Durante uma semana os arautos anunciaram a grande festa, foi decretado feriado e os órgãos públicos ficariam fechados. A festa seria realizada no pátio do castelo real, que teria os portões abertos durante toda a noite. Pavilhões foram erguidos e bandeirolas e faixas fixadas na cidade, que logo se contaminou com o clima festivo. Os convidados ilustres da festa passaram o dia provando roupas e relaxando. Valkíria recebeu sua roupa leonina, que havia encomendado com o alfaite Ernanys e estava muito feliz.
O povo se fez presente como há muito não se via, naquela festa que começou ao entardecer, numa época incerta como aquela, onde muitos estavam sendo chamados para compor o exército. O povo passava a valorizar mais a presença dos entes queridos, amigos e compatriotas em tempos difíceis. Muitos populares traziam sua própria comida e bebida para juntar aos pratos preparados pelos cozinheiros do rei Argel, contundo faziam isso mais por hábito local do que por necessidade.
Os jovens desfilaram pelas mesas e demonstraram simpatia comedida ante a população, com exceção de Aurora que já era acostumada a essas badalações festivas. Hagen e Allis se mantinham discretos, enquanto Abimalek estava galanteador, soltando beijos para as raparigas do local. Valkíria seguia imponente pelos corredores formados pelas mesas, enquanto Thon apenas dançava e saltitava ao lado de Ualfo. Os arautos anunciaram o regresso deles ao povo e ,só então, eles sentaram à mesa com o rei.
Mais ágil, Abimalek sentou à direita do rei, deixando Hagen para trás. Aurora sentou-se ao lado da mãe e os demais foram se acomodando ao redor. Hagen sentou-se em frente ao rei e do lado dele ficaram Valkíria e Thon. Entre uma caneca de cerveja e outra, o sacerdote foi contando vantagens e enumerando seus feitos heróicos, entretendo o monarca. Hagen minimizava os feitos, diminuía a altura de alguns saltos e mininorava a importância dos ataques acrobáticos. O acólito foi divertindo o rei, ignorando os comentários de Hagen, e a cada história contada aumentava um pouco mais suas façanhas, apenas para deixar o guerreiro em desconcertado. Hagen ficou incapaz de contradizer os maiores absurdos narrados pelo sacerdote, sob pena de parecer indelicado aos olhos dos demais. Aproveitando o momento em que se tornou o centro das atenções, o clérigo perguntou ao rei:
- Nós pegamos o rastro de um tal Fei Kazu… e soubemos que o senhor foi o último daqui do reino que encontrou-se com ele. Pode nos contar essa história direito? – falou como se o rei e ele fossem velhos camaradas.
O monarca foi apanhado de surpresa e mais ainda a mãe de Aurora, Ártemis, que se fez de desentendida. Os outros jovens ficaram atordoados com a objetividade do amigo e engoliram seco os nacos de comida. Argel franziu o cenho e sendo franco, respondeu:
- Foi há cinco anos, quando eu procurava o paradeiro de Hagen. Sabia que ele estava com o clã do Sol da Meia-Noite e Fei Kazu mantinha contato com aquele clã. Era o que eu pensava antes de encontrá-lo. Eu substituí Ártemis no grupo deles, que estavam empenhados em destruir um ogro que se tornaria muito poderoso se não fosse impedido. Matsu, um dos integrantes daquele grupo, tinha um elo com aquele clã e ele nós fez partir para uma ilha perdida no oceano do leste por causa disso.
O rei fez sinal para que músicos próximos se afastassem e prosseguiu:
- Quando chegamos à ilha, enfrentamos alguns desafios, até chegarmos à cripta da Tumba do Ocaso. Lá estava Ryozo, o espírito encarnado do último Grão-Mestre do clã Sol da Meia-Noite. Ouvimos o plano daquele mestre sobre como planejou roubar o corpo do Ogro, banindo-lhe a alma para o Limbo. Um plano muito sofisticado. Um jovem druida, Wan Chan, que mais parecia o líder do grupo, aprovou o plano e Matsu obedeceu ao espírito do antigo mestre. Ryozo me disse onde estava Hagen e eu fiquei mais tranqüilo.
Ele tomou um grande gole de cerveja e sua esposa, á esquerda, em seguida encheu a caneca dele. Refrescado ele finalizou o fato:
- Quando voltávamos para o nosso barco, percebemos que a ilha estava sendo invadida por uma esquadra terrível de orcs. Eles vinham atrás de algo oculto naquela ilha. Gro, um dos oito senhores de Namast, estava lá pessoalmente e queria nos fazer de escravos. Para nossa sorte, estávamos numa caverna a beira de um desfiladeiro, separados por uma ponte mágica que só permitia um por vez atravessar. Um abismo tragava quem tentasse voar sobre ele e as harpias do orc caindo deixaram claro que aquilo não era lenda. Ryozo fez uma estranha proposta para o senhor dos orcs: ele levaria apenas Fei Kazu, Matsu, Wan Chan e ele, os demais ficariam livres. O estranho é que Gro aceitou o trato sem questionar e cumpriu a palavra. Desde este dia, nunca mais o vi, mas soube, pouco depois, pelo jovem druida, que eles tinham sido resgatados pelos mestres deles. Então me senti menos culpado por não ter agido.
Abimalek voltou à estaca zero. Argel havia tolhido quaisquer esperanças de obter uma pista do paradeiro do misterioso ranger elfo. O clérigo sabia que eles foram as pessoas mais próximas do rastro de Fei Kazu, mas não tiveram audácia para seguir em frente. A trilha havia se perdido novamente. O jovem loiro se despediu do rei, levantou-se da mesa e, com um copo de vinho na mão, partiu para à caça de mulheres de honra incerta.
Hagen sentou-se no lugar ao lado do rei, deixado vago pelo clérigo. Aurora balançou negativamente a cabeça, em relação ao gesto do meio-irmão, interpretando o ato dele em sentar-se próximo ao soberano como algum tipo de expectativa de sucessão real. O pai dela (e dele também) estava na guerra em um grupo tático avançado, dentro das linhas inimigas, junto com as tropas dos anões outeiros, os aliados do norte.
Argel se divertia bem mais do que todos eles, estando muito mais inserido, sendo muito mais amado do que todos aqueles meninos juntos. O rei, como bom anfitrião, preocupava-se com a quantidade de bebida no copo dos seus comensais e da comida à mesa das pessoas. Vendo que Hagen era muito comedido na bebida, perguntou:
- Não está gostando da cerveja, Hagen?
-Claro que sim, vossa majestade. – respondeu com decoro.
- Não vejo isto na sua cara. O que te falta?
- Eu comia néctar e ambrosia, ainda estou me acostumando a comer comida mortal outra vez.
- Ora, você não bebe para se deliciar, você bebe para ficar bêbado! – respondeu o rei, um apreciador experiente de boas bebidas.
Hagen não conhecia aquela faceta do rei e resolveu revelar mais um motivo pelo qual não estava apreciando tanto a bebedeira.
- Estas bebidas são fracas para mim. – disse Hagen, tomando um copo de vinho puro num só gole.
- Fracas?! – respondeu o rei.
- Sim. – respondeu sereno e sóbrio.
- Para vocês crianças a bebida tem que ser fraca! – zombou Argel.
- Pode trazer a bebida mais forte que você tiver. – desafiou o guerreiro, deixando Argel em xeque.
Sem escolhas, o rei se ausentou da mesa e conversou com seus antigos amigos de aventuras, hoje aposentados. Houve rápida reunião da Sociedade do Barril, o grupo formado por eles para beberem escondidos das esposas e criarem poderosas combinações etílicas. Aqueles anciões decidiram usar a arma mais poderosa que eles tinham contra o jovem desafiante. “Para vencer um guerreiro dos céus, só as mais negras chamas do inferno”, disseram. Do esconderijo da sociedade trouxeram a garrafa gélida contendo líquido feito das águas destiladas do Styx. “Aquilo derrubaria um Deva”, gargalharam. Nenhum acreditavam que aquele “menino” petulante tivesse alguma chance.
O desafiante platinado não demonstrou pavor quando ouviu um grito de lamento se desprender da garrafa quando a tampa foi aberta. Argel encheu o copinho com aquele licor esverdeado e passou para o desafiante. Ele tomou tudo de um só gole.
Ele fitou o avô e sibilou:
-Fraca!
Hagen despertou de um sono pesadíssimo, o dia estava claro e o frescor matinal banhava os lençóis de seda vermelhos onde ele descansava, sem roupas. Ele inclinou-se para lateral e viu as partes da armadura dele jogada ao chão, juntamente com as roupas dele. Completamente desnorteado, virou-se para outro lado, vendo um segundo corpo completamente coberto pelos lençóis. Ele, assustado, sabendo de seus votos de castidade segurou com a mão trêmula a coberta. Num gesto súbito, descobriu o corpo deitado ao lado dele, que olhando devolta sussurou com doçura:
- Foi bom para você? – disse o alfaiate Ernanys.
- NÃAAAAO!!! – berrou Hagen um urro gutural.
Aurora estava ao lado da cama e ouviu o meio-irmão despertar com um sobressalto escandaloso, depois de mais que um dia em estado comatoso. Ele olhou para ela apavorado, virando-se para os lados e tateando os lençóis, como se checasse se havia mais alguém ali. Hagen voltou a si e sentiu um cheiro de suor e sangue exalando do próprio corpo, a cama estava ensopada. O jovem aturdido perguntou para a meia-irmã:
- O que houve? O que aconteceu? – disse ainda desnorteado.
- Vamos dizer que você teve uma embriaguez daquelas…
- Embriaguez? – repetiu e só então percebeu o martelar reverberando na própria cabeça.
- Depois que você bebeu a Pittu Fiend, você ficou maluco: dançou, cantou, saltou, voou…
- Eu… voei? – balbuciou incrédulo.
- Ainda bem que ficamos de olho em você, Foi preocupante, mas foi muito engraçado. Vovô morreu de rir. “A bebida está fraca” – disseela imitando a voz dele.
Hagen ficou envergonhado.
- Pelo menos você acordou, Thon está louco para voltar para casa. E minha mãe disse que seria bom irmos para lá também com ele. Todo mundo está preparado para viajar para Ayoria, só faltava mesmo você.
- Eu…me aprontarei logo.
- Hagen, você teve algum pesadelo? Porque você acordou gritando.
- Nem queira saber.
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Para eles seria uma viagem calma até cruzarem a fronteira oeste. Ualfo estava com uma luxuosa carruagem de conforto proporcional aos dignitários que conduzia. Para Vitória, capital do reino de Ayoria, distava cerca de 400km entre estradas e rotas de calçamento antigo. A viagem seria lenta, mas não cansativa e eles pretendiam chegar lá antes do final do sexto mês do ano, ao término do verão.
A última localidade yoriana era Passagem, aldeia cujo nome revelava aos viajantes que depois daquele ponto de parada nenhuma habitação humana existiria pelas planícies campestres até o reino vizinho. A carruagem deixou Passagem fazendo a última parada para abastecimento antes de seguirem viagem. Após deixarem a localidade, pouco mais de um dia depois, os cocheiros avistaram um problema avante: um coche virado na ribanceira da estrada.
Os destemidos jovens desceram do carro e foram investigar o acontecido. A carroça estava virada lateralmente e as duas rodas haviam se partido com a queda. Não existia sinal dos cavalos do coche e nenhum passageiro ou condutor se encontrava lá. Os indícios de sumiço estavam claros, pois eles não encontraram sinais de sangue ou corpos. Eles faziam uma busca nas proximidades para tentar descobrir alguma evidência ocultas nas moitas que abundavam naquela paisagem. “Um monstro poderia ter levado os passageiros”, era o que pensavam.
Abimalek ouviu um ruído estranho vindo das proximidades e foi na direção do som. Seguiu em passos leves pelas folhagens que gentilmente se abriam para ele. O acólito de Arina surpreendeu um homem escolhido por trás de plantas. Antes que o clérigo pudesse fazer algo, o homem suplicou:
- Por favor, não me mate.
- Quem é você? – disse o clérigo com a mão no cabo da arma.
- Por favor, eu só um pobre carroceiro, o meu senhor foi levado por bandidos. Eu corri para o mato quando a nossa carruagem tombou com a armadilha que os ladrões colocaram na estrada.
- E onde está o seu senhor? – perguntou Abimalek, enquanto os demais se aproximavam.
- Eu não sei…eu me escondi aqui e não vi mais nada. – contou o homem assustado.
- Meu nome é Hagen, príncipe de Yoria e está é minha irmã Aurora, princesa de Yoria, nós estamos aqui para ajudar.
- Certamente o seu senhor enfrentou ladrões, não assassinos. Para derrubar os cavalos eles devem ter usado cordas ocultas na estrada e estavam escondidos nos dois lados da pista. Sua carruagem devia vir muito rápido para tombar dessa maneira, o que indica que o seu senhor te ordenou pressa para chegarem na aldeia, significa que vocês levavam uma carga preciosa. Contudo, pelo rapto do seu senhor e ausência de tesouro na carroça, imagino que ele deve valer mais vivo do que morto para os ladrões. Imagino que se agirmos rápido ele ainda possa ser encontrado com vida. – conjecturou a princesa.
- Não acredito que em Yoria, um reino protegido pelo Deus-Bem, livre de maldade, alguém ainda possa agir dessa forma vil. – falou Hagen surpreso.
- Nem todo mundo que mata o outro, mata porque é ruim – respondeu Ualfo. – Meu chefe Tímonten já matou um monte de gente aqui sem querer. Foi condenado na justiça, mas não teve culpa.
- Estamos perdendo tempo! – interrompeu Hagen.
- Já sei, vou perguntar aos pássaros se eles viram homens e cavalos saindo daqui recentemente. – disse o Thon.
O halfling assobiou e assobiou e com seu canto de dríade – herança materna – atraiu alguns azulões-bicudos que voavam naquela região. As aves, por meio de gorjeios, informaram a Thon que alguns homens e cavalos entraram nas campinas seguindo para local que os passarinhos faziam de ninho, ficando a três espinheiros-pretos de distância, numa linha reta, seguindo a lua. “Não tinha como errar”, garantiu a passarada. Depois da explicação técnica que ouviu, e só ele entendeu, olhou para os atônitos amigos e disse:
- Bem…me sigam.
- Príncipe Thon, meu amigo, nós não podemos perder tempo, você é o mais lento entre nós e seria prudente deixar que um dos mais fortes o carreguasse. Se não achar incômodo. – sugeriu Hagen estendendo a mão para o pequeno.
- Pelo bem de todos, eu vou. Aurora? Você pode me levar na garupa? – falou bem humorado deixando a mão de Hagen no vazio.
Ualfo decidiu ficar para trás, junto com o cocheiro e os próprios condutores. Thon, montado em Mu, conduziu o grupo com perspicácia até a trilha cantada pelas aves. Avistaram um casebre abandonado, não muito longe da estrada. O sacerdote se ofereceu para fazer a missão de infiltração, já que usava uma armadura leve feita com couro de pantera deslocadora. A couraça foi um presente recebido dos sacerdotes elfos de Arina, ainda em Jandy, juntamente com um par de braceletes da defesa, itens mágicos que o protegia magicamente de ataques de inimigos bem mais do que o corselete de couro; daí a razão de Abimalek querer de Ernanys uma vestimenta mais leve para substituir a pesada.
O ousado acólito correu em passos ligeiros e silenciosos pelos campos e se escondia atrás das árvores para evitar ser visto. Rolava pela grama de moita em moita e demonstrava toda a sua agilidade nos rolamentos. Para ele, não bastava ter sucesso na missão, ela precisava ser feita com estilo. Os demais iam se aproximando mais lentamente, depois que o batedor cobria terreno. Abimalek aproximou-se da velha choupana e fez sinal para os cavalos roubados, que estavam em frente, se acalmarem. Próximos da única porta frontal, um dos cavalos tinha um alforje preso à sela. Ligeiro, o sacerdote afanou um punhado de peças de ouro que estavam dentro da bolsa. Em seguida, colou o ouvido à porta apodrecida do casebre para escutar a conversa que se passava por lá, ouvida até por quem estivesse a três passos da casa.
“Ainda não aprendeu a lição”, “Você vai pagar desgraçado”, “Vamos marcar sua cara com fogo ”, foram as palavras que o clérigo escutou. Ele fez sinal para que os outros viessem e procurou uma janela na lateral da casa por onde poderia entrar de surpresa. Contudo, ao tomar à esquerda do casebre, se deparou com uma ruína de apenas duas paredes de pé e um telhado parcial. O interior da casa era exposto e vários homens estavam no interior. Um deles estava sentado numa cadeira de madeira, amarrado, outro, carregava uma madeira em brasa.
Abimalek estava em desvantagem numérica, de cinco a oito homens, havendo um bandidos, segurando uma adaga, à frente dele. O clérigo saltou, tentando escalar o telhado para ganhar tempo e estimar corretamente o número de inimigos, mas os tijolos envelhecidos da parede se soltaram fazendo o sacerdote ir ao chão. A nuvem de pó deixada no ar com a ruptura da parede assustou o bandido próximo que recuou chamando ajuda de outros dois. Ao clérigo coube apenas rolar para o lado de fora da casa onde teria mais espaço.
Aurora galopou sozinha com Mu se aproximando do clérigo. Hagen e Valkíria vinham logo atrás, mas visando a frente da casa, com o guerreiro tomando à dianteira. Thon foi deixando para trás, mas correu balançando sua funda preparada com uma pedra afiada que havia encontrado por ali. Allis limitou-se a bradar:
- Se precisarem de ajuda, me chamem!
Abimalek levantou-se com uma pequena manobra acrobática. Puxou o chicote dele, estalando-o no ar, ordenando que os ladinos ficassem à distância. A tentativa de afugentar os bandidos falhou e ele teria que conter os bandidos, sozinho, até a cavalaria chegar. O clérigo contou corretamente, sete pessoas e um refém. Se tudo corresse conforme o plano que ele tinha em mente, ele não precisaria da cavalaria.
Cara, eu sou PAU!!!!!!!!!!!!!!!!!