Seu jogo é medieval?

Pensado por Danielfo Em janeiro - 21 - 2010

Muitas vezes, por hábito, costumamos dizer que jogamos Fantasia Medieval, quando nos referimos ao estilo do famoso D&D.  Mais correto seria fazer como Gurps, que trata o seu módulo apenas por Fantasy, pois é um gênero que envolve magia e monstros mitológicos genéricos.

Como na prática, o estilo do seu grupo que vai acabar definindo se suas aventuras são realmente medievais, mais do que apenas o sistema, segue abaixo um roteiro para identificar que tipo de sub-gênero é o seu.

Compare também com as ambientações existentes no mercado.



1-POLITEÍSMO X MONOTEÍSMO

Seu jogo tem muitos deuses? Existe mais de um panteão (deuses dos elfos, dos anões, dos goblins) ? Se a resposta da última pergunta for sim, você está na Idade Antiga e não da Idade Média. Para um jogo verdadeiramente medieval, os clérigos só podem contar com um único deus para conseguir seus poderes.

Isto significa que se você respondeu sim a primeira pergunta seu jogo não é medieval, correto?

Errado!

Seu jogo pode ter a essência medieval se houver uma divindade poderosa, ou até 1d3 deuses poderosos,  que comandem os demais,  divindades intermediárias e menores. Basta que este Panteão do Deus Único esteja ligado entre si por laços de parentesco. As divindades menores devem, necessariamente, receber seus poderes da divindade maior para justificar que o poder delas vem da mesma e única fonte, mesmo que passando por vários intermediários.

Os deuses que nasceram deuses são muito raros em cenários medievais, mais comum é que eles sejam humanos e se  tornem deuses, como ocorre em Karameikos com os Imortais.

Se a crença é realizada de modo tribal e particular, parabéns seu jogo é um jogo antigo. Se há uma rede de  templos que coordena as atividades dos clérigos, o jogo é medieval.

2-GUERREIROS X CAVALEIROS

Se o objetivo do personagem é matar o maior número de monstros para ficar rico e poderoso, você está na Idade Antiga.

Se o objetivo do personagem  é matar o maior número de monstros para tornar o reino dele rico e poderoso, você está na Idade Média.

O guerreiro é um desbravador individualista preocupado em resolver seus próprios problemas.  O cavaleiro é um defensor aguerrido que romanticamente protege o próprio povo e colhe os louros das suas vitórias.

Enquanto os heróis clássicos (os da idade antiga) buscavam realizar grandes proezas para impressionar os deuses, os cavaleiros medievais procuravam realizar seus feitos com intenção de se redimirem dos próprios pecados.

Os heróis clássicos eram independentes de um senhor, os cavaleiros não. Mesmo um camponês medieval sentia a obrigação de ter que servir a um propósito maior, que acabava por limitar suas escolhas.

3- GLÓRIA X HONRA

Se os personagens de seu grupo quando salvam a princesa desejam a amizade da família real, o jogo é medieval, se preferem rumar para outro reino e salvar outra princesa, é um jogo clássico.

Nada mais agrada ao herói clássico do que a emoção da batalha. Já o herói medieval prefere o resultado perseguido pela batalha.

Para o herói clássico, a diversão é contar aos outros como entrou nas muralhas impenetráveis da cidade inimiga com um ardil engenhoso e como enganou um ciclope trouxa.

O herói medieval deseja salvar a mulher amada, proteger o nome dos seus antepassados e salvar uma cidade sagrada, mesmo que tenha que invadir uma gruta escura e matar um dragão.

Se a batalha não trouxer nenhum mérito ou for muito arriscada um herói clássico não a procurará.

Se a batalha for injusta, o herói medieval não participará.

Em suma,  herói clássico está a fim de XP dos monstros e nos tesouros.

O  herói medieval esta a fim do XP ganho pela boa interpretação e no seu relacionamento com a estória.

4-AMOR OU SEXO X SEXO E AMOR

O sexo é uma parte importante na definição de um jogo clássico ou medieval. Na idade antiga, o sexo não tinha nada a ver com amor. Os romanos achavam normal traçar alguns mancebos, os gregos achavam que o amor verdadeiro existia apenas entre homens. Se seu jogo tem estas baitolagens, você está na Idade Antiga.

Na idade média, valores mais heterossexuais surgiram. O amor deixou lentamente de ser uma fraqueza. No período antigo, o amor era igual a um feitiço que dominava a mente dos homens e consumia completamente as mulheres. Ao longo da Idade Média,  o amor foi se tornando um sentimento universal, mais relacionado a uma virtude do que a uma fraqueza.

Se os seus jogadores, fogem de qualquer relacionamento amoroso sério (e só querem curtir) com gatinhas de Carisma 20, eles estão na Idade Antiga. Agora se estas gatinhas tiverem se insinuando para eles e nenhum demonstra iniciativa para levá-las para cama, sem antes contrair sagrados laços de matrimônio, você está na Idade Média.

5- GRANDE IMPÉRIO X MUITOS REINOS

Se na sua ambientação um grande Império dita as cartas para o resto do mundo, ela é da Antigüidade. Se ao contrário, muitos reinos rivalizam o poder,  alternando a título de nação mais forte, ela é Medieval.

Xerxes, Alexandre, César conquistaram o mundo conhecido e sempre mantiveram o seu espírito expansionista enquanto viveram. Todos surgiram na Idade Antiga e lançaram seu brilho para as gerações futuras.

Os Impérios Merovíngio, Carolíngio e Bizantino ( o último sendo comparável ao tamanho do Império Romano) funcionavam mais como uma sombra de Roma Cristianizada do que como algo realmente novo. Eles não possuíam uma sede expansionista que os impulsionava para a conquista.

A conquista é a palavra chave, um cenário clássico precisa ter um grande reino que deseja se apoderar do mundo, fazendo com que os povos conquistados sejam submetidos ao Império e fazendo as nações periféricas temerem. Em um cenário medieval, os impérios buscam uma unificação ideológica de forma que os povos conquistadores e conquistados se tornem um só povo,  formando um reino maior. As campanhas militares se preocupavam mais em exterminar heréticos e outros párias, do que em conquistar reinos vizinhos.


Agora reveja suas aventuras, seu comportamento como Mestre ou como PJ e veja em qual sub-gênero você se enquadra: Fantasia Antiga ou Fantasia Medieval.

16 palpites

  1. Daniel Anand disse:

    Ah, meus jogos de D&D deixaram a ultima gota de medieval cair quando eu conheci Eberron. Capitalismo e guerra fria! :)

    [Responder]

    Danielfo disse:

    @Daniel Anand,
    Eberron é uma cenário dos novos tempos.

    [Responder]

  2. Marcelo Dior disse:

    Esta é a primeira vez que alguém se dá conta de que a fantasia típica de nossas mesas de RPG não tem nada de medieval.

    Mais ainda no D&D e outros jogos de fantasias de hoje, como Exalted e Warhammer, os elementos estéticos são bastante anacrônicos; apesar de que, se o herói prefere usar uma armadura maneira que uma prática mas feia, é uma fantasia clássica…

    [Responder]

    Danielfo disse:

    @Marcelo Dior,
    Certamente, nos meus jogos conseguimos deixar entre 40-60% medieval, o que já é um sucesso incrível.

    Mas com o colega Anand falou há mais influência contemporânea nos cenários de fantasia do que os elementos clássicos.

    [Responder]

  3. FenrirX disse:

    Acho que não existe mais Fantasia Clássica (Baixa Fantasia) nas mesas de RPG espalhadas por aí… E a Alta Fantasia já está tão diferente que é meio difícil reconhecer.

    Bom post! Sucesso!

    [Responder]

  4. L.G.B. Paiva disse:

    Eu acho que isso depende muito de que parte do mundo medieval você está olhando. Dizer que politeísmo é coisa de Idade Clássica é ignorar os Vikings da Idade Média.

    Dizer que todo guerreiro medieval era um Cavaleiro é dizer que todo mundo tinha título de nobreza. Somente nobres podiam ser cavaleiros, o resto era camponês com habilidade de combate, e poderia muito bem estar mais preocupado com seu bem estar do que com o bem estar do rei (que muitas vezes o oprime). O mesmo vale para a Gloria x Honra, cada um tem uma concepção própria daquilo que busca, não é por que um cara nasceu na idade média que tudo que ele quer da vida dele é honra.

    Sexo e amor também são muito relativos, padres da idade média faziam sexo por fazer, pois eles não podiam se submeter ao sagrado matrimonio. Bárbaros também entravam em qualquer buraco que encontrassem pela frente, essa coisa de Amor idealizado é influência cristã, que julgava pecado fazer sexo fora do casamento. Qualquer outro lugar que não fosse cristão, não tinha nada a ver isso.

    A diferenciação também dos grandes impérios está mais relacionada a condição daquele tempo do que ideologias. Os grandes impérios normalmente não tinham um adversário a altura, por isso iam expandindo infinitamente, por isso não existem grandes impérios contemporaneos, todos eles tiveram seu tempo e sua glória mas não existiram simultaneamente. Já na idade média, os reinos eram pequenos e voltados a si mesmo, pois eram várias potências simultâneas. Você tinha os Merovíngios de um lado, os Visigodos de outro, os Saxôes de outro, e todo mundo ali era de igual capacidade militar, então era muito difícil uma dessas nações conseguir englobar todas as outras, entrar em guerra contra uma significava se enfraquecer e permitir que a outra te invada. E novamente a igreja teve muito a ver com isso.

    Acho que o você dá uma idéia de linhas gerais muito legal para fazer um comparativo entre Clássico e Medieval, mas é preciso observar não só fatos isolados, mas todo um contexto sócio-histórico, religioso e político que influenciou essas duas idades. E principalmente evitar a generalização, não é por que em 1500 os Europeus possuíam um único deus, que os Astecas na mesma época também possuíam.

    Abraços!

    [Responder]

    Danielfo disse:

    @L.G.B. Paiva,
    A idade média é uma época transição, 1000 anos de história que nós queremos impor uma só era. A idade moderna durou 3 séculos apenas. Preciso esclarecer alguns pontos. Vou limitar a Idade Média a que me refiro a uma Idade Média do Ocidente, pois é nela que está inserida a Fantasia Medieval apontada. Então pode esquecer hindus, astecas e orientais, ele não fazem parte da Idade Média, eles são os outros.

    Os vikins foram muito promissores, mas eles surgiram apenas em meados da alta idade média e sumiram (absorvidos pelo Cristianismo) junto com os deuses antigos, ante o Deus Verdadeiro. Qualquer resquício de divindades antigas é mero paganismo. Um maneira de traduzir isto em um RPG é fazer com que os poderes destes panteões pagãos venha de demônios poderosos, não deuses.

    Sobre a Cavalaria, não confunda o guerreiras com o ideal de cavalaria. Qualquer um poderia se tornar guerreiro,eles eram maioria, mas ser cavaleiro era o sonho, justamente pelo fato da própria assenção social. A própria sociedade medieval impunha uma cultura cada vez mais evidente de vassalagem, reforçadas pelas principais instituições.

    A sutileza do texto está não no que a Idade Média é, e sim o que ela transpirava.

    A cultura cristã imputa mais virtudes pela honra do que pela glória em si, o que não ocorria antes do cristianismo(mas não quero dizer que não existia), pode pesquisar.

    Lembrando que a maioria das pessoas não queria nem glória, nem honra,apenas as sobrevivência, mas estamos nos referindo aqui aos heróis não aos homens comuns.Ninguém joga com pessoas comuns.

    Sobre a sexualidade não confunda os ideais da época com alguns fatos que não há representem. Gays sempre existiram, mesmo na idade média, porém não eram aceitos da mesma forma que eram na antiguidade. Você ignora que o processo de cristianização da Europa afetou profundamente todos os povos da região a redefinirem seus conceitos e não é possível desassociar o cristianismo da Idade Média. Para definir melhor o amor preciso escrever um post inteiro, não só umas poucas linhas para que fique mais claro o que resumi.

    Sobre o militarismo concordamos. O que estou fazendo é um paralelo do nosso mundo, com as ambientações. Se ele se assemelha, logo será, se não,não! A título de comparação, neste caso, pouco importam as razões, o que importa são os fatos.

    Agradeço as ponderações sobre o texto, que tinha realmente a pretenção de analisar em linhas gerais, mas não se deixe confundir pelos elementos do passados que ainda figuravam na idade média, mas não eram originários daquele tempo.

    [Responder]

    L.G.B. Paiva disse:

    @Danielfo, Ahhh ta.. então quando você se refere a Fantasia Medieval.. você quer dizer SOMENTE D&D né? Por que eu jogo Exalted por exemplo que é uma espécie de Fantasia Medieval mas que se baseia em TUDO que o D&D NÃO se baseia. Esquece Tolkien e o que ele sugou da mitologia Nórdica, esquece a Europa medieval, estamos falando de uma era global.

    Me desculpa por eu ter achado que você se referia a qualquer cenário medieval, eu realmente não posso falar muito sobre D&D já que detesto, acho que me deti mais ao conteúdo do post do que à introdução.

    Mas quanto à cavalaria, somente nobres mesmo poderiam ser cavaleiros, e eles sim tinham uma ideologia romantizada de tudo, pode se observar muito isso nas crônicas do Rei Arthur.

    E quanto a não jogar com gente comum, bom… eu costumo jogar sim, na verdade costumo começar o jogo com aldeões comuns que aos poucos vão se tornando heróis, ou todo mundo aqui começa jogando no nível 10?

    E mesmo quando você limita a sexualidade à europa cristã, você tem os aldeões que não tem nenhuma cultura e costumam se acasalar como animais mesmo, mas novamente aqui temos a idéia de “pessoas comuns”, e não “heróis”.

    E homossexualismo é uma idéia cristã modernete também… você falar que gays sempre existiram por que romanos transavam com seus aprendizes é ignorar o fator cultural, pra eles era normal. É o mesmo que falar que na índia os homens que andam de mãos dadas enquanto as mulheres os seguem atrás são gays, só poe que o padre disse que é errado.

    Acaba que essa concepção de Herói cai naquela idéia romantizada do Escoteiro Feliz e Justo, ae sim, não tem como não ser Romântico e idealizado como a Idade Média quer transparecer, diferente da idade clássica, onde os heróis eram humanos, com desejos humanos, e até os deuses eram humanizados.

    [Responder]

    Danielfo disse:

    @L.G.B. Paiva,
    Aaaaaah!Esta desfeito o mal entendido.

    Exalted tem influências orientais, por isso que não estavamos nos entendendo sobre os princípios da Idade Média, cada um estava no seu próprio hemisfério.

    [Responder]

  5. Thiago disse:

    De qualquer forma, é interessante notar que o artigo não é uma tese, mas sim um guideline para um jogo. Igual à famosa regra de ouro. Vale o que o mestre quiser. :)

    [Responder]

  6. Arquimago disse:

    Gostei do Artigo e ainda mais das questão levantadas nos comentários ;)

    [Responder]

  7. rafael disse:

    Paiva é um herege, e deve ser queimado numa fogueira politeísta! (brincadeira Paiva, mantenah seus zumbis longe de mim!)

    Nao entendo pq Idade Média tem q ser Monotíesta, ou
    “magra” em termos de deuses. Desculpem-me se perdi o fio da meada, mas uma coisa é fantasia medieval, e outra é a realidade. se fosse real, seriam todos clérigos de Deus, ou de seu filho, um demi-god :P

    posso estar sendo influenciado pela leitura de outros livors, mas e quanto aos deuses cultuados pelos celtas? digo, no periodo da baixa idade media.
    isso ja deve somar um bom punhado de deuses, nao?

    [Responder]

  8. Eu ia fazer um artigo com o mesmo tema há um tempo, vou ver se ainda faço. Fantasia medieval só existe por aqui, nos EUA o termo é só Fantasia.

    [Responder]

    rafael disse:

    @Daniel “Talude” Paes Cuter,

    e o irônico é q os EUA nao tiveram esse “periodo medieval”, com cavaleiros e tal

    [Responder]

    Daniel disse:

    @rafael,
    Este artigo também demorou muito pra sair, também cismava com este lance de medieval genérico. A única hipótese de vc fazer esta classificação, que os Americanos não fazem, é revendo o mito medieval e não confundi-lo com o período histórico, pq senão vc sai da fantasia.

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