Allis e Valkíria andavam pelas vielas de Miliciana até o Bairro da Fumaça, local onde os fornos da cidade se concentravam. Padeiros, oleiros e ferreiros viviam naquela região juntamente com seus familiares. Eles seguiram a pé pela via do ferro, uma importante rota da cidade, de grande trânsito de carroças. A estrada serpenteou por entre casas e prédios e os levou até a cidade baixa, já próxima à serra onde ficavam as minas de ferro.
Allis perguntou se alguém sabia onde morava Allis, o ferreiro, pai de Simack. O dracomago sabia que seu pai fora grande salvador yoriano, antes de se casar com a mãe deles e se tornar lorde em Jandy. Os homens mais velhos lembravam-se das comemorações para o guerreiro herói que resgatara a princesa Áurea do Castelo Vermelho, há cerca de 28 anos, e que nascera se criara naquele bairro pobre da capital. O jovem jandita percebeu, que entre os mais moços, o nome do pai dele, já não era tão vivo e grandioso. Muitos homens jovens haviam lutado nas guerras entre Ayoria e Jandy, como aliados dos ayorianos, e sabiam que o antigo herói Simack tinha mudado de lado. Simack Allis II sabia que o pai sempre fora uma pessoa muito ambígua nas alianças que fazia. Em algumas de suas estórias Simack estava com Argel Punhos de Prata, noutras com Agamenon – Imortal – ou ainda, com Ramalid Ben Kazar – a Pérola Negra do Deserto. Simack Allis I enfrentou o arquimago Richard Manto Negro, foi corrompido por um demônio, despertou a Árvore da Vida de Argos, fez um pacto com a Deusa Arina, maculou as lágrimas de Íris em Tantra, entre tantos feitos notáveis. Por conta desta extensa carreira, Simack II sabia que era quase impossível fazer o pai se orgulhar dele, já que não se sentia capaz de superá-lo em glórias.
Valkíria sabia que o avô era ferreiro e que o pai quase nunca falava dos próprios pais e nas raras vezes que ele voltava de Yoria, nunca trazia notícias. Para ela, tudo isto era só mais um motivo para encontrá-los e saber se estavam bem. Valkíria se impressionava mais com o fato de uma pessoa saber modelar o metal, do que em nunca ter mandado notícias para ela. Como Argon de Lentis havia dito para eles que quando tivessem tempo, visitassem os avôs, ela teve certeza de que os parentes apenas esqueceram-se dela. Caberia a ela lembrá-los.
Os gêmeos entraram na rua dos ferreiros e caminharam por ela ouvindo os tinir dos martelos no metal disforme e sentindo o cheiro de carvão sendo queimado. Eles olhavam a grande variedade de ferramentas que estava exposta em frente às lojas, porém Allis e Valkíria procuravam uma pessoa específica: um velho – pai de um grande herói – o ferreiro Allis. Eles ficaram em frente ao homem indicado pelos demais ferreiros, que despretensioso assava carne em uma grelha em frente a oficina. O velho vendo aqueles dois aventureiros fazendo sombra sobre ele, perguntou:
- O que vocês desejam, aventureiros?
- Vovô! – disse Valkíria antes que o irmão pudesse formular qualquer resposta.
- Eu sou Simack Allis II, esta é minha irmã Valkíria, nós somos seus netos.
O homem ficou encantado com aquela visita. E gritou pela mulher, Mércia, que estava dentro da casa. Ela veio correndo e reconheceu os acentuados traços da família no rosto de Valkíria. Eles se abraçaram, demonstrando muita saudade, como se tivessem reencontrado alguém perdido há muito tempo. Allis – o ferreiro – gritou para todos na rua que aqueles eram seus netos, que cruzaram o mundo para vê-los, isso atraiu a atenção de mais curiosos do que o costume. Logo, aquele reencontro foi motivo para beber, pois os yorianos gostavam de celebrar… e de beber.
Mércia perguntou para eles como passava o filho Simack, como estava a mãe deles Marion, como estava o reino deles e muitas outras perguntas curiosas. Vovô Allis, queria saber quem eram os Dracomagos, quem havia feito a armadura de Valkíria e quando o filho os visitaria novamente. Eles passaram o dia conversando e contando as estórias da vida de cada um. Falaram que foram seqüestando quando eram crianças, do treinamento que cada um recebeu e das aventuras que passaram recentemente. Segundo (como era chamdo pelos familiares), ainda lembrou que eles tinham mais um neto, William, que ficara em Jandy, no comando do feudo. O velho homem se surpreendeu com um detalhe da estória.
- Quer dizer que Simack colocou o meu nome no condado? – falou espantado.
- Na verdade não. Os feudos são conhecidos pelo sobrenome dos condes. E como o sobrenome dele é o seu nome…ficou. – explicou Segundo.
- Segundo acha que vai ser conde, mas não vai. – falou Valkíria, sem nenhuma sutileza.
Allis deu os ombros e fez ar de desdém. Mércia chegou trazendo biscoitos e um saquinho de couro.
- Vejam! – disse a avó. – Esta é a moeda de ouro que Simack me deu depois que virou conde lá em Jandy. Tem uma rosa cunhada nela, é bonita. Nunca gastei, ele também nunca nos deu mais nada. O condado de você deve ser muito miserável, coitadinhos. Eu fiz biscoitos para vocês comerem. Vejam como Segundo está desnutrido, sua mãe não deve ter te amamentado direito.
- A senhora deve ter razão. – pensou ele, vendo o porte da irmã gêmea.
Enquanto Segundo pensava, Valkíra vasculhava os bolsos da mochila e puxou uma moeda de ouro.
- Aqui vovó! Moeda pra senhora guardar. – disse a garota com felicidade, entregando um Shyld de ouro, moeda dos anões das montanhas.
- Que neta adorável. A menina vem aqui e é ela que nos dá presentes? Você está precisando de alguma coisa? - falou o avô.
-Meu escudo quebrou…eu venci um homem-leão!
- Então vou te dar um escudo de aço. Estes não quebram!
- Brigada, vovô.
- Vovó, onde podemos conseguir roupas? As nossas estão em mal estado. – perguntou Segundo.
- Tem um sujeito muito afamado que faz roupas muito bonitas, não muito longe daqui. Posso deixar você lá, ele é “estranho”, mas o trabalho dele é ótimo.
- Também quero roupa! – disse Valkíria afobada devorando os biscoitos.
- Então vamos lá.
Os três seguiram, já ao entardecer, para outro bairro da cidade. Naquele distrito, viviam os curtidores de couro, tratadores de peles, alfaiates e costureiras. Em Miliciana, o povo vestia muitas roupas feitas de lã, couro e peles de pequenos animais, havendo dezenas de criadores de animais de pele apreciadas. Alguns caçadores vagavam pelas redondezas trazendo animais ainda mais exóticos. Contudo, o bairro também era reduto das pessoas discriminadas pela sociedade yoriana. Adúlteras, prostitutas, homossexuais, deserdados, bastardos e órfãos viviam isolados em um gueto do bairro gozando de relativa tranqüilidade. Ernanys era um dos poucos moradores do gueto que tinha fama além das fronteiras do bairro. Na época da tirania ele era o servo responsável pelas vestimentas da corte. Quando a tirania sucumbiu, ele buscou isolamento escolhendo o “gueto dos desprezados” no Bairro dos Mercadores para se instalar e ajudar as pessoas que sofriam como ele. Ernanys formou a guilda dos alfaiates, onde era dela o mestre-artesão, ele ajudou muitos jovens desprezados a aprenderem o seu ofício.
A guerreira e o dracomago chegaram naquele gueto de calçamento estreito, após o meio da tarde. O prédio de Ernanys era a maior construção do local, mas naquele dia, não havia muito movimento, tempos de guerra era os piores para os negócios dos alfaites. Mércia entrou no prédio requintado, deixando os netos esperando, e chamou pelo mestre-artesão. Um mancebo que ali estava, cuidando dos vasos de plantas, se apressou em chamar o mestre. Ernanys desceu as escadas, em elegante túnica de seda decorada, suas sandálias eram de pele de serpente e ele usava três anéis belíssimos nos dedos de cada mão e um brinco de brilhante na orelha direita. Os cabelos curtos e bem cortados dele eram brancos como a neve, mas o rosto escondia a verdadeira idade. Ernanys lançou um olhar de superioridade sobre a cliente e perscrutou-lhe a alma.
- Pelo visto a vovó veio trazer os netinhos para ganhar roupinhas. Mas vou logo, lhe avisando, meu amor, não faço roupas para quem fica pegando em brasa, nem cheirando fumaça.
- Não são para mim, são pare os netinhos mesmos. O senhor é o melhor e sei que eles não mereceriam menos que isto.
- Humm…Deixe-me ver o que eles têm. - disse ele olhando para as pessoas lá fora. – O rapaz trás roupas monásticas, deve querer só uns remendos. Já o guerreiro… guerreira? Nossa, que corpo masculino ela tem, querida. De costas, ela até engana, ouviu? Mande-os vir até aqui.
Allis e Valkíria entraram na sala e foram examinados pelo olhar e mãos habilidosos do mestre-artesão.
- Você quer o que minha querida. – disse falando com Valkíria.
- Eu quero roupa nova.
- Roupa velha só no brechó! – alfinetou o alfaiate.
Ele pediu então para que a jovem, em local reservado, se despisse. Olhou o corpo avantajado daquela mulher, que impressionava pela rigidez da pele. O artesão ficou pensativo e teve um estalo. “Será desafiadora esta criação”, pensou ele.
- Que animal você gosta, menina?
- LEÃO!!!
- Posso conseguir peles destes animais por aqui. E tive uma excelente idéia de como sua roupa será. Vou deixá-la impressionante como você. Nem vai ser preciso andar de armadura completa para intimidar os homens.
- Quanto vai ser?
- Não se preocupe, não vai ser tão caro. Se você trouxer outros clientes homens com o corpo como o seu, te dou um desconto.
- Vou chamar Hagen.
Depois de feitas as medidas dos dois, Allis deixou as vestes de dracomagos para reparos. Ele e Valkíria voltaram com Mércia para casa, onde eles aguardariam as roupas ficarem prontas, dentro de alguns dias.
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No castelo real, Abimalek estava aguardando a resposta da princesa Ártemis a sua pergunta. A mãe de Aurora olhou com surpresa a ousadia do jovem acólito de Arina. Refeita da estupefação, ela respondeu:
- Eu já disse tudo que tinha que dizer para os mercenários contratados por Tímonten.
Ualfo acordou assim que ouviu menção ao nome do chefe dele. Já Ártemis, sabendo que aquela resposta não saciaria a sede de Abimalek, prosseguiu:
- Faz anos que não encontro Fei Kazu, desde que me despedi dele, cinco anos atrás. Todos aqui sabem que desde então passei a viver ao lado do meu marido. Contei para eles tudo que poderia ajudar a localizar cada um dos meus velhos companheiros de grupo. Muita coisa mudou desde então e perdi o contato com eles. Vocês deveriam perguntar para Argel, ele foi a última pessoa que se encontrou com o ranger Fei Kazu. O rei é a pessoa certa para lhes contar sobre o paradeiro daquele elfo, não eu. Sinto muito desapontá-lo.
- Abimalek, o rei nos convidou para uma festa pela nossa chegada, que ocorrerá dentro de uma semana. Durante a celebração, tu terás oportunidade de fazer as perguntas que te intrigam.
- Então vamos ter que chamar Allis e Valkíria, eles foram ver os parentes. – falou o fremlin.
No dia seguinte, eles se reencontraram no Bairro da Fumaça, levando as notícias da festa para os irmãos. Valkíria contou sobre o mestre-artesão que conheceu e chamou os demais para conhecê-lo. Ao chegarem ao Gueto dos Desprezados, Hagen sentiu-se desconfortável e Allis estava cismado com alguns olhares de rapazotes para ele. Valkíria guiava o grupo e Thon assoviava pelo caminho. Aurora seguia atrás, montada em Mu.
Ao chegarem, Valkíria adentrou na casa chamando pelo mestre-artesão, que repousava um sono restaurador. Ernanys desceu enrolado em uma toga de lã de carneiro branco e foi atender pessoalmente os convidados.Ele os chamou a uma sala de tapete fino e almofadas de penas de cisne ao chão e quadros nas paredes. Um janelão deixava a iluminação natural clarear o ambiente.
- Valkíria, você veio mais cedo do que combinamos. Sou roupa não está pronta, mas se seu irmão quiser pegar a farda dele, já está arrumada.
- Não, eu vim trazer amigos fortes. -respondeu ela.
- Ora, ora, ora. Se não é a famosa princesa de Yoria. Suas unhas de vermelho-rubi são lindas.
- Eu sei…- disse ela embarcada.
- Seu tio Argon já veio me visitar e Aldeck, marido de sua tia, é um dos meus clientes favoritos. É tão charmoso aquele homem…nossa!Você me trouxe belos rapazes.
- Hagen, Abimalek, Thon e Segundo.
- E eu, Ualfo.
- Este bicho não solta pelo não, não é? Este tapete é caríiissimo.
- Poxa! Até fora de costureiro tou levando. Vô lamber meus pelos lá fora.
- Pode ficar queridinho, eu só estava brincando com você, agora se carapuça serviu. Ha, há,há, há, há!
Allis, Thon e Hagen se entreolharam.
- Qual de vocês vai querer roupa nova?
- Eu tenho lá no castelo. – disse Aurora.
- Vai perder a chance de lançar moda, meu amor.
- Eu irei com a minha armadura. – falou Hagen, com polidez.
- Se quiser posso lhe costurar uma cueca suuuuper confortável.
- Fica para a próxima. – falou o halfling.
- Moda infantil não era mesmo minha especialidade, há,há,há,há.há.
- Minha roupa está ótima para ocasião. – respondeu Allis.
- Olha bem para o reflexo da verdade: se você chama isto de roupa meu querido, eu chamo dragão de lagartixa.
- Eu vou querer sim. Quero uma roupa feita com pele de um animal específico, você faz? – perguntou Abimalek, o único que se interessou de fato.
Os outros deram um passo atrás, se sentaram ou ficaram perambulando pela sala.
- Sim, qual animal você quer.
- Pantera deslocadora, já ouviu falar?
- É uma pelagem muito rara.
- Sim, mas eu tenho dinheiro para pagar. – disse ele tirando algumas gemas do bolso, que conseguira quando enfrentara os trasgos de ferro em Deshnok.
O artesão avaliou as gemas e viu que eram suficientes para parte do serviço. Ele perguntou se ele queria ir ao quarto dele para negociar como fariam para concluir a negociação dos valores. Abimalek subiu as escadas para o quarto do artesão.
- Aquele já era. – comentou Ualfo enquanto se lambia.
Abimalek fez uma massagem nas costas do velho artesão, com bastante destreza e habilidade. O valor em gemas que possuía era apenas metade do necessário para concluir a roupa. A pela de pantera deslocadora conferiria ao usuário poderes de ocultação nas sombras que interessavam ao clérigo, que planejava recobrar o uso de suas habilidades ladinas ocultas. Todavia, não era este o poder que ele realmente estava interessado, o sacerdote possuía um amuleto, que continham olhos daquele monstro em particular. Com o poder conferido pela Deusa, ele poderia fazer aqueles olhos brilharem novamente e quem quer usasse uma roupa feita com o couro daquela fera adquiriria os poderes ilusórios do monstro. Era este poder que interessava ao sacerdote, que estava disposto a fazer bem mais que uma massagem, se fosse preciso, para conseguir a roupa.
Depois do serviço bem-feito, Ernanys aceitou fazer a roupa e aguardaria o retorno de Abimalek com o restante do pagamento para que a entrega fosse feita. Ele desceu sorridente, junto com o sacerdote, de volta para a sala onde estavam os amigos esperavam constrangidos.
- Foi um prazer revê-la Valkíria. – disse dando um beijo no rosto dela. – Me visite mais vezes com seus amigos.
Eles se despediram com educação, saíram do prédio de Ernanys e rápidos como raios, fugiram do Gueto dos Desprezados. Com exceção de Valkíria, nenhum deles voltou mais lá.
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