Abimalek girou o chicote no ar abrindo um pouco de espaço entre os homens armados que o cercavam. Os agressores não se intimidaram, mas recuaram um pouco, dando-lhe espaço suficiente para correr para a parede da casa, saltar, pegar impulso nas pedras e se reposicionar entre o grupo que tinha ido cercá-lo e os demais que guardavam o refém. O salteador que segurava a madeira em brasa golpeou o clérigo, que esquivou-se. Abimalek havia tirado o foco do torturador da vítima e atraído para si como planejou. Outros três homens cercaram o clérigo e passaram a atacá-lo, o sacerdote revidava com o chicote, enquanto pensava em uma nova estratégia.
Abimalek lutava melhor que aos agressores, mas usava uma arma menos letal – o chicote – e sabia que estava em grande desvantagem numérica. Lá fora, dois dos três salteadores tombaram num baque seco: era a cavalaria chegando. Aurora, montada em Mu, usou o poder de suas unhas de rubi para lançar cinco dardos de energia, que além de derrubar dois salteadores, deixou outro muito ferido. Hagen, vindo pela parte frontal da casa, saltou em direção à porta num grande impulso; se afastando de Valkíria, que o seguia. O guerreiro de armadura de bronze se chocou contra a porta – velha e apodrecida- que se esfacelou. O corpo de Hagen atravessou a passagem como se não houvesse obstáculos e o guerreiro cruzou a casa deslizando no chão áspero parando apenas nos escombros da parede oposta do casebre, fazendo-a ruir completamente.
O clérigo aproveitou-se da distração gerada involuntariamente por Hagen, para atacar os homens próximos, porém percebeu que o homem que foi atingido por um dardos místicos de Aurora estava em prantos ao lado dos outros dois, fatalmente feridos. O sacerdote açoitou o chão e ordenou:
- Rendam-se ou acabarão como eles! – disse apontando para os homens caídos.
Os homens restantes, alguns com vergões e roupas rasgadas pelas chicotadas recebidas e vendo que não seriam páreos para o guerreiro de armadura e espada katana que levantava dos escombros e sabendo haver um usuário de magia nas proximidades não tiveram alternativa e jogaram as adagas ao chão. O aparente líder, ao contrário dos outros, não largou a arma e ameaçou:
- Este canalha é um bandido, viemos fazer justiça! Eu morro, mas eu mato! – disse erguendo a adaga.
- Espere! Não faça isto! – suplicou o clérigo. – Minha deusa salvará os seus amigos. – E correu para curar os homens que agonizavam.
Hagen levantou-se deixando a espada na bainha. O salteador ainda estava com a arma em punho apontando para a garganta do refém. Valkíria vinha chegando à entrada do casebre, mas Hagen erguendo a mão pediu para que ela parasse, pois não havia necessidade de lutar. A guerreira, de espada em punho, decepcionada, arfou e ficou do lado de fora, sentada no chão. Thon, que vinha bem mais afastado, maneirou o passo e Allis vendo a cena, teve certeza de que a sua presença não era mesmo necessária.
Aurora viu Abimalek chegar e impedir a morte daqueles homens usando magia divina. Ela desceu da sua montaria caprina, observou o cenário e se apresentou:
- Eu sou a princesa Aurora de Yoria. O que está acontecendo aqui?
- Princesa! – os homens exaltaram.
- Princesa, meu nome é Jonas, sou sapateiro e essa é a minha gente. A gente capturou este canalha para dar uma lição nele. Assim ele aprende a não molestar quem quer que seja. – disse o homem ainda com a adaga em punho.
O refém, se sentindo seguro suplicou:
- Por favor, princesa, me chamo Claudius e estes homens estão loucos eu não fiz nada.
- Acredito que este caso deve ser levado à Justiça, Jonas. – disse a princesa.
- Princesa, este homem é muito rico, a justiça não condena homens como ele. Só pobres como a gente. – protestou baixando a adaga.
- Pois eu garanto que este caso será investigado com cuidado. Não podemos punir um homem inocente, nem deixar um culpado solto. Venham conosco para Passagem e lá resolveremos o caso.
Só então o homem concordou e guardou a adaga. Os demais tiveram o direito de reaver suas armas e voltaram para estrada. Ualfo estava aguardando fazia um bom tempo e o cocheiro de Claudius- Brynn- ficou feliz em rever o patrão, que não gostou nem um pouco da covardia do empregado. Eles foram escoltados de volta à aldeia e cada um retornou à sua propriedade, enquanto os demais se acomodaram em uma hospedagem local.
Hagen decidiu comunicar às autoridades locais o ocorrido e narrou os fatos ao magistrado local. O juiz havia tomado conhecimento de que o jovem Hagen era descendente da família real yoriana, mas era um bastardo do príncipe Íkarus. O velho magistrado ouviu o relato dos eventos por parte de Hagen, porém se sentiu ofendido com os pedidos de celeridade vindos de alguém que era tão nobre quanto os sapateiros do caso citado. Em Yoria, ninguém tinha direito de direcionar a justiça, os magistrados eram escolhidos em assembléia local e tinham mandato de dez anos, improrrogáveis. Intromissões no processo judiciário eram inadmissíveis, salvo no caso de um pedido real aprovado pelo Conselho. Hagen movido pela melhor das intenções cometeu esta gafe. O juiz repreendeu o guerreiro, explicando como funcionava o sistema de justiça do reino, mas tão logo o jovem saiu com sorriso amarelo, o magistrado tomou as rédeas do caso: o único naquele momento na aldeia.
Aurora, Allis e Thon estavam na oficina daquela grande família, conversando com os rapazes e viram a garota que originou a contenda apenas de relance. Logo um bedel intimou os sete envolvidos a prestar esclarecimentos ao juiz sobre as as agressões ao bondoso Claudius, o negociador de tecidos. Durante a estada no lar da família de Jonas, eles ouviram a versão deles da história:
“Moram aqui meus pais, meu tio e primos, eu, meu irmão e minha irmã caçula Mirna, a única filha da família. Ela limpa a oficina da família e pega água e também faz entregas. Semana passada ela foi deixar uns sapatos encomendados e quando voltou, chorava sem parar. Perguntamos o que tinha acontecido e ela nos disse que fez a entrega e quando estava voltando, passou pela frente da casa de Claudius, que chamou ela. Quando ela entrou na casa, pensando se tratar de algum pedido, foi atacada pelo homem que a violentou. Claudius é separado da mulher e faz tempo que vive vida suspeita. A menina é nova demais para casar e aquele maldito não teve coragem nem de esperar ela crescer. Ela disse que na hora não havia nenhum empregado na casa e seria impossível existir alguma testemunha do nosso lado. Se levássemos o caso a julgamento era certo que Claudius negasse o ato e nós não teríamos como provar que foi ele. Se fossemos levar este caso a justiça, nós apenas desonraríamos mais a nossa irmã. Então pelo menos dar uma surra naquele ordinário nós demos.”
Assim que os sapateiros acompanhar o bedel, Aurora, Thon e Allis saíram da casa e ficaram à sombra de uma árvore confabulando sobre o que ouviram.
- Jonas e seus parentes se precipitaram, eles deveriam ter comunicado às autoridades e tentarem resolver o caso sem violência. A justiça poderia investigar melhor do que eles acreditam. Tudo que nosso reino prega é o fim destas vinganças familiares, mesmo que eles apenas quisessem só intimidar, não era o melhor a se fazer. Agora, eles certamente serão condenados por rapto e agressão de um homem. – vaticinou a princesa.
- Pois é… já pensou se agora eles vão todos presos. Vão perder a sapataria e menina vai ficar desamparada. – disse Thon.
- Eu estou achando esta conversa muito mal contada. Claudius não explicou a versão dele para nós e o principal. Ninguém ouviu a menina. – Allis fez uma pausa e mudou o foco do olhar para a sapataria, esticando o pescoço e movendo a cabeça acompanhando a trajetória da menina da qual ele falava a pouco.
- Thon, Aurora, aquela ali não é Mirna saindo pelos fundos?!
Eles confirmaram.
- Por que ela está saindo desconfiada? – intrigou-se Allis. – Thon, faça-me um favor, vá atrás dela, precisamos saber para onde ela vai.
Thon assentiu com a cabeça e aproveitou-se da sua pequena estatura e seguiu cautelosamente a menina, tomando becos e vielas para não ser notado na perseguição. Aurora e Allis esperariam junto com os demais na hospedaria onde tinham deixando a carruagem.
Na hospedaria, Abimalek contava as moedas de ouro surrupiadas durante a sua missão. longe dos olhares dos outros. No caminho de retorno para Passagem, ele teve o cuidado de ficar entre Brynn e Claudius e ouvir boa parte dos cochichos entre os dois. Claudius havia ficado irritado, por ter recuperado apenas metade da carga de ouro que trazia, mas a outra parte havia desaparecido. Abimalek e os demais haviam revistado o coche de Claudius sem encontrar nada de valor. No casebre o clérigo não vira nenhum saco de ouro além daquela que estava com o cavalo. Para o clérigo, roubar o ouro não seria o objetivo dos sapateiros, logo, existiria um pote cheio de ouro, perdido em algum lugar por onde a carroça virara. Talvez o ouro tivesse caído, talvez alguém o tivesse roubado. Uma pulga atrás da orelha do sacerdote, cada vez mais revelando seu lado ladino, o impelia a acreditar que o tal Brynn estivesse escondendo o tesouro. Abimalek
Valkíria e Ualfo estavam discutindo sobre o incidente com os sapateiro, quando Hagen voltou acompanhado. O que frustrou uma eventual escapada do clérigo para procurar o tesouro perdido, foi a chegada de um bedel e uma intimação para depor perante o juiz local. Abimalek teria informações valiosas sobre o caso. Aurora e Allis chegaram depois e após um espera valiosa, Thon retornou.
- Vocês não vão acreditar, eu fui atrás da menina. Sabe para onde ela foi? Para casa da ex-esposa de Claudius, Dona Helena. Mirna entrou na casa bem desconfiada, não demorou por lá e saiu de lá também desconfiada também. Conversei, como quem não queria nada, com alguns transeuntes e eles foram abrindo o bico.
Thon se sentou e esticou os pés e começou a matraquear:
- Esta Helena separou-se de Claudius por que ele tem o terrível hábito de se embriagar. Ela não agüentou e pediu separação e ficou com metade dos bens, inclusive moram na mesma rua! Os dois são rivais nos negócios agora. E geralmente as encrencas nos negócios descambam para ofensas pessoais. É uma baixaria e a diversão da vizinhança. Agora Claudius bebe a tarde toda, geralmente até cair e fica praguejando a ex-mulher para todo mundo ouvir.
- Que confusão! – comentou Allis.
- O que fiquei sabendo é que Claudius mais reclamava nos seus momentos de insensatez é que Helena havia ficando com uma medalha da finada mãezinha dele. E a megera não queria devolver por pirraça. Ela parece que levou o caso à justiça e por causa das ofensas e Claudius passou a beber dentro de casa, com portas fechadas. Dizem que ele bota até os empregados para fora, para não incomodá-lo. – completou o halfling.
- Então tudo ficou claro para mim. Caso encerrado. – falou Allis.
-Ainda não, há um grave problema com os sapateiros, eles ainda são culpados. E o caso deles é tão grave que é certo que julgamento ocorra com muita brevidade se nada de novo surgir. Eu vou falar com Mirna! – prontificou-se Aurora.
- E eu vou falar com Claudius- se ofereceu Hagen.
- Já acabou? – perguntou Valkíria.
- Ainda não, a parte boa é amanhã. – explicou Ualfo.
- Vai morrer alguém? – indagou a guerreira.
- Aqui em Yoria? Nada! No máximo vão ser presos por um tempo ou pagar uma multa.
- Coisa chata! Não quero ver.
Hagen, indo acompanhado por Thon, vão ao casarão de Claudius. O homem estava exaltado e bebia para aplacar o nervosismo. Quando viu o grupo que o resgatara ficou mais aliviado e ofereceu-lhes bebida, Thon preferiu declinar a oferta generosa, já Hagen, gato escaldado, recusou com receio de efeito colateral imprevisto. O guerreiro veio decido a mostrar sua posição no caso:
- Senhor Claudius nós acreditamos que o senhor seja inocente.
- Ora, é o que eu venho dizendo! Eu não sou só inocente eu sou vítima! Olhem meu rosto. – falou apontando o estrago na face causado pelos agressores.
- Brynnn!!! Onde está o sacerdote! Eu faço ofertas regulares ao templo e quando eu chamo, eles não me têm misericórdia. – gritou Claudius baforando vinho.
Brynn, o fiel ajudante, responde submisso:
- Senhor eu já fui lá, eles ficaram de mandar um acólito para curá-lo, senhor. Devem estar chegando.
- Apostos que estes sacerdotes devem estar achando que eu estou falido. Eu pretendo pagar os serviços de hoje, só esperava presteza. – continuou o homem, baixando o tom da voz ao falar com os visitantes.
Hagen ignorou o ocorrido e continuou:
- Senhor, seja franco para nós. Aquela garota veio aqui no dia em que ela te acusa.
- Que ultraje! Claro que não! Eu nem sei que é aquela menina! Isto é uma invencionice daqueles loucos!
- E o que eles ganhariam se tivessem inventado aquilo?
- O que ganhariam? Meu ouro! Sumiram 258 moedas que trazia comigo na viagem. Eles devem ter roubado uma parte e inventaram esta história maluca para me incriminar. Para deixar o povo do lado deles e desviar a atenção do caso.
Hagen não havia pensado naquela hipótese, mas também não acreditava que em Yoria tal fato pudesse ocorrer. Ele ficou pensativo e não descartou a hipótese de furto, apesar da revolta tão sincera daqueles homens. Ele não via maldade neles, apenas uma sede caótica de justiça. Era esse estado de desconfiança que eles tinham na ordem que fazia Claudius pensar que tudo não passava de roubo e mentira. As ameaças e a agressão talvez não passassem de teatro, pois os sapateiros saberiam com certeza que os sacerdotes locais não deixariam um homem temente aos deuses carregar cicatrizes. Talvez tudo não tivesse passado de um mero teatro para tirar aquela família de uma situação difícil.
Enquanto Hagen estava pensativo, Thon que estava mais ciente da situação perguntou:
- O senhor disse que não se lembra de ter visto a jovem, correto? O senhor se lembra de qual bebida o senhor tomou naquele dia? De algum livro que leu? Quem te botou na cama naquela noite? – ele assobiou enquanto esperava as respostas.
O homem ficou alterado com a petulância do halfling, mas Thon soube empregar com tamanha classe as palavras e estava tão tranqüilo assobiando que o homem reconsiderou. Depois de profunda meditação ele respondeu surpreso:
- Sabe halfling, você tem toda razão. Eu não me lembro de nada do que ocorreu à tarde. Só tenho recordações da manhã seguinte.
O homem ficou mais abismado com seu esquecimento e lembrou-se de um outro detalhe.
- Um dos meus empregados me entregou um saquinho pela manhã. - disse ele buscando uma caixa em um dos móveis da sala.
A caixa foi aberta e Claudius retirou o saquinho de dentro dela, quando abriu, percebeu que dentro dele estava o amuleto que a ex-mulher havia ficado. Claudius olhou espantado e alegre, mas ficou furioso quando percebeu que faltavam alguns rubis incrustados no objeto.
- Aquela desgraçada estragou o colar de mamãe!!!
- Calma, senhor. -interrompeu o halfling. – A pergunta é quem pode ter trazido isto para cá? Se estava com sua ex- mulher, ela veio deixar.
- Aquela maldita nunca viria até aqui.
- Mas poderia mandar alguém: Mirna.
- O senhor está insinuando que eu fiz algo àquela menina?
- Não se estivesse sóbrio. Mas se estivesse embriagado poderia ter ficado furioso quando visse o medalhão danificado.
- Pelos Deuses! Eu não acredito que eu possa ter feito alguma coisa?
- Acalme-se, senhor. Ainda estamos investigando.
Aurora havia retornado para casa de Jonas e família estava apreensiva e descontente. Quase todos os homens da casa estavam agora sob as garras da justiça que levantava a espada para golpeá-los. Quando viram a princesa chegando, não ficaram nenhum pouco alegres. O pai de Jonas esbravejou:
- Viu o aconteceu aos meus filhos. Foi aquele filho da puta do seu meio-irmão que foi denunciá-los! E agora princesa? E agora? -lamentou.
- Eu sei o que aconteceu. E sei que vocês foram prejudicados. Por isso vim me oferecer com defensora de vocês no caso.
Aquelas palavras soaram como a luz dos anjos para os condenados. A princesa de Yoria era conhecida pela sua instrução e pela criação que recebeu da finada rainha Smirah e dos tios paladinos. “Havia esperança”, pensou o velho pai de Jonas. Aurora percebeu que recebeu total confiança dos súditos, um status divino de veneração, da qual sua querida avó paterna já a previnira. Caberia a princesa não se enaltecer demais com o estado de veneração popular e andar entre eles, não sobre eles. Aurora pediu para conversar com a garota em particular.
Os familiares se afastaram da residência e cuidaram para que eventuais curiosos não ficassem por ali. Aurora e Mirna sentaram no chão da casa quase sem móveis, que também era empregada como oficina por eles. Aurora pediu que a garota explicasse com pormenores o que aconteceu naquele dia. Envergonhada a menina contou o que ocorreu, explicando por que estava naquela rua (fora entregar sapatos) e porque entrou na morada de Claudius( tinha sido chamada pelo homem) e como tinha sido agarrada contra a própria vontade.
Aurora lançou um olhar penetrante naquele jovem moça. A menina sentiu-se invadida por aquele olhar.
- Mirna, você sabe que seus irmãos vão ser julgados – com poucas chances de escapatória – pelo que fizeram para te proteger, não sabe? Se você não cooperar comigo, não terei como ajudá-los. Então, menina, é bom que você pare de mentir para mim e conte a verdade! – falou enérgica.
A garota ficou tensa e muda. E a princesa prosseguiu:
- Não vim até aqui escutar uma mentirosa falar. Você para mim é transparente. Se você mentir eu saberei, se omitir, eu também saberei. Então da sua boca eu só quero ouvir a verdade. A verdade!
E retomou o interrogatório:
- Você é virgem?