O carro com o dragone enjaulado chamou a atenção dos aldeões pelo tamanho impressionante daquele leão metálico. Dois leões da montanha vinham logo atrás puxados por Hagen e Valkíria vigiados de perto por Espuma. Thon assoviava uma canção para anunciar o feito glorioso deles, motado em Cereja conduzia o grupo para o casarão de Lorde Griffin.
A pequena corte daquela aldeia ficou alarmada com o retorno deles. Valkíria ainda carregava as marcas do violento embate, ao contrário dos demais. O barão real, visivelmente contente, mandou preparar um banquete para os valentes aventureiros contarem os detalhes da jornada.
O festim foi ainda mais chamativo do que a refeição que receberam quando chegaram a Serra Antiga. A cozinheira desta vez tinha sido muito mais generosa nas porções. O dragone enjaulado e amordaçado foi posto na entrada do casarão. Uma coberta estava colocada na jaula, de modo que apenas quem estivesse no Salão da Caça, pudesse ver o monstro. A parentela chegou ávida por estórias e faminta. Thon começou a narrar os atos de bravura da amiga e dos demais, contra lagartos e leões.
Abimalek estava muito preocupado, para um vegetariano havia bem pouco o que comer, contentado-se a beber cerveja preta. Para ele o banquete era uma refeição muito modesta, ele aproveitava as nozes e frutas que decorava os pratos e quando ninguém estava vendo, escondeu uns figos na algibeira. Aurora percebeu o vexame que o amigo cometia, mas ela não estava apreciando aquela bebida sem graça e também não tinha paciência para ficar ouvindo bajulações. Aurora sabia que naquela empreitada, ela não havia feito nada demais, sendo motivo de chacota. Allis, ao contrário, contava para os nobres suas experiências alucinógenas quando estava em estado de consciência alterada pelo gás na caverna dos homens-lagartos. Espuma se empanturrava de comida e ninguém se importava com a bagunça deles. Valkíria se sentia em casa e Hagen era recatado demais para incomodar quem quer que fosse. Aurora pediu licença aos demais e se deu por satisfeita, retirando-se do Salão de Caça para tomar ar puro.
Vendo que a colega havia se retirado, o clérigo também saiu de fininho. Quando estava do lado de fora, viu Aurora sentada ao longe, meditando e alguns soldados distraídos. O dragone estava alquebrado, ainda muito ferido e indefeso. “Coitado”, pensou o sacerdote. Num momento de compaixão, Abimalek destrancou a grade e entrou na jaula e as pessoas no salão não perceberam. O dragone estava deitado, com as patas e o focinho presos e não esboçou nenhuma reação. Abimalek orou e tocando na couraça do animal, amenizou um pouco a dor dos ferimentos dele.
O dragone recuperou um pouco das forças e rapidamente seu olhar tristonho transformou-se em vingativo. Uma garrada foi desferida e a correntes que a prendia se partiu. A unhas afiadas acertaram em cheio o sacerdote que foi jogado contra as grades, chamando a atenção de todos, que por um momento ficaram confusos com a aparição repentina de um dos comensais na jaula.
O monstro, com a garra livre, arrancou facilmente a focinheira que o impedia de rugir. O urro ecoou no Salão da Caça com efeitos devastadores sobre os presentes. Pratos e copos caíram, pessoas tombaram dos bancos e servos derrubaram as bandejas. Hagen se levantou-se e usou seus poderes de levitação contra o monstro. Outra corrente se arrebentou. A criatura pesada conseguiu ficar de pé e montou em cima do sacerdote, que pouco podia fazer para se defender. Aurora escutou o rugido vindo da jaula, mas sem poder ver o inimigo, em virtude da coberta sobre a jaula, não podia usar seus projéteis mágicos.
Abimalek se arrependia por cada segundo ali e apesar de valente, sabia que não havia escapatória para ele, porém sentiu o dragone aliviar a mordida e a pressão das garras que retalhavam-lhe as costas. O animal tombou e o sangue da besta escorreu pela jaula. Lorde Griffin arremessou uma lança do salão certeiramente na criatura, os braços fortes do barão liquidaram o monstro ferido em um só golpe, em um tiro de longa distância, por entre as grades e passando por Abimalek.
- Meu leão! – gritou Valkíria em pânico, enquanto Abimalek deslizava pelas grades, com as pernas bambas.
Lorde Griffin entrou na jaula e percebeu que o monstro ainda agonizava. Fez sinal para que Valkíria se acalmasse pois ainda havia chances de salvar a fera. O próprio barão real tomou os cuidados para que o monstro não perecesse naquele instante e só após assegurar que ele não seria mais uma cabeça a adornar o Salão da Caça é que se retirou, arrastando o clérigo com ele.
Uma longa discussão entre Valkíria e Abimalek se seguiu, com ela constantemente pegando no cabo da espada, mas sendo dissuadida pelos demais. O Barão Real exerceu sua autoridade e presidiu o julgamento sumário.
- Abimalek você é culpado pelo crime de desordem e ainda me deve a sua vida. Porém como você já é um servo da nobre Valkíria, eu não posso tomá-lo. Não poderei culpá-la por a sua rebeldia como vassalo pois o prejuízo maior que você causou afetou apenas o que a ela pertence. Vou perdoá-lo dos prejuízos que me causou em razão das estórias de valentia que ouvi a seu respeito. Todavia, para que você não passe impune sobre a minha terra, seu castigo será aprender a obediência.
- Essa eu quero ver. – deixou escapar Allis, interrompendo o barão. Allis se desculpou e barão prosseguiu.
- Consultando meus conselheiros, eu decidi que você precisa absorver o poder dos animais para que seja um servo melhor. Comerá sopa de coruja para aprender a ser sábio, rato assado para ser discreto e cachorro cozido para ser fiel a sua senhora.
- O quê?! Eu não como carne. - protestou.
-Então os abutres vão comer a sua, pois se você se negar a cumprir sua pena, ela será desobediência.
Abimalek olhou para os dois lados e viu um risinho sínico na cara de seus amigos, com exceção de Valkíria, onde se lia: “abutres”.
No dia da execução da sentença, Abimalek pôde ver os animais que estavam prontos para o abate. Ele pediu um último desejo e o barão permitiu a realização se fosse possível.
- Lorde Griffin, eu peço permissão de falar com a coruja.
- Concedido.
O sacerdote entrou em comunhão com sua deusa e aprendeu a língua das aves.
- Coruja, você quer mesmo morrer?
- Eu não morrerei sacerdote, você comerá minha carne, mas libertará meu espírito. Faça bom uso da minha sabedoria, não deixe este sacrifício em vão.
- Eu prometo. – e voltando-se para o barão. – Estou pronto para aceitar o meu destino.
Com muito pesar ele teve que provar aquele sabor intragável daqueles animais sacrificados. O gosto deles parecia ter se entranhado na boca e ele sentia o suor dos animais expelido junto com o seu. O cheiro deles estava impregnado no dele. Ele jurou nunca comer carne novamente. O sacerdote ficou introspectivo e divagou sobre a sua conexão com os animais nos mais profundos pensamentos. Por aquelas formas de vida havia adquirido ainda mais respeito. Ele desejava ter uma vida eterna no paraíso dos animais, lá ele reencarnaria em lugar onde não existia a fome e onde todos os animais vivem em harmonia. Aqueles que não seguem os preceitos de Arina, podem ter um destino trágico, a Terra das Feras, onde um animal precisa comer o outro para sobreviver e onde a fome não termina jamais.
O grupo já recomposto e recuperado dos ferimentos tomou o rumo dos vales em busca dos leões restantes. Os aventureiros se separaram dos soldados, que ficaram esperando próximo a uma caverna, e seguiram vasculhando o perímetro. O vale era seco e rochoso e havia algumas pedras grandes que dificultavam a caminhada. Aurora estava montada em Mu – seu caprino gigante – que era muito estável mesmo sobre aquele terreno acidentado. As demais montarias avançavam com tamanha dificuldade que era mais seguro puxá-los pelos cabrestos. A todo tempo, alguns pedriscos rolavam das serras pela ação do vento seco, que quebrava o silêncio.
O sol do outono e o vento árido deixavam a viagem desconfortável que eles amenizavam aproveitando as sombras dos morros. Preocupados com o sol e atentos às montanhas eles esqueceram que o vale era lar de outros habitantes. O urso das cavernas é o maior dos ursos era um deles. O pelo espesso tem o mesmo tom das pedras de onde vivem e para se proteger do sol eles se escondem em cavernas ou se enterram vivos. As garras deste animal são capazes de revolver a terra e é forte o bastante para mover pedras pesadas. Durante a hibernação os ursos ficam muito letárgicos, mas a qualquer sinal de perigo, eles retomam suas energias. Despertar um urso pode ser perigoso, mas acordar um urso das cavernas, letal. E um urso das cavernas acabava de acordar.
O monstro gigantesco levantou com um estrondoso grunhido e pedras rolaram quando ele se desenterrou bem no meio deles. Os cavalos entraram em pânico, Mu se manteve firme, mas intimidado, tanto quanto Aurora, que puxava a rédea para que o estúpido animal recuasse depressa. Allis viu o seu cavalo escapar das suas mãos nada podendo fazer. Valkíria deixou o cavalo escapar e fui junto com Hagen, que não tinha montaria, combater a fera. Thon saltou de Cereja e assoviou para que ela recuasse. O sacerdote sentiu uma oportunidade de heroísmo e reforçou o time de atacantes.
O urso foi cercado e as espadas brandiram. O animal recuava, avançava e defendia-se dos golpes com suas garras. O urso atroz não se intimidou com a desvantagem numérica e contra-atacava os golpes mantendo os oponentes afastados. Hagen, Valkíria e Abimalek foram se afastando para evitar os golpes do urso e não conseguiam lançar ataques efetivos sobre ele. Thon, por ser pequeno conseguiu se esquivar das investidas do urso e perfurá-lo com sua espada curta, ficando próximo do inimigo grandalhão. O urso tentava acertar o halfing que esquivava e estocava, mas a cada ataque certeiro dele, os revides do urso estavam ficando cada vez mais próximos. Aurora e Allis usavam suas magias, porém mesmo os dardos mágicos das unhas de rubi da princesa de Yoria eram incapazes de parar aquela fera.
- Onde estão os guerreiros daqui?! – gritou Thon que se viu em situação complicada. Ele era o único que estava atacando a fera, mas sabia que não seria capaz de escapar daquele combate sem a ajuda dos demais.
Valkíria lançou um ataque sobre a fera que revidou com uma patada que lançou a espada da guerreira nas pedras, deixando-a apenas com o escudo metálico nas mãos. Abimalek usava toda a sua perícia saltava, rolava, mas seus ataques eram apenas incômodos contra o monstro, o sacerdote utilizava seus dons divinos para curar os companheiros e a si próprio no combate árduo. Hagen vendo seu amigo Thon em risco, gritou e golpeou o urso no flanco esquerdo com sua espada.
O urso sentiu o golpe da espada samurai. Thon viu o monstro urrar de dor, mas rapidamente virar-se e acertar uma patada em Hagen. O guerreiro foi lançado para trás e quando menos esperou, o urso o golpeou com a outra pata, trazendo-o para perto. A pata direita do animal enroscou-se no corpo de Hagen e o monstro ficou de pé, suspendendo o guerreiro e o espremeu, com as duas patas, num abraço mortal. Os ossos metálicos de Hagen foram amassados provocando grave hemorragia interna. Os olhos de Hagen perderam o brilho e ele desfaleceu. O urso atirou o jovem ruivo ao chão como se fosse um graveto partido. O moral do grupo sofreu grave baixa.
Allis vendo a sua situação trágica e o esgotamento dos seus feitiços ofensivos, colocou a vida em risco indo para o combate direto. Ele fez uma pequena prece e empunhou a espada mística dos dracomagos. “Se minha irmã não consegue encaixar um golpe sequer, que chance terei eu?” questinou-se. Mesmo assim, lançou-se num ataque desesperado. Sua espada conseguiu acertar o monstro, que sentiu a lâmina furar um músculo. O contragolpe veio em seguida. Allis fechou os olhos e trincou os dentes. A garra cortou o vento. Ele estava vivo.
Os golpes de Thon haviam exaurido a criatura, mas ao contrário dos outros animais, o urso fica muito mais perigoso quando está próximo da morte. O animal ficou mais agitado e golpeou Valkíria e Allis teve sorte na segunda vez. O Urso mordeu Thon, Abimalek saltou e golpeou com a maça a cabeça da fera que liberou o halfling dos dentes. O urso ficou sobre as duas patas, mas foi atordoado por um coice de Cereja, que mergulhou dos céus. Aurora, vindo com Mu em carga, chifrou o corpo combalido do urso gigantesco finalmente derrubando-o. Thon, Valkíria e Allis saltaram em cima do urso, ficando suas espadas na criatura que ainda se debatia. O animal estremeceu e Valkíria lançou seu peso sobre ele, na tentativa de impedir que escapasse. O animal arfou, arfou e morreu.
Hagen agonizava no chão, ao lado de sua espada caída. Respirar era um ato doloroso, contudo a dor era amenizada pela perda da sensibilidade do corpo. Ele não conseguia falar, sua visão era turva, ele mal se mexia. Abimalek examinou o moribundo amigo. Aurora chegou em seguida, mas nada pode fazer.
- Ele esta morrendo. – declarou o sacerdote.
- Faça alguma coisa! – Aurora se exaltou, pois era óbvio o que o sacerdote dizia. Ela esperava alguma solução.
- Eu não posso fazer mais nada, meus dons de cura não podem ser usados a meu bel-prazer.
- Faça os primeiros-socorros! – clamou.
- Eu também não sei como. Meu poder vem das plantas medicinais, mas não há nenhuma que possa ajudá-lo.
Thon abandonou o urso e ouviu a discussão entre a maga e o sacerdote. Ele assobiou e Cereja pousou. O halfling montou na égua alada e tranqüilizou os demais:
- Meus soldados possuem poções mágicas de cura. – e galopou nos céus, enquanto se arrependia de não ter levado ao menos uma das poções consigo.
Abimalek viu a esperança voar longe, mesmo um pégaso sendo veloz para Hagen o tempo era muito curto.
Hagen fechou os olhos e se sentiu emerso no oceano. Ele reabriu os olhos e viu uma luz terna resplandecendo na superfície da água, ele agitou os braços e conseguiu chegar a superfície.
Lunia era o primeiro dos Sete Céus, e ele estava no famoso mar de águas bentas. Hagen agitava os braços, mas não conseguia nadar, mesmo em águas serenas, a praia paradisíaca ainda estava longe. Ele escutou o som de um remo e viu uma canoa bem próxima dele. Era Gabriel – o pescador – o primeiro mestre celestial de Hagen. Gabriel tinha a pele prateada e cabelos e barba grisalhos. Como estava contra a luz, que em Lunia sempre era suave como alvorecer ou bucólica com no entardecer, Hagen via apenas seus vulto resplandecente.
- Me ajude. –disse Hagen, que tentava alcançar o remo.
- Hagen, seu lugar não é aqui. O verdadeiro perigo ainda está por vir. Você é um herói, o mundo precisa de você. Não falhe. – Gabriel usou o remo e empurrou a cabeça de Hagen de volta ao mar de água benta, afogando-o.
Abimalek espremeu o sumo do figo que tinha pegado no banquete na boca de Hagen. O sacerdote de Arina lembrou-se que podia fazer as frutas ficaram tão nutritivas e saborosas que poderiam até mesmo recuperar as energias de quem comesse. Hagen era muito tenaz e o sumo da fruta santificada poderia fazer o corpo dele reagir. O sacerdote despejava o sumo na boca dele e fazia com que ele engolisse os pedaços do figo, enfiando a fruta goela abaixo, enquanto orava para deusa da fauna e flora. O milagre conteve a hemorragia interna, salvando a vida do guerreiro caído.
Quando Thon retornou, viu do alto que Hagen estava deitado em uma poça de sangue e sem a armadura. O sangue havia escorrido por ambos os flancos. O sangue espalhado, por um momento, lembrava asas: um anjo de sangue. Abimalek apoiava a cabeça de Hagen e os demais estavam em volta. Thon sentiu um aperto no peito.
- Ele vai viver Thon. Deixe a poção de cura para gente. – Aurora tranquilizou, ainda preocupada.
- Que bom! Mas ele parece muito mal. – comentou mostrando que trazia quatro frascos com líquido azul leitoso dentro deles.
- Precisaremos parar um pouco para dar tempo a Hagen e descansarmos também. – falou Allis para Thon, enquanto lambia as próprias feridas.
Valkíria, enquanto arrancava as garras de navalha do urso das cavernas lembrou aos demais:
- Ainda faltam. Um…dois…Dois leões. – contou nos dedos e mostrou satisfeita com o resultado da soma.
- Eu não sei quem é pior, se é ela ou o urso.- respondeu o irmão dela.
- Eu ouvi, Segundo! – alertou estalando os dedos dos punhos.