Aurora observou o estado crítico em que Allis se encontrava e notando que era grave devido à perda de sangue, foi mexer na mochila dele pra ver o que o dracomago tinha de valor. Enquanto a feiticeira já se acostumava com a idéia do colega morto, Hagen acreditou ainda existir esperança.
- Como é esta planta medicinal, Sr. Lafer?
- Não sei ao certo, não fui criado em montanhas. Me disseram que nestas regiões você poderia encontrar uma planta chamada corka. Ela tem flores amarelas, pequenas e aromáticas que nascem no verão. As folhas da planta possuem poderes anestésicos e estabilizantes… elas salvariam Allis, mas encontrá-las em tão pouco tempo e durante a primavera é impossível.
Hagen lançou sua mente a um passado distante. Quando criança treinara com o retalhador Jubei Lee, o primeiro dos seus mestres, ainda nesse mundo. Perdido em terríveis montanhas, tivera que aprender a sobreviver sozinho naqueles terrenos inóspitos. Comer pouco, quase não dormir, sentir frio, se ferir nos treinamentos, esfolar os pés e mãos escalando paredões e andar por trilhas vertiginosas. Logo o menino descobrira que as folhas verdes de um pequeno arbusto enganaram a fome e lhe dera resistência para chegar aos locais de treinamento escapando de punições. Os olhos azuis do guerreiro ruivo perscrutaram as montanhas por locais onde a planta gostaria de nascer. Hagen detectou o local mais provável e correu em disparada, apostando tudo na sua alta velocidade.
Por sorte, a planta vive em baixas altitudes. No meio de várias outras, havia algumas das que ele procurava. Um milagre havia acontecido, qualquer um que não conhecesse a corka previamente iria ignorar as folhagens, caso procurasse pelas flores que não nasciam naquela época. Hagen arrancou o arbusto, saltou pelas encostas do monte e voltou mais rápido do que foi, entregando a planta ao clérigo, que assistia o moribundo. Abimalek enxergou aquele ato como uma prova de um milagre de Arina, a deusa da fauna e flora. “Teria a deusa que escolheu Simack pai como campeão salvado o filho dele?”, pensou enquanto ministrava o remédio.
Aurora lia calmamente algumas magias do grimório do dracomago e ficou surpresa ao encontrar alguns feitiços extremamente complexos para um iniciante. Já Valkíria, chegou próximo ao irmão e perguntou ao sacerdote:
- Ele vai viver?
- Sim a planta fez os sangramentos pararem, amanhã eu consigo curá-lo.
- Droga!
No dia seguinte, Allis estava recuperado, a roupa tinha um enorme furo e uma cicatriz marcava-lhe o ombro mesmo após a cura ministrada. Reagrupados, eles seguiam à nordeste, na direção do reino natal dos halflings: Kerr. Eles desciam o vale suave onde estavam, de montes esculpidos por uma divindade com grande esmero. Um pequeno riacho serpenteava por ali, carregando cristalina água degelada de uma montanha próxima. Por lá, uma quimera, monstro alado com três cabeças – leão, dragão e bode – saciava a sede. Olhando o monstro tão desguarnecido, o espírito aventureiro aflorou na pele deles. Munidos de arcos e flechas de pontas metálicas, miraram no dorso da fera destraída. As setas zuniram o ar e cravaram nas ancas caprinas. O monstro raivoso lançou todos os olhares para aquele grupo, que já buscavam outras flechas nas aljavas. O grande monstro alado voou em direção dos perigosos oponentes e recebeu, agora no dorso leonino e nas asas coriáceas, mais alguns ataques certeiros. Abimalek que apenas observava as flechas de Valkíria, Hagen, Allis e algumas pedras de Thon, esperou o monstro chegar próximo para poder atacar com sua maça.
- Vejam um herói em ação! – gritou.
O sacerdote correu na direção do monstro, que devido aos ferimentos, não se sustentava mais em vôo. Ao se aproximar da quimera, a cabeça de dragão cuspiu fogo, chamuscando-lhe o peito e vestes. O ágil sacerdote rolou no chão para apagar as chamas e diminuir os ferimentos. Valkíria, vindo logo atrás dele, fincou a espada no peitoral do leão, matando a criatura.
- Parabéns Abimalek! Se você não tivesse distraído a cabeça de dragão, Valkíria não poderia matar a quimera com um golpe.
Após o sarcástico comentário técnico de Ualfo. Abimalek se levantou e “lambeu” suas feridas, não dando uma palavra. O fremlin olhou o estado da quimera e constatou que, ao contrário da manticore, que mataram dias atrás, o estado do pelo estava bom, apesar das flechadas. Ele puxou suas pequenas ferramentas e avisou a todos que iria tirar a juba da quimera. O monstrinho poderia trabalhar o monstro todo, mas eles não tinham tempo. Com cuidado e destreza, e lutando contra um instinto destruidor da raça, famosa por quebrar coisas sem querer, fez o escalpo.
- Vejam! Uma juba ambulante! – brincou o fremlin coberto pela juba do monstro.
Alguns dentes foram arrancados da cabeça do dragão e os quartos do bode foram cortados para um posterior cozido. Em tempos de dificuldade, não se poderia desprezar carne. Thon assoviou e atraiu um pássaro da região. Ele sabia se comunicar muito bem com eles e queria saber onde aquela quimera morava. Os pequenos pássaros se mostravam assustados a passar por ali e a ave contou que a quimera matava os pequenos animais em vôo só para afirmar território. A ave contou que era no pico do monte próximo que a quimera vivia, mas não soube dizer se era só uma. Nenhum deles ficava por perto para contar quantas eram.
Thon avisou a Hagen e ambos foram investigar o monte, aproveitando que os demais ainda retalhavam a quimera morta. Hagen constatou que havia um caminho por onde poderiam escalar em uma das faces do monte e voltou para sugerir a exploração do covil da quimera, no qual todos acordaram. Era quase meio da tarde quando eles começaram a subida. Andando por uma trilha natural, eles começaram a achar algumas ossadas se acumulando, à medida que chegavam ao topo. Algumas partes de ossos de anões eram vistos carcomidos. Do alto, eles avistaram outra quimera pairando no céu. O monstro rugiu com sua cabeça de dragão. Allis tomou um susto e comunicou aos demais:
- Isso não foi um rugido. A quimera falou em dracônico. Ela gritou: Invasores!
Logo mais duas delas saíram do covil, no alto do pico e entraram em formação de ataque. Eles estavam em uma estreita trilha, suficiente para uma fila apenas. Os arqueiros do grupo se posicionaram e começaram a flechar, mas desta vez, eram três monstros, não um. O nervosismo os fazia errar. Os monstros cuspiram fogo, ferindo todos eles, principalmente Valkíria que tombou muito ferida. Estava evidente que não conseguiriam descer a tempo. Thon, que tinha sangue de halfling robusto – que sabem instintivamente como sobreviver em tocas subterrâneas – passou a procurar algum local na montanha onde pudessem se esconder. O riacho nascia de lá e talvez o degelo tivesse provocado alguma infiltração na rocha. Seus instintos o guiaram para uma pedra.
- Derrubem esta pedra aqui. – gritou o pequeno.
Hagen afastou a pedra, que era do tamanho de Thon com facilidade, revelando uma entrada para uma pequena gruta. Mas apenas um por vez poderia entrar. Thon foi e, com sua infravisão, viu que o corredor era longo. Empurraram a guerreira para lá e o minúsculo fremlin entrou junto com ela. Hagen bradou:
- Eu fico na frente, vão!
O guerreiro supremo da luz recebeu sozinho toda a fúria das quimeras, bradindo em vão a espada, no intuito de atrair para si os ataques. Aurora, Abimalek e Allis adentram em segurança, enquanto Hagen recebeu toda a fúria dos monstros e tombou gravemente ferido. Sem escolhas, o sacerdote voltou e curou o guerreiro, que se ergueu.
- Eu estou bem…entre.
- Não, entre você.
- Não…entre…você, as quimeras estão voltado.
- Você que sabe. Saiba que eu não tenho mais curas.
O clérigo mergulhou no buraco, enquanto o guerreiro pegou a espada e se arrastou para lá, momentos antes das flamas lamberem o chão. O grupo ia se esgueirando pelo túnel que ia ficando um pouco maior. Uma das feras conseguiu enfiar a cabeça de dragão no buraco, mas o dracomago sabia como lidar com aqueles arremedos de dragão. Um míssil mágico certeiro acerta a goela do monstro antes que ele cuspa fogo. O monstro se afasta e todos ficam à salvo.
A infiltração formou uma gruta de águas cálidas. Com as quimeras tocaiando a saída, eles ficaram lá pelo resto do dia, recuperando as forças. Quando despertaram, não arriscaram uma fuga pela rota mais perigosa .
- Deve haver uma saída por aqui, o riacho nasce desta água, pode haver uma passagem oculta.
- Deixe-me procurar Thon. – diz Hagen, que mesmo ainda não totalmente recuperando, já se oferecia.
O guerreiro, sem armadura, mergulhou nas águas plácidas e se lembrou dos mares de água benta de Lunia. Ele imergiu na água e respirou. O guerreiro platinado afundou como uma pedra e procurou por algum fluxo de água naquela escuridão, descobrindo o escoamento. Tateando, ele notou que um fluxo por baixo de uma rocha. A pedra era solta, porém bem apoiada nas demais,que formavam a montanha. Dentro d’água seria impossível empurrá-la. O guerreiro escalou o paredão submerso e viu uma outra pedra que descansava em um laje. Se aquela pedra fosse derrubada em cima da outra, poderia forçá-la para fora, abrindo uma saída.
Hagen comunicou seu plano aos demais. Aurora e Valkíria foram com ele. Aurora iluminou o caminho com magia e chegando à laje, calculou precisamente em que direção e com que força deveria empurrar. Hagen e Valkíria por mais fortes que fossem, em vão empurraram a rocha, que teimava em permanecer impávida. Aurora se aproximou da pedra, olhou o chão, se esgueirou pela laje espiando onde ela devia cair, jogou uma esfera de luz na água para checar a profundidade e voltou para trás da pedra, sob olhares curiosos dos amigos. Respirou fundo e conjurou uma magia que deixava o chão sem atrito, como tinha feito com os trasgos de ferro. Com um único dedo, num movimento preciso, transferiu uma pequena quantidade de energia cinética à pedra, que sem atrito, deslizou lentamente até tombar. O pesado rochedo acertou a outra pedra, rompendo a fixação dela com o resto da parede. A pressão da água fez o restante, abrindo uma torrente, que logo secou a gruta e tornou caudaloso o pequeno riacho. Com o estrondo da pedra caindo e da água jorrando, as quimeras se assustaram e voltaram para o covil. Já eles, aproveitaram a oportunidade para descer por um caminho, mais íngreme, porém mais seguro.
com um dedo.
tahammmmmmmmmmmm.