Ventos da Guerra: Capítulo 20

Ventos da Guerra: Capítulo 20

FORÇA LEONINA

Como ninguém estava indo com ele, Ualfo voou para Élfica sozinho. Queria se mostrar útil para o mestre dele, que sempre confiava ao monstrinho a tarefa de observar os reticentes empregados. Hagen iria para a Cidade do Lago, ao sul. Os outros iriam para Miliciana, à oeste, só ele iria para o norte do reino, já próximo das colinas yorianas.

Havia um entroncamento que ele deveria tomar na Aldeia do Mercado – chamada simplesmente Mercado -  voltar para o lar dele em segurança. Yoria era um reino abençoado pelo deus do bem – Avalon – que transformou o lugar em paraíso de tranqüilidade, porém isto não impedia que os instintos naturais das criaturas que lá viviam, ainda deixassem viagens longas incertas. Por isso, mesmo podendo voar, o fremlin optou por continuar em vias seguras, do que cortar caminho pelas planícies.

Ualfo escutou um grito o chamando. Eram seus companheiros que iam lhe alcançando.  Eles estavam surpresos quando viram o monstrinho voando esbaforido e zombaram dele pela pressa  que não o levou a lugar algum. Hagen, correndo, a muito passara por ele e não vira o colega, cochilando dentro de uma moita. Achando gozada a situação, os amigos decidiram que era muito melhor acompanharem o peludo monstrinho até Élfica. Aurora, que já levava Thon na garupa de Mu, não fez questão de dar a mão para ele, que se acomodou facilmente em cima do caprino.

Hagen era muito bem preparado fisicamente, além de ter um vigor extraordinário. Sua compleição era fruto do dom divino recebido pelo deus do bem, patrono de Yoria. Novamente ele chegava na Cidade do Lago. Desta vez, para falar com os Paladinos das Asas de Cristal, ordem da qual a irmã do pai dele fazia parte. Hagen tentou, em vão, procurar os tios na casa deles, mas o caseiro do bonito chalé o avisou que nenhum dos patrões se encontrava. O único rosto familiar foi de sua pequena prima, Artemísia que lhe mandou um beijo e um aceno através janela do primeiro andar da casa.

Sem perder mais tempo, Hagen rumou para o castelo-sede dos Paladinos, uma bela construção que se localizava na mesma região do Liceu daquela grande cidade. O guerreiro usou seu grau de parentesco com a realeza para facilitar o acesso aos níveis mais elevados da ordem e assim deixar a mensagem que ele carregava desde Kerr, a qual revelava importante aviso à segurança daqueles paladinos diplomatas. Passando por vários protocolos, no prédio triangular, ele chegou a Sir Peredur, o segundo em influência  nos quadros da ordem. Hagen deixou a mensagem que havia revelado para Ankisys com aquele homem de aparência majestosa e modos polidos, que estava sentado em uma cadeira alva, diante de um suntuoso birô. Ele explicou, com pormenores, mesmo sem saber a importância daquele paladino, tudo que aquele desenho representava: monstros sabiam da existência dos paladinos e não eram nada amistosos.

Depois de detalhar o ocorrido com eles na difícil viagem de retorno, ele puxou da mochila de viagem um tubo para mapas. De dentro retirou a carta que o halfling Caco encomendara entrega em mãos para a famosa ordem yoriana. Peredur recebeu a mensagem com formalidade das mãos do também formal Hagen. Sir Peredur, cortou as tiras do envelope de couro com uma faca e abriu a correspondência, escrita em código  cifrado.  O elegante homem retirou de uma das gavetas uma pena e um tinteiro, molhou a ponta e riscou as palavras cifradas. A tinta infiltrou-se no papel fazendo com que os sinais se modelassem em legíveis palavras. O cavalheiro leu com agilidade a mensagem do espião halfling, enquanto Hagen aguardava impávido alguma palavra sobre o assunto. O valoroso diplomata, com a mesma expressão atenciosa com que o recepcionou, agradeceu o empenho e a preocupação com a pacífica ordem de cavaleiro e com muito requinte conduziu Hagen para a saída. Como os paladinos das Asas de Cristal eram excelentes diplomatas seria impossível para uma pessoa qualquer distinguir as intenções deles por trás de um gesto. Hagen saiu acreditando que tinha feito papel de bobo, mas crendo que agiu de modo prudente. Depois de sair de lá, foi para casa de Áurea, irmã do pai dele, onde repousaria naquele dia. O acordado com os colegas seria se encontrar na capital do reino, Miliciana.

Élfica foi local de um antigo assentamento de elfos que deixaram Celine há muito tempo atrás. O povoado cresceu lentamente e enfrentou dificuldades durante a era das trevas de Yoria. Os alto-elfos, emigrantes de Celine, abandonvam toda a sua descendência feérica e adotavam nomes novos, comuns aos lugares que escolhiam para viver. Nascido em Yoria, Traeliorn Tímonten foi responsável pela fim das perseguições que os elfos sofreram no auge da idade das trevas, quando Yoria ainda era um lugar de iniqüidade e barbárie. Traeliorn era perito em mágica e junto com um grupo de companheiros, responderam fogo com bolas de fogo. Enfeitiçando, queimando, matando, subjugaram os invasores e impediram o massacre que os elfos sofriam.

Descontente com a postura defensiva que tomaram, o mago elfo reuniu seus aliados e passaram a atacar e escravizar potenciais inimigos. A aldeia dos elfos recuperou seu porte graças à mistura do sangue élfico e humano. Com as décadas se passando, o poder de Traeliorn o alçou ao cargo de vice-tirano de Yoria, relegando ao aliado Odilon, também um feiticeiro élfico, o controle da aldeia natal. Quando o tirano de Yoria, Zaggom, foi deposto por Argel e todos os seguidores de Trealiorn haviam sido mortos ou derrotados, ele voltou para Élfica, onde foi convencido por Odilon, que estava do lado do novo rei, de que a guerra havia terminado. O mais poderoso mago elfo do reino desistiu da magia como aut0-punição pelos muitos pecados que carregava na alma, o maior deles, matar a própria esposa e mãe do único filho dele: Teobaldo Tímonten.

Ualfo tinha aproveitado, assim que chegou em Élfica, para ver como andavam os negócios que haviam sido postos de lada por causa das prioridades belicosas. Distribuindo acenos para os populares, acertando preços com os atravessadores e recebendo notícias dos soldados,  Ualfo chegou à afastada casa do “seu chefia”. Os demais, apenas acompanhavam a desenvoltura do fremlin, que se mostrava muito preocupado com a produção de lã da fazenda. O casarão de Tímonten era algo de extremo bom gosto e ostentação. Toda a madeira foi trazida de Lentis e as pedras encomendadas de Ayoria, assim como muitos animais e objetos.

O monstrinho sabia que tinha passado por maus bocados na viagem de regresso e lembrando-se das palavras do mestre Tímonten,“Vá estudar!”, procurou a biblioteca. Uma grande coleção de livros e pergaminhos aglomerava-se em três grandes estantes, Ualfo falou maravilhas daqueles livros para os colegas Aurora e Allis, também magos, que aproveitariam aqueles conhecimentos junto com ele. Abimalek e Thon os acompanharam por pura curiosidade. O monstrinho fez questão de conduzi-los até o subsolo e mostrar-lhes a entrada secreta que dava acesso à sala de estudos. Aurora, muito mais esperta, vendo aquele monte de livros, não tardou em procurar por algum pergaminho mágico, com alguma magia já escrita e assim evitar a trabalheira de vasculhar o conhecimento arcano fuçando livros. Sutil, ela sugeriu os colegas que talvez, Tímonten tivesse deixando algum pergaminho “perdido” por lá. Logo ao invés de estudarem, os três também passaram a bisbilhotar os escritos procurando por uma magia fácil. Thon e Abimalek enriqueciam os conhecimentos tradicionais levendo algumas das obras raras do acervo do dono da casa.

Do lado de fora, estava Valkíria. Mu tinha sido colocado no estábulo, onde ficou comendo cevada e feno, enquanto ela sentou no alpendre da casa, olhando a grama crescer, já que não quis perder tempo com livros, pois ela não sabia para que servia ler. Um rugido violento quebrou o silêncio bucólico daquela tarde de verão. Bugg, um wemic, ser com corpo de leão e torso humanóide tinha visto a guerreira estranha no jardim e a considerou uma ameaça. Com a crina negra esvoaçada, e as garras para fora, o wemic rosnou feroz para Valkíria, que se levantou e sorriu desembainhando sua espada.

Os outro escutaram o rugido quando já finalizavam as infrutíferas buscas por algum pergaminho mágico. O fremlin havia esquecido de mencionar que um monstro de estimação guardava a casa. Um wemic era capaz de realizar múltiplos ataques, o que tornava a criatura um inimigo temível. Eles correram pelas escadarias, abrindo apressadamente todas as portas pesadas, na tentativa vã de chegar a tempo de ajudar a guerreira, que lutava sozinha.

O monstro atacava com brutalidade, mas Valkíria era uma guerreira fria. Ela se valia da sua pesada armadura de aço e escudo de madeira para aparar as garras superiores e as dianteiras do monstro. Quando ele baixava a guarda, ela golpeava com a espada. Os pesados ataques do monstro leonino causavam arranhões e hematomas nela, até ela conseguir cortar a carne da criatura. A espada vampírica fez o serviço e sugou o sangue do monstro curando instantaneamente as feridas da guerreira. Bugg urrou com mais fúria afugentando todos os guardas titubiantes que estavam por perto, deixando a luta só entre ele e ela. A fera saltava sobre a invasora com as garras afiadas, porém ela se esquivava e bloqueava os ataques, ora com o corpo blindado, ora com o escudo. A espada afiada, que não deixava o sangue jorrar, ia pouco a pouco abrindo feridas no corpo de leão. Quando ela pensou que o monstro estava liquidado, a criatura explodiu em ódio e lançou uma truculenta patada que mataria um homem ordinário. Valkíria teve tempo de se esconder atrás do escudo, que foi partido com o ataque. Ela soltou o escudo em cacos e empunhou a espada larga com as duas mãos.

- Rápido! Bugg vai matá-la. – disse o Ualfo enquanto regurgitava a chave da porta frontal.

- Eca!!! – exclamou Allis quando viu onde o monstrinho tinha escondido a chave da casa.

Ele passou a chave para Aurora, que abriu a porta de entrada. Eles viram a luta dos dois combatentes monstruosos no jardim, que a esta altura do combate estava todo espezinhado. Bugg estava ensangüentado, Valkíria não tinha um arranhão. A espada já tinha saciado a sede de sangue e deixava verter o líquido vermelho sobre a pelagem amarela do wemic. A fera, acuada e indefesa, implorou com olhar de clemência, mas não viu retribuição de piedade. Valkiria preparou-se para desferir o golpe fatal. “Oh, não! Ela vai matar Bugg!” desesperou-se em pensamento Ualfo que gritou:

- NÃO!!!!

Valkíria olhou para trás. O wemic usou suas últimas forças para saltar para longe e correr com o rabo entre as pernas. A guerreira, de armadura salpicada de vermelho, olhou para os amigos e disse orgulhosa:

- Eu venci. Eu matar monstro sozinha.

Depois do “massacre” sofrido por Bugg, Ualfo achou que não foi boa idéia trazer Valkíria para lá. Se o wemic tivesse morrido, Ualfo nem imaginava no que o mestre dele o transformaria. Ele achou melhor levar os amigos para a casa do professor Odilon, antigo mentor de Tímonten, que levava uma vida tranqüila cuidando dos pomares da sua casa e da esposa Mara. Esta os recepcionou muito bem e ofereceu alguns bolos élficos a eles. Odilon estava cuidando da terra especial com a qual ele adubava a “coltplant”, o arbusto feérico que Tímonten esperava dar frutos. Por não confiar nos cuidados do seu bichinho atrapalhado, o elfo preferiu deixar a planta aos cuidados do antigo professor. Odilon pediu desculpas pela demora em atendê-los e falou sobre os cuidados que tinha com a planta. Abimalek ficou muito curioso e pediu:

- Coltplant, eu nunca ouvi falar? Posso conhecê-la?

- Infelizmente, isto não será possível jovem clérigo, a planta não é visível aos olhos humanos. Apenas aos elfos e as fadas ela se revela.

- Acredite nele, tu não imagina como foi difícil a gente achar ela.- completou o fremlin, se referindo a empreitada dele e de Tímonten em Celine, anos atrás.

- Ualfo,  Tímonten me pediu para cuidar de outras tarefas. Você sabe que ele contratou mercenários para caçar Fei Kazu, o assassino do Arcebispo da Rosa Dourada. Aqueles caçadores de homens vieram aqui e me avisaram que partiriam para Shinobi onde investigariam o paradeiro dele, através do antigo grupo de aventureiros a qual pertencia. Eles já investigaram tudo que podiam aqui em Yoria.

Aurora lembrou-se de que Fei Kazu era muito próximo da mãe dela. Ela mesmo já havia estado com aquele elfo ranger, alguns vezes quando era nova.

- Xiii! Vão quebrar a cara! Fei Kazu não ta lá. No começo do ano ele tava em Deshnok. A gente tava na cola dele, mas Hagen ficou com medo e não quis seguir. Aí, perdemos o rastro. Pra achar agora vai ser difícil. Perdi de ganhar cinco mil moedas de ouro.

- Pode ser que os mercenários encontrem outras pistas na terra natal dele. Não acredito que ele esteja por lá, mas talvez alguém mais conheça o paradeiro daquele ranger.

- Vamos ver… Odilon eu tou indo viajar de novo, só vim passar para ver se estava tudo em ordem.

- Claro! Normalmente é você que bagunça. – disse rindo Odilon.

- Não precisa espalhar… - sussurou Ualfo para ele. – A gente ta indo pra Miliciana e pode ser que a gente demore a voltar. Valeu pela acolhida. Podemos levar aqueles bolinhos?

- Sirva-se à vontade Ualfo.

O fremlin carregou o cesto com a comida e no alvorecer viajaram para a capital de Yoria. 

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