Ventos da Guerra: Capítulo 17

TRAIÇÃO

Os olhares aquilinos recaíram sobre Allis, que estava acanhado devido àquela desconfortável situação. Ele ainda se sentia mal pelo efeito do veneno que havia na bebida, mesmo tendo tomado o antídoto. Homens erguiam um pavilhão improvisado perto da torre, destinado aos repentinos convidados. Eram meados da noite daquele vigésimo sétimo dia do quarto mês do ano – Arinir- e a lua nova deixava a noite escura e  ornada de estrelas. A tenda serviu  para encobrir dessas estrelas o constrangimento que Simack II passou.

- O que você fez? – perguntou baixinho Aurora, assim que os guardas se afastaram da tenda.

- Eu não tive escolha. Ele me envenenou… só me daria o antídoto se eu cooperasse. Você não vê que eu ainda me sinto mal?

- Eu acho que você tomou um porre. -respondeu ela.

- Sim, ele me deu uma bebida e havia uma serpente dentro dela. Quando percebi, já tinha bebido tudo. Eu comecei a ficar zonzo, minha barriga estremeceu…

- Você ficou tonto, ainda quando estava sentado? – indagou a princesa de Yoria.

- Foi.

- Você tomou licor de cobra! – disse ela após sentir o hálito do nervoso Allis.

- O que? Sim, havia uma cobra terrível morta dentro da garrafa!

- E você por acaso bebeu depressa?

- O licor era adocicado, eu acabei bebendo muito rápido e não notei que estava com veneno.

- Você pelo visto não é de beber muito Allis. Já eu, trabalhei em uma taverna e numa muito movimentada! Você só foi mais um idiota que sentiu o poder daquela bebida exótica. Quem bebe muito rápido, achando que  ela é fraca, acaba se dando mal e se embriaga mais rápido do que gostaria. A serpente só dá o charme à bebida. Fora a sua ressaca amanhã, nada fatal lhe ocorreria. Só que depois que você abriu o seu bico…não sei se acordar vomitando será o pior de seus problemas!

- Allis, você está usando um brinco? – espantou-se o Ualfo, com sua típica voz engraçada.

Allis tinha recebido um pequeno brinco metálico de Yesu durante a breve estadia na torre. Além de ter que aceitar, ele teve que deixar que colocassem na orelha esquerda dele. Em Suiren, os homens usavam brincos. O dracomago percebeu que os olhares de todos não esboçam nenhuma confiança nele. Ele procurou a irmã, lançando olhar esperançoso para ela, clamando por alguma palavra fraterna. A irmã, vendo o olhar dele, se pronunciou enfática:

- Segundo, você é traidor!

Hagen se sentiu também traído, mas não por Allis, a quem ele considerou apenas ingênuo, mas em relação à Yesu Gai. O homem lhe dera todas as garantias e também o enganara. Sentindo-se responsável, o guerreiro saiu da tenda para remediar o ocorrido. Os homens deixaram Hagen passar e ele foi acompanhado até onde o líder da torre se encontrava.

- Sr. Gai, creio que tu não fostes honesto comigo.

- Isto é uma pesada acusação senhor Hagen. - respondeu o homem, fazendo sinal para que os guardas os deixassem a sós.

- Você ameaçou o meu amigo.

- Eu não fiz nada disso. Apenas ofereci uma bebida a ele, em nenhum momento disse que a vida dele estava em perigo. Pode perguntar ao sr. Allis, inclusive sobre a minha preocupação com a ressaca dele. Se não fosse uma velha receita de família, ele não acordaria nada bem.

- Quero alertá-lo que não vou tolerar esta situação. O senhor não pode nos manter cativos aqui.

- Cativos? - ele sorriu e esboçou uma leve risada. – Os senhores fazem muito mal juízo de nós. Vocês são príncipes, filhos de reis. O que pensaria o reino de Yoria se soubesse que a filha do príncipe passou por aqui e nós não a recebemos com dignidade. Informei ao Khan o mais rápido que pude. Baras Agur faz questão de recebê-los para um jantar. Meus mensageiros já me comunicaram sobre o convite, iria avisá-los amanhã, mas já que o senhor se antecipou, poderá alertar os seus amigos. Será uma honra para nós tê-los conosco.

traicaoHagen ficou desconcertado com as palavras e desceu as escadas para contar aos demais, contudo Abimalek traçava outros planos. O sacerdote, apesar de bancar o solitário, não tolerou a idéia de ver, os protegidos aprisionados e servido de barganha. Quando Hagen saiu, ele conversou com os restantes sobre uma maneira de fugirem durante a madrugada. O plano incluía atacar os guardas da torre, apagar as tochas e escaparem na escuridão o mais rápido que poderiam. Ele usaria os dons clericais e os magos empregariam todas as mágicas para recuperarem as armas, que não haviam sido devolvidas junto com os outros equipamentos. Para tal, a espada de Allis teria que funcionar. Nem todos concordavam com todos os pontos do plano, mas era o melhor que tinham.

Ele desenhava alguns traços na areia, do lado mais iluminado da tenda – próximo à torre – combinando a estratégia de ataque, quando Hagen voltou. O rapaz ruivo se aproximou e perguntou o que faziam, porém o sacerdote mandou que ele entrasse na tenda. Hagen ficou chateado com a maneira brusca com a qual foi tratado e partiu. Assim que Abimalek voltou, junto com Aurora e Thon, que estavam com ele, Hagen deu a notícia do convite para jantar com o Khan.

- Hagen, você não vê que este Khan está querendo nos enganar?

- Ele apenas nos convidou para uma única festa e depois disto estaremos descompromissados.

- Quem garante?

- Não temos muita escolha. Sr. Lafer. Creio que devamos atender ao convite, não seria gentil recusar.

- Então vá sozinho, temos coisa melhor para fazer! – respondeu ríspido.

- Espero que não façam bobagens.

Um dos guardas da torre ordenou para eles irem dormir, porém o sacerdote de Arina tinha outros planos. Afastando-se um pouco da torre, ele começou a orar para deusa, invocando os poderes certos para salvá-los. O que ele não esperava era que guardas vigilantes notassem o afastamento dele. O sacerdote foi surpreendido no meio das orações.

- Pegamos você druida! – falou um dos guardas.

- Achou que nos enganaria? – disse o outro.

Abimalek ficou sem reação e viu que eles eram perigosos. Antes que decidisse o que fazer, Hagen chegou, pois observava o que o sacerdote pretendia. Quando viu que os guardas surgiram, correu para impedir que algo ocorresse. Porém, quando os guardas o viram surgir entre eles, o tomaram como aliado.

- Este homem é um druida e estava realizando algum de seus rituais! - acusou um dos guardas.

- Por isso será preso. – disse o outro.

- Eu não estava fazendo ritual nenhum, eu estava apenas rezando para minha deusa. Eu sou um sacerdote de Arina.

- Sacerdote da fauna e flora é um bom disfarce para druidas.- duvidou um dos homens, bufando de raiva.

- Admita que não tava pretendendo usar seus poderes contra nós. – interrogou o outro.

-Eu? Eu não!- dissimulou o clérigo.

- Isto não é verdade. – disse Hagen. – Tu estavas rezando para a sua deusa sim e não sei como é capaz de mentir até sobre a tua própria religião?

Os guardas capturam o clérigo, que ficou atônito com aquela resposta de Hagen.

- Eu vou com você para garantir que nada te aconteça.

- Vá se ferrar, seu traidor!

Abimalek foi arrastado pelos guardas até o térreo da torre e Hagen foi junto. Os outros ficaram fingindo que dormiam e nada puderam fazer. O plano havia sido abortado. Yesu olhou para as estrelas e viu que a noite já virava madrugada do outro dia, amanhecia mais cedo no verão e ele não queria perder um pouco do repouso. Chegando em baixo, viu que Abimalek espumava de ódio, com olhos vermelhos e cabelos loiros esvoaçados. Os guardas haviam-no prendido em correntes, para evitar maiores problemas.

“Eu sou discípulo de Fei Kazu. Eu sou o senhor dos druidas. Eu sou o seu pior pesadelo. Minha deusa está sempre comigo.” ameaçava o acólito aos berros para todos, inclusive Hagen. A quem ele acusava de querer julgá-lo, algo que Abimalek considerou heresia imperdoável.

- Fez um bom trabalho meu rapaz. – disse Yesu. – Seu amigo iria trazer incômodos desnecessários. Ele está transtornado por estar nesta situação, por isso vocifera. Não se incomode com isso, quando a raiva passar, ele verá que você estava com a razão. Foi por isto que eu não os deixei com armas, mas deixei você, Hagen. Nestas horas precisamos de frieza e liderança. Você tem o espírito de um campeão!

Hagen se retirou da torre e deixou Abimalek praguejando sozinho. Yesu Gai mandou a uns homens trouxessem um caldeirão de água fervente e a outros que vendassem o acorrentado. Yesu lançou algumas ervas no caldeirão e elas exalaram um cheiro forte. Abimalek aspirou aquela combinação de odores e sentiu a mente turvar. O veterano soldado sabia que não era prudente deixar um sacerdote, ou druida, consciente para que ficasse com o corpo cheio de magia quando eles menos esperassem e tomou as precauções. O chefe da torre fez o primeiro monólogo do dia, já de madrugada.

- Senhor Abimalek Lafer, você acabou de lançar um terrível destino sobre si. Como pode perceber, nem os seus amigos confiam em ti. E vou lhe contar o porquê.

Abimalek estava amolecido pelo efeito dos vapores e resignou-se a escutar.

- Você é apenas um servo para eles. Todos possuem grande linhagem: filhos de lordes, de príncipes, de reis. E você? Nada és. Para eles, sua utilidade só existe quando você os obedece. Podem até ouvi-lo, mas nunca se deixaram influenciar por suas palavras.

Yesu, vendo que a droga já dopava demais o sacerdote, tampou o recipiente. O clérigo era resistente e ainda ouvia tudo, apesar de estar se sentindo fraco.

- Não se preocupe Abimalek, amanhã você terá sua grande provação. Por violar nossas leis, você será julgado ao entardecer e o seu sofrimento terminará de qualquer forma, independente da sentença. Você merece saber a acusação: druidismo.

2 thoughts on “Ventos da Guerra: Capítulo 17

  1. Isso aí não foi nada!!!! Eu não sou o guerreiro supremo TUM TUM TUM não!!! Leia o próximo post!!!!!

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Hagen BUrro!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Alienígena!!!!!!!!!!!!!!!!!

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