A marcha para Fort seguiu sem interrupções. O clima ameno da primavera trazia a brisa da Cordilheira Central e o degelo aumentava o fluxo dos córregos, adormecidos pelo inverno. A floresta bebia destas águas montesas e tomavam vigor verdejante. As matas de Deshnok tinham fama de degradadas pela fome de fogo dos anões, mas não foi este cenário desolado encontrado, nas proximidades da aldeia. Gnomos e anões conseguiram incrustar de forma exemplar a fortificação nas sombras das fronteiras élficas sem sinal de prejuízo ao local.
Os moradores exploravam os frutos da floresta, com os quais sabiam fazer saborosas sobremesas. Os anões aprenderam que poderiam cortar e replantar as árvores, mantendo suprimento ilimitado de madeira-de-lei e usando as áreas em recuperação para outras culturas. A pequenina aldeia se tornou próspera e pacífica, um exemplo de como o trabalho incessante pode ser edificante.
Os aventureiros encontram facilidade de entrada, apesar de não revelarem as intenções ou quem realmente seriam. Dois anões vigiavam os portões de madeira que protegiam a entrada principal e lançaram uma pergunta de praxe aos visitantes humanos.
- Alto quem vem lá! – soou da elevada paliçada.
- Nós somos viajantes que viemos conhecer os halflings cantores de Fort.
Aurora percebeu que seu idioma deshnokita impecável cativou os guardas, que se sentiram felizes por receberem visitantes. “A fama dos halflings está se alastrando e levando nosso nome com eles” pensaram os dois.
- Onde podemos encontrá-los? – indaga a princesa de Yoria.
- Na praça, eles fazem espetáculos à noite para nos alegrar. – dizem os guardas do portão.
Ao chegarem à praça da aldeia, uma bela fonte ornamentava o simples vilarejo, onde o povo comercializava. Andando desinteressado, um anão muito barbudo e de cabelo grisalho os aborda:
- De quem é aquele bicho!
- Ela é irmã daquele ali. – diz o Ualfo se referindo a Allis e Valkíria, a desprovida de beleza.

Valkíria Drackmore Allis
Valkíria não era muito esperta, mas não gostou da colocação do Ualfo. Lançando-o um olhar mortal. O ar frio do olhar fulminou o fremlin de medo e deixou todos os demais com um frio na espinha. Allis, como irmão e sabendo da bílis da irmã, intervém:
- Este ANIMAL é nosso!
- Eu não sou…
- Então porque ele está solto? Ele é um fremlin e este bicho dá azar! E nesta cidade ele não pode andar sem licença e uma coleira.
- Iremos providenciar agora, senhor guarda.
Apesar das palavras indignadas do Ualfo, que clamava por justiça e respeito, todos preferiram seguir as normas locais. A prefeitura ficava ao lado do templo, dedicado ao deus menor Daile, patrono das Artes e artistas. O templo estava fechado e lacrado. Sem muita burocracia, se informaram sobre a licença com o capitão-mor da cidade, um anão corpulento, mas de aparência relaxada. A cidade era muito pacífica e Kahf, Barba d’ouro – o capitão – se animou quando teve que expedir a autorização da coleira do fremlin, lendo as normas legais com orgulho. Há semanas que ele não fazia absolutamente nada no seu trabalho, não havia o que se fazer.
Logo arrumaram uma acomodação na cidade, onde puderam deixar os equipamentos. Aguardaram o anoitecer para o tão falado espetáculo dos halfings Tico & Noco, este exímio violeiro, aquele, hábil cantor. Com o anoitecer, toda a labuta parou, as mesas da praça foram desmontadas e retiradas, deixando um amplo espaço onde a cidade toda se acomodou. As luzes da cidade estavam apagadas. Era impressionante como todos os habitantes esperavam ansiosos a chegada dos dois músicos, sob a lua minguante.
Os dois halflings percorreram a trilha deixada entre os moradores, em direção à fonte de água primaveril. Eles vinham de mãos dadas, com o violeiro Noco adiantado. Sentaram na borda da fonte e Noco começou a afinar o instrumento, enquanto Tico, de olhos fechados, brincava com alguns espectadores da platéia próxima. Após afinar a viola, Noco puxou da camisa um brilhante medalhão, deixando-o à mostra. As músicas foram se seguindo passando uma sensação de alegria e nostalgia. Os moradores acompanhavam com canto e batendo palmas. Os curiosos aventureiros aguardaram pacientemente a cantoria acabar, o que ocorreu precisamente à meia-noite, segundo as estrelas do céu.
Os halfings tinham características bem inusitadas para músicos de talento: mudez e cegueira. Tico, o cantor, não enxergava e seu irmão, Noco, era mudo. Aurora e Thon apesar de terem gostado deles, sentiram algum estranho no ar: como poderia um mudo saber tocar, se em geral, o mudo não fala porque é surdo?
- Ele deve ter ficado mudo depois. – cochicha Thon para a amiga.
- Isto eu já conjeturei. Estou querendo saber como eles ficaram daquele jeito.
Logo após o diálogo eles interceptam os halflings, que ficam um pouco espantados com a chegada abrupta. Desfeitos do susto, Tico pergunta:
- O que querem forasteiros?
- Nós queremos informações sobre um ranger, o nome dele é Fei Kazu, um elfo. – informa Abimalek.
- Por que vocês não vão a nossa casa amanhã, à tarde. Nós estamos cansados.
- Mas é só…
-Abimalek, os cantores disseram que estão cansados e nos receberão amanhã,respeite-os. – interpõe Hagen, deixando Abimalek irritado, porém sem reação.
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A casa dos halflings era bem maior que as casas locais. Possuía um andar superior menor que o resto da casa e fundações que indicavam um porão. A casa era murada com pedra e tinha um belo jardim à frente e um pomar com árvores frondosas aos fundos. Viviam em uma ala afastada das demais casas do vilarejo, sem nenhum vizinho ao redor. Conforme combinado, receberam o grupo no jardim da casa.
- Boa tarde! Nós já nós conhecemos? – Tico fala em tom debochado e em ayoriano, a língua que todos falavam.
- Nos perdoem. – diz Hagen – Acabamos não nos revelando, somos viajantes de Yoria que ficamos sabendo que um elfo foragido veio até os senhores pedir para compor uma música. Nós queríamos apenas saber o paradeiro deste ranger se não for um incômodo.
- Este ranger veio aqui atrás de uma música, na última lua nova. Mas não gostou da música que fizemos para ele. A letra ficou perfeita, mas ele não soube apreciá-la.
O halfling fez uma pequena pausa, aguardando algum tipo de comentário, mas como não escutou nenhum, prosseguiu falando:
- Ele disse que queria uma canção para outra pessoa, mas foi isto que compomos e ele não entendeu o nosso dom. Apesar disto, nós pagou o preço combinado. Indicamos para ele outro bardo famoso que estava no reino. Panelada é o nome dele, ouvimos dizer que tinha chegado a Spits, no sopé da cordilheira central. E foi para lá que ele nos disse que iria.
- Muito obrigado senhor Tico. – responde Hagen.
- Agradecemos a gentileza, mas poderíamos ouvir a música. - pergunta Aurora.
- Nós só cantamos à noite senhorita.
- Por favor, não creio que só uma música possa fazer mal? – fala a maga com voz sedosa.
- Não vejo em que isto poderá nos ajudar? – questiona Hagen.
- Como você ficou cego. – pergunta Abimalek, deixando ambosos halfings incomodados e Hagen também.
- Vossas mercês estão sendo incômodos demais!
- Calma! Desculpem meu amigo. – interrompe Thon. – É que eu também sou um cantor como vocês e gostaria de pelo menos ouvir a música para melhorar minhas habilidades líricas. É um favor que eu peço como halfling tal qual vocês.
Ante o pedido de Thon Tico e Noco se entreolham, mesmo sendo um deles cego. Noco pega a viola e toca as notas que acompanham os versos de Tico.
Dizem que uma Sombra Escura
com duas orelhas de seta
por onde o herói caminha
no rastro se manifesta
Até a floresta onde o Homem
numa trilha foi emboscado
esta Sombra companheira
era fiel aliado
Tal como unha e carne
deixando trilha de defunto
a Pantera de Chavelhos
vai sempre com ele junto
O Senhor Lâmina Fria
primor dos subterrâneos
frio lúgubre da morte
às centelhas dos humanos

O mentor Luz Verde Escura
da cidade dos pés juntos
luz acesa dos jazigos
fogo-fátuo dos defuntos
O floresteiro estrela errante
Facho de lumes eternos
Olhos gemas desafiam
às negras chamas do inferno
O paladim dourado encandeia
O sol no sangue espadana
carne cravada de soberba
tragédia da raça humana
Primeiro desculpe por postar isso aqui, mas não encontrei como entrar em contato.
Gostaria que divulgassem o site do Clube de Jogos Sétima Armada. Estamos tentando criar um novo point de jogos em bh.
desde já agradeço.
http://sites.google.com/site/setimaarmada/
@Rodrigo,
Você pode entrar em contato conosco pelo e-mal pensotopia@gmail.com, vc tem razão, não há um espaço para contato no blog.