Ventos da Guerra: Capítulo 19

Ventos da Guerra: Capítulo 19

O MESTRE QUE NÃO ESTAVA LÁ

Thon acordou abalado com a imagem macabra que vira na noite anterior. Apesar de ter se irritado com o homem que o fez dançar, a ponto de desejar retaliação, ver aquela cabeça decapitada em uma bandeja não era algo que gostaria que tivesse ocorrido. Ter sido responsável por uma morte banal, fez com que ele sentisse remorso e impotência. Agora ele compreendia porque Hagen sempre desejou sigilo na jornada.

Eles estavam de volta na cabana onde foram recebidos e todos, bem cedo, já empacotavam os equipamentos nas mochilas e verificavam as armas para ver se nada faltava, cada flecha foi contada, cada adaga foi conferida. Thon procurava esconder um pequeno problema com o seu equipamento, sua armadura élfica, recém recebida, possuía uma falha. Não que os elfos tivessem a fabricado de maneira errada,  o problema surgiu quando ele enfrentou a erynie, ainda em Deshnok. As chamas que ela evocou foram mais graves do que todos pensavam e  o mithril da armadura,  que tinha  protegido Thon de uma morte imediata  pagou o preço pela ousadia de reter o calor das chamas infernais. A princípio, Thon não tinha percebido a falha, mas com o passar das semanas, aquela deformidade foi ficando cada vez mais perceptível para ele, a ponto de ter que evitar combates diretos. Thon esperava chegar a sua terra natal para que pudesse encontrar ferreiros que pudessem consertar o estrago.

Aurora, que todos esperavam, vinha chegando montada em um caprino avantajado. Disse que aquela seria sua nova montaria, cujo nome dado foi Mu. As hospitaleiras mulheres da casa onde eles estavam haviam lavado as roupas deles, que ainda mantinham um cheirinho de besouro-bombardeiro, porém bem mais sutil. Eles agradeceram discretamente a gentileza e viajaram no meio da manhã de volta para Lentis, em Yoria.

Eles partiram sabendo que a estrada estaria muito bem vigiada. Tiverem bastante cuidado de, na noite com o Khan, pedirem a expedição de um visto de passagem, para que não tivessem problemas ao cruzar a fronteira onde o exército de Suiren fazia guarda. Ainda muito desconfiados, partiram com extrema cautela, verificando se estariam sendo seguidos, saindo da estrada algumas vezes e ziguezagueando o caminho. Contudo, o grande exército do Ka-khan, o senhor absoluto de Suiren constituía um paredão instransponível naquela região da fronteira.

Seguindo pela estrada era possível perceber os batedores no horizonte. Certamente, alguns informantes já teriam avisado aos comandantes do exército que viajantes estavam marchando pretensiosamente na direção dos batalhões. Confiantes por estarem munidos de uma autorização de um Khan, eles continuaram a marcha. Uma barricada fechava a estrada que levava a Lentis, era impossível passar por ela com o uso da força, devido ao grande número de soldados.

Hagen monstrou ao comandante daquela barreira uma autorização do Khan Baras Agur, porém o militar pertencia ao exército de Nizina, uma vila bem mais poderosa e influente que Obshitina. O papel que eles receberam de Baras era insignificante, pois era o Ilkhan Bat Baatar que realmente comandava aquela região, a mando do próprio líder supremo de Suiren. O papel seguia de mão e em mão, passando por muitos que sequer sabiam ler. A sensação de que eles tinham sido enganados pelo Khan de Obshitina passou-lhes pelas cabeças mais de uma vez, porém não podiam fazer nada. Por precaução, eles passaram a se comunicar em outros idiomas para não gerar suspeitas do guardas. Até que o fremlin saiu do seu cômodo descanso e usou seu “charme” para tirá-los de mais uma enrascada.

- Eu quero que vocês chamem o general Chariad! Digam que é o amigo dele, Ualfo!

Ualfo sabia que Eros Chariad era o capitão daquele exército, pois muito antes dele se aventurar como os novos companheiros, ele acompanhava o mestre dele, o elfo Tímonten, em jornada por Celine. No reino élfico, eles salvaram o tal Eros, que estava amaldiçoado por uma adaga dourada. Livre da maldição, Eros passou a seguir Tímonten – e também o fremlin – como prova de gratidão. Eros acompanhou Tímonten por muitos anos, mas ambos acabaram seguindo seus caminhos e o guerreiro de Suiren, que era famoso por lá, passou a servir Nizina como um dos três comandantes que auxiliavam o Ilkhan.Quando o tempo da guerra chegou e Eros percebeu que estaria no lado oposto do antigo amigo, foi pessoalmente falar com o elfo para avisar que triste destino a vida lhe tinha tramado. Os amigos se despediram e Ualfo, que estava por ali, não pôde deixar de escutar a conversa.

Os soldados ouviram da boca do engraçado fremlin, muitos detalhes sobre o capitão Chariad. Ficaram espantados e acreditaram ser o monstrinho  mais do que aparentava inicialmente. Eros foi chamado e se apresentou diante daqueles jovens. Aquele guerreiro, forte e sagaz, acostumado a travar batalhas contra gnolls e ciclopes, sorriu ao ver um rosto amigável novamente. Eles conversaram por um longo tempo, deixando os outros de fora da conversa. Deram muitas gargalhadas, lembrando das fracassada tentativa de Tímonten, junto com Ualfo, capturar os cavalos feéricos dos sprites e dos problemas que o próprio Eros tinha com suas três esposas. Quando colocaram o papo em dia e se alegraram bastante, Eros ordenou que os jovens pudessem seguir em paz para Yoria, mandando lembranças ao velho amigo elfo que a guerra separou.

Seguindo pela estrada, cruzando a fronteira, chegaram na rota erma que ligava Yoria a Suiren. Devido à grande reclusão dos yorianos, as estradas leste eram praticamente abandonadas, pois Lentis não mantinha negócios com Obshitina. Depois que entraram na terra sagrada de Yoria, a viagem seguiu muito tranqüila. Houve uma mudança no cenário que eles não esperavam encontrar: não havia soldados. O exército yoriano, que estava protegendo a fronteira desde o ano anterior, não se encontrava mais naquela área. Tampouco foi notado algum sinal de que batalhas tivessem ocorrido naquela região durante aqueles meados de verão.

Lentis surgia no horizonte, dando certeza aos jovens de que eles estavam voltando para casa, após quatro meses de ausência, em uma jornada prevista para poucas semanas. Hagen liderava a equipe, que marchou para o castelo do General Argon. A vila estava alegre e não havia sinais de que o exército estivesse em formação, os homens tinham voltado as suas atividades regulares, sem sinais evidentes de prontidão. Nas imediações do forte, viam-se soldados, que estavam reluzindo altivez.

Eles entraram sem dificuldade, pois já eram conhecidos pelos principais guardas do portão. Ankysis, o imponente capitão, respondia pela fortaleza e veio pessoalmente falar com os jovens recém-chegados:

- Finalmente vocês voltaram! Achávamos que vocês estavam em perigo.

- Não! Claro que não. – desdenhou Allis.

- Perdoe o meu amigo, Capitão Ankysis. Nós tivemos problemas no retorno devido à interrupção da rota de Deshnok, por tal motivo, buscamos outro caminho. – respondeu Hagen.

- Vejo que vocês vieram de Suiren. – disse o capitão olhando por cima deles e notando as vestes estrangeiras. - Aquilo é um bode ?!

- Ele se chama Mu. É  minha montaria de estimação. – informou Aurora.

- Este animal é fedorento, princesa. Vou providenciar uma refeição digna e roupas apropriadas imediatamente. Creio que Vossa Alteza ainda tenha roupas aqui.

Um dos pajens da fortaleza foi convocado para conduzir os aventureiros para um merecido banho e descanso apropriado. Porém, Hagen ficou um pouco mais com o capitão.

- Poderia me informar onde o General Argon se encontra, gostaria de comunicá-lo que cumpri com êxito a minha missão. E seria mais que prudente explicar a razão do meu atraso pessoalmente.

- Lamento informar que o General não se encontra na fortaleza no momento.

- Onde ele está?

- Ele partiu logo depois de vencer a batalha contra os ciclopes que invadiram nosso reino. O General Argon considerou que o desempenho da tropa treinada por ele foi formidável e acredita que o povo de Lentis tem capacidade plena de se defender. Ele decidiu, portanto, que havia outros locais no mundo onde ajuda dele seria mais necessária. Ele me disse que iria reunir o velho grupo dele e viajar para Tantra.

Hagen ficou desapontado com a notícia e Ankysis percebendo o embaraço tentou remediar:

- Se o General partiu foi porque ele tinha certeza que a sua missão estava cumprida.

- Mas ele não deixou nenhuma outra missão?

- Não. Apenas demonstrou preocupação quando soube que a fronteira tinha sido fechada e que vocês ainda estavam lá. Devido ao impasse, os Paladinos da Asas de Cristal mandaram o melhor diplomata para negociar a reabertura da fronteira e acabar com este clima de guerra que há entre Yoria, Deshnok e Suiren.

- Entendo… Nesta viagem, nós encontramos ogros e eles carregavam este desenho com eles.

Hagen mostrou ao capitão um desenho em um pergaminho de um paladino das asas de cristal, obtido na floresta antes de chegarem a Obshitina. O militar olhou aquele desenho com atenção e percebeu o perigo que aquilo representava. Havia monstros mais inteligentes no campo de batalha do que eles gostariam de enfrentar. Hagen contou os detalhes da batalha e como conseguiram escapar, solicitando para que o capitão ficasse alerta e tomasse as providências necessárias, no qual o capitão o informou que ele deveria comunicar os próprios paladinos do ocorrido.

Depois daquela conversa, Hagen reencontrou os amigos, que contavam vantagens na mesa de refeição. Ao vê-lo entrar, Abimalek mudou o rumo da conversação:

- Estava esperando você chegar Hagen. Precisamos conversar.

Neste momento todos fizeram silêncio. Estava no ar entre eles uma sensação de mal-estar desde Suiren, quando as relações internas ficaram abaladas. Abimalek aproveitou o consentimento tácito do guerreiro e continuou o monólogo:

- Eu quero dizer que fiquei muito enfurecido com você, por blasfemar contra minha deusa. Eu sou um seguidor dela e você não tem moral para julgar as minhas ações.

- Eu não fiz nenhum julgamento delas. Apenas falei o que eu vi. – replicou Hagen.

- Você não sabe o que viu. Eu estava agindo para nos ajudar e você estava cooperando com estranhos. Eles não hesitariam em matar qualquer um de nós se quisessem, mas você preferiu confiar neles a nós. Isto foi covarde de sua parte.

- Não finja ser santo, Lafer. Quando estávamos na floresta você não nos ajudou nem um pouco contra os besouros. Você me chama de covarde, mas eu nunca  abandonei meus amigos em situação de perigo como você fez. E foi por sua causa, que não quis nos curar, que eu não pude evitar que fôssemos capturados. Se lady Valkíria não estivesse com graves ferimentos, eu salvaria a todos daquela emboscada. Só não pude fazê-lo porque você não confiou em mim.

-É verdade, tu não confia nas pessoas e muito menos nos monstros. Eu tentei te ajudar quando você tava indo pra forca e tu só faltou me bater. – reclamou Ualfo.

- Eu ia me libertar daquelas correntes…

- Eu acho que vocês todos são muito arrogantes. Eu estava com a vida por fio e vocês ficaram contra mim. –disse Allis.

- Ei, eu não fiquei contra ninguém! – exclamou Thon.

- Allis, dar com a língua nos dentes é motivo para deixar qualquer um chateado. – implicou Aurora.

- Vocês falar muito e não fazer nada! – comentou Valkíria, já chateada.

Os ânimos da discussão, conjugados aos efeitos da cerveja na mesa, foram ficando mais exaltados. Todos possuíam um defeito o qual se fazia notar: a prepotência de Hagen, a passividade de Thon, a imprudência de Ualfo, a covardia de Allis, o desdém de Aurora, a burrice de Valkíria e a o excesso de confiança de Abimalek. Tais defeitos aliados a falta clara de objetivos transformaram aquele ambiente num caldeirão em ebulição. Eis que em momento de grande algazarra, Thon assobiou e todos fizeram silêncio imediato.

- Turma. Acho que esta briga não vai nos levar a lugar nenhum. Está claro que todo mundo aqui tem defeitos e não nós unimos porque quisemos, foi por causa dos nossos pais. Isto só fez com que nosso processo de união tenha se tornado difícil. Sempre vamos passar por maus momentos e isto só vai nos fortalecer com o tempo. O que importa é o que fizemos de bom. Antes de ficarmos brigando por que um fez isto e o outro fez aquilo, lembrem-se que salvamos uma aldeia inteira da perdição, escapamos de um jornada difícil nas montanhas com as quimeras e sobrevivemos a uma emboscadas de ogros. O que foi tudo isto comparado a só um mau momento quando fomos presos?

- Você tem razão, Thon. Eu comprei Mu. Não teria feito se não ficássemos “convidados”. – disse Aurora.

- E lá foi legal pra mim. Vi que pessoas e monstros podem viver bem. – falou Ualfo.

- Eu fiz aliados. – citou Allis gerando ainda olhares pesarosos sobre ele.

- Eu soquei um cara. – lembrou Valkíria.

- Orei muito sobre o que ocorreu e minha deusa me disse que só sobreviveremos neste mundo se trabalharmos juntos. Peço desculpas a Hagen se não dei margem para gerar confiança, principalmente para ele. Não nasci para ser escravo de ninguém, mas não vou deixar quem eu gosto desguarnecidos outra vez.

- Desculpas aceitas senhor Lafer. Será bom lutar ao seu lado.

Todos ficam felizes quando viram o aperto de mão entre os dois, Hagen e Abimalek Lafer. Todos acabam por se confraternizarem com alegria. Abimalek  perguntou para Hagen:

- E a sua missão? Argon deu por concluída?

- Mais ou menos.

- Como assim?

- Argon não está aqui. Viajou em missão. – respondeu bebericando serenamente.

- Eu não acredito!- disse em voz alta batendo na mesa. – Cruzamos os reinos, vindo para cá e no fim o seu mestre não está! Você tem noção de quantas coisas deixamos de fazer?

- Eu sei. Por isso vamos aguardar ele voltar para nos passar novas instruções.

- Você está brincando…

- Ei! Senhor Guerreiro Celestial. Ninguém vai ficar no meu reino vendo a grama crescer. Temos muitas coisas para fazer em Miliciana. – disse Aurora.

- E eu preciso ir para Élfica ver como está a casa do meu mestre. – falou o fremlin.

- E eu vou querer uma ajudinha de vocês, minha casa ainda é mais longe. – lembrou Thon 

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3 Comentários para “Ventos da Guerra: Capítulo 19”

  1. Joffison diz:

    “o desdém de Aurora” foi a única parte que eu n concordei, eu me importo muito com Mu.

  2. [...] This post was mentioned on Twitter by Pensotopia, Tudo sobre RPG. Tudo sobre RPG said: Ventos da Guerra: Capítulo 19 http://bit.ly/97ySOA #RPGTweet [...]

  3. Danielfo diz:

    Pena que Mu não pode falar em sua defesa.

  4. Theo diz:

    Foi nessa conversa que eu falei a hagen, Bem vindo ao mundo real. Porque ainda debatemos o lance da religiao. Sei que tu nao lembra de tudo. Mas posso rever isso. O clima ficou pesado e hagen by otavio, não teve uma resposta adequada para mim, porque eu invoquei os meus dogmas. Porque ele alegou que eu não era digno de ser seguidor de Arina, pelo teste dele de religião. So que eu rebati ele naos meus dogmas e ele ficou sem saída e depois fizemos as pazes.

E você, o que pensa?