Ventos da Guerra: Capítulo 28

Ventos da Guerra: Capítulo 28

REUNIÃO


Hagen aguardava a sua professora, mais uma vez ele estava no local combinado e Lila se atrasara. O relógio solar marcava o tempo com exatidão e revelando que a professora se atrasou dois minutos a mais que no dia anterior.  A mestra, tranqüila, passou pelo aluno e perguntou:

- O que você ainda faz aqui?

- Estou esperando pela senhora.

- Então você não precisa mais esperar, eu já cheguei. E você já pode ir.

- Sim, senhora.

- Esteja aqui pontualmente, amanhã.

Hagen faz um gesto respeitoso e se retirou. “Ele está aprontando alguma coisa”, pensou ele. Pelo resto do dia, o guerreiro se dedicou aos treinos de artes marciais. Hagen estava dedicando-se em dominar todas as técnicas. Ele era um jovem prodígio em artes marciais, o treino nas lutas de Shinobi foram parte do preparação para chegar aos Setes Céus. Mas para se tornar um verdadeiro artista marcial ele precisaria descobrir e dominar os últimos segredos do dojo Chien, o caminho do céu.

Aurora estava no alojamento, na parte feminina, apesar de não haver uma divisão formal naquela área estudantil precária. Ela devorava com avidez as tábuas que Malus havia lhe emprestado. As Tábuas da Alma eram os livros sagrados do sacerdote de Arden, lendo esses textos ela percebeu que Malus era um tanto exagerado e gostava de usar a aura de mistério em volta do culto para criar uma imagem amedrontadora dele. Exagero, contudo não significava erro, as palavras do livro traziam consolo, não salvação. A maga lia as tábuas com a velocidade do pensamento. Quanto mais avançava no texto, mais tinha a impressão de aquela coisa a deixava mais perdida.

xxx

Longe dali, na segurança do castelo imperial, Thon treinava com seu tio Barn o combate com espada e adaga. Barn explicou a importância da técnica e alertou sobre os cuidados que se deveria ter ao lutar com uma arma em cada mão. Como achava que Thon não demonstrava muita aptidão para a batalha, o tio acalmou o jovem para que este não se desanimasse caso achasse a forma de lutar difícil. Barn tentou ser o mais didático possível:

- Apenas repita os meus movimentos. – disse o tio ao aplicado aluno.

Thon aprendeu a usar a adaga juntamente com a espada curta mágica com destreza. Barn sentiu que o sobrinho aprendia rápido e dominava tão facilmente a técnica, que parecia  ter um dom natural. Quanto mais notava o progresso do halfling, mais o tio complicava as manobras. Para Thon tudo não passava de uma dança, uma dança com espadas. Barn notou que o sobrinho estava assimilando tudo tão rápido que não teria mais nada para ensinar. Porém, o halfling veterano era muito esperto:

- Você esta se saindo muito bem Thon, mas é melhor pararmos por aqui.

- Por que tio? -perguntou de sobressalto.

- Porque você pode ter câimbras.- respondeu com extrema preocupação.

- Câimbras, mas eu estou ótimo. Olha aqui! - disse pulando.

- Câimbras sempre surgem quando você parecesse ótimo. Vai por mim, você não gostaria de ter uma dor no pulso amanhã pela manhã.

- Está bem, tio. – resignou-se o sobrinho, caindo na lábia do matreiro tio.

Quando Thon embainhou suas armas, um mensageiro adentrou no recinto de treino e transmitiu uma mensagem sigilosa para Barn. Quando o mensageiro se retirou, ele contou para o aprendiz:

-Boas notícias. Seu pai já retornou à Vitória.

- Que maravilha, estava querendo falar com ele.

- Eu não ficaria tão ansioso, Thon. Seu pai gosta de se meter em casca grossa. E quando os amigos deles começam a passar por aqui, o caldo só engrossa. A paladina matadora de dragões Karem já está aqui faz dias. Ela falou muito pouco, mas disse que tiveram êxito e esperaria que Argon e Bred regressassem. Simack e Marion- os pais dos seus amigos Allis e Valkíria- logo deverão aparecer também. Não acho que o Império continue com o Imperador no troono por mais de dez dias. Presumo que ele logo irá viajar.

- Então tenho que falar com ele.

- Tudo ocorrerá na hora certa.

xxx

Os dias passavam-se a rotina estudantil tomava conta do dia-a-dia dos estudantes ilustres. Dentro do corpo estudantil, os nomes e históricos de cada um dele tomavam vulto. Os novatos, contudo, ignoravam a fama que possuíam, concentrados demais no empenho das atividades.

O ritual de Hagen se repetiu várias vezes, até que uma bela manhã, ele comeu com calma. Allis e ele foram os últimos a sair do refeitório. Sem nenhuma pressa, Hagen rumou para o anfiteatro. Ao se aproximar do local, percebeu que a professora havia se antecipado naquela manhã. Desta vez, ela estava esperando por ele. Hagen sentiu uma sensação de sucesso. Vencera o desafio. A mentora, porém não se mostrou abalada. Na verdade, a sensação de superioridade daquela velha halfling estava maior que nunca.

- Atrasado, mocinho. – disse ela, com sarcasmo.

- Ora, a senhora me ensinou a não chegar pontualmente. – respondeu com desdém.

- Vejo que cheguei onde queria chegar. Você não está tomando meus ensinamentos com seriedade. – concluiu com seriedade.

- Eu fiz apenas o que a senhora me mandou. – replicou.

- Este é o seu problema Hagen. Você faz o que os outros mandam.

- E eu devo desobedecer? – questionou.

- As respostas não são tão óbvias quanto nós queremos que elas sejam.

- Eu irei refletir sobre estas palavras.

Lila foi em direção a bolsa que carregava e tomou em mãos alguns rolos de papiro. Ela os leu franzindo a enrugada testa. E lançando um olhar esperançoso sobre Hagen explicou:

-Nestes rolos está parte da sua história. O magnífico reitor tem grande acesso à informações e ele é amigo de muitas pessoas que você conhece. Então posso dizer que tenho pequeno conhecimento sobre sua história. Gostaria que você me ajudasse a saber mais.

- Prossiga. O que a senhora sabe sobre mim? – perguntou desconfiado.

- Você foi treinado para ser o maior campeão do mundo. Para isso teve três dos maiores mestres do oriente, que te prepararam para alcançar os Sete Céus e adquirir poder nunca antes visto. Sua primeira missão foi restaurar a relíquia dos Deus Avalon. Porém, depois disto, você cumpriu seu objetivo de vida e retornou para a terra do seu pai, onde você é um pária dentro da própria família, por ser um filho bastardo do príncipe herdeiro de Yoria.

- Apesar de incompleto, está correto.

- Eu presumo que você treinou sete anos nos Setes Céus.

- Sim, foram três anos em Aexis, os mestres Jubei, Kano e Iwahashi, me prepararam para o verdadeiro ensinamento. Aos onze, parti para Monte Celestia, como eles se referem aos Sete Céus. Recebi o Treinamento peles mestres: Gabriel, em Lunia; Zachariel, em Mercúria; Anahel, em Venya; Miguel, em Solania; Sammael, em Mertion; Zachiel, em Jovar; e Xeronas, no caminho para Chronias e pelo mestre Cassiel, quando cheguei ao cume da Montanha.

- Então você teve onze mestres até retornar para cá. Mas eu ouvi que você ainda pediu ajuda de mais um.

- Certamente. O nome dele é Argon de Lentis, paladino fundador da ordem do Punho de Prata, instrutor dos Guerreiros da Aliança. Ele foi agraciado com o título de herói arquiduque de Yoria – o mais alto título dignitário do meu reino- o destruidor da Pedra Arco-Íris. É general de exército em Yoria e braço direito da família real.

- Ele possui um currículo invejável e a fama do general Argon excede as fronteiras nacionais. Isto significa que você que você encontrou um bom mestre. O décimo segundo. E qual foi o conhecimento que ele te transmitiu?

- “Conheça o teu reino.”

-  Você fez o que ele mandou?

- Sim, eu andei por todas as cidades e aldeias yorianas durante semanas e semanas, sinti que era uma tarefa interminável. Porém, ele me mandou entregar uma carta em Deshnok e conclui com sucesso a missão. Depois disso, mestre Argon não me ordenou mais nada.

- Será que ele julgou que você tivesse concluído o treinamento?

- Não sei ao certo, ainda me sinto conectado a ele, já que não houve uma conclusão formal.

- Então se desligue dele. Você é um como um paladino, seus poderes vêm da rigidez do Código que você segue. É pelo seu código que eu vou  me guiar para orientá-lo.

- O quê!? Como assim me desligar?

- Quando você me aceitou como mentora, tacitamente concluiu que o seu treino com o seu último mestre estivesse completo. E eu vejo um sentido místico nessa escolha. Você nasceu durante o período de transição, o curto décimo terceiro mês. Nessa época é os deuses ajustam o universo para que o mundo não entre em colapso e fazem com que um novo tempo se inicie.

E olhando para o céu, erguendo os braços, ela abandonou o falar sereno e proclamou:

- Eu sou o seu décimo terceiro mestre. Aquela que vai fazê-lo abandonar o velho e seguir adiante. Depois de mim, você deixará de ser um mero aprendiz e se converterá em mestre.

Hagen ficou atônito, assustado e receoso. Depois do discurso, Lila acabou a aula, juntou os rolos de papiro e lembrou para ele que não gostava de atrasos. Neste dia Hagen treinou artes marciais, mas não conseguiu obter progresso. Ele se concentrou e olhou para dentro de si, vislumbrando os ensinamentos de Zachiel, o antigo. Hagen ergeu a mão e concentrou-se em uma pedra que ornamentava o jardim onde treinava: a pedra levitou e parou no ar. “Seja um homem honesto e moverás o mundo”, disse o ancião Zachiel.

Aurora leu e releu as Tábuas da Alma. Não encontrou nenhuma resposta que procurava e sentiu ludibriada pelo necromante. Ressabiada, buscou explicações do professor, no covil dele. Malus, recuperado da lepra, agora estudava peças humanas e não se importou com a chegada de Aurora.

- Malus – disse ela ignorando o olhar repugnante dele – eu li todo o livro. Mas não acho que não estou progredindo. Eu acho que este não é o deus que eu procurava. Queria uma divindade que estabelecesse um elo mais amistoso entre os que já se foram e os vivos. O deus Arden afasta os dois mundos.

- Eu sabia que você era esperta menina. Eu esperava que quando você descobrisse o verdadeiro poder do meu deus, deixaria de lado este seu sonho.

- Eu não acredito! Você esteve me enganando!- disse estarrecida.

- Nãaao. Enganando, nunca faria algo assim com uma menina bela, de pele sem rugas. Eu só quis lhe dar a oportunidade de conhecer algo melhor.

“Velho miserável” ela pensou. Aurora sentiu um formigamento nas palmas das mãos e começou a coçá-las com as unhas. Ela estava nitidamente nervosa.

- Não fique braba comigo. Eu sou um homem velho e perto da morte. Meus dias estão contados. Vê aquilo na parede: é o meu caixão. Já está pronto, só esperando o meu último dia, que não vai tardar. Que culpa eu tenho se nunca encontrei uma aprendiz a altura para me suceder. Seria pecado tentar achar alguém de ossos fortes e arcada completa para me carregar meu fardo?

Aurora ficou menos nervosa e faz mensão para que Malus prosseguisse.

- Vê aquele esqueleto. Era o meu antigo mestre, ele sempre achou que eu não era de nada, que morreia na primeira grande epidemia que assolasse a cidade. Que eu era tão frágil que não agüentaria carregar os corpos até as sepulturas. Mas você estava errado não estava, Monsenhor. – zombou da caveira.

Malus arrastou seu corpo alquebrado até o esqueleto, envolvendo-o numa abraço camarada.

- Ele vivia tentando entender a morte. Ele se achava sábio e me humilhava o tempo todo. Ah, ele não sabia que só havia um modo de compreender a morte: morrendo. Como pode Aurora, um sacerdote da morte, temer a morte? Alguém precisava ensiná-lo e fui eu, o mais frágil e tolo da seita! Ha, ha, ha, ha. Agora ele aprendeu! – gargalhou macabramente, mexendo na mandíbula do esqueleto.

Malus voltou-se para Aurora e deu continuidade às motivações:

- É por isso que eu te escolhi Aurora. Para que você fosse a minha melhor aprendiz. Alguém que eu gostaria de ensinar e não fazê-lo por obrigação sacerdotal. Eu já estou perto de morrer,  não posso me dar ao luxo de escolher outra pessoa. Você aceita ser minha aprendiz de sacerdote?

- É claro…que NÃO! Você trate de me AJUDAR ou então vai acabar ficando igual ao seu MESTRE. – ameaçou com o dedo em riste.

Malus, olhando para o restos mortais do antigo mestre, suspirou:

- A vida é mais inesperada que a morte. – e voltando-se para Aurora completou: – Está bem sua geniosa, eu vou ver o que posso fazer por você, me procure depois.

Ao anoitecer todos eles tiveram uma surpresa ao retornarem para os seus alojamentos: convites. Neles, a mesma mensagem de saudação, uma indicação de ponto de encontro e um horário.

- Aurora, olha só o que eu recebi? – disse Allis, mostrando o pergaminho.

- Eu também recebi, um veja.

- Eu ter papel também. – Valkíria, que não sabia ler,  abanou o convite.

- Olá, pessoal! – surgiu Ualfo.

- Ualfo! Onde você esteve? – Allis perguntou.

- Estavam tirando meu couro lá no laboratório. Ganhei três dias de folga! O que vocês tão fazendo?

- Nós fomos convidados para uma espécie de reunião secreta exclusiva. Deixaram convites para cada um de nós, dentro dos nossos quartos. – respondeu Abimalek.

- Oba! Posso ir?

- Nós devemos nos previnir, não sabemos que “reunião” será esta. – alertou Hagen.

- Vai aparecer um monstro gigante e vai te engolir Hagen. Ruaar- brincou Abimalek.

Todos riram e decidiram verificar do que se tratava o convite. O local combinado era o teatro, durante aquela noite, houve um espectáculo entendiante do coral sacro, que ainda não estava muito afinado para frustração do reitor. Em virtude da apresentação, os alunos tiveram o horário do toque de recolher extendido, o que permitiu livre trânsito dos estudantes em horário noturno. Eles entraram no teatro vazio e seguiram, conforme instruções, para as galerias superiores. Alguns estudantes, usando máscaras, os receberem e os guiaram para um dos camarotes, ficando estes na entrada. Um a um, eles iam entrando, cruzando um pesado cortinado que ocultava o interior da majestosa sala, que acomodara o reitor Holly horas atrás.

Dentro do camarote, as cadeiras estavam viradas não para o palco, mas para o interior. Luzes efêmeras de velas mágicas deixavam o ambiente com atmosfera de mistério. Nas quatro cadeiras imponentes, estavam sentados quatro nobres, cada qual com seu séquito. Um dos nobres, já era conhecido por eles: Marcos, o aluno veterano que aplicou um trote neles. Logo eles perceberam que de nobres aquelas pessoas não tinham nada, apesar das vestes cerimoniais que usavam.

- O que está acontecendo aqui? – perguntou Aurora.

Uma bela jovem, de cabelos dourados e manto amarelo, levantou-se delicadamente do assento mais à esquerda e com voz melodiosa se pronunciou:

- Eu sou Lisandra, uma das anfitriãs desta cerimônia exclusiva, da qual todos vocês tiveram a honraria de serem escolhidos.

Em seguinda, do assento ao lado um homem corpulento, mas de aparência soberba, de cabelos e olhos castanhos bem claros e barba aparada e de manto azul, pediu com gentileza a palavra:

- Nós somos os presidentes das quatro fraternidades estudantis. E temos o dever de informá-los que vocês foram contemplados com a chance de ingressar nas nossas casas. Eu sou Hendrix e declaro aberto o cerimonial de seleção de candidatos.

Um anão das colinas de manto índigo estava sentado em um dos tronos e com o aval de Hendrix, fez as apresentações.

- Colegas estudantes, eu sou Bodva, representante de Épsilon, que não pode comparecer hoje. Ele pede desculpas pela ausência. Este homem de manto preto – disse fazendo um gesto – é Marcos, que vocês já tiveram a oportunidade de conhecer.

Valkíria sentiu uma súbita raiva ao ver Marcos, mas logo, sem que pudesse compreender o motivo, se acalmou. Aurora sentiu automática antipatia por Lisandra, enquanto os demais permaneciam desconfiados. Apenas Ualfo e Abimalek estavam maravilhados com aquele acontecimento. Bodva prosseguia com o discurso:

- As fraternidades estudantis são instuições formais que representam os estudantes da universidade tanto perante o corpo docente, quanto ao reitor e mesmo em relação à problemas externos. Fazer parte de uma fraternidade é ser membro de uma família que protege e coopera com os irmãos. Todavia, nem todos tem aptidão para ingressar nas fraternidades, sendo apenas os alunos excepcionais escolhidos para participar de testes que determinarão em qual delas se poderá adentrar.

- Por isso vocês estão aqui hoje calouros. Se quiserem ser como nós teram que provar o seu valor. – disse Marcos. 

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