Besouro: Nasce um herói

Besouro: Nasce um herói

Quem acompanha o Cinema Nacional deve ter tomado conhecimento do lançamento do filme de ação chamado Besouro, a pouco mais de 15 dias.  Morando em Campina Grande, coloca-se um atraso de pelo menos uma semana em qualquer grande filme que seja lançado no circuito nacional, por aqui. Em filmes de menor divulgação,  o atraso dobra ou ele simplesmente não passará por cá.  Mesmo o filme tendo estreado  só com uma semana de atraso, acabei indo assisti-lo em João Pessoa nesta semana, na segunda-feira- dia dos pobres – usando minha carteira de estudante. Não bastasse a pirataria, ainda há este tipo de ameça ao bom e velho cinema. O ingresso me custou apenas R$ 3,00.

Besouro conta a história de um lendário capoeirista que se rebela contra a opressão sofrida por sua raça, durante os anos de 1920;  época em que negro era livre apenas no papel,  mas na prática sofria dos mesmos abusos da era da escravidão. Antes de ser um filme de luta com orçamento milionário, Besouro é um filme que retrata o preconceito ao negro na sua forma mais dissimulada, com o humor. A película é permeada de piadas de conteúdo extremamente racista e linguagem ofensiva colocada em um tom, que para quem é caucasiano (mesmo que filho de pai ou mãe negra) não deixam de ser engraçadas, até mesmo pelo grau de absurdo dos xingamentos e de pilhéria que soam a nossos ouvidos tais impropérios.  O mais triste é que negros  hoje ainda recebem o mesmo tratamento,  apesar de se passarem mais de 80 anos em relação ao filme. Sinal que a luta pela igualdade precisa continuar, para que tenhamos mais avanços do que já conseguimos.

Besouro também é um filme de lutas, ou pelo menos foi vendido como um filme de capoeira. Mas não acho que este seja um aspecto tão relevante assim, a luta está mais no plano ideológico do que no plano físico. Quem, assim como eu, achou que por ter o coreógrafo chinês Chiu Ku, o filme ia ser um festival de porradas a torto e a direito,  se enganou.  Me senti um pouco decepcionado com isto, mas achei que no fim,  ficou com um jeitão mais realista do que se tudo fosse resolvido em um estilo  wuxia, cheio de lutas intermináveis.  Por o protagonista não tem um oponente à altura do seu kung…digo,  capoeira, a estória toma rumos inesperados. Avesso ao estilo Tarantino, o diretor João Daniel Tikhomiroff, prefere optar por seguir a história registrada na tradição oral e cumpre bem o papel.

O filme é igual ao inseto:  voa, apesar de parecer que não vai decolar. O enredo desenrola-se lentamente, contudo consegue ser bastante empolgante no final. Talvez um pouco da culpa seja por parte das bucólicas cenas em que o personagem se encontra no treinamento com os Orixás – que poderiam ser bem mais aproveitados-  faltando a pimenta necessária para temperar  melhor o início do filme, antes dele começar a esquentar.  Culpo também a obsessão do Cinema Nacional em dificultar a identificação dos antagonistas, colocando todos em tons pastéis. Um filme sem um grande vilão materializado, não tem o mesmo apelo para o grande  público. Nesse, escolheram o racismo embutido na cultura da época para fazer estas vezes, o que tornou o inimigo de difícil percepção no início, mas evidente, para os atentos, no final.

Besouro é um filme nacional que voa sobre novos temas, e lança com qualidade a ficção que é muito ausente na nossa produção cinematográfica. Eu particularmente, sai muito satisfeito com o resultado e certamente será muito inspirador para o Projeto Lajedos & Lagartos. Ele mereceria bem mais do que apenas os três reais que paguei para vê-lo.

 

Share and Enjoy:
  • Print
  • Digg
  • StumbleUpon
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Yahoo! Buzz
  • Twitter
  • Google Bookmarks

2 Comentários para “Besouro: Nasce um herói”

  1. Arquimago diz:

    Ainda estou esperando para ver esse filme, cinema aqui é muito caro para ir então vou ter que esperar o DVD, porque acho que não vai passar no cine municipal, agora se passar, vejo antes!

    Também estou interessado no filme, esperava mais lutas, mas pelo que você disse vai ser até mais interessante, porque ter uma historia, um tema para refletir e não só um monte de golpes.

  2. Brenno diz:

    Gostei muito do filme concordo com sua analise Danielfo, embora não tenha achado fraca a atuação do ator que faz o Besouro, mas não tira toda grandeza e criatividade do filme e de sua trama.

E você, o que pensa?