RPG é diversão e isso faz com que as aventuras one-shot, em geral, despretensiosas. Nem sempre a culpa é dos mestres, os jogadores sabem que não vão continuar e também não se preocupam muito com as conseqüências das próprias ações, o que causa resultados bem inesperados. Atos de bravura e loucura podem ser muito mais comuns do que nas aventuras seqüênciais. Em aventuras únicas, as conclusões são imutáveis, nas seriadas, nem tanto.
Um marco nas aventuras é o “Chamado”, geralmente na primeira aventura, quando o PJ é recrutado para alguma missão. Diferente do “Objetivo”, que é algo que impele naturalmente o herói, o “Chamado” é vindo de uma terceira pessoa. Partindo deste marco, é comum que o personagem siga um objetivo que não lhe pertence, o Chamado nada mais é que um Objetivo de alguém transferida para outrem, que é ou está incapaz de realizar o feito.
Quando a campanha é maior, o herói terá tempo de fazer uma reflexão sobre a própria missão? Tempo terá, mas ele o fará? Certamente, não! Os jogadores estarão ocupados em passar de nível. Dificilmente algum perceberá, e os que perceberem talvez revidem ou concordem com o objetivo da missão, que pode não ser tão pura quanto supunham inicialmente. No horrível filme D&D, os aventureiros trabalham para o vilão indiretamente, sem saber, e quando se dão conta do erro, se redimem. Mas isso é só uma possibilidade, o mais comum é vilões se passarem por “coitadinhos” para conseguirem a ajuda dos heróis. Quem jogou Star Craft:Brood War, lembra que é exatamente o que Kerrigan faz para enganar os Protoss e manipulá-los para que ela se torne a “Queen of Blades”. Entre os Protoss apenas o Judicator Aldaris percebeu o plano da humana corrompida e alertou aos companheiros, que cegos pelo “Chamado” ignoraram os apelos, só enxergando a verdade quando já era tarde demais.

O overmind caiu!
O grande lance é quando um herói toma as decisões erradas e leva todos à ruína. Este é um evento bem mais difícil de detectar e bem mais duro de revidar. Reconhecer um vilão agindo sobre pele de cordeiro é muito fácil, muitos jogadores percebem as evidências em off mais rápido do que os próprios personagens. Com os heróis não, a ficha deles é limpa. Descobrir isto em off é quase impossível, é uma tarefa realizável em jogo, através das pistas adquiridas durante a sessão, cada uma é peça de um grande quebra-cabeças. Veja o caso do regente de Gondor, Denenthor II, ele acreditava que só com o Um Anel poderia ter o poder para vencer Sauron, não poderia estar mais enganado e, deste modo, envolveu os filhos e o reino numa cruzada trágica.
Outro exemplo, é o da excelente animação Up, da Pixar. Com uma estória sublime, o filme conta a história de vida de Carl Fredericksen e da esposa dele, Ellie, aficionados por balões e fãs do grande aventureiro Charles Muntz, quando crianças. Muntz inspirou as duas crianças, que quando se casaram sempre sonharam em viajar para a América do Sul, uma vontade mais da expansiva Ellie do que do introspectivo Carl (aqui dublado pelo mestre Chico Anísio). Por infortúnio, só após a morte da mulher e de outros acontecimentos, o velhinho toma coragem para fazer esta louca aventura e cumprir o desejo da finada amada.
Spoilers (ora bolas, quem se importa)
Durante a viagem Carl acaba se envolvendo com atrapalhados companheiros: Russel, um gordinho escoteiro; o pássaro raro, Kevin; e o cão falante Dug. Como se não bastasse, encontra vivo o pesquisador-aventureiro Charles Muntz, que o havia inspirado, décadas atrás, a fazer esta fantástica viagem. O que ele não contava é que o ancião estava obsecado por encontrar o pássaro raro Kevin vivo, para poder retornar glorioso à civilização. Visivelmente insano, Muntz não tem escrúpulos em eliminar quem quer que seja para cumprir o próprio Objetivo e vê todos os outros como competidores, que desejam sepultá-lo no ostracismo até a morte.

Probida a exibição para eclesiásticos
Durante a revelação Carl percebe que se aventurava não por si próprio e sim pela memória da finada esposa, inspirada por delírios de um megalomaníaco. Ele acabou não percebendo que o verdadeiro objetivo que ela tinha na vida, era o mesmo dele, o qual nunca percebera: viverem felizes. Quando se dá conta, deixa de seguir o “Chamado” e vai atrás do novo Objetivo, que é salvar os amigos que ele fez na jornada, pois se dera conta de que ele ainda tinha muito o que viver e não poderia ficar à sombra de alguém e apegado a coisas triviais. Levou apenas o essencial, o amor da esposa no coração.
A inércia translacional do “Chamado” é incrivelmente poderosa. Vencê-la poderia ser um dos objetivos secundários da trama que você planeja. Secundária porque neste caso, o chamado é apenas o ponto de partida e o Objetivo, isto é, o desejo de tornar o mundo em volta melhor, é o que fará a guinada na trama, mas isto partirá dos jogadores. A aventura se tornará mais dinâmica, pois muito deixou de ser feito e velhas feridas se agravaram, tornando a cura mais difícil. Sorte que neste período os PJs terão ganho níveis suficientes para enfrentar obstáculos maiores.
Até mais. Para o alto e avante.
Realmente muito bom o post! Fiquei arrepiado com os pontos que você levantou do “Up!” (trocadilho involuntário). Fica a sugestão, para um futuro post, de como conciliar o Objetivo dos heróis com o Chamado. Já pensei muito sobre isso, não com estes termos é claro, mas vejo que nas minhas aventuras isso é um ponto falho, que eu acabo solucionando com PO’s ou necessidade de sobrevivência.
@Vitor Hugo,
Vitor, isso vai depender da interação que vc e os seus jogadores possuem. O narrador é mais um fomentador de objetivos, pois estes tem que partir dos pjs. Depois vc só administra. É desafiador não ter a aventura nos trilhos e sim numa trilha.
Putx, agora fiquei envergonhado… Não havia pensado em alguns posicionamentos colocados em seu texto. Maldita Hubris que me faz esquecer que ainda tenho muito o que aprender como narrador!
Texto do tipo que adoro, focado e espalhado (Objetivo com uma porção de exemplos!)
Aqui no lugar “longe, muito longe” e “Quente, quente pra chuchu” está tudo bem! Abraço velho amigo!
=D
Z
@Will Figueiredo,
Não se preocupe, se vc tem humildade, já tem tudo que precisa.
Espero que vc arranje logo um ar-condicionado. rsrsrs (eu sei o que é isto)
@Will Figueiredo,
Eu gostei do método de Chamado que você usou na campanha de Exalted. O primeiro, encontrar um inimigo de eras anteriores e depois, o pedido indireto de um pai ausente em um momento de necessidade (pobre Coração Bravio).
@Danielfo,
O texto ficou sensacional. Me deu muitas idéias para as próximas histórias nas quais o grupo onde eu narro vai entrar.
Valeu pelo aprendizado!!!
Ainda não vi o filme, mas não me importo em saber o roteiro anres, na verdade me deu ainda mais vontade de ver!!!
Gostei mesmo dos seus pontos, não tinh pensado nessa divisão… vão prestar atenção nela, só precio agor ade jogadores que vem Objetivos a seus PJ.
Apenas um comentario sobre o post, MUITO BOM.
^^
Meio repetitivo, mas, muito bom o post Elfo.
Mas sei-lá, acho que todo mestre que estive acostumado a mestra campanhas longas (mais de 3 anos) termina percebendo que logo todos os jogadores desenvolvem sozinhos os seus objetivos e “chamados” passam a não ser mais necessarios, pelo contrario, talvez seja necessario “poda” os jogadores, devido aos multiplos caminhos criados por eles…
Bom, pelo menos eu sinto isso =D
@Chacon,
o diabo é alguém conseguir mestrar campanhas deste tamanho para ter este insight. Quando a campanha é grande demais, acabam ocorrendos novos chamados, para outros jogadores. A questão é só dosar.
@Danielfo, concordo elfo, mas eu ainda acho q o processo ocorre naturalmente… ou não… hum… Elfo já pensou em fazer um texto sobre interludios?
@Chacon,
De fato, algumas pessoas fazem por instintivamente, mas o meu ponto não era nem tanto falor sobre o objetivo em si, era mais para que as pessoas trabalhassem o chamado,já que nunca vai deixar de existir.
Sobre a sua sugestão de interlúdios, vou colocar na minha lista de “coisas que tenho que escrever:”
@Danielfo, Hum, compreendo, “Chamado” é realmente algo curioso, alguns “chamados” ocorrem sem nem mesmo serem chamados realmente… quando por exemplo os pjs ouvem uma historia da princesa presa (q era para ser apenas uma historia) e ai vão atrás dela
ok =D