Graças às curas divinas ministradas por Abimalek, Hagen se recuperou bem dos graves ferimentos provocados pelo urso. Após dois dias, já conseguia marchar sem ser um estorvo para os demais. Mais do que a dor das feridas, o âmago dele o torturava. Aquela experiência de quase-morte o deixou confuso sobre o próprio propósito. Ele olhou para si e sentiu um vazio crescer como uma planta parasita. Não ter um propósito era algo que ele carregava dentro de si desde que havia retornado ao mundo, mas permitir que aquilo o consumisso para ele era uma forma de fraqueza. Porém, o tal vazio criava raízes profundas na sua alma e era inevitável senti-lo. Hagen não sabia como cortar aquela planta, e por orgulho, resolveu ignorá-la, da mesma forma que ignorava as luxações pelo corpo.
Subir e descer aquelas colinas rochosas e secas estava deixando a todos mal-humorados. Espuma os levava por caminhos cada vez mais sinuosos e eles tinham que se manterem atentos para não perderem os pontos de referência. Abimalek sentia os efeitos daquele calor, jejum e da oração que praticava. Enquanto todos olhavam o deserto e viam esterilidade, ele enxergava a vida. Insetos, lagartos e serpentes inofensivos viviam ali e mesmo flores viçavam no lugar. A fauna e a flora estavam em todo lugar, se adaptam, superavam as adversidades, não temiam os desafios. O sacerdote precisou ir para o deserto para entender como aquilo afetava a si mesmo. A deusa estava agindo através da natureza para inspirá-lo.
Abimalek também tinha um vazio dentro dele, um vazio profundo sobre o que ele deveria fazer no mundo. Por muitos anos, o espírito livre dele ouviu diversos chamados, mas o coração dele não conseguia se decidir qual seguir. Quando criancinha, ele seguia os passos do sacerdócio do deus Martaud, o líder do panteão de Theos. Contudo, em uma viagem para Jandy, onde os clérigos de Martaud acompanhavam o imperador Bred Storm, ele se encantara com a floresta misteriosa e perdera-se. O grupo de sacerdotes não o encontrara e o julgaram morto pelos perigos da floresta. Foi naquela floresta de frutos abundantes que Abimalek abandonou os caminhos de Martaud e, sendo encontrado por elfos peregrinos, encontrou um novo destino: o feudo do conde Simack Allis.
Os elfos o introduziram no conhecimento da magia, mas o menino sonhador queria ser guerreiro como o conde. Até receber um colar mágico do paladino Argon de Lentis. Daí em diante ele desejou ser o maior paladino do mundo e quando viu os paladinos matadores de dragão pela primeira vez, teve certeza aquele seria o destino dele. Os planos mudaram quando o rapazote conheceu o andarilho Fei Kazu, um elfo vindo do oriente, que o orientou a conhecer os segredos da natureza. O elfo o presenteou com uma bela espada encantada e foi orientado a ser um justiceiro solitário.
O destino deu nova reviravolta, Abimalek se tornara um homem e precisava trabalhar para o senhor de terras, o conde Simack. Seus sonhos de heroísmo acabaram-se antes de começar. Ele planejou uma nova fuga, escapou da cidade de onde vivia e foi para a costa. Viveria a própria sorte, sem ser servo, sendo livre. Ele encontrou o mar pela primeira vez e teve um encontro com uma visão imensa. Sobrevivera roubando uma vila costeira, porém foi capturado pelo vassalo do conde, que o obrigou a trabalhar com os artífices da aldeia. Quando se tornou artesão, fora mandado a cidade do conde. Ele pedira clemência aos elfos e oferecera a espada mágica que havia ganhado em troca de perdão pela fuga. Tifa, a sacerdotisa elfa, intercedeu ao conde pela vida do servo fugitivo e o conde permitiu que o jovem se ordenasse sacerdote de Arina.
Floresta, mar e agora deserto. Sempre que sentia aquele vazio, era a comunhão com a natureza que o fazia mudar de caminho. O deserto o tinha mudado, mas desta vez a mudança vinha sem culpa. Ele não sentia estar jogando a vida fora e adotando uma nova. Arina ensinou-lhe através da natureza que os animais e as plantas apenas se adaptavam ao ambiente. Quando a deusa da Fauna e Flora o iluminou com a sabedoria divina e ungiu-lhe de novos poderes, o sacerdote concluiu que deveria deixar de seguir o caminho dela e seguir o próprio, pois sabia que a deusa ainda estaria ao lado dele.
Valkíria olhava para cima, vendo a colina que precisavam subir indicada pelos latidos do cão. Aurora, montada em Mu, circulava em volta deles com a cabeça protegida por um lenço. Allis segurava os cavalos e dividia a cota de ração e água. Thon polia sua espada curta e esperava uma decisão de subida por parte dos demais, para ele, um simples vôo. Eles aguardavam Abimalek terminar a recuperação de Hagen.
- Hagen, leve isto com você. – disse o clérigo tirando de baixo da armadura de couro de pantera deslocadora um medalhão de marfim, que recebeu há anos das mãos de Argon de Lentis.
- O que é isto, Sr. Lafer?
- É um amuleto de proteção mágico, dado pela Matriarca da Torre de Marfim para Argon de Lentis, pelos atos heróicos que realizou. Para você, Argon tem mais valor do que para mim. O mal será repelido se você se concentrar nele e isso vai ajudá-lo a jamais ser derrotado.
- O poder de objetos mágicos não funciona comigo por causa meu treino místico nos Sete Céus. É uma honra, mas na posso aceitá-lo. – respondeu humildemente.
- Eu não estou te dando o colar de marfim em razão do poder que ele carrega, e sim pelo que ele representa: o espírito guerreiro.
- Vamos subir senhores, estou pronto! – Hagen colocou o colar no pescoço, ocultando-o dentro da armadura de Sangral.
Espuma subia aquela colina agitado e com o pelo erriçado. Valkíria já sabia do que se tratava, o cão tinha finalmente encontrado o que procuravam. Thon e Cereja estava embaixo, esperando os demais subirem para que pudessem seguir depois voando.
A subida era íngreme, mas era possível seguir sem escalada vertical. Abimalek logo ultrapassou os demais, pois tinha agilidade e carregava equipamento leve. Ele despontou o morro e se viu diante de um gigantesco felino, de presas evidentes em forma de sabre. O smilodon rugiu e o bafo fez com que os cabelos loiros de Abimalek tremulassem. O sacerdote se manteve impávido e urrou. Seu urro superou em intensidade o rugido do predador e a criatura de cerca de quatrocentos quilos se apequenou e recuou com o rabo entre as pernas. Abimalek não deixou por menos, perseguiu o animal enquanto preparava a corda. O laço foi lançado e envolveu a cabeça do grande gato. O animal correu assim que sentiu um aperto no pescoço. Abimalek foi puxado facilmente pela fera, mas não soltou a corda.

Os demais chegaram logo depois, mas viram o amigo ser arrastado pelo felino. O cume do morro era plano e arrenoso. Hagen, Valkíria e Allis retesaram os arcos e saraivaram flechas na criatura. Thon surgiu nos céus e viu o clérigo que conseguiu ficar agachado, deslizando na areia e predriscos. Abimalek via as flechas choverem em cima do felino e algumas passarem por ele. O animal se afastava das setas e ia na direção da descida do morro, quando a sombra de Cereja se projetou perto dele, o pégaso fêmea era muito veloz e estava se aproximando bem mais rápida que o felino.
- Thon! – gritou ele erguendo uma das mãos.
O halfling entendeu o recado e mergulhou num rasante rápido. O clérigo segurou numa das patas do animal e foi suspenso no ar. Ele aproveitou-se da inércia e se jogou, tendo ainda uma das mãos segurando a corda. Pairando no ar, tomou a maça de pedra e mirou o golpe na cabeça da fera, caindo num mergulho. O golpe acertou em cheio a cabeça do animal e Abimalek despencou por cima do corpo da fera, caindo no chão e rolando nas pedras. O smilodon perdeu o compasso das pernas e tombou instantaneamente. Thon pousou e foi ver se o amigo louco estava vivo.
- Abimalek, como você está?
- Nunca estive melhor. – balbuciou com a cara no chão.
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Espuma urinou na carcaça do grande felino.
- O meu leão morreu. – choramingou Valkíria.
- Valkíria, este animal é enorme, não temos como levarmos até a carroça. E desconfio que isto nem é mesmo um leão de verdade. – e consolou Valkíria com um abraço.
- Aurora tem razão. Seu professor poderia dar um desconto na tarefa. Leve as presas, vai ser a prova que você cumpriu. Eu atesto, palavra de príncipe!
- E eu acho que este vale por dois leões. – disse Allis examinando o corpo da fera abatida.
- Então é melhor voltarmos. – falou Hagen. – Pelo visto estamos indo por caminhos muito perigosos.
- Hagen – Abimalek finalmente levantou-se – é nesse caminho mesmo que devemos continuar.
- Você pode ser imprudente, Abimalek, mas eu não vou permitir que todos corram riscos desnecessários.
- Calma pessoal. Não é momento para isto. Eu vou voltar até os guardas e ver se é possível arrastarmos o corpo do animal até Serra Antiga. -Thon montou em Cereja e cavalgou no ar.
Aurora planejava um modo de arrastar o corpo do tigre de dentes-de-sabre e os demais ficaram indiferentes. Apenas Espuma se divertia mascando a cauda do animal morto. Ao longe, Allis avistou Cereja retornar, mas ele sentiu que ela vinha voando muito rápido e teve mal-pressentimento. Thon não tardou a comunicá-los.
- O acampamento dos guardas foi atacado, eles precisam de ajuda e rápido.
- Só você pode voar, não chegaremos nunca no acampamento indo à pé.- disse Allis.
- Então monte comigo.
- Um curandeiro também é necessário. – se ofereceu Abimalek de maneira atrevida.
- Só posso carregar um comigo a viagem é longa para levitação de Hagen.
- Ora, príncipe Thon. Eu sou um devoto da natureza, eu me adapto. – o corpo dele encolheu transformando-se em uma abelha enorme. Allis montou no pégaso, e a Abimalek-abelha grudou nas costas dele. Thon assobiou e Cereja tomou os ares.
Eles chegaram ao fim do entardecer no acampamento. A caverna que os soldados usaram como abrigou desmoronou, os cavalos estavam mortos e a carroça destroçada.
- Eu ouvi um som vindo da caverna, alguém deve estar vivo e esta mandando sinais.
- Vamos tirar as pedras. – Abimalek respondeu já na sua forma original.
- Eu tenho uma notícia boa e uma má. A má é que tudo indica que eles sofreram ataque de um dragão azul. Me intriga ele não ter cuspido relâmpago nenhum vez.
- Um dragão? – exaltou-se o sacerdote.
- Dragão azul. Há enormes diferenças entre os tipos. – completou.
- E qual é a boa notícia? – perguntou Thon sarcasticamente.
- Esta região é o ambiente deles. Porém dragões azuis são muito raros e pelo tamanho da mordida, esse era novo.
- Que bom, agora estou mais tranqüilo…
- Dragões azuis estão entre os seres mais inteligentes. Um dragão jovem já viveu mais do que todos aqui. Ele devia ser um patrulheiro ou algum tipo de batedor e não quis chamar atenção. Deve ter pensado que os soldados faziam parte de uma força maior e não quis chamar a atenção.
- Temos que matar este dragão maldito. – Abimalek colocou a mão na maça e olhou para os céus.
- Ainda não meu amigo. Temos que mover estas pedras. - lembrou Thon, que estava mais preocupado em acudir os seus fiéis soldados.
- Eu ajudo vocês.
Eles conseguiram abrir uma fresta estreita e puderam falar com os soldados da escolta. Dois ainda estavam vivos, mas fracos, os outros dois, soterrados pelas pedras. Abimalek tinha encontrado sua trindade animal no deserto. Abelha gigante, serpente píton e pantera negra. Tomou a forma de serpente e passou pela fresta. Tornou-se humano novamente e pode socorrer os feridos. Sua capacidade de transformação era limitada e por isso passou a noite junto com os feridos.
O plano de Valkíria falhou, ela não pôde levar o tigre dentre-de-sabre para Vitória. Ela marchou resmungando o tempo todo, o que deixou a trilha de retorno mais cansativa. Eles avistaram Allis e Thon junto com o que sobrou da carroça. O halfling deu uma assobio e debochou:
- Estávamos precisando mesmo de força bruta. Usem essas barras de ferro para ajudá-los a mover as pedras mais pesadas. - ele segurava o que sobrou das barras retorcidas da jaula.
O trabalho de remoção dos escombros começou e uma a uma as pedras iam sendo movidas. Thon tinha ótima percepção e auxiliava o grupo a remover as pedras certas, evitando acidentes. Aurora se afastou do trabalho e foi ler seu livro de magia, onde tentava deduzir algumas fórmulas novas. Trabalho pesado não era com ela.
Os guardas foram retirados e o que restou dos demais soldados foi removido. Os sobreviventes disseram que foram atacados pelo dragão e que eles optaram por recuar para caverna para restringir a mobilidade que a criatura teria em campo aberto. O astuto dragão os surpreendeu quando fez as pedras rolarem, fechando a abertura da caverna. Parte do teto cedeu e por isso ficaram soterrados.
Tendo em vista o novo grau de perigo. A decisão de regresso foi quase unânime. Somente Abimalek queria caçar o dragão, mas acatou a decisão dos outros. Nem ele era imprudente o bastante para caçar um dragão sozinho.
- Eu recomendo que não voltemos pelo caminho que viemos. – Allis determinou.
- Por quê? – Abimalek indagou.
- O dragão pode ter encontrado os rastros da carroça e espreitar quem siga a mesma rota.
- Há um problema no seu plano, Allis. – alertou Aurora. – A rota que usamos já conhecemos, ao contrário da nova.
- Minha irmã é muito boa em se orientar pelos caminhos.
- Lembra da trilha secreta em Kerr, quando ela foi a guia? - Abimalek rememorou.
- Quer tentar pelo vale do dragão, clérigo?
Guiados por Valkíria, eles chegaram em um vale cheio de plantas de palmas espinhosas e cactos altos. Hagen e Valkíria abriam caminho com suas espadas. E os soldados sobreviventes carregavam em padiolas improvisadas os corpos dos companheiros mortos.
- Certamente nenhum dragão vai querer se furar neste espinheiro. Boa idéia, Allis! – Aurora reclamou. pensando nos espinhos que ficariam no pêlo de Mu.
- Esperem!- gritou Abimalek. – Tem algo se movendo entre os cactos.
O alerta foi dado a tempo. Plantas em forma de cães percorriam os arbustos espinhosos e entravam na trilha talhada. Valkíria foi mordida na perna e sentiu uma dor aguda e com a espada acertou o cão espinhoso arrancando-lhe um pedaço da cara do maldito.
- Água! – praguejou Valkíria quando percebeu que era este líquido, e não sangue, que os cães-espinhos possuíam, o que tornava a principal habilidade da sua espada vampírica inútil.
Aurora estava montada e viu que eles estavam cercados por ambos os lados e muitos cães-espinho chegavam. Prontamente formulou um feitiço defensivo que deixou parte do chão escorregadio evitando que mais cães conseguissem se aproximar deles. Um flanco ainda estava desguarnecido e os cães entravam como bem queriam, mordendo tudo que viam pela frente. Eles cercaram os soldados, que tiveram que soltar os seus companheiros mortos para se defender.
Aurora via que o combate começava a pender a favor deles e disparava suas mágicas mais ofensivas. A espada de Valkíria era certeira e Hagen destroçava os cães que o atacavam, tendo a armadura de sangral protegendo-o completamente. Abimalek lutava com agilidade e até o cão Espuma brigava furioso. Contudo, o efeito da magia se enfraqueceu e os cães do outro flanco passaram a chegar em grande número. Valkíria virou-se para atacar, mas um dos cães acertou-lhe a mão e a espada dela foi atirada no meio dos cactos.
Allis foi pego por dois cães, que o derrubaram no chão. Defender-se de um cão espinhoso era um martírio, pois a criatura vegetal era recoberta de espinhos pontiagudos. A reação natural de colocar as mãos para evitar golpes no rosto se tornava uma experiência dolorosa.
Aurora via uma emboscada se aproximar de Mu, que coiceava-os, mas era atacado ferozmente pelos cães sanguinários. Thon, tentava ajudar Allis e também seus soldados, ainda enfraquecidos pelas batalhas. Um deles havia sido derrubado. Hagen ajudava Valkíria que lutava usando o escudo. Abimalek também estava acuado e parecia ter gasta toda a cota de bravura.
Mu tombou. Para Aurora, aquilo foi a última gota. Mesmo tendo esgotado todas as suas magias quando enfrentou os primeiros cães, agora era a hora de usar a última opção de combate: as unhas de rubi. As unhas dela cresceram e ela golpeou um dos cães, penetrando as fibras vegetais do dorso do monstro. Era faca quente em manteiga.
Abimalek livrou-se dos animais que o atacaram e correu em direção a espada de Valkíria. As plantas espinhosas se abriam para que ele passar e os espinhos ficavam macios quando ele pisava. Pegou a espada caída e jogou para Valkíria, que apanhou no ar. O combate agora tinha virado novamente para o lado deles.