Allis e Thon se reuniram com Ualfo e Valkíria e foram explorar o quarto de Noco. Valkíria empurrou a cama forrada de finos lençóis, virando-a. Ficou a cargo da guerreira de abrir o alçapão, que revelou uma escada para uma sala escura. Thon amarrou um lampião a sua corda e o desceu cuidadosamente, iluminando a sala abaixo. Um cheiro de sangue foi tomando conta do quarto, vindo do porão. Eles desceram para a sala e viram que havia uma pira, com vestígios de cinzas nela, o cheiro ocre vinha de uma parede negra, que sangrava.
O dracomago apagou a chama do lampião. Por um momento, sentiram o cheiro do sangue arrefecer. Thon, com sua infravisão, vê o sangue ser absorvido pela parede e resolveu o enigma. O fogo fazia a parede sangrar e fraca chama do lampião produziu o efeito. Os halflings eram estranhos e Valkíria tinha certeza do que imaginava. Eles saíram do porão e decidiram voltar ao bosque. Já tinham investigado coisas de mais.
Quando saíram do quarto foram surpreendidos por duas formas amorfas feitas de cera quente, havia feições humanóides nelas. Valkíria empunhou o escudo e sua espada vampírica, recebida pelo próprio pai, Simack Allis. Os dois monstros obstruíram a porta e ela fechou a passagem para eles. As criaturas se mesclavam e lançavam garras de suas formas amorfas, mas suas gosmas quentes eram bloqueadas pela armadura wyrmslayer dela. Um pesado ataque da espada da guerreira deixou marcas profundas em um dos monstros de cera. O revide veio, mas foi ineficaz. Com mais raiva das criaturas, Valkíria golpeu um deles, que se dissolveu e com um revide rápido, fulmina o outro com sua espada larga, salpicando tinta e cera por todo o local. Ela olhou para trás e viu que os demais estavam estáticos, observando a guerreira sem nenhum arranhão. No semblante dela estava lá a prova da culpa dos cantores.
Quando chegaram ao bosque, Aurora ainda tentava decifrar o colar, mas já tinha sido vencida pelo cansaço. Abimalek já havia soltado os dois e estava esperando a noite acabar. Ele queria investigar o papel, mas como Aurora o fazia, achou melhor a maga terminar. Tico e Noco queriam ir pra casa, mas Hagen os impedia, pois aguardava o retorno dos demais. Assim que os irmãos os viram chegar, vão para casa apressados.
- Halflings maus! Fizeram pacto com demônios! – se apressa Valkíria em contar.
- Não é bem isto, eles foram amaldiçoados. – retifica Allis a irmã.
- E qual a novidade disto, senhor? – pergunta Hagen.
- Nos dois, também fomos! – berra Thon.
- Eu tenho uma boa e uma má notícia para vocês dois? – diz pacientemente o sacerdote.
- Qual é a boa Abimalek?- Allis pergunta com desdém.
- A boa é que quando decifrarmos as runas, talvez teremos pistas para quebrar a maldição de todos. Já a má notícia é que não vamos fazer isto hoje.
- E a nossa maldição???
- Se os halflings ainda não morreram vocês também não morrerão.
Na manhã seguinte, Abimalek teve calma e claridade para se debruçar sobre o papel com as runas. O sacerdote percebeu que Aurora cometeu um erro bem simples, na tradução, quando eles usaram o papel para transcrever o auto-relevo do medalhão, as inscrições ficaram invertidas. A pouca claridade e a tensão complicaram o trabalho dela mais ainda. Ele conseguiu seguir os passos dela e resolveu o problema antes do almoço. Apesar do sucesso, a leitura ainda era muito precária e ele identificou fragmentos. O demônio oferecera ambos talento em troca da visão de um e da fala do outro. Havia uma tela pintada com o sangue desse Baatezu onde estariam as oferendas. Para recuperar a visão e a fala, é preciso oferecer mil almas, entregues de bom coração.
O sacerdote reuniu todos e comunicou o descobriu, revelando o detalhe final e poder secreto do colar amaldiçoado.
-Tenho uma terrível notícia. Os halflings estão roubando as almas do povo desta aldeia para uma Erinye.
- Isto é uma Baatezu de alto poder! – se espanta Aurora, uam especialista em demônios, apesar da pouca idade.
Eles ficam apreensivos, pois temiam o poder que um demônio possui. Contudo, Abimalek não se intimidou.
- Toda noite que eles fazem a apresentação, roubam um pouco da alma das pessoas daqui, que são dadas de bom grado, junto com a alegria. quem capta isto é o colar maldito. Eles estão lentamente levando as almas, mas isto só pode ser feito durante as noites de luar, que é quando o colar capta fragmentos de alma. Em cem luas, as almas de todos na aldeia estarão condenadas.
- Mas isto é terrível!- exclama Allis.
- Realmente, eu que não queria tar amaldiçoado…- diz o fremlin esquecendo dos amigos.
- Mata os halflings e tá resolvido! – simplifica a guerreira.
- Não podemos fazer isto, eles são inocentes. Foram enganados pela Erinye. O nome dela é Tersyphonne. Aurora, podemos fazer algo com o nome?
- Nós não podemos. Não tenho este poder. Temos que pensar em outra coisa.
- Deveríamos buscar ajuda, Sr. Lafer. –sugere Hagen.
- Não temos a quem pedir ajuda Hagen! Estão todos indo para as guerras. Temos que pensar em uma solução nós mesmos.
- Já sei! Temos que fazê-los quebrar o contrato! Os demônios fazem acordos de ganhos mútuos, onde a parte deles é sempre maior. Os cantores estão fazendo um ritual longo e complexo. Se um ritual mágico for interrompido, ele deve ser repetido do início. Por isso que eles esperaram os clérigos irem embora, para não haver problemas. Eles iniciaram as apresentações no começo do ano, ainda não conseguiram completar as cem luas. Se arruinarmos esta semana, eles estarão liquidados e a erinye terá que aparecer para puni-los. Os halfings terão que se ver com ela!
- Então temos que salvá-los também, mas como Princesa? – pergunta Hagen.
- Do jeito mais difícil meu irmão. Do jeito mais difícil…
- Como nós vamos arruinar a apresentação dos halflings. Se fizermos qualquer coisa com eles, a aldeia toda ficará contra nós.
- Bem lembrado, Allis, eu também já pensei nisto. Vamos fazer um espetáculo que este povo nunca irá se esquecer. Thon, eu preciso da sua ajuda.
À tarde, Hagen, Allis e Ualfo vão até a casa dos halflings investigar os monstros que Valkíria matou, mas não havia um vestígio sequer na casa. No quintal, o Ualfo achou indícios de algo enterrado. Sentia um estranho cheiro de carne podre vindo do chão e alertou Hagen. O guerreiro pediu licença para dar uma olhada no quarto de cima, mas Tico negou. Hagen o lembrou que estava lá para protegê-lo e não julgá-lo, então foi deixado passar. Subindo ao quarto, viu o quadro maldito e logo a imagem dele também estava no retrato. E olhando para os halflings e para Allis disse:
- Se meus amigos estão em situação de perigo, eu também devo estar! Agora vamos sair dela.
O plano de Thon era ousado, o príncipe pensou em fazer um espetáculo de dança na mesma hora que o da cantoria para confundir a atenção do público. Para isto precisaria de ajudantes, que deveriam dançar com ele para que o ato fosse mais chamativo. Aurora também teve a idéia de oferecer bebida de graça para deixar todos mais alegres e menos passivos. Ela com Hagen desafiou o cervejeiro local a fazer uma bebida muito melhor que a dele. Afrontado com a audácia, ele aceitou o desafio. Aurora apostou tudo que não tinha contra o anão falastrão. Ela pediu que se vencesse usaria a cervejaria para distribuir bebida para a aldeia durante uma noite. Aurora, que trabalhara por muito tempo na Cidade do Lago como mestre-cervejeira, conhecia algumas bebidas exóticas que caiam muito no gosto dos anões que freqüentavam a cidade yoriana.
O maior freqüentador da taverna Salão do Pescador Guerreiro, Pakot, foi o juiz da disputa, pois era famoso na aldeia por só viver alcoolizado e pedindo dinheiro para beber. Ele provou a saborosa cerveja já conhecida e fez um sinal de aprovação. Depois provou o Flying Halfling de Aurora. O anão saltou de cadeira com um urro e vibrou com a bebida. A bebida estava providenciada e os ensaios para a grande noite realizados.
Um novo mês começava e durante a primeira noite de lua crescente Tico e Noco viram uma cena diferente da costumeira. As pessoas bebiam e bebiam esperando eles chegarem. Os aventureiros e alguns ajudantes distribuíam bebida à vontade. Noco começou afinar a viola, enquanto Thon assoviava e esquentava os passos para sua apresentação do lado oposto da praça. No meio disto, o anão policial que os repreendera na chegada percebia possível tumulto. Thon sobiu em uma mesa posta para ficar mais alto fazendo que todos olhem para ele. Tico cantarolou, um sinal que estava começando. Thon acelerou os passos, mas caiu feio da mesa. O baque seco chamou a atenção de todos. E ele percebendo que tinha atraído a atenção involuntariamente, deu o sinal para que todos iniciassem a coreografia, enquanto Ualfo usava ilusões para dar a música. A contenda seguiu, com gritos, risadas cervejas, briguinhas, e com Ualfo fazendo zuada a ponto de enfurecer Tico que não conseguiu mais cantar direito.
O colar de Noco brilhou e uma luz rasgou o céu! No ar materializou-se uma bela dama, de pele sedosa e cabelos cacheados e negros, de corpo nu, encoberto apenas por asas emplumadas.
- Vocês falharam comigo malditos! Eu avisei que vocês me desobedecessem certamente morreriam. – diz a baatezu com voz terrível.
A visão aterradora daquela figura demoníaca pairando sobre a fonte de água na praça fez todos os moradores correrem para as casas. Tico e Noco também tentaram fugir aproveitando-se da confusão, mas o tumulto não os deixou ir longe e eles acabaram ficando por lá. Valkíria se viu consumida por um medo sobrenatural, Aurora também se assustou. Hagen agarrou Thon e usou seu poder de salto, que aprendeu o Zachariel, o Antigo, pulando na frente de Tersyphonne, antes que ela alcançasse os dois.
- Não tocarás neles!
Enquanto Ualfo escapava de fininho, Aurora corria para um lado e Valkiria fugia por outro. A erinye, com poderes infernais, fez as ossadas dos anãos enterrados na praça – um antigo cemitério – saírem do chão. Os esqueletos estavam entre Abimalek e Allis e Tico e Noco. O guarda anão, que presenciou todo o espetáculo até que se tornasse uma tragédia, pegou a maça que carregava e foi esmagar alguns ossos.
Hagen tentou em vão, acertar Tersyphonne que esquivava, porém Thon conseguiu feri-la de leve, usando sua pequena espada mágica. Os demais lutavam contra os esqueletos e perceberam a aproximação de Kahf, que acabava de passar pela assustada Valkíria. Maliciosa e sem querer dar chances para os tolos rivais, Tersyphonne fez o chão arder em chamas furiosas. Thon foi envolto por chamas e caiu agonizante. Hagen ainda se manteve firme, mas não conseguia atingir a oponente com precisão. Abimalek, mesmo não sendo capaz de expulsar mortos-vivos, despedaçou-os com a maça de pedra e correu para perto de Hagen. Isto deixou apenas o anão guarda e Allis a sós contra os esqueletos restantes. Allis tentou usar sua magia ao máximo e empregou o poder do foco místico – a espada do dracomago- para potencializar a magia dele. A inexperiência dele o fez descarregar as energias místicas da sua espada, enquanto era atacado pelos esqueletos anões. Para piorar, Kahf estava enfeitiçado pela rival há meses e vinha socorrê-la dos ataques dos inimigos, se juntando aos esqueletos.
Aurora conseguiu se livrar do medo que tomou conta dela e vendo que a demoníaca figura ainda estava no alcance, usou os poderes de suas unhas de rubi, disparando cinco dardos místicos certeiros. Só um olhar de relance da erinye foi suficiente para que Aurora desaparecesse do campo de batalha. Abimalek percebeu que aquela adversária não seria atingida por suas armas comuns, ele vê a espada metálica de Thon no chão, mas tem fé na sua deusa. Ele solta a maça e puxa seu longo chicote. Enquanto ela se distraia rasgando a pele de Hagen, em ferimentos superficiais, Abimalek aproveitou a chance e chicoteou-a no pescoço. A corda prendeu-se com firmeza e ele a derrubou com uma violenta puxada. Aproveitando a deixa, Hagen sabendo que a criatura não estaria indefesa mesmo estando derrubada, achou justo acertá-la. A criatura sangrou, mas ainda não tinha morrido.
Se transformando em serpente venenosa, atacou o clérigo livrando-se das amarras do chicote. Mas o outro ataque de Hagen foi impiedoso. A serpente teve a cabeça decepada desapareceu.
Os esqueletos tinham sido derrotados e quando a criatura morreu, Kahf recobrou a consciência. Abimalek percebeu que Thon ainda respirava, mas estava muito ferido. Aurora retornou de onde se escondia e o Ualfo estava voando por ali. Os halfings tinham escapado no caos da batalha, provavelmente tinham ido para casa. E Valkíria não tinha voltado e ninguém a avistava por perto.
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