Após ouvirem a canção, pediram licença aos cantores e saíram. Retornaram pelo mesmo caminho a passos lentos. “Como poderia aquela música possuir tanta vidência”, indagavam-se. A letra não se referia apenas a Fei Kazu, mas também a Argon de Lentis, o paladino dourado mais famoso que se tem notícia. Houve uma acalorada discussão acerca da relevância dos detalhes, que poderiam ter sido passados pelo próprio ranger aos halflings pespeludos.
- Nada mais nos resta a fazer aqui. – alerta Hagen.
- Não podemos desistir ainda, estamos muito mais próximos. – reluta Abimalek.
- Estamos perdendo tempo, Abimalek, temos que avisar sobre a entrega da carta.
- Já está tarde, de qualquer maneira não sairíamos hoje. Vamos ficar na aldeia e assistir o espetáculo deles de novo. – media Aurora.
Ao anoitecer o espetáculo se repete com a mesma precisão. Na mesma hora do dia anterior, Tico e Noco chegam com a população toda reunida os esperando. Noco retira o medalhão das suas vestes e afina começa a tocar sua viola, dando o tom para o irmão. Logo estão todos contagiados pelas canções populares e composições originais. Desta vez, a música não os contagiou tanto. Eles aproveitam para fazer perguntas aos anões e gnomos da platéia afoita. Há muitas semanas este espetáculo vem se repetindo em todo anoitecer de noites de luar, menos nas luas novas, poucos meses depois que os músicos vieram se estabelecer em Fort.
No dia seguinte, a despeito das vontades de Hagen, todos concordaram em permanecer mais tempo. Era muito estranha toda aquela alegria e festa noturna na cidade. Mesmo os festeiros Ualfo, Thon, Abimalek e Aurora, achavam aqueles festejos estranhos. A única autoridade local, o anão Kahf Barba D’ouro não via nada anormal em festejos noturnos com hora estipulada. Ele explicou ao grupo que a cidade só possuía um templo, e era dedicado a uma divindade alegre, estranho seria ver todos tristes na aldeia. Kahf mais uma vez, se sentiu alegre, por desmistificar a lenda de anões carrancudos espalhados pelos elfos afrescalhados.
Abimalek, Aurora e Thon decidiram não ir à cantoria novamente naquela noite. Preferiram dividir o grupo e entrar no templo lacrado. Enquanto todos estavam na festa, Abimalek consegue abrir uma das portas de acesso ao pequeno templo. Para surpresa de todos, assim que entram o Ualfo chega sorrateiro. Eles fazem uma varredura no local e Thon encontro documentos em sala oculta atrás do altar. Os documentos faziam referência a uma convocação dos clérigos de Daile para o exército, no ano anterior. Os anões em seus exércitos costumam se orientar através de instrumentos musicais. Reforçar os exércitos com a força de uma divindade os favoreceria na batalha. Nenhum acólito ficou, todos assim que o ano começou, partiram e lacraram o templo. Os documentos não foram levados, Abimalek, Thon e Aurora os analisarem e deixaram lá. Enquanto isto, Ualfo que estava sozinho no templo, derruba uma imagem de Daile, que se espatifa em pedaços. Todos correm para vê-lo tentar juntar os pedaços com cuspe.
-Que coisa mais mal-feita esta imagem, devia ter feito de ferro.
Entre os cacos, alguns pergaminhos espalhados. Eles estavam escondidos dentro da imagem, que na verdade era um belo relicário.
O grupo repensa mesmo o que pode estar acontecendo e começam a ligar alguns pontos. Segundo os moradores, o sucesso dos halflings se deu assim que os clérigos saíram de Fort. Tudo começou com um preenchimento da lacuna deixada pelos rituais religiosos. As músicas religiosas eram cantadas, mas logo eles as músicas populares e as canções antigas e depois as próprias composições. Em um mês já faziam parte da aldeia, como nunca antes tinha sido desde que haviam chegado.
Na manhã seguinte, eles conversam entre si sobre o que descobriram e mais uma vez o retorno é adiado. Algo de estranho paira sobre os cantores e o colar chama atenção por fazer parte do ritual que Noco repete todas as noites. Allis, o Dracomago, avisa que suspeita que aquele colar possua algum encantamento poderoso, mas não teve a oportunidade de analisar com cuidado. Naquela noite, eles tentaram novamente abordar os halflings após a meia-noite, mas os halflings negaram que pudessem estabelecer qualquer diágolo, mesmo porque um deles era mudo. Contudo Tico disse:
- A lua nova é nossa folga. – com ar misterioso.
Todos ficaram sem entender. Quando se afastou, Valkíria se adiantou e olhando para os demais falou:
- Halflings… maus!!! – no que ninguém levou a serio.
Aquele novo dia teria seu último luar minguante. Benezir, a Sagrada-Lua, preparava-se para mudar a face. Ninguém foi ao último espetáculo do mês, estavam todos ansiosos para encontrar com os músicos.
À tarde eles foram ao encontro combinado, pois os músicos acordavam muito tarde conforme souberam. Tico os recebeu e percebeu que todos lançavam olhares inquisidores sobre eles dois. E lançou a pergunta:
- O que vocês querem de nós? Não já os ajudamos, vão embora. – fala de maneira melodiosa e patética.
- Seu irmão carrega um colar estranho, o que tem ele. – questiona Abimalek, já sem paciência.
- Eu não posso falar sobre isto.
- Por que não? – se espanta Thon.
- Um juramento que fizemos.
- Que espécie de juramento é este? – prossegue Abimalek.
- Já falei tudo que podia. Só a luz da lua nova poderá revelar seus segredos.
- Humm! Então por que vocês dois não nos vem conosco para o bosque para que possamos ver isto melhor? – Aurora sugere.
- Desculpe, não sabemos quais são vossas verdadeiras intenções.
E depois desta dose de desconfiança, lá de trás escutasse uma sonora voz.
- Eu sou Hagen, Guerreiro Supremo da Luz. E dou minha palavra a vocês dois, que ninguém lhes fará mal, enquanto eu estiver aqui.
E ante a imponência do juramento de Hagen, os halflings acreditam e aceitam o perigoso encontro.
Ao chegarem a uma clareira próxima entre as árvores, Tico e Noco percebem que os novos amigos estão lá esperando. Todos os magos, Aurora e Allis estão apostos, Abimalek faz suas orações, enquanto o pobre Ualfo quer ajudar de alguma forma com seus poderes mágicos.
- Terminei minhas orações para a Deusa Arina. Ela me aconselhou a amarrar vocês dois. – mente Abimalek, mas acreditando que a deusa que lhe conferiu a capacidade de mentir para sobrepujar desafios.
Mesmo achando estranhos os desígnios divinos, os halfings consentem serem amarrados a um tronco de árvore. Os halflings estão assustados, Hagen empunha sua poderosa e katana de titânio enquanto retira de debaixo da camisa de Noco o amuleto. Um belo trabalho de joalheria se revela, mas como o violeiro sempre virava as gemas para parte de baixo, ele faz o mesmo. Nada ocorre.
- Ele falou a luz da lua nova. Vamos apagar as tochas! – lembra-se Aurora.
Inscrições rúnicas começam a brilhar por baixo do medalhão.
- Halfings maus! Matar! – se levanta Valkíria.
- Calma! Eu também sou halfling e você não quer me matar. – confundindo Thon a cabeça da guerreira que se acalma por uns instantes.
Os magos não conseguem ler o que significam aqueles símbolos. Eles estavam em runas e precisavam ser decifrados. Com uma folha de papel e carvão, eles copiam o relevo que havia se formado no verso do medalhão. As tochas são reacesas para que Aurora consiga trabalhar melhor, já que os signos eram muito complexos.
Enquanto isto, os demais têm outro plano. Com os halflings fora, a casa deles estaria livre para ser investigada. Valkíria que suspeitava da malignidade dos cantorezinhos acreditava que passando os dois no fio da espada resolveria rapidamente o problema da cidade, mas os companheiros eram cegos demais para ver o óbvio. Por isso, precisou convencer os demais que aqueles malditos halflings estavam planejando alguma coisa e investigar a casa seria uma maneira de provar que ela estava certa.
Eles acham um bom plano. Allis, que já tinha fracassado em traduzir aquelas runas místicas decidiu que deveria acompanhar a irmã. No fundo ele suspeitava que Aurora iria libertar algum demônio do medalhão e seria melhor estar longe. O pai dele já cometera este erro e ele achou a história muito parecida. Thon decidiu acompanhar os gêmeos e lançou um olhar para Hagen que respondeu:
-Vou proteger a minha irmã.
O fremlin se ofereceu para ir no lugar dele. Todos saíram com a impressão de que Hagen estava com medo. Valkíria saiu praguejando, já que Hagen seria a pessoa que deveria ver como aqueles halflings eram maus.
Na casa dos músicos, Thon falou com os pássaros que moravam no pomar. Pediu informações sobre o comportamento dos halflings, mas as aves informaram que os dois eram muito reclusos e que pouco saiam enquanto elas estavam acordadas. Impaciente Valkíria pós a porta abaixo e viu o Ualfo por lá. Uma janela estava aberta e o fremlin entrou por ela voando.
Eles se dividiram, Ualfo foi assaltar a cozinha se enchendo de suspeitas guloseimas. Valkíria entrou no quarto do cego, que tinha impecável arrumação. E lá encontrou um livro, que ela viu que tinha coisas escritas, isto a deu vertigens. No quarto do mudo, as coisas estavam largadas pelo chão e fora de ordem. Allis encontrou debaixo da cama um alçapão para o porão da casa, mas não o abriu. Thon subiu um lance de escadas e entrou num quarto que mais parecia um depósito. Percebeu um quadro em um tripé coberto por um empoeirado lençol. Thon observou o quadro com cuidado e viu que nele estava pintados os dois halfings, Tico e Noco. Observando mais atentamente, ele notou que Tico, o cego possuía olhos radiantes e sisudo Noco gargalhava na pintura.
Thon avisa aos demais o que encontrou e cada um apresenta suas evidência. Allis decide ir no andar de cima para conferir o quadro e percebe que não havia dois halflings na tela e sim três. Thon estava na tela e sspantado ele mesmo completa:
-Então isso quer dizer que daqui a pouco você também vai estar Allis. Pois eu olhei para o quadro agora pouco.
- Me lasquei! Se soubesse ficaria lá com Aurora!- pensa espantado.
E olhando para Thon, murmurou:
- Então já que ficamos assim… vamos olhar logo o que eu achei no alçapão, pior do que está não pode ficar.
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