
1910-2010
Não sou um grande cinéfilo, mas gosto muitos de filmes clássicos. E os filmes que que recomendo para os Rpgistas são os do cineasta Akira Kurosawa, que completaria 100 anos hoje, se estivesse vivo. Kurosawa tem uma característica muito peculiar, ele era mestre nas adaptações. Adaptou clássicos da literatura ocidental para uma linguagem japonesa, transcrevendo com competência estes mitos universais em um mundo completamente distinto da obra orginial, como em “O trono manchado de sangue” e “Ran”.
O que aprender com Kurosawa?
Se você gostou de uma trama de sci-fi jogue-o em fantasy ou vice-versa. Qual a diferença de entrar num campo de asteróides e ter sua nave quase sendo engolida por um verme espacial ou andar em um deserto rochoso infestados por vermes púrpuras.
Faça releituras de alguma estória para seu jogo. Você deve conhecer a obra, integral ou apenas parcialmente. Gostou daquela série, daquele filme, daquele gibi do Cebolinha? Boas ideias surgem em qualquer lugar. E podem ser modeladas com criatividade. Você só deve pensar como isto se encaixaria na sua trama e quais as conseqüências disto, caso a campanha se alongue. Imagine se os aventureiros encontram um castelo encantado, onde o povo foi adormecido por um feitiço antigo. Se eles descobrirem que beijando a princesa a maldição é quebrada, o que fazer com este povo, o castelo e princesa agora? Certamente eles teriam uma dívida de gratidão e isto influenciaria no futuro a vida dos personagens. Quais as reações a o ressurgimento de um reino perdido há 100 anos?
As narrativas de Kurosawa são sobre pessoas e não sobre eventos. Nos Sete Samurais, o sétimo samurai Kikuchiyo carrega um grande drama pessoal e durante o filme percorre um grande processo de auto-afirmação. Os outros Samurais acabam se indentificando com os moradores da vila, com que compartilhavam a miséria apesar do status oposto. As tramas acabam sendo focadas nos personagens, ficando os eventos do cenários como meros pano de fundo para o fluxo das estórias. Em “A Fortaleza Escondida” a queda do reino da princesa (chata pra cacete) é o reino inimigo não são realmente a essência e sim as interações entre o inusitado grupo de personagens que se une e as ambições pessoais e códigos de conduta de cada um. Eu recomendo que assistam este filme, além de massa é muito engraçado.
Aquele personagem mais vagabundo, mais desprezado é o cara que vai fazer a diferença. Pode ser um inimigo que teve a vida poupada, um serva que foi liberta ou o seu bobo da corte. Kurosawa sabe trabalhar com o elenco secundário elevando-lhes a importância. Deixe trunfos escondidos sobre alguns personagens apagados e os revele quando for a hora certa.
Kurosawa adorava o ator Toshiro Mifune, pois ele personificava a figura do herói do diretor. Não o herói clássico da mitologia, mas o herói situacional. É aquele heroi ocasional, que chega em um lugar, vê como as coisas estão e age. A princípio com interesse pessoal, mas depois guiado por um forte senso moral.
Os heróis de Kurosawa são cães em terras sem lei, párias, mas não se deixam abater e se aproveitam da situação com humor e oportunismo. São inteligentes e muito estrategistas. Diferente do herói clássico, que precisa ouvir o chamado para correr atrás de um objetivo, os heróis de Kurosawa andam à esmo, como justiceiros solitários, tentando salvar não a si, mas os outros, fracos e oprimidos pelas garras dos malignos. Eles passam um que de desapego à própria vida, sem se preocuparem com ganhos futuros, recompensas ou glórias, tendo como único prazer ver os mãos sofrerem e os inocentes terem sua vingança.
Parabéns Akira Kurosawa pelo seu dia, enquanto houverem seus filmes você ainda estará conosco.
Muito bacana o ensaio. Os grandes mestres têm muito, mas muito mesmo a oferecer em termos de ideias para nós narradores. =)
Vi menos filmes de Kurosawa que gostaria, e desses apenas Ran e Os Sete Samurais são os que tenho comigo e fico assistindo de novo. Este último, aliás, pra mim define toda e qualquer boa história de ação até hoje.
@Dan Ramos,
Ah! Outra coisa que acho massa, são as lutas. É muito lindo ver um samurai lutar sem fazer pirueta, voar e lutar dançando break.
Para quem joga AD&D, onde o round é mais longo, vc tem uma noção melhor de como funciona a rodada, assistindo os duelos de Kurosawa.
Cara,uns dias atrás eu assisti Yojimbo do Kurusawa.SENSACIONAL!E eu já tinha visto Sete Samurais.Realmente filmes excelentes,sem duvida.
Hoje mesmo fiz um post no meu blog http://tocadekigan.blogspot.com/2010/04/yojimbo-o-guarda-costas.html.
E uma outra coisa,o legal é como as tramas dele(pelo menos dos 2 filmes q eu vi)são meio genericas.Mudando alguns detalhes da pra coloca em qualquer cenário,tanto que aquele Farwest Sete Homens e um Destino foi adaptado de Sete Samurais!
Alias,se não fosse pedir de mais,bem q podiam colocaro link pra Toca de Kigan ai!
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