Um clima de apreensão estava no ar na cidade de Lentis quando o grupo chegou de viagem. Quando partiram, sentiram que os moradores estavam nervosos, mas agora a angústia estava mais evidente na população. Não havia mais tropas desfilando na vila e o número de homens à vista era consideravelmente menor. Um exército formado por homens da região estava a alguns meses na fronteira leste do reino e os boatos diziam que o exército inimigo estava nas colinas, aguardando a oportunidade do ataque, também acampados.
Hagen adentra nos portões do castelo do General Argon, com a sensação de dever cumprido. Havia acompanhado o príncipe Thon, voltado em segurança e esperava receber algum treinamento mais rigoroso para as suas habilidades celestiais. Os demais vinham logo em seguida, sem se preocuparem muito em ser o centro das atenções. O prodigioso guerreiro encontra com o Ankysis, o capitão do forte e braço direito da tropa particular de cavaleiros do general.
- Capitão, onde está o General Argon?
- Hagen, ele se encontra liderando pessoalmente as linhas de frente. Há muitos novatos recrutados e o moral das tropas no inverno estaria em frangalhos se o general em pessoa não estivesse conduzindo a operação defensiva.
- Nós concluímos a missão para qual fomos designados e trouxemos o que ele pediu. Ele falou mais alguma coisa?
-Sim! Ele pediu para que vocês entregassem uma carta para um aliado dele no reino dos anões das montanhas, Deshnok.
- Eu o farei.
- Serão providenciados imediatamente suprimentos para viagem, para preveni-los de eventuais problemas.
- Partiremos imediatamente, capitão.
Enquanto Hagen recebia instruções, os demais conversavam sobre a mais nova estrutura da cidade: uma estátua de pedra. O povo da vila não entendeu, quando aquela formosa estrutura de um guerreiro elfo com quatro metros de altura foi trazida por anões das montanhas. Houve uma estranheza geral, mas o povo foi informado que aquele era a égide de um amigo de Argon. Era do herói errante que há pouco tempo tinha matado o grifo ensandecido que displicentemente morava no forte do paladino. O grifo servia de enfeite na praça da vila, empalhado.
Após um período curto de descanso, os aventureiros partiam novamente. Desta vez, para sudeste, pela estrada que ligava Lentis à Bosch, em Deshnok, onde Tramont - irmão do finado Tarik Vlamir – vivia. A família do anão e Argon mantinham contatos esparsos, mas de profunda amizade. Foi Argon que influenciou Tramont a seguir na sua profissão e não entrar na vida perigosa de aventuras. Anos mais tarde, o anão prosperou e lamentava-se por não ter tempo de visitar o amigo humano, que se tornou um grande herói.
Eles cruzaram sem maiores problemas as plácidas florestas yorianas e alcançaram o reino dos anões. De Plaats, a rota sudoeste levava aos territórios gnômicos, chamados assim devido a grande concentração destes que habitam as cidades daquela área. Os gnomos não se importavam em quem fosse ou deixasse de ser o rei da montanha e também não se incomodavam em morar em território tão próximo ao das florestas élficas.
Aurora sabia falar muito bem as línguas de todos os habitantes locais e muitos anões e gnomos falavam o ayoriano, que todos eles conheciam bem. Em pouco tempo, chegaram a Bosch e para achar a casa de Tramont, no distrito dos artífices, foi simples. Nas galerias subterrâneas do distrito, eles viram algo que chamou-lhes a atenção: um boneco de madeira de Argon de Lentis, ricamente detalhado. A madeira estava pintada de dourado, na parte da armadura, e uma capa vermelha do mesmo tecido também estava colocada, um broquel em forma de garra e sua inseparável espada justiceira, nos mínimos detalhes. Aurora e Hagen ficaram admirados e comentaram com os demais e resolveram indagar ao dono da estátua, no qual Hagen se adiantou:
- Senhor, percebo que o mestre possui uma estátua de madeira que lembra o paladino de Yoria, Argon de Lentis.
- Sim, é ele mesmo.- responde o artesão gnomo.
- Por que você tem uma estátua dele? – se antecipa Abimalek, cortando o diálogo inicial.
- Ora, porque ele me encomendou algumas estatuetas dele.
- Ele encomendou? – Hagen toma a frente.
- Sim. – diz o mestre gnomo, calmamente, mas já se importunando.
- E quem veio pegar? – Abimalek, mais uma vez se interpõe.
- Um elfo amigo dele…
- Desculpe-nos mestre artesão, nós já lhe tomamos muito o tempo, estamos indo. – interrompe Hagen, afrontado pela indelicadeza do amigo.
Os jovens começam a discutir e acham a versão muito estranha. Não viram nenhuma estatueta no forte e sabiam que o amigo elfo de Argon, Tímonten, o “chefia” do fremlin, também estava comandando tropas. Argon não teria mais nenhum amigo elfo para pegar alguma encomenda. Eles chegaram a Tramont e deixaram a correspondência. Em uma breve conversa com o anão, que era um ourives bem-sucedido, perguntaram se havia tido alguma encomenda de alguma grande estátua para Lentis. O anão confirmou que uns amigos dele passaram algum tempo fazendo uma e tinha chegado a poucas semanas de Yoria. Respondidas as perguntas, o grupo se retira, ouvindo desejos de bons augúrios.
- Nós temos que ver o que esta acontecendo. Deve haver uma conexão entre os fatos. Fei Kazu é um elfo e pode ter sido ele que mandou fazer as estatuetas de Argon, já que ele esteve nesta cidade. – se exalta Abimalek.
- E de que adiantará saber disto? – questiona Hagen.
- Acorde Hagen, Fei Kazu foi acusado de matar Djalma, ele pode ser perigoso.
- Sim, muito perigoso vale salientar.
- E você está com medo?
- Não.
- Então vamos procurar os escultores!
Os escultores haviam sido muito bem pagos para fazer a grande estátua. Quem os pagou, os tinha deixado ricos. A exigência tinha sido, para que a obra ficasse pronta e entregue no prazo estipulado. A parcela final tinha sido feita há poucas semanas, o contratante pagou mais que o dobro do preço cobrado normalmente. Os jovens identificaram-se como amigos de Tramont e foi fácil descobrir detalhes dos sorridentes anões. Abimalek, que conhecia os traços de Fei Kazu, foi capaz de detalhar antigo amigo dele com detalhes, de forma que os anões acreditaram que estavam diante de pessoas sem intenções escusas. Logo ficaram sabendo que o elfo, após os pagar tinha ido até o sul, na aldeia de Fort, onde havia dois halflings músicos talentosos. O elfo estava querendo encomendar uma canção e os músicos eram famosos pela rapidez com que compunham as letras.
- Fort fica próxima daqui. – diz Abimalek consultando o mapa da região.
- Vocês esquecem que viemos aqui para entregar a mensagem do general? – alerta Hagen.
- Ele apenas disse para entregar e nós já entregamos. – responde o petulante sacerdote de Arina.
- Ele tem toda razão Hagen. Meu tio apenas mandou entregar, o que faremos depois é por nossa conta. – complementa Aurora, que segurava o mapa.
-É! E meu chefe Timonten tá pagando uma recompensa gorda pra quem achar esse elfo. Ele até contratou mercenários pra caçar Fei Kazu, que é um asssassino covarde. – lembra Ualfo falando sério com sua voz engraçada.
- Só que Argon disse ele não se importava com as provocações dele. – replica Hagen.
- Ele matou Djalma, meu mestre quer vingança. E tem recompensa! – treplica o insistente fremlin.
- Fei Kazu foi o elfo nos sequestrou quando crianças. E fomos salvos graças ao nosso pai. – revela Allis, o dracomago, sobre o passado dele e de Valkíria, que cria um ódio irracional do elfo ranger de quem ela sequer lembrava o rosto.
Hagen percebe que está acuado antes os fortes argumentos dos demais companheiros. Não adiantou nada lembrá-los de que o elfo era um desafio poderoso, pois era melhor discípulo de um dos três mestres que o prepararam para viajar para os Sete Céus, hitokiri Jubei. Todos estavam cientes do risco, porém sentiam que estavam próximos demais do rastro do obscuro mateiro para deixar passar a pista quente.
Aurora e Abimalek, que já conheciam Fei Kazu, desejavam um reencontro com ele, mas não revelaram o desejo. Valkíria queria matá-lo e não o temia. Já Thon, que observava a discussão alheio a tudo, pois era o mais novo de todos. Ualfo e Allis, apenas queriam investigar. Hagen era o único irredutível, desejoso de voltar para Lentis, para poder encontrar o general e dizer que cumpriu a missão dele, visto que aguardava receber alguma missão mais prodigiosa do nobre paladino dourado, que há tempos já não via. Só ele enxergava a responsabilidade de informar o cumprimento da missão com brevidade, posto que estavam em uma iminente guerra, já os demais não se importavam. Como estava em voto vencido, cedeu, mas fez uma concessão.
- Eu concordo, mas depois de Fort, nós voltaremos para Lentis. Estamos acordados?
No qual todos assentiram.
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