Roleplaying Game e a Pedagogia da Imaginação no Brasil é um livro de Sonia Rodrigues derivado da sua tese de doutorado sobre RPG. Apesar de falar sobre muitos pontos interessantes como a relação do jogo com a ficção, a inserção do RPG no contexto da cultura de massa, a Pedagogia da Imaginação etc, apresento aqui, de forma introdutória, as partes que achei mais significativas do ponto de vista da criação de histórias: as matrizes narrativas do RPG e seu modo de produção de narrativas. O que comento aqui serve não só para mestres, mas também para jogadores, uma vez que as histórias construídas na mesa de jogo acontecem com a participação de todos os envolvidos.
O livro em questão se divide em duas partes: a primeira, ponto central deste texto, relaciona-se diretamente a tese, teoriza sobre as relações do RPG com a literatura e descreve alguns jogos como AD&D, Vampiro e Gurps; a segunda expõe as experiências e reflexões da autora sobre a Pedagogia da Imaginação, ou seja, sobre a importância da imaginação, da ficção e da formação do leitor.
O livro se inicia apresentando seus objetivos e uma definição de RPG: é um jogo de produzir ficção de forma coletiva numa mistura de narrativa oral e teatro do improviso. Essa definição nos aponta o objetivo do jogo, a criação de uma história ou narrativa, e certamente nos ajuda a solidificar o que pensamos ser RPG, uma vez que muitos jogadores se embananam ao explicar o que é RPG e ao responder a pergunta “quem ganha nesse jogo?”. É a partir dessa definição que a autora, então, estabelece as relações do RPG com os gêneros literários.
Enquanto jogo de produzir ficção, os antepassados do RPG são a arte de contar histórias, a epopéia, o romance, o teatro, o conto maravilhoso, o cinema etc. E devido a isso o RPG partilha com esses outros gêneros textuais a maneira de elaborar a narrativa, compor os personagens e todos os elementos que disso se desdobrem. Da arte de contar história e do teatro herdamos a narração e a encenação que compõem a nossa forma de construir oralmente a narrativa. Da epopéia, do romance, do conto maravilhoso e do cinema herdamos a forma como a ação se desenvolve na composição da narrativa. Por mais que muitos RPGistas sejam inconscientes disso, ou ignorem voluntariamente tais ligações com a literatura por acharem que isso elitiza o jogo, mas sabemos a imensa influência que o RPG recebe dela. Percebemos claramente uma influência do conteúdo tratado nas obras literárias, sejam referências feéricas ou tecnológicas, do elfo ao sabre de luz. Entretanto, se olharmos mais a fundo enxergaremos a influência das teorias literárias no RPG, e é isso que faz Sonia Rodrigues em seu livro. Uma delas, que inclusive é apresentada nos livros de RPG geralmente direcionados a mestres, segue a regra clássica de composição da narrativa que é a exposição, complicação, clímax, e desenlace. Essa forma de se criar histórias é bem usada por todos os jogadores, mesmo que muitos não conheçam as suas origens literárias. A exposição, onde o narrador apresenta o problema de que vai tratar, seus personagens, o espaço e o ambiente em que é vivido; a complicação, onde se delineiam os fios da intriga, geram-se os conflitos, enredam-se os fatos; o clímax; momento de emoção maior do conflito, o nó no fio narrativo; e desenlace, o desfecho das complicações a que foram submetidos as personagens.
Basta parar e pensar um pouco para perceber como isso cabe como uma luva na estrutura das aventuras e campanhas criadas por mestres e jogadores. Para alguns, isso que disse não é novidade, entretanto, para os iniciantes isso é de grande valia. Isso permite que se crie uma unidade na história, assim, facilitando o desenvolvimento do seu fio central, dos objetivos dos personagens, e o próprio reconhecimento do início, meio e fim da narrativa pelos jogadores.
A leitura desse livro vale a pena, uma vez que ele apresenta de forma mais verticalizada não só os pontos que selecionei para representá-lo, mas também outras conexões existente entre RPG e outros gêneros textuais. Devido a isso, esse livro é fundamental para aqueles que não só queiram se divertir rolando dados, mas que gostem de criar histórias e estejam dispostos conhecer mais sobre as teorias literárias que teorizem sobre a criação de narrativas e os elementos que a compõem. Convido todos à leitura desse trabalho que também representa um estudo pioneiro no Brasil sobre o RPG.
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Muito interessante. Gosto de literatura sobre o hobby que não seja sempre sistemas. Vou procurar nas livrarias daqui.
Acho que é o único material relacionado ao RPG feito por um não-rpgista.
@Danielfo, Muito bom o post, eu vou até procurar este livro pela internet e redes da biblioteca da cidade. É bastante valioso. Em 3 anos e meio de período acadêmico nunca vi na universidade alguém produzindo uma tese relacionado ao RPG. =P
@Danielfo, Há também a tese de Paula Fabrícia Brandão: “Roleplaying Games: A Sociabilidade e o Imaginário de Jovens Contadores de Outras Estórias” de 2006 (Sociologia UFC). Acredito que ainda não foi publicada como livro, mas está disponível em http://www.teses.ufc.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=2676
Com certeza devem existir mais trabalhos espalhados por ai.
@Jagunço, Na verdade, trabalhos com tema RPG já deve ter uma centena, mas a esmagadora maioria é de jogadores. E todo ano surgem mais, jogadores que estão se formando e unem o hobby a sua formação acadêmica.
@Jaime Daniel, Entendo. Mas, pelo que li, a tese acima é de uma não-jogadora (em príncípio). Por isso citei. O trabalho da Sõnia não é o “único” neste caso, como acreditou o Danielfo.
Só mencionando que eu tenho o livro e é a tese que vou defender no meu futuro mestrado!
Também sugiro o livro “Brincando de Matar Monstros”, de Gerard Jones. Não cita o RPG, mas é óbvio que ele pode ser incluído no contexto.
Muito interessante o livro, Felipe. Apesar de ser completamente alérgica a tudo que se relaciona a pedagogia e teorias educacionais, esse é um dos poucos livros que abrodam a temática que vale a pena ser lido. Até fiquei curiosa em como a autora se interessou por esse tema. E o seu contato inicial com RPG.
Na verdade, também tem o Aventura da Leitura e Escrita Entre os Mestres Roleplaying Games, da Andréa Pavão! Parabens pela matéria. Esses livros estão entre a literatura básica dos pesquisadores do uso de RPG na educação, e merecem ser divulgados.
abçs
A Sônia foi entrevistada na revista Universe of RPG da Ediouro que tinha Shadowrun na capa. Eu lembro que li muitas vezes essa entrevista dela.
Acabando minhas provas vou voltar a estudar os livros que comprei para o meu TCC que vai unir RPG e ensino, não sabia bem por qual começar e sua materia me incentivou a começar por esse livro!
Legal, galera!!! Não conhecia esses trabalhos que vocês citaram aqui. Vou atrás deles e tentarei, em breve, comentá-los também.
Dra. Sônia não é jogadora, mas certamente seu pai era… rs…
muito interessante mesmo vou procurar esse livro e assim que achá-lo tentarei comprar, ótimo post!!!!
obs: gente se puderem deem uma força no blog falando de rpg