Ventos da Guerra: Capítulo 21

Ventos da Guerra: Capítulo 21

ASSUNTO DE FAMÍLIA

Hagen dava voltas, já impaciente. Havia chegado em Miliciana há tempos e nada dos demais companheiros. O guerreiro resolveu ir ao encontro do seu avô, o rei Argel, o único familiar que se encontrava na cidade. O pai dele liderava um batalhão no norte. Genitor seria o termo mais adequado, já que Hagen nunca conhecera realmente o pai. O único diálogo paterno que eles tiveram foi no confronto de vida e morte no qual a Espada de Avalon – a relíquia destruída – foi restaurada. Naquele dia, as palavras daquele homem alado com asas cristalinas não fizeram o menor sentido. Ele falou de amor, mas de um amor que ele não compreendia: amor paterno. Com o avô, ele teve mais contato, soube que Argel o procurara enquanto treinara nos Sete Céus. Foi o rei-avô que o aconselhou a julgar melhor as ações do paladino Argon de Lentis. Talvez ele o entendesse.

O jovem ruivo acordou cedo e foi visitar o monarca. Lembrou que fazia cerca de dez anos que não sabia o que era uma família. De sua mãe, Carolina, ele guardava poucas lembranças. Quando pequeno, aos oito anos, fora do tirado dos braços maternos pelos três homens a quem ele futuramente chamaria de mestres. O treinamento fora intenso e Hagen se lembrou dos perigos que passara, os pavores que sentira o impedira de chorar de saudade. Hagen aprimorou o corpo, a mente e o espírito em três anos, ainda criança.  Durante a jornada, ele percorrera a estrada para o poder, um caminho cheio de dor que apenas em sofrimento levá-lo-ia aos portões dos Sete Céus. Perdido nas próprias memórias, deu-se por conta que estava quase em frente à porta do quarto do avô. Ele bateu à porta, despertando o rei de sono profundo.

Argel dormia abraçado à esposa Marie, uma mulher bem mais nova do que o sexagenário herói de punhos de prata. O rei, possuidor de força sobre-humana, se levantou da cama incomodado com a ousadia de quem estava batendo naquela hora. O casal se vestiu e o rei, ranzinza, foi abri a porta. Porém, vendo que era o neto que queria vê-lo, o homem se tranqüilizou.

- Hagen, você caiu da cama? – disse o rei esfriando a cabeça.

- Não, é que eu preciso conversar. – respondeu demonstrando nítida confusão.

- Por que não conversamos na cozinha daqui a pouco? Vá lá para baixo, eu vou já…

- Não, se preocupe meu rei, eu aguardarei o senhor aqui do lado de fora.

- Ainda bem, pensei que fosse entrar! – disse rindo da situação e passando a mão pesada na cabeça de Hagen, assanhando os cabelos dele.

Hagen escutou da porta algumas palavras da nova esposa do rei. Ela falou: “Aquele é seu neto bastardo?”.  Poucas palavras foram suficientes para que o rapaz adquirisse antipatia por ela. Hagen era o único da família que havia nascido com a mesma cor de cabelos da antiga rainha. Quando o rei ficou viúvo, passou a buscar auxílio na religião a qual já era devoto. Ele conheceu uma jovem dama no templo onde costumava rezar. A pobre vendia flores e vendo aquele homem tão triste se comoveu e lhe ofereceu uma delas, sem saber que se tratava do rei. O rei passou a comprar flores a ela sempre que ia rezar. Um dia, ele a presenteou com um ramalhete e o fogo da paixão reacendeu, logo houve casamento; como mandava a tradição. Havia um dizer local, entre os populares, que assim definia Argel: “coroa de bronze, punhos de prata e coração de ouro.” Contudo, muitos no castelo não gostavam de Marie, não por ela ser uma pessoa má, coisa impossível em Yoria, mas pela presença da antiga rainha ainda ser sentida. Se Argel era uma chama luzente, a rainha Smirah era a esmeralda reluzente. Os súditos sabiam que a jovem e sedutora mulher como o cetro de cerejeira nunca estaria à altura do rei da coroa de bronze, como a antiga parceira esteve. Uns diziam que nem o rei estava à altura da sábia rainha, porém, a esmeralda se apagou.

Marie preparou a refeição matinal para os dois. Hagen contou para o avô todos os detalhes da viagem, salientando os pontos mais pertinentes segundo o ponto de vista dele. Avisou ao rei que caso os outros tivessem dado ouvidos a ele, teriam chegado em Lentis antes dos anões fecharem a fronteira, livrando o reino e súditos mais leais de preocupações desnecessárias em tempos de guerra. Hagen estava muito preocupado com o comportamento das pessoas que o acompanharam, que eram muito imaturas e individualistas. Reclamou deles, criticou suas atitudes e desconfianças. Enquanto os outros só estavam preocupados com glórias, ele estava o tempo todo tentando consertar os problemas que criavam e evitando que outros fossem gerados. Argel já tinha repetido três vezes, enquanto Hagen não havia acabado um só prato da refeição. Quando finalmente concluiu o que tinha a dizer Argel respondeu:

- É assim mesmo, filho. E piora com o tempo! Mas eu não recordo de quem faz o que fazemos ter sucesso sozinho. Por mais poderoso que você acredite que seja, todo mundo tem fraqueza. Só um amigo é capaz de te apoiar, ajudar e lutar ao seu lado quando você realmente precisa. Você só está tentando encontrar o seu lugar.

Hagen ficou pensativo e antes que ele pudesse dizer mais uma coisa, Argel o desarmou.

- Sabe do que vocês precisam? Uma festa. Não, melhor, um grande festival para comemorar o retorno de vocês em segurança! Vou agora mesmo organizar – pessoalmente – esta festança. Você não acha uma boa idéia?

- O senhor é o rei, quem sou eu para aconselhá-lo.

Aurora e os demais chegaram em Miliciana depois de alguns dias de viagem lenta. Ualfo achou melhor voltar usando uma carruagem “esquecida” na casa do patrão, proporcionando uma chegada mais confortável. Allis e Valkíria quando souberam que chegaram a Miliciana decidiram visitar os avôs paternos, já que da última vez que estiveram naquela cidade não puderam visitá-los. Ualfo os deixou nas redondezas de onde morava o velho ferreiro Allis e foi para o castelo com os restantes.

A maga do grupo sabia que a mãe dela escondia muitos segredos, tanto mágicos, quanto relacionados ao assassino Fei Kazu. As vicissitudes da guerra fizeram com os amigos do arcebispo morto estivessem ocupados demais para agir de forma apropriada, apesar de alguns deles, como era o caso de Argon, não estarem preocupados com o assunto. Aurora sabia que havia um problema grave em fazer os reinos se mobilizarem contra o elfo assassino. A morte do clérigo foi cometida em território vizinho, onde o agressor fora também salvador. Fei Kazu resgatara o imperador Bred Storm no mesmo dia em que matara o Arcebispo Djalma. As leis daquele povo concederiam automática absolvição por ter salvado o portador da coroa imperial. Yoria não agiu porque o Conselho considerou a agressão uma vendeta particular e não do povo yoriano como um todo. Já a Ordem da Rosa Dourada, mesmo tendo perdido um arcebispo estava muito empenhada na grande guerra e tinha feito de tudo para trazê-lo de volta à vida,  sem sucesso. Como o próprio clérigo, falando do além, não atribuiu dolo ao mateiro, a Igreja providenciou um bispo substituto para a diocese yoriana. Apenas a mãe de Aurora, Ártemis, se mostrou relutante em expressar alguma opinião sobre o caso e sempre se escorregou das perguntas a respeito.

A torre onde a mãe dela se escondia era um anexo que foi construído próximo ao castelo, sendo o acesso feito diretamente ao último andar da estrutura. Aurora soube que sua mãe estava lá e foi vê-la, juntamente com os amigos. Ao chegar à referida torre, ela pediu aos amigos que a deixassem ir à frente, pois precisava ter uma conversa de filha para mãe. Aurora abriu a porta suavamente, pois a tranca mágica lhe garantia acesso livre às dependências da torre. Um cheiro alquímico agradável lhe encheu os pulmões e trazendo boas recordações. Ártemis estava sentada numa cadeira,  lendo, concentrada, livros grandes e pesados. Quando viu sua filha correu em direção da garota e a abraçou firmemente e disse em tom severo:

- Nunca mais faça isto!

Abimalek e Thon, que eram mais atentos, escutaram a reprimenda com mais nitidez que o Ualfo, que se já tinha encostado-se a um canto. Os dois nada puderam fazer a não ser escutar, constrangidos, o diálogo.

- O que eu fiz? – indagou a garota.

- Você se meteu onde não devia. Vocês entraram na Guerra.

- Nós não participamos!

- E o que me diz de ir entregar uma carta para um “amigo” do meu irmão, Argon.

- Ah! Aquela carta…

- Eu não te avisei que todos que se envolvem nesta guerra ficam amaldiçoados. Não espero consciência da cabeça de Argon, afinal ele não constuma se preocupar muito com as conseqüências e implicações das próprias ações à longo prazo. Como se não bastasse, ele ainda possue o dom natural de atrair pessoas iguais a ele: simplistas e bem-intencionadas.

- Foi mal… eu não sabia que aquela carta era tão relevante assim.

- Seu tio é um general, tudo que ele faz é relevante, inclusive mandar a sobrinha como mensageira para um reino qualquer. Sempre que uma pessoa se envolve, direta ou indiretamente na guerra, isto arruína as magias de Adivinhação.

- Bem, pelo menos você tem como saber quem está na guerra e quem não está.

- Não é tão simples minha filha. Antes nós pensávamos que as magias apenas falhariam, mas não é isto que estamos percebendo. Às vezes, as magias funcionam, mas não nos mostram a verdade e em outras vezes sim. O que faz como que as coisas fiquem complicadas demais. Duas pessoas podem ver a mesma coisa e as duas verem coisas igualmente falsas ou não. Sem falar nos casos em que os adivinhos se machucam.

- Mãe, eu comprei um bode. – disse Aurora mudando de assunto.

- Um bode?! – ela arfou. –Agora estou mais tranqüila. – fez uma pausa e sorriu. -Eu tentei achá-la por clarividência, pela bola de cristal, por astrologia. Até tasseomancia eu usei, a xícara de chá ainda está aqui! Quando eu vi aquela borra formando chifres e barba, achei que você tivesse enfrentando um demônio.

- E enfrentamos, uma erinye, uma espécie de tanar’ri, quando estivemos em Deshnok. Com a ajuda de Hagen e Abimalek ela não vai mais nos dar problemas. - ela falou com uma ar de imensa tranqüilidade olhando as unhas.

Artemis ficou boquiaberta e com o coração na mão. A filha vendo a mãe naquele estado aproveitou para recapitular tudo que haviam passado, desde a vitória contra a entidade maligna em Deshnok até a chegada em Lentis. Neste ínterim, Hagen, que estava no castelo, soube que os demais haviam chegado e ido direto para a torre de Ártemis, encontrando-se com os outros por lá. Thon, Abimalek e Ualfo jogavam conversa fora, em um ponto afastado da porta da torre e quando viram Hagen chegando na passagem, antes que ele abrisse a boca, mandaram que ele se sentasse com eles. Enquanto isto, dentro da torre Aurora terminava de resumir as aventuras:

- Vocês passaram por coisas que eu não esperava que enfrentassem tão cedo. Mesmo assim, ainda acredito que vocês tiveram mais sorte do que competência. – falou Artemis enfática.

Aurora não tinha clima para iniciar uma conversa sobre Fei Kazu – como gostaria – apesar de ter tocado no assunto durante a conversa. Ela sentiu que a mãe esteve impassível durante toda a narrativa e  achou que pareceria que ela estava querendo reverter o “carão” se começasse a questionar sobre informações naquele momento; gerando uma animosidade desnecessária naquele reencontro. Enquanto ela pensava, cabisbaixa, em um tamborete alto, com as mãos entre as pernas, a mãe dela se levantou e pegou de um tubo de couro uns papéis.  Ártemis limpou a mesa e estendeu uma das três grandes folhas sobre a superfície.

- Há uma última coisa que gostaria de te mostrar. Seu mapa astral e o de Hagen. Eu estudei seu perfil astrológico assim que você completou seus dezoito anos, época em que surgiram suas unhas de rubi.

Aurora se aproximou da mesa e via os desenhos enquanto Ártemis explicava.

- Este é o seu mapa astral, aqueles são o mapa astral de Hagen e de vocês dois juntos.

Aurora não entendia nada daqueles desenhos, o que via era que suas linhas do destino eram retas, mas possuíam pontos de inflexão em vários lugares. Aurora não levava muito a sério este tipo de previsão, pois sabia que ver o futuro era enxergar apenas uma possibilidade de acontecimentos e nem os deuses conseguiam ter certeza absoluta do que poderia acontecer. Contudo, quando ela viu as linhas traçadas para o futuro de Hagen ela se impressionou: eram linhas fortes e grossas, com linhas que se bifurcavam e faziam espirais opostas. Ártemis notou o ar de surpresa da filha e comentou:

- Está surpresa? Veja o desenho de vocês dois.

Era o caos.

Artemis voltou a explicar, com ar professoral.

- Algumas linhas “saem” da folha, o que deixou o trabalho muito mais complexo do que eu imaginei. O desenho está incompleto. Eu não sei o que pode ter gerado isto, porém sei que o desenho de Hagen não é normal e estou comparando com o seu e do seu pai, que também não são do tipo padrão.

Artemis mostrou um desenho comum, o dela, para ensinar para filha o quanto o desenho deles fugia da normalidade. E olhando para a outra, nos olhos, depois daquela longa conversa ela disse:

- Tenham cuidado.

Mãe e filha se abraçaram por um bom momento, em seguida saíram da torre. Ao cruzarem a porta, os demais que estavam cansados de esperar e estavam sentados, se levantaram. Hagen fez um declínio educado em sinal de respeito à princesa Ártemis, esposa do príncipe herdeiro- pai dele. Ualfo ficou cochilando chupando dedo. Abimalek adiantou-se à frente do grupo e lançou uma pergunta fulminante:

- Princesa Ártemis! Onde está Fei Kazu? 

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2 Comentários para “Ventos da Guerra: Capítulo 21”

  1. theo de petrolina diz:

    hhaaahahahaahhahaha
    Gostei.

  2. Matheus Medvedeff diz:

    Olha o problema que Theo solta para Ártemis resolver.

    E depois o bonequeiro sou eu.

    =]

E você, o que pensa?