Ventos da Guerra: Capítulo 25

Ventos da Guerra: Capítulo 25

CONDENADOS

Aurora saiu satisfeita com as respostas da jovem garota, que assustada confessou os detalhes que faltavam. Como o julgamento dos  sapateiros seria apenas na manhã seguinte, ela teve tempo de se encontrar com os demais e reunir as informações colhidas. Allis estava achando tudo muito engraçado, todo aquele trabalho para um caso que ele já sabia qual a seria solução, mas preferiu esperar ver como os yorianos engenhosamente resolveriam.

Os sete estavam perfilados na praça central, onde se realizou o julgamento público. O velho juiz era famoso por condenações rápidas. O magistrado acreditava que as rápidas penalidades infligiam um grave dano aos marginais da sociedade. Um orador leu o resumo da contenda que se passaria ali e chamou Claudius. O mercador de tecidos – relatou o ocorrido com ele no dia em que foi atacado pelos sapateiros. A população ouviu com atenção o relato do corajoso comerciante retornando de uma venda bem-sucedida em terras estrangeiras e se espantou com a descrição da armadilha traiçoeira que derrubou dele a carruagem. O povo se indignou quando soube que o coitado foi arrancado de dentro do coche e levado a um casebre distante e ficou estarrecido com o espancamento de um inocente indefeso. Nenhum yoriano toleraria novamente a opressão.

Brynn – o cocheiro do mercador -  confirmou em seguida os detalhes do ocorrido. Claudius chamou Abimalek para contar como tinha sido encontrado e como foi o salvamento. O sacerdote impressionou a multidão com o relato da agilidade e dons divinos que guiavam cada movimento dele e incluiu a participação desastrada de Hagen no time de resgate. Claudius apreciou a participação do acólito e pediu a palavra. Ele fez as considerações finais, isentando o clérigo de qualquer tentativa de assassinato, visto que o herói não tinha usado nenhum ataque letal, sendo ainda piedoso com os sapateiros feridos em combate. A multidão aclamou o herói.

O juiz convocou Hagen. O cavaleiro confirmou a narrativa do clérigo, omitindo o ato desastrado dele,  e quando perguntado, informou que tinha sido a princesa de yoria que atingiu os homens com  magia. Enfatizando que naquele momento tudo levava a crer que eram ladrões ou coisa pior.

Claudius argumentou que o tesouro dele não havia sido encontrado e que isto fazia dos agressores ladrões também, visto que parte do ouro se encontrava com eles e  talvez a outra parte estivesse perdida. Claudius, com boa oratória, argumentou que tudo não passava de um grande roubo orquestrado, camuflado por uma tentativa de sujarem-lhe a honra. O povo repudiou os sapateiros.

Aurora – a princesa – se anunciou como defensora dos sete homens acusados. O povo, sabendo que a princesa participara do grupo que salvara Claudius, ficou confuso. “Como ela está defendendo os agressores se ela mesma os enfrentou”, comentava a multidão que assistia com curiosidade. A princesa respirou profundamente e cumprimentou o juiz e o povo e iniciou a defesa:

- Vejam estes homens. Muitos que estão aqui devem conhecê-los. São pessoas comuns, pessoas normais, que sentem os mesmos medos e frustrações. Muitas vezes, nós não acreditamos que a justiça funcione e, às vezes, queremos fazê-la com as próprias mãos. Há não muito tempo atrás, foi o que os meus avôs e o meu pai, ainda jovem, fizeram nesta terra. Eles levantaram contra a INJUSTIÇA para que houvesse JUSTIÇA no reino e BONDADE entre os homens e mulheres. Eles lutaram, como tenho certeza que muitos aqui também, para que não precisássemos sofrer para nos defender. – discursou.

Alguns senhores e velhos lembraram-se daqueles tempos difíceis, encerrados fazia quase trinta anos antecedidos por décadas de morte e resistência.

- Naquele tempo, era preciso ter amigos influentes para conseguir que suas causas fossem atendidas. Naquele tempo, não era preciso nem estar com a verdade para que essas  causas fossem atendidas, um caos. Quem queria justiça, sem ter apoio dos poderosos, fazia por própria conta e risco. E é nesta situação que estes homens se encontraram. Refém de uma injustiça mesmo após ela ter sido abolida.

O povo ficou em silêncio, amarrados pela retórica da princesa que amolecia os corações puros.

- Estes homens, acreditando que a ÚNICA filha da casa tivesse sido desonrada, não possuiam provas para acusar Claudius. – ela fez sinal e Thon leu todo os relatos do ocorrido no casarão do rico mercador.

O halfling leu o a narrativa que Mirna havia feito aos irmãos no dia do crime e também o depoimento de Claudius, que tinha uma fraca memória do episódio e muitos indícios de que poderia estar fora de si com era de costume por parte dele. Os populares começaram a caçoar do mercador beberrão e duvidar da sua dignidade, poucos momentos antes, inabalável. Entre as fofocas do povo, corria a de que o homem não resistia a um bom vinho, que era irritadiço e agressivo com os empregados e que nem as meretrizes locais o tinham em boa conta. A balança pendia para os sapateiros que tinham agido para vingar a honra da menina.

O juiz ordenou que o povo se calasse, pois era a princesa que tinha a palavra. Ualfo cochichou para Aurora os rumores que tinha ouvido na multidão, dando ciência à princesa da “temperatura” dos espectadores. Alguns estavam comentando, inclusive, que Hagen era o filho bastardo do pai dela. Ela sentiu-se constrangida por ele, pois também tinha ouvido estes comentários e sabia que o meio-irmão certamente ouviu e ignorou. A defesa prosseguiu:

- Vocês devem estar pensando que Claudius mereceu ser atacado por Jonas e parentes, mas ele não mereceu. Este homem – disse apontando o dedo de unha de rubi evidente – é tão inocente quanto os demais.

As palavras chocaram a multidão. Os mais sábios acreditavam que os rapazes eram culpados e que o mercador poderia ser inocente. Os mais emotivos apoiavam os irmãos,  queriam a inocência destes e sabiam que Claudius era um asqueroso. Porém, ninguém imaginou um resultado onde ninguém teria culpa. Foi o que a princesa os fez considerar:

- Tudo o que ouviram se baseou no relato inicial de que a menina falou a verdade, porém ela não falou.

Um grande “oh!” foi ouvido.

- A garota mentiu para os irmãos dizendo que tinha sido abusada por Claudius, que apesar de muito bêbado, não fez nada. Thon, você poderia continuar?

- Conversei com alguns empregados e eles disseram em juízo que viram a menina sair correndo da casa de Claudius e escutaram alguns gritos dele. Hagen e eu descobrimos o motivo do homem ter gritado com a menin: esta medalha! – disse erguendo o mais alto que podia e entregou para Aurora.

- Esta medalha, da falecida mãe de Claudius,  é cravejada de gemas, mas algumas foram perdidas por Helena,  ex-esposa dele, que ficou de  posse deste objeto após a separação. Ela  comprava sapatos da família de Jonas e conheceu Mirna que entregava os produtos. Num belo dia, Helena pediu para a garota levar o objeto ao ex-marido, que ela sabia  estar bêbado e temperamental. Quando a menina foi insultada, correu chorando para a casa da pessoa mais próxima conhecida, a própria Helena. Essa mulher, movida pelo ressentimento, orientou a menina para avisar aos irmãos que uma barbárie tinha ocorrido. - narrou.

O juiz  coçou o queixo enrugado após ouvir este fato novo e se manteve ouvindo a princesa.

- Helena sabia que sem testemunhas e com as boas conexões que Claudius possui com os sacerdotes de Mika, incapazes de solucionar o mistério, os homens não teriam como obter provas a favor deles. Eles ficaram desesperados e quando souberam que o mercador saiu da cidade, ficaram agitados e o sangue deles ferveu. Quando os vi pela primeira vez, os encontrei querendo marcar a face Claudius com fogo, mas não matá-lo ou roubá-lo. Nenhum deles ficou com uma moeda de ouro, eles nem sabiam da carga.  Tanto Claudius, quanto Jonas e os parentes e até Mirna, a garota, foram envolvidos na teia de Helena, que tramou o plano e só moveu as peças. Ela devolveu a medalha, mas sabia que o ex-marido pagaria caro por ela. Ele sofreria nas mãos dos irmãos da garota que seriam punidos pela justiça, enquanto ela escaparia ilesa. Mirna, ingênua,  foi induzida a acreditar que sua honra teria sido maculada e que comentários maldosos pudessem estragar a reputação dela, por isso concordou com o plano. Helena pagaria qualquer multa que o juiz impusesse aos parentes dela e no fim até eles se sairiam bem. -concluiu.

E voltando-se ao juiz ela pediu:

- Meritíssimo Juiz, eu, a humilde princesa, solicito que mediante tal ardil, o senhor considere inocentes estes homens da acusação de roubo e tentativa de assassinato. E Claudius de qualquer culpa relacionada à tentativa de agressão da garota Mirna.

A platéia delirou e clamou pela inocência daqueles bons homens. Alguns praguejaram a menina, outros mais hostilizaram Helena, convertida em vilã. A ex-esposa de Claudius assistia ao julgamento ocultada por um robe e capuz mundanos, quando sentiu a reviravolta no caso, escapou de mansinho, sem esperar a sentença ser pronunciada.  Ao se afastar da praça, entrando numa viela deserta, sentiu uma mão segurando-lhe o braço.

- Onde pensa que você vai? – perguntou Allis agarrando-a.

- Me solte! – reclamou ela, sem gritar.

- Quem eu sou não importa, mas você eu sei quem é: Helena! – ele puxou capuz dela, revelado o rosto de uma mulher madura e rancorosa.

- Você não sabe com quem esta lidando. – bravejou ainda com o braço seguro.

- Eu fui treinado para lutar contra dragões, você vai ter que ser esforçar muito. – falou com sarcasmo.

- Me solte! Você está me machucando. Você é um homem covarde por fazer isto com uma mulher.

- Mil desculpas, senhora. Minha irmã pode te conduzir com muito mais delicadeza. Valkíria, vamos levá-la de volta ao julgamento. Chegou a parte dela.

Valkíria surgiu logo atrás e arrastou a mulher como se fosse um feixe de gravetos. Allis ignorou os apelos de reconsideração vindos de Helena e voltou sorridente para a praça central.

O juiz leu a sentença.

- Considerando os elementos apresentados pela defensora. Absolvo Jonas e demais da acusação roubo e da tentativa de assassinato….

Aurora, Thon e Ualfo festejaram, enquanto Hagen permaneceu imparcial esperando o juiz  concluir o voto.

- Porém, eles danificaram a carroça de Claudius e promoveram agressões com as quais não compactuo. Por isso, eu os condeno a pagarem os reparos da carroça dele e a passarem três dias presos cada um, para aprenderem a pensar melhor antes de agir.

Jonas e os demais se abraçaram, sabiam que podiam reparar a carroça sem tantos problemas e viver por três dias a pão e água não seria tão ruim assim. O orador ordenou silêncio e o juiz continuou:

- Para Claudius, o considero inocente da acusação de violência sexual ou qualquer outro tipo de violência contra a menina Mirna. Contudo, é obvio que não vou tolerar seu comportamento inapropriado para alguém com a sua posição na aldeia. O senhor não poderá mais conviver com a fama de ser um melhor mercador e maior ébrio. Eu o condeno a um ano sem beber. Todas as bebidas da sua casa serão confiscadas e entregues aos sacerdotes de Mika em oferenda. Qualquer um que venda bebidas a este homem será passível de trinta dias de prisão! Se o senhor for visto bebendo pagar multa de cem vezes o valor da bebida. Não quero vê-lo em nenhuma taverna nem para beber água, ouviu bem senhor Claudius. Cumpra-se. – senteciou.

O homem assentiu envergonhadíssimo e sobre risadas da população. Neste momento, Helena é trazida a público por Allis que a entrega perante o velho juiz.

- Ora, ora, ora. Helena, me poupou de trazê-la aqui.

- Eu só fiz isto porque este homem me enlouquecia com ofensas diárias. Ele me forçou a fazer isto. - se defendeu em prantos.

- Todos têm seus motivos, mas isto não os isenta de culpa. Sua confissão, contudo, mostra que a senhora também deseja cooperar comigo e isto eu levarei em consideração. Fiquei muito triste em saber que uma senhora instruída e ilustre quisesse manipular a justiça, transformando homens honestos em ferramenta de sua vingança. Como a senhora teria dinheiro para pagar a multa que eu aplicaria aos sapateiros deve ter muito dinheiro sobrando. Eu a condeno a pagar o valor daquela medalha em multa, sendo parte do valor usado para restauração da peça e o restante para os cofres da aldeia.

- Isto é muito dinheiro, as gemas são valiosíssimas! - replicou a senhora.

- Eu sei muito bem quanto a senhora recebeu na separação. E sei que poderá devolver parte de seus bens para seu ex-marido e entregar algumas terras para lavoura pública. Se a partir de hoje, a senhora se dedicar aos seus negócios com o mesmo afinco com que trama vinganças, em alguns anos recuperará tudo.

Quando tudo parecia estar se encerrando, Abimalek apareceu mais uma vez, com uma informação reveladora.

- Eu sei onde foi parar o ouro!

Tanto o povo, quanto os amigos e até o juiz ficaram espantados. E o clérigo, cada vez mais revelando seu espírito ladino oculto,  revelou:

- Parte das moedas caiu do alforje (ocultou que ele tinha pegado as moedas)  de  uma das montarias, mas o outro alforje, contendo as sumidas duzentas e cinqüenta moedas de ouro, não se perderam, elas foram escondidas. E uma única pessoa poderia ter feito isto: Brynn, o cocheiro. – concluiu apontando  para o acusado o dedo em riste.

Brynn tomou um susto e com medo de que tudo viesse a perder, cedeu.

- Eu caí quando a carroça virou. E vi homens vindo pra cima…  minha reação foi pegar um dos sacos de ouro e correr para longe, na intenção de proteger a carga!  O ouro estava com os cavalos porque em Ayoria eles fiscalizam o interior das carroças dos mercadores e senhor Claudius me mandou colocar em local mais óbvio para se passar por posse minhas e desviar a atenção dos cobradores estrangeiros.  Não sei o que nos deu lá para fazer aquilo. Ao ouvir os ruídos, achei que eram os ladrões voltando e escondi o ouro embaixo de uma pedra, daí vi que não eram. Eu estava pensando em devolver o ouro, se tudo terminasse bem, só que era tanto ouro e o senhor Claudius é tão rico…eu não sabia o que fazer. Não sou um ladrão, mas tem horas que o senhor Claudius me trata tão mal que não achei que ele merecesse saber a verdade. – falou em tom de desabafo.

O juiz olhou para o homenzinho, que estava arrasado.

- Brynn, eu concedo a você a posse daquele ouro.

- Com todo respeito meretíssimo, mas o ouro é meu. – informou Claudius.

- Sua ex-mulher tentou atingi-lo, podendo até ocasionar sua morte. Seu empregado participava das suas fraudes contra os coletores ayorianos, tentou proteger seu ouro de ataques de ladrões. E ainda tem que agüentar seus destemperos. Mesmo que ele tivesse a intenção de ficar com ouro, creio que o senhor mereça uma punição adicional para aprender a tratar bem os seus iguais.

Hagen ficou impressionado com a firmeza do juiz e foi cumprimentá-lo e pedir desculpas pelos incômodos que ele imaginou ter provocado. O guerreiro não acreditava que pudesse existir tantas coisas em um reino onde o mal não mais entrava, mas aonde o caos e a neutralidade passeavam. O povo de Passagem comentaria aquele caso por muitos e muitos anos.

Jonas, o pai dele e irmã, Mirna, ficaram embaixo de uma árvore na estrada de saída de  Passagem em direção a Ayoria e acenaram para a carruagem que levava os seus salvadores para novas aventuras.

 

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Uma resposta para “Ventos da Guerra: Capítulo 25”

  1. Avernus diz:

    muito esperto o jeito com que os heróis solucionaram o caso e principalmente a fala de Aurora…

E você, o que pensa?