram-nas no paredão sagrado. Depois que todos terminaram, a pedra emanou um tênue brilho, revelando antigas runas ocultas. O xamã leu os sinais formados pelas cinzas e talhou uma nova runa nela. O brilho pulsou algumas vezes e apagou-se, ocultando os símbolos. Tão logo o ritual foi completado o grupo desceu o rochedo e voltou para as minas onde viviam.
Abimalek estava moribundo, mas ainda vivo, havia recobrado os sentidos ainda durante as etapas finais do rito, mas não pôde erguer-se, sob risco de ter destino pior que a morte: morte final, a qual nenhum poder mortal poderia reviver. Quando os homens-lagartos deixaram o local, o esquecendo ao lado das cinzas da fogueira, ele agradeceu à deusa pela proteção. Transmutou-se para a forma original, cujo processo regenerou parte do sangue perdido e cicatrizou-lhe o ferimento na cabeça. Os seus amigos chegaram logo após e vendo que nenhum monstro se encontrava, iluminaram o lugar com as pedras mágicas que traziam escondidas.
-Xiii! Ele tá morto - lamentou Thon, vendo o corpo do amigo caído na escuridão.
- Ainda não – murmurou o “morto”. - Botei todo mundo para correr! – mentiu descaradamente. – Só estava descansando um pouco esperando vocês chegarem. Demoraram, hein? – fanfarrou ainda meio grogue.
Aurora e Allis pressentiram que algum ritual místico acabara de ser conduzido e examinaram a fogueira. Logo concluíram que aquilo tinha sido feito com intuito de gravar uma escrita secreta em algum lugar.
Aurora rapidamente deduziu que a parede seria o local mais apropriado, não dando tempo para que Allis especulasse ou que Abimalek palpitasse. O clérigo apenas confirmou o raciocínio da maga, com se ele estivesse realmente ciente do que realmente acontecera.
A maga dedilhou a lápide áspera que continha resquícios de fuligem e como previra, nada encontrou. A escrita secreta deixara pistas.
- Um feitiço de ocultação de palavra – falou para si mesma, porém alto o bastante para que todos ouvissem.
- Você consegue revelar-lhe o teor? – o dracomago perguntou.
- É uma mágica da escola Alteração. Se fosse uma ilusão barata seria muito simples.
- Ualfo ficaria irritado se ouvisse você chamando “ilusão barata”. – sorriu o dracomago. – Se é mais complexo, o que podemos fazer?
- Eu, para variar, tenho a solução, mas estou incerta se devo utilizá-la – suspirou a princesa de Yoria.
Allis olhou para a cara dela e fez uma pequena deferência e recuou. Após receber aquela massagem no ego, Aurora sacou da mochila, um tubo contendo alguns pergaminhos. O dracomago reconheceu, eles haviam sido entregues por Tifus, o sacerdote do deus da morte que tinha conhecido após o funeral de Malus.
A maga folheou as páginas amareladas e encontrou o feitiço que precisava. Pergaminhos eram escritos em linguagem mágica simbólica, bastaria ler os signos em voz alta que a mágica seria liberada. O dilema interior que a feiticeira sentia era que uma vez lido, glifos sumiriam para sempre, exaurindo até a página onde se encerravam as palavras. Ela desejava, com mais calma, estudar aqueles símbolos e aprender aquela fórmula para si, e não depender de nada ou ninguém.
- Eu posso buscar esta fórmula depois. Quem sabe eu mesma não deduza sozinha? – pensou com seus botões e leu o pergaminho sem hesitar.
- Ver o invisível. Tão óbvio! – Allis teve um lampejo assim que Aurora leu o pergaminho, a mente dele se abriu e viu os caminhos que o faria dominar aquela magia tão útil, às vezes os magos simplesmente deduziam as suas magias, ao invés de precisaram se empenharem por dias e dias em estudo.
No entanto, era Aurora que tinha sido possuída pelo dom da visão. Ela podia ver mais profundamente do que qualquer um naquele platô. Só que ela avistou muito mais do que gostaria.
Para ela somente, a parede brilhava como um luar singelo e era possível ver, encobertas as runas que os sacerdotes reptilianos gravaram. A visão era obstruída por objetos inesperados: páginas flutuantes, dezenas delas. As folhas giravam em torno dela como se estivessem sendo levadas por um torvelinho.
Aquele cenário não havia sido previsto por ela. Mesmo sabendo que a magia de visão teria tempo limitado, Aurora não pôde deixar de ser atraída pelas páginas que espiralavam na velocidade de uma levíssima brisa. As folhas tinham aparência plásmica verde-amarelada e quando ela as tocou sentiu uma ínfima dormência na ponta dos dedos; frias.
Aqueles textos eram conhecidos por ela, sua excelente memória não deixava nada se perder. Ela estava diante das páginas do livro que Bodva mostrou para ela na fraternidade dos Mysticals. Veio na mente o estado alquebrado e débil de Épsilon, o líder da fraternidade e último estudioso daquele livro perigoso. Ela tentou ler as palavras daquelas páginas fantasmagóricas, mas elas eram apenas uma cópia da vaga lembrança a qual retivera do livro, que folheara sem se atentar. Ela convenceu-se que a negligência dela criara um monstro que a engoliria. “Um livro não se conhece pela capa”, lembrou-se com pesar do adágio, porém notou algo ainda mais revelador estava encoberto por aquela cortina.

Ofuscado pelo brilho do paredão das runas e oculto por um enxame de papiros estava Malus – o finado professor de Aurora. Como uma alma penada que perseguia seu algoz, ele estava diante dela, completamente despido num corpo prateado. Aurora estapeou as folhas para que saíssem do caminho e pode ver a face do velho mestre. Na hora não sabia o que pensar: espírito do ancião seria uma ameaça ou um mensageiro do outro mundo?
O espírito percebeu que Aurora olhava fixamente para ele, ainda aturdida. Malus tentou falar algo, mas sua voz não saia da sua boca funda, espectral e desdentada. A astuta jovem pode ler claramente a mensagem nos lábios murchos do fantasma: Eu estou vivo!
- Não pode ser!? – exasperou-se levando ao estado de alerta seus companheiros que já estavam preocupados devido ao excesso de gesticulação por parte dela.
Malus balançou a cabeça e respondeu positivamente a questão involuntariamente feita:
- Eu estou vivo, mesmo! – articulou gesticulando para enfatizar que não falava metaforicamente.
Aurora praguejou em pensamento. A resposta que acabara de ler dos lábios murchos e espectrais do velho mestre a fez centrar-se nos pensamentos. Pensou por uma fração de segundos e concluiu que Malus poderia ouvir a voz dela; que o livro era perigoso de verdade; e que as runas da parede ainda estavam visíveis e ela tinha pouco tempo para lê-las.
- Fique por aqui, eu falo com você daqui a pouco – falou para o vazio onde em que Malus se encontrava, deixando os demais confusos com as palavras proferidas.
Ela observou a parede e constatou qual das runas tinha sido gravada mais recentemente. Ela não sabia o significado, mas como tinha formação em idiomas, facilmente identificou a língua: baixo dracônico. Memorizou alguns dos símbolos e munida de pena e tinta os desenhou os símbolos no papel do pergaminho que tinha acabado de usar.
- Allis, você sabe a língua dos dragões? Pode ler o que isto significa? – apontou a folha para ele de forma imperativa.
O dracomago olhou o texto e respondeu catedrático:
- Isto está escrito em baixo-dracônico, é uma versão deformada da língua dos dragões cromáticos: o dracônico. – falou tomando a folhas em mãos.
- E dragão tem mão pra saber escrever? – Abimalek rebateu incrédulo.
- Os dragões criaram este alfabeto milênios atrás para administrarem seus impérios. Os dragões mais velhos escrevem usando magia, outros usam servos para cumprirem a tarefa. – explicou com ar professoral o dracomago, se sentindo importante.
- Viu Valkíria, você pode fazer igual aos dragões: mandar alguém escrever pra ti!
Allis fechou a cara e ignorou o chato sacerdote. A irmã dele já fazia aquilo com ele. Ele voltou-se para Aurora:
- A questão é que não sei o que significam estes garranchos deformados pelos antigos asseclas dos dragões, que se degenerou durante os séculos até chegar nisto! – petelecou a folha.
- Toda esta didática para dizer que não sabe? Que belo dracomago! – Aurora enfezou-se.
- Ora! Você é formada em línguas ocultas e modernas no famoso liceu da Cidade do Lago, por que não aprendeu baixo-dracônico? -criticou-a.
- Estava aprimorando o meu sotaque nas línguas das raças aliadas para que não ficassem sofríveis como o seu ayoriano – ela revidou.
Hagen interveio:
- Dama e cavalheiro. Vossas excelências estão perdendo tempo em brigas tolas. Os senhores não acham que nós estamos suficientemente atrasados para nos darmos o luxo de nos ofender verbalmente. Antes que pensem o contrário, a resposta é: não! Respeitem ao menos o repouso dos mortos que carregamos com tanto ardor.
- Eu tenho como traduzir este texto – afirmou Allis, não conseguindo guardar rancor com as críticas exageradas de Aurora.
- Eu não te chamei de burro – Aurora desculpou-se com o maior cinismo. – Só acho que seu sotaque pode revelar que você mora fora dos reinos centrais. Mas está melhorando – consolou, sendo isto o máximo que ela conseguiu se aproximar de um pedido de desculpas.
- Deixando isto de lado. Você esteve muito estranha quando usou o feitiço. O que ocorreu? – Allis perguntou, enquanto guardava as folha com as runas que ela transcreveu.
- Só Malus, que está vivo. – respondeu com uma falsa tranqüilidade.
- Malus, está vivo?! – exasperaram-se.
- Malus – disse ela dirigindo-se ao mestre. – O feitiço que estou usando vai perder o efeito em breve – ela olhou atentamente para a boca dele. – Diga logo o que quer, velho! – bradou.
Malus respondeu que precisava da ajuda dela para voltar, precisava ser desenterrado, pois não conseguiria sair da tumba sozinho. A magia dissipou-se e Malus voltou a ser invisível.
Aurora estapeou a testa. Malus estava em projeção astral quando ela o encontrou na sala dele. Com o espírito fora do corpo, era claro que julgariam uma pessoa sem sinais vitais como morta. Todos foram induzidos ao erro, mas ela se sentiu a causadora , por não ter previsto aquela hipótese. Respirou aliviada, bastaria voltar para Vitória, avisar a Tifus do engano, desenterrar Malus e o espírito dele poderia voltar ao corpo são e salvo.
- Nós precisamos voltar para Vitória! – avisou Aurora.
- Preciso caçar mais leão! – rebateu Valkíria.
- Temos que procurar o dragão azul que ainda está nesta área – Abimalek opinou.
- Devemos voltar para Serra Antiga – Thon lembrou que ainda estavam carregando alguns corpos de soldados da guarda dele.
- Eu quero dormir, sabem que horas são? – um dos guardas, bastante canasado, protestou.
- Vamos primeiro para Serra Antiga, de lá nós decidiremos o que fazer – Hagen deu o ultimato.