Allis e Aurora lentamente se recuperarvam das alucinações provocadas pelo gás da caverna. Valkíria decidiu que eles deveriam sair da região das minas e irem para as montanhas, um habitat mais provável de se encontrar leões. Thon – num rápido vôo – comunicou aos soldados que os seguiam o novo destino da comitiva.
A temperatura outonal da região desértica se abrandava, mas ainda estava muito seco. Pela trilha, eles encontraram alguns velhos poços de onde extraíram um pouco de água salobra. Abimalek rezava para deusa da fauna e flora, que tornava aquela água potável. Para entrar em comunhão com a deusa, o sacerdote jejuava durante o dia e orava durante a noite, procurando encontrar o seu eu animal. Para ele o deserto era a chave daquele conhecimento, bloqueado pela vida urbana.
Espuma conseguiu um novo rastro suspeito quando chegaram às serras. Os jovens estavam desacreditados com o cachorro, mas não tinham palpite melhor. Os soldados avançaram até onde podiam com a carroça e ficaram cada vez mais para trás. Os demais subiram o morro em busca dos leões pretendidos. O mastim aspirava a terra ruidosamente, deixando um rastro de baba. Quando estavamo chegando no topo da colina, Espuma latiu e rosnou indicando ter achado algo. O faro apurado do cão caçador os levou, desta vez, a uma dupla de machos jovens de leões da montanha, que estavam no alto da colina. O coração de Valkíria palpitou excitado. Os leões se assustaram com o estranhos subindo o monte e tentaram fugir pelo lado mais íngreme da cordilheira. Hagen agiu rápido e usou seu dom de levitar para afetar um animal, fazendo com que o felinos flutuasse no ar, indefeso.

Os colegas olharam inusitados para aquela cena – o grande gato flutuante - principalmente os magos, que ficaram sem saber quem tinha sido o feiticeiro capaz de tal proeza. Abimalek avançou para capturar o animal e impedir que algo de grave lhe ocorresse. Valkiria partiu para cima do outro leão, mas a fera sumiu colina abaixo. Thon, montado em Cereja, alçou vôo e chamou Valkíria, que montou no pégaso em movimento. O halfling tomou moderada altitude e manobrou para encontrar o leão. O animal descia pela colina, que naquela lado era muito mais escarpada e de solo instável. Não havia nenhum local onde a montaria pudesse pousar.
- Thon, vá pra cima dele.- ordenou a guerreira.
O halfing lançou-se em direção ao paredão e Valkíria saltou da montaria. Thon se assustou com o ato, mas nada pôde fazer. A guerreira caiu em cima da fera, que descia cuidadosamente. O impacto fez como que ambos rolassem ribanceira abaixo, levantando uma enorme nuvem de poeira. Do alto, Hagen ao chegar a beira da colina só pode ver o deslizamento. Ele saltou, mas a sua chegada quase resultou em queda, evitada pela katana fincada no chão. O guerreiro passou a descer com cuidado, sendo seguido pelo clérigo, muito hábil em escaladas.
O leão e Valkíria rolaram engalfinhados, o que provocou alguns ferimentos em ambos, os do leão foram minimizados pela agilidade felina e o da guerreira pela armadura metálica. A fera mergulhou em cima da inimiga,que atenta se defendeu dos ataques protegendo o rosto. Cessada a onda de ataques, Valkíria conseguiu rolar sobre a fera e aplicar um golpe: o mata-leão. Muito mais forte que o grande gato, a guerreira minou as forças do felino, que caiu exausto. Quando ela se ergueu, Thon, Hagen e Abimalek já estavam próximos dela, impressionados com o feito de ousadia.
- Podem levar! – ordenou arranhada, mas orgulhosa.
- Brinca com ela Hagen! – zombou Abimalek, indo amarrar o impotente bichano.
Assim que eles voltaram, viram Espuma mastigando a cauda do outro leão, que estava preso.
- O que vocês três idiotas estão fazendo. – gritou Abimalek.
- Polindo minha espada. – disse Allis.
- Vendo Espuma se divertir. – falou Aurora.
- Valkíria, manda seu cachorro parar de mastigar a cauda do leão.- protestou o sacerdote.
- Vem cá Espuma, olha outro leão aqui pra você comer.
- Valkíria, os leões devem ser entregues vivos, não devem ser maltratados assim! - advertiu o sacerdote.
- E maltrata como?
- É melhor levarmos para a jaula. – sugeriu o clérigo com a mão na face.
- Jaula. – assentiu a guerreira.
- Eu e o príncipe Thon podemos levá-los para lá. – ofereceu-se Hagen.
- Ótimo, eu e Valkíria vamos aproveitar e patrulhar a área. – Abimalek respondeu.
- Sr. Lafer, não seria mais prudente os senhores esperarem.
- Damos conta, relaxe Hagen. Nem eu, nem Valkíria temos medo de nada.
- Vamos Hagen, assim voltaremos logo.
Thon e Hagen desceram a colina e Valkíria e Abimalek seguiram a cordilheira. Os magos aproveitaram para aprimorar os conhecimentos arcanos, estudando as anotações nos grimórios e comerem suas provisões.
Espuma puxava Valkiria conduzindo-a contra a vontade dela. Para domá-lo ela precisava fazer esforço, mas deixou o cão guiá-la.
- Parece que vamos encontrar o terceiro. – comemorou Abimalek.
A colina chegava ao fim e eles se dirigiam a uma pedra em forma de um troco serrado. Eles olharam para os lados e não viram nenhum sinal suspeito. Foram então até a pedra, pois o leão poderia estar escondido atrás. Já era entardecer e o sol alaranjava a tarde. Uma ventania soprava moderada, até os dois humanos podiam sentir o cheiro do leão. Espuma latiu assim que um enorme leão surgiu voando atrás da montanha, aterrissando na pedra. Chamavam aquele monstro alado de dragone, um leão dragão. Maior que os leões da montanha, tinha escamas bronzeadas no lugar dos pêlos, que refletiam o sol vespertino.
Espuma, colérico, saltou de encontro ao monstro. A criatura saltou por sobre ele e o cachorro por pouco não caiu do penhasco. O dragone rugiu e o som ecoou pelas colinas. O urro do monstro quimérico era também encantado, aqueles que ouviam eram acometidos por uma fraqueza súbita. Valkíria, Espuma e Abimalek ficaram surdos imediatamente como o ataque. A despeito das lendas, apenas Valkíria ficou fraca, o sacerdote era preparado espiritualmente para sobrepujar este perigo mágico e o cão havia sido exaustivamente treinado por Lionel para não fraquejar em combate. O mastim entrou em estado de raiva e sua boca se encheu de espuma avermelhada.
Valkíria sentiu o quão era pesada sua armadura completa, ela mal tinha forças para empunhar espada e escudo. O dragone saltou sobre ela e mordeu ficando as presas na armadura. O sangue dela verteu. Abimalek açoitou o monstro, mas este mostrou indiferença. Espuma tentou morder a cauda da criatura, mas o monstro estava atento e chutou o cão, que não desistiu.
O urro chegou aos ouvidos dos demais. Hagen e Thon acabavam de se encontrar os outros.
- Oh, não! Isso deve ser com Valkíria. – disse Allis. – Nunca chegaremos a tempo. Eles estão longe demais.
- Aurora, monte comigo! Em Cereja teremos uma chance de alcança-los. Nada voa mais rápido que um pégaso.
- Meu pai voa mais rápido, mas no momento Cereja deve servir, Thon.
- Eu posso ir com vossas altezas? – perguntou Hagen.
- Você é pesado demais. – respondeu Thon.
- Não mais. Voe príncipe, voe.
Hagen levitou enquanto segurava na mão da meia-irmã. Graças ao poder de levitação o peso de Hagen era insignificante e o arrasto provocado por ele era bem pequeno. Thon assoviou exigindo de Cereja o máximo da sua velocidade.
Valkíria se sentia impotente. Abimalek havia conseguido montar no dorso do monstro, mas pouco pode fazer além disso. Espuma ainda era capaz de provocar alguns ferimentos na criatura, mas era repelido por garradas. A guerreira usava toda a sua força remanescente para ficar de pé após cada onda de ataques. Sem força, um guerreiro não era nada. Ela levou uma patada na cabeça e o elmo voou longe, e apoiou-se no chão para não cair. Ela sentiu um gosto acre de sangue na boca e isso a fez lembrar-se do pai.
Simack Allis – o pai de Valkíria – foi o responsável por todo o treinamento da guerreira. Ela era a filha preferida, o filho que ele queria ter tido, pois os filhos dele não tinham jeito para a espada. Há vários meses atrás, em Jandy, Valkíria já estava bem confiante de suas habilidades. O experiente Simack que naquela altura já tinha tido a força sobrepujada pela filha decidiu finalizar o treinamento. Valkíria golpeou o pai com sua espada e o guerreiro livrou-se do golpe aparando com classe a espadada e em seguida contra-golpeando a junta da armadura dela, provocando um corte. Ela tentou partir para cima dele com fúria, mas o guerreiro fintou o ataque e a acertou a cabeça dela com o cabo da arma. O sangue dela escorreu pelo rosto cegando-a momentaneamente, ele limpou o sangue dos olhos e quando os abriu foi surpreendida por um soco no rosto e um encontrão. Ela caiu e ele montou em cima dela com a espada apontada para garganta dela, prendendo os braços com os joelhos.
- Mais um movimento e eu corto sua cabeça fora. – intimou Simack.
Ela ainda se debateu pateticamente não querendo admitir a derrota. Simack se ergueu e a mandou se levantar.
- Você tem uma boa característica, nunca desiste. Isso é a base da vitória, mas não é o segredo de sucesso, minha filha.
- Dá próxima, eu venço.
- Nem sempre pode haver “próxima”, Valkíria. A não ser que seus amigos sejam leais e mandem te ressuscitar. – ele ri…sozinho.
Ela não entendeu a piada. Simack parou de rir e continuou o que queria dizer:
- Filha, nem todo guerreiro é forte. Esta é a principal característica, mas não é a única. Quando ainda me aventurava pelo mundo, eu era o homem de armas mais fraco do meu grupo. Até o halfling era mais forte que eu! Nunca subestime a força de um halfling. Eles batem mais forte do que parecem.
- Matar os halflings!
- Não! Não tou dizendo para matar os halflings. Estou dizendo para não se confiar na força somente. Quando você não é o mais forte, você tem que se empenhar mais nas suas habilidades com a arma, treinar novos golpes, golpes que se adaptem às suas habilidades naturais. Tive que melhorar a minha precisão para compensar a falta de força. E muitas vezes eu tive que improvisar. Eu já te contei como casei com sua mãe?
- Estória!!! - ela se sentou.
- Argon, Djalma, Tímonten, Tarik, Bred e eu fomos chamados por nosso amigo príncipe Íkarus, que tinha se casado e solicitou a nossa escolta para viagem de núpcias. Ele conhecia uma praia do sul que era realmente muito linda. Um pedaço do paraíso com águas azuis! Fomos para uma pequena aldeia costeira e de repente fomos atacados por inimigos. Nós não sabíamos, mas no mesmo prédio estava o seu avô, o Conde Drackmoore e sua filha, Marion. – suspirou.
Depois do suspiro, ele prosseguiu:
- Naquele tempo, Jandy já ambicionava grandes conquistas e o conde estava numa missão para avaliar o território e procurar dragões. Os assassinos estavam à procura do conde, mas não contavam que estivéssemos lá. Acabamos enfrentado os inimigos por acaso, enquanto seu avô não desembainhou sequer a espada. Argon atacava com todo o arsenal de armas que tinha, pois naquele tempo ele usava todo tipo de arma. Tarik – o anão montês- brandia sua espada, empunhando-a com as duas mãos. Bred atacava usando sua destreza, mas os inimigos não eram tão grandes a ponto dele obter vantagem. Tímonten não sabia se usava magia ou se golpeava e Djalma apesar do seu martelo mágico, ali não era a praia dele, Entendeu, praia! -ele caiu na risada.
- Não entendi.
- Continuando…Todos ali se confiavam muito na força, na gama de armas, nas habilidades raciais. Eles não se preocuparam com o principal, a técnica. Argon sabia usar várias armas, mas não era bom em nenhuma naquela época. Tímonten, nem era um bom guerreiro, nem um bom mago naquela época. Bred tinha coragem, mas ainda era muito tímido em combate naquela época. Djalma não gostava de derramar sangue e Tarik confiava demais no aço da espada, mas do que na mão que a empunhava. Eu fui o único que esqueci um pouco da força dos golpes proferidos e me preocupei em analisar os inimigos e acertar seus pontos fracos. Sozinho, matei metade deles. Mesmo Argon, precisou da minha ajuda. Até hoje quando querem alguma coisa, eles vêm até mim.
- Meu pai é o maior.
- Sim, obrigado. E foi graças a minha técnica superior, que o seu avô me escolheu para desposar a filha dele. Não foi a força que me deu a grande glória, foi a minha perícia.
E concluiu:
- Se você souber aliar sua força a uma boa técnica, você será invencível Valkíria. E eu estou te preparando para você se tornar a melhor guerreira do mundo.

Valkíria despertou do transe. Estava na hora da técnica. Ela se livrou do escudo, pegou a espada caída no chão e se levantou, ainda fraca. Empunhou a arma com ambas as mãos e calculou o momento do novo ataque, assim que a criatura viu que ela tornou. Abimalek e Espuma atrapalhavam a concentração do monstro. O sacerdote conseguia se equilibrar na fera, mas era golpeado pelas asas. Valkíria aproveitou a distração da criatura e acertou a primeira espadada. A espada vampírica não deixava sangue nos talhos que abria. O sangue do monstro foi convertido pela espada e Valkíria teve parte dos ferimentos regenerados.
O monstro sentiu a dor, o golpe carecia de força, mas atingiu a fera com precisão, atravessando as escamas. O monstro arregalou os grandes olhos amarelos sobre a guerreira impávida. Para ela, o ataque era a melhor defesa. Ela preparou-se, ergueu a espada sobre a cabeça e desferiu o golpe com a lâmina assim que o monstro se aproximou o suficiente. Com o ímpeto do primeiro golpe, ela girou e acertou o segundo. Ela deslizou no chão com sutileza, movimentando-se o mínimo necessário para não cansar. O único som que ela ouvia era o do próprio coração batendo. Abimalek, também muito ferido, viu que a guerreira estava com um ar altivo e não errava mais nenhum ataque.
O monstro se enfurecia cada vez mais, porém seus ataques eram previsíveis. Valkíria tinha percebido isso e se tornava cada vez mais mortífera, a cada corte da lâmina, os ferimentos dela iam estancando e ela ganhava confiança. Uma saraivada de dardos místicos, lançados por Aurora, queimou o corpo de monstro, Hagen saltou do pégaso tentando acertar o monstro, mas a criatura se esquivou. O dragone se ergueu ficando sobre duas patas, fazendo Abimalek cair para trás, mas o clérigo rolou, ficando de pé. O dragone lançou-se contra a guerreira de peito aberto, ela acertou-lhe o coração antes de ser atingida. O dragone urrou e tombou.
Abimalek acudiu a fera agonizante. O monstro continuou vivo, mas já não era uma ameaça. Aurora criou um disco telecinético e eles colocaram o dragone lá e o levaram até a jaula. Os soldados se espantaram quando viram o enorme monstro chegar.
- Coloquem os leõeszinhos para fora. Este grande vai ocupar toda a jaula. Ele não pode urrar, temos que amarrar a bocarra dele. Meus ouvidos ainda estão zumbindo! – falou Abimalek, tomando controle da situação.
- Não temos mais como levar outros leões, Valkíria. Vamos voltar para Serra Antiga e deixar estes três com o Barão Griffin. – sugeriu Thon.
- Ei? Este bicho é um leão? – perguntou Thon.
- Pra mim é. – respondeu rudemente Valkíria
Eles riram e decidiram voltar para aldeia ao amanhecer.