Conversando com um grande amigo (Marcos Batata), sobre sistemas de RPG, a conversa pairou sobre Lajedos & Lagartos, o jogo que estou desenvolvendo. Enquanto Old Dragon já está bem adiantado, rumando para sua versão final, L&L ainda está em fase de produção, eu diria no início, dada a magnitude do projeto.
O foco da discussão era a simplicidade das regras e o objetivo delas em passar o clima do cenário. O casamento das duas gera jogos excelentes, como foi Defensores de Tóquio, que conseguia passar o clima dos seriados japoneses com perfeição inigualável. Quando 3d&t tentou ser genérico, o sistema se mostrou falho em diversos pontos.
Falando sobre ambientações dos sistemas, percebemos que os RPGs ditos nacionais, de nacionais têm muito pouco. A grande maioria das tentativas de criarem jogos nacionais resultarem em sistemas ou genéricos ou baseados em temáticas consagradas em jogos estrangeiros. Treva se baseou no sucesso de Vampiro e Tagmar tentou pegar carona em D&D. Trevas nunca chegou perto de ameaçar o sucesso do sistema inspirador, nem Tagmar, que tenta se reerguer.
Outra tentativa é tentada agora: Old Dragon.
O novo sistema tem méritos, como se pode constatar nos previews liberados. Mas alguém levará a sério mais um D&D-similar? Será que em 10 anos, teremos grupos publicando suas crônicas de Old Dragon, o sistema sempre fiel aos ideais OLD SCHOOL?
A resposta é incerta, mas a probabilidades são desfavoráveis. E a pirataria de livros complica ainda mais a vida do pessoal do Paragons, que vão ter que concorrer com material importado a preços idênticos ao do material que estão desenvolvendo com esforço.
Pior ainda é o caso do reles Lajedos & Lagartos. Enquanto cenários baseados na medieval são vistos com glamour e romanceados, quando a história é a nossa, surge um desprezo absoluto. Como me disse Batata, ” Os reis da Inglaterra são nobres, os de Portugal são gordos abobalhados.”
É fácil para qualquer brasileiro imaginar cavaleiros ingleses em armadura de couro batido, montados em cavalos audazes, brandindo suas espadas com bravura. Porém imaginar um cavaleiro nordestino montado num cavalo audaz, trajando gibão, com uma foice empunhada com bravura não é algo aceitável ao nosso paradigma. Um caucasiano de pele alva e língua sofisticada matar um dragão pode, um caboclo com sotaque cearense matar um dragão, não pode.
Confesso que L&L é um cenário nacional “ultra-hardcore” , mexendo com os brios do nosso paradigma e tem justificativa se não atrair jogadores nem para partidas “um pipoco” (desculpem, tinha que dizer one-shot). Mas o que me dizem de jogos mais normais? Por que é incomum ouvirmos relatos de alguém que usou cidades brasileiras para ambientações cyberpunk. Notem que o game mais novo de Shadowrun é ambientado em Santos, mas aqui no Brasil, jogávamos em Seatle.
Conheci muita gente que jogava vampiro em Chigago e Gary, mas não usava São Paulo ou Cuibá. Se não fosse o projeto Brasil by Night talvez cenários locais fossem muitos mais raros para Vampiro: A máscara. Notem que muitos jogos dão completa liberdade de escolha de cenário, mas mesmo assim o Brasil é sempre a segundo opção.
Quando se trata de jogos baseados em história, tudo fica mais nebuloso. Nenhum grande cenário usando o Brasil como tema de fundo surgiu nos primórdios dos anos 90, justo quando a concorrência com os sistemas famosos era menor e o acesso a material importado era baixo e de difusão lenta. E quando havia? Quem comprou Desafio dos Bandeirantes por aqui?
Por que nunca surgiram nem sequer suporte para mestrar RPG ambientado nas Ditaduras brasileiras? Nosso país sempre esteve entregue às moscas em matéria de RPG. E a culpa é dos brasileiros, que não conseguem ver o Brasil com bons olhos.
Amigo Elfo, não seja tão severo com o olhar do brasileiro sobre sí mesmo. A pressão agringalhadora é muito forte. Se o problema fosse apenas no RPG…
Mas acredito que com a temática certa sendo apresentada de maneira adequada, todos acabam se rendendo a uma boa idéia. Espero que essas boas idéias continuem a surgir e que possammos jogar muitas aventuras “um pipoco” com elas!
Concordo contigo, Danielfo. Estudei cinema e o mesmo tipo de preconceito se faz aqui.
Mas não desanime, ao menos um fã você terá.
3D&T num tem nada de falho, o que falha é quem usa ele.
Eu não costumo usar cidades brasileiras como cenários de RPG porque eu sempre senti que o resultado final não era verossímil. Várias vezes já joguei aventuras que se passavam na minha cidade, e o resultado final era que todo mundo conhecia o lugar bem demais, a ponto de que qquer coisa que o mestre incluisse soava “falsa”. Se a aventurase passa em Nova York, ou Inglaterra, ninguém conhece mesmo, o que o mestre disser que tem, tá lá e ninguém estranha.
E eu comprei o Desafio dos Bandeirantes… mas recentemente, num sebo, porque na época dele eu num tinha grana! E aquele cenário é realmente muito bom. O sistema peca um pouco, mas o cenário merecia um remake.
Agradeço o apoio. Vou lançar, mesmo q só eu mesmo jogue. Pelo menos eu me divirto.
Não sei, tem gente q não acha que uma bazuca cause o mesmo dano de um estilingue.
Tou zoando.
Grande Corvus, uma boa é usar uma cidade diferente da sua, para solucionar o problema.
Agora veja a bobagem dos jogadores. Se vc disser que há uma orelhão na frente do cinema, vão fazer escândalo por causa disso, mas se vc estiver em NY e colocar crocodilos nos esgostos, todo mundo acha normal…vá entender uma coisa dessas.
compartilho de certas ideias suas, mas o problema na realidade vem “la e baixo”. creio que todos aqui foram criados com “filmes e desenhos” gringos.
nacional aqui era ou palhaçada (trapalhoes) ou pornochanchada (nuno leal maia :P).
se em nossa criação nao valorizamos o pais, é dificil quebrar certos preconceitos. as proprias palavras as vezes soam melhor em outras liguas (devil- diabo). concordo com vc, o defensores de toqui era muito massa para o q se propunha originalmente. jogamos com cavaleiros do zodiaco inventados e foi muito divertido! depois , alguem tentou usar para outras coisas q vimos q nao deu certo.
enfim, o problema como eu disse nao estao so ai: veja por exemplo nos EUA. a tradição de games~wargames é muito grande, faz (fazia, ao menos) parte da vida de muitas pessoas. aqui, jogos sao vistos em sua esmagadora maioria como coisa pra criança.
Enquanto numa loja vc so acha os “ABC” tipo banco imobiliario, detetive e War, cadê os jogos como Asilo Arkhan, Carcassome (com boa distribuição, não aquele fiasco da devir) e tantos outros famosos no mundo inteiro?
se ja somos criados de maneira a valorizar o q vem de fora, e o mercado nao ajuda, fica realmente dificil
Concordo com os colegas, a coisa é antiga… mas se ninguém tentar como é que vão mudar?!
Não desanima, estou doido para jogar L&L!
Já estou na parte de combate, resolvi simplificar mais o sistema para ficar mais rápido. O sistema estava ficando grande e fora do rumo.
Agora eu sei que ele deve ser um sistema que retratará a literatura de cordel e inspirado na obra de Ariano Suassuna.
Espero colocar um preview das regras para apreciação dos colegas.
[...] é do que um misto de curiosidade pessoal sobre o momento histórico, boas lembranças do velho Desafio dos Bandeirantes e uma inspiração contagiante, causada pelo contado com a simplicidade de RPGs como Lady [...]
Não comprei Desafio dos Bandeirantes à época, por ser um neófito de 14 anos no mundo do RPG (jogava a caixa do D&D da Grow!), e hoje invejo amargamente todos aqueles que compraram. ><