A postura do jogador de RPG

A postura do jogador de RPG

 

Ouvindo um dos episódios antigos do podcast português Jogador Sonhador, me deparei com um tema a muito discutido pela teoria GNS (Gamist Narrativist Simulationist), desenvolvida por Ron Edwards e velha conhecida de muitos rpgistas. Trata-se da postura do jogador em relação a seu personagem. O tema é antigo, mas foi abordado de maneira tão simples e agradável que resultou na vontade de pincelar um breve resumo sobre o assunto por aqui. A postura a qual nos referimos aqui trata-se da maneira como o jogador se porta ao interpretar seu personagem durante o jogo.
A teoria GNS trata das posturas de Diretor, Ator e Autor de modo muito semelhante ao que será expoto aqui. Além disso, assim como no episódio do podcast citado, trazemos uma definição simples para a postura de Condutor.
Frequentemente, diferenciamos os momentos nos quais estamos interpretando o personagem dos momentos de metajogo, quando discutimos os acontecimentos do jogo como jogadores de fato. É comum que, para isso, utilizemos  conceitos binários, como o fato de falar “in-character”, “out-of-character” ou mesmo da atitude de  falar em “on” ou em “off”. As características das posturas assumidas pelo jogador vão um pouco além disso.


Postura de Condutor : O jogador não precebe o personagem como uma entidade independente de sua pessoa.

Como em um jogo de computador, o jogador conduz o personagem, reagindo aos obstáculos e desafios que aparecem durante a narrativa, utilizando as regras do jogo para tentar superá-los. O personagem é o próprio jogador, representado com com uma espada, rifle, ou laser na mão.

Postura de Ator: O jogador pensa no personagem como uma entidade imaginária independente. Durante o transcorrer da narrativa ele faz uso de elementos que compõe o personagem para tentar imaginar como aquela entidade reagiria a uma certa  situação, independente do que o próprio jogador faria em uma condição semelhante , ou do aspecto lúdico do jogo.

Postura de Diretor: Com este tipo de postura, o jogador procura influenciar aspectos do ambiente no qual o personagem se encontra. A intenção é modificar alguma característica do contexto presenciado pelo personagem, independente da capacidade que o próprio personagem teria para alterar a situação. O jogador narra a aparição de uma passagem providencial, a qual pode ser ulitizada por seu personagem para escapar de perseguidores.
Postura de Autor: Como autor, o jogador procura criar situações interessantes para a narrativa, de acordo com seu ponto-de-vista. Aqui, a decisão que melhor caberia a um personagem com um determinado tipo de personalidade, ou a que auxiliaria o grupo de maneira mais efetiva no cumprimento da quest, é tratada de maneira secundária. Aproveitar o momento para criar ganchos que movimentem a narrativa é sempre mais interessante.

 

Faz um tempo que não tenho a experiência de mestrar para iniciantes no hobby do RPG. O último dos rpgístas cuja evolução tenho acompanhado nos últimos tempos é minha própria esposa. Tenho notado, ao menos na minha experiência como mestre, que boa parte dos jogadores iniciam sua “carreira” de rpgista assumindo apenas uma das posturas durante as partidas. A postura de Condutor, ou ao menos algo mais próximo desta, costuma ser a mais simples e a primeira a ser assumida pelo iniciante. Algumas partidas depois e os jogadores passam a variar as posturas.
As posturas não precisam ser encaradas com limites bem delineados. De maneira geral, o jogador utiliza mais de uma, ou até todas elas, durante a sessão de jogo, de acordo com a situação.

 

 

 

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7 Comentários para “A postura do jogador de RPG”

  1. Danielfo diz:

    Narrar para iniciantes é bem divertido, principalmente quando eles não conhecem as regras do jogo. Os jogadores interpretam mais do que quando conhecem e debulham a mecânica do jogo.

  2. Agnaldo F. Jr diz:

    nem sempre… ja fiz algumas experiencias com iniciantes, e, as vezes é frustrante, ver os jogadores perdidos, sem fazer ideia do que podem ou não fazer. Mas é claro, isso varia de grupo pra grupo, meu caso pode ter sido mais um de má sorte.

  3. nem sempre… ja fiz algumas experiencias com iniciantes, e, as vezes é frustrante, ver os jogadores perdidos, sem fazer ideia do que podem ou não fazer. Mas é claro, isso varia de grupo pra grupo, meu caso pode ter sido mais um de má sorte.

    • É verdade Agnaldo, isso também já aconteceu comigo. O conceito de RPG pode ser muito abstrato para algumas pessoas. Ás vezes, quando o iniciante ouve que ele pode “fazer o que quiser” é como se o narrador tivesse gritádo “ESTÁTUA!”. Ele fica lá parado, morrendo de vontade de ouvir da boca do narrador uma sentença simples, com no máximo duas possibilidades de escolha.

      • Agnaldo F. Jr diz:

        aeuhaueha…
        pior que é isso mesmo…
        envolve a questão de os MMORPG terem limitado a imaginação do jogador, e eles acabam por ficar na especativa de um ‘ok/cancel’

        essa será a mazela que asolará as gerações futuras: limitação pela tecnologia.

        • Na verdade, mais do que uma questão de influência dos games, o excesso de possibilidade é um problema em qualquer jogo. Os designers de jogos (de qualquer jogo) sabem que isso causa estresse o ser humano em geral. Por isso, geralmente, fazem uso de técnicas de “Controle indireto”. Eles te dão a impressão de que você tem liberdade gigantesca e te conduzem através de algumas opções previamente estabelecidas.

  4. Muito obrigado pelo destaque dado a este episódio do Jogador-Sonhador, é um dos que mais gostei de gravar. A ideia foi justamente pegar na tal teoria de uma maneira que pudesse ser útil tanto para roleplayers veteranos como para pessoas que estejam a experimentar o seu primeiro RPG.

    Claro que agora penso já ter uma melhor qualidade de som durante os episódios, por isso há tópicos sobre os quais sou capaz de voltar a falar. Por exemplo, sugiro o episódio 21 para quem quiser ouvir mais sobre estas posturas, pois inclui mesmo uma nova explicação comparando-as aos movimentos fluídos do kung fu :)

    http://jogadorsonhador.podbean.com/2010/07/15/21-mergulhando-na-personagem/

E você, o que pensa?