Fantasia revisitada

Há alguns dias atrás publiquei o artigo, “O seu jogo é Medieval?” para fazer uma pequena reflexão de quanto nosso joguinho de RPG cotidiano foge completamente das aulas do ensino médio.  Tudo ocorreu super bem até que o Ambrosia deu sua contribuição sobre o tema, com um artigo solidamente argumentado, intitulado  “Olhares & Observações: Periodização no RPG“, que vale a pena ser lido.

Indo além da discussão inicial fomentada por mim e aprofundada pelo colega Felipe Velloso, chegamos a um ponto mais crucial para o rpgista do que a própria classificação do que seria Medieval. Quais as bordas da Fantasia?

Antes de cair em outra armadilha epistemológica, é melhor restringir o que se quer alcançar:  Fantasia é tudo aquilo que não corresponde  à realidade,  mas que é fruto da imaginação(Aurélio). Quando jogamos  temos a existência de magia, monstros, mistérios  e forças além da compreensão mortal. A época é irrelevante para a Fantasia em si, HE-MAN é fantasia mesmo tendo tecnologia futurista. Isso gerou uma profusão tão vasta de possibilidades que acabamos por classificá-las em sub-gêneros. Fantasia Medieval é apenas um sub-gênero de algo mais amplo e prolífico.

A Fantasia não está apenas em violar as leis da física, também está em construir realidades impossíveis no aspecto social também. A construção de verdades absolutas é inerente ao tema. Um deus-bem não imporia um caminho restrito para a  bondade?  Com um deus-bem não haveria esta estória de todos os caminhos levam à Salvação, apenas um caminho é a Verdade e a Luz. Se retomarmos a nossa história, veremos que esta imposição de uma só verdade foi muito questionada e superada.  Em um cenário fantástico, impor um caminho para o bem, ou para as virtudes não é improvável. O desafio de interpretar um personagem ordeiro e bom ou um maligno e caótico está no fato destas imposições absolutas,  as personalidades multifacetadas são facultadas aos romances.

He-man fiel a história

He-man fiel a história

O grande lance é justamente explorar este tipo de fantasia, a intelectual. A construção de utopias também faz parte do assunto. O ideal de cavalaria, a excelência  da nobreza, a pureza dos mártires, a inocência das damas. Tudo contrasta com a ambição dos cavaleiros saqueando Bizâncio, a ganância dos nobres, a falsificação de relíquias pelos clérigos e a traição pela esposas fiéis.  A conciliação de um jogo realista com aventuras heróicas tem outro grau de complexidade, por quanto tempo os jogadores se comportariam como pessoas corretas, em um ambiente onde todos o fazem de otários?  Como dizem no meu grupo: “Eu sou Ordeiro Bom e não Ordeiro Burro”.

Parte da graça dos cenários de Fantasia está contida nos erros históricos. Quando escrevi o texto anterior, não era para que o jogador alterasse sua campanha, mas para analisá-la com crítica, tomando como base o nosso mundo. O meu jogo é apenas 50% medieval, 50% clássico, segundo meus critérios adotados, outros podem apresentar menos ou mais.  Algo impede uma Fantasia com cara de mundo real? Certamente não, muitos cenários já abdicaram do medievalismo faz tempo, para falar com o público numa linguagem que ele entenda e até para que fique mais jogável.

A questão político-militar é também muito intrigante, na idade média percebe-se claramente um equilíbrio de forças bélicas. Se analisarmos um cenário amplo, veremos vários impérios que se atritam, mas há um equilíbrio de forças onde cada um tem seus altos e baixos. Na era clássica os impérios tinham rivais pequenos e não outros impérios com quem se confrontar. Na alta idade média, os Merovíngios e Carolíngios sempre tiveram os Bizantinos à sombra(e vice-versa), sem nunca  haver movimentos de ataques entre eles.  Os árabes são alienígenas no universo Ocidental, são como orcs para fantasia.  Em um mundo de RPG, as várias raças existentes poderiam se subjugar sobre uma única coroa? Nada impede. O que difere a idade antiga da medieval é a importância das cidades.

Ouro é melhor do que bronze

Ouro é mais forte do que bronze

O conflito entre Império e Reinos  reside no  ideal urbano vindo do período clássico, em oposição a fuga  para o campo na era medieval. Se olharmos com uma lente os pormenores das épocas, há fluxos de fuga/chegada para as cidades, pelos mais variados motivos em toda a história. Atualmente, a profusão de condomínios nos subúrbios que ocorreu nos EUA (e só não copiada por nós devido ao preço da gasolina) revela um desejo de fuga das cidades no século XX, no Império Americano. Com a tendência de alta dos preços do petróleo, já se vislumbra uma nova onde de retorno às cidades. Todavia, o que vem na memória em um cenário medieval,  castelos ou anfiteatros? Mais uma vez a fantasia cumpre o papel de encantar os castelos medievais e glorificar arenas romanas.

O colega Felipe Velloso finaliza seu texto com uma informação que todos  deviam conhecer: a idade média que conhecemos é falsa.  Boa parte do nosso imaginário medieval é romantizado e foi este que, de propósito,  escolhi para comparar pois estávamos numa discussão sobre fantasia, não história. Ariano Suassuna chama o processo de “modificar” os fatos para ficarem mais “bonitos ” de Quadernesco, uma referência ao personagem do seu romance mais célebre, A Pedra do Reino (a definição é criada pelo protagonista é uma alusão ao termo Quixotesco).  Afinal, o que seria a Fantasia senão a nata do  Delírio da raça humana.

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