O Nobre Peregrino: Pecados Esquecidos

Nobilis Peregrino

Nobilis Peregrino

Uma das vantagens de jogar RPG é adquirir o gosto pela leitura e, consequentemente, o hábito de escrever muito bem. Para os que realmente são fascinados pelo desenrolar da estória de seus jogos, a solução para rememorar os fatos da campanha é o chamado “Diário de campanha” ou para os gringos o “blue booking”. Ferramenta imprescindível para quem tem memória curta de peixinho, (Continue a nadar! Continue a nadar!) o diário de campanha pode ser desde relatos minuciosos de ações e narrativa ao modo “ata de reunião” ou até mesmo um relato romanceado com todas as pontas aparadas. Se já é difícil escrever bons diálogos em estórias, imagine tentar ao vivo, um convite para tiração de onda generalizada e uma boa dose de estimulo para aprender a ser mais articulado. Enfim, sem mais delongas, estarei apresentando o registro romanceado de uma campanha que participei há algum tempo em João Pessoa, baseada em Calimport, no cenário de “Forgotten Realms”. Magia, terras e mulheres exóticas! Sente-se nas almofadas, aprecie o narguilé e vamos que vamos, ilustríssimo Habib!

No mercado das maravilhas, do centro de Calimport, vendedores em mantos coloridos gritam oferecendo seus produtos. Sons e cheiros exóticos preenchem o ambiente, onde há corredores levando a todos os lugares e ao mesmo tempo, nenhum. Na área do centro de tecidos, um grupo de dançarinas envoltas em véus dançam; seduzindo possíveis compradores de seda e tapetes.

Um homem ambicioso olha perturbado para o molejo de uma dançarina de pele negra, enquanto mãos ágeis o aliviam de sua pequena fortuna. Uma velha matrona está batendo com uma vara em um garoto que carrega tâmaras em uma cesta de vime. Uma jovem senhora negocia com um curandeiro ervas para restituir a virilidade de seu velho esposo. Um grupo de cavaleiros em corcéis negros percorrem de forma altiva o caminho do mercado, com um tributo ao sultão. Um mendigo padece de dores sob o sol e poeira do mercado, ninguém parece notar seu lamento baixinho.

Um desconhecido para em frente a ele e o chama de um nome proscrito dos livros de historia; terror percorre a face do mendigo, que tenta se afastar do visitante. Mãos fortes o agarram e o levam para outro lado do mercado, atrás de uma loja de vasos. O desconhecido recita uma lista de crimes que o mendigo cometeu durante sua longa vida e com um sorriso cínico define a pena de seus pecados. Uma adaga brilha nas sombras. Sangue espirra pela parede, um odor adocicado invade o ambiente. O corpo do mendigo é deixado jogado, atrás de barris.

O desconhecido com as roupas sujas de sangue, ordena sua sombra que devore o sangue manchando suas vestes. Sobrenaturalmente o sangue desaparece. Os homens que o acompanhavam, vestidos em trajes de mercadores, retornam ao mercado misturando-se aos passantes.

“Eis, mais um para ti! Oh, Shar! Rainha da noite! Dona de minha vontade!” – O homem desconhecido sussurrava, enquanto seu corpo se desvanecia em areia e vento.

As dançarinas retornam para sua tenda aonde abraçam o jovem de mãos ágeis e líder do bando. Esta noite será de requinte e lascívia. Seus corpos se desvaneciam em areia e vento.

O garoto chora de dor com a cesta de tâmaras derrubadas pelo chão, a matrona violenta apenas desfere as pancadas sem parar. Seus corpos eram areia ao vento.

O curandeiro guarda as moedas de ouro, enquanto sua cliente sai com o desejo de seu coração, sem saber que o que leva é veneno. Seu esposo, velho desafeto do curandeiro à aguarda em casa. Seus corpos eram areia ao vento.

Os cavaleiros retornam para a praça, no mesmo porte altivo, com a carga cheia de rubis e ouro. Recompensa ganha em troca de sua carga sinistra: cabeças de 20 bandidos que importunavam as rotas de comercio de Camliport; em verdade, 20 camponeses inocentes em busca de justiça que tiveram filhas, irmãs e esposas seqüestradas para o harém do sultão.

Os cavaleiros e seus animais eram tempestade de areia e vento engolindo o mercado. Subindo aos céus e indo se misturar as areias do deserto. Há algum sentido em um mundo de sofrimento como esse? Por que a escuridão permeia tantos corações?

O mendigo teve tempo de conjurar uma magia. Uma única palavra de ódio. Um Desejo. Entrelaçando os ramos da trama em um poderoso feitiço. Juntando seu ultimo e amargo suspiro pode desenredar as vidas de todos os que estavam perto.

Foi um dia triste…

Crianças ao redor de uma fogueira, espantadas olhando para um homem jovem, de pele morena e cabelos ruivos. Ele possui feições estrangeiras e roupas diferentes do que elas já haviam visto. Sob seu colo, um livro de estórias de paginas abertas. Suas mãos brilhantes gesticulam, formando pequenas imagens sobre a fogueira.

O nobre peregrino

O nobre peregrino

É noite, no acampamento da caravana no Oásis Mazin, enquanto os homens montam as tendas, as mulheres preparam o alimento. As crianças entretidas com a estória do estranho não percebem o tempo passar.

“Então crianças, cada ação provoca uma conseqüência, o orgulho nos faz cegos e muitas vezes utilizamos força desnecessária para resolver as situações nos quais nos envolvemos. Para acabarmos com o calor, basta um bom banho, sombra e uma brisa. Não precisamos apagar o sol. E é claro, tomar cuidado com as consequências de nossas escolhas. Esta é a lição dessa estória.”

Sua voz era calma, suas feições estrangeiras e sua expressão jovial atraiam as jovens garotas da caravana. Era paciente com as crianças e ouvia os mais velhos. Era a doçura em pessoa. Já estava viajando com a caravana há algum tempo. Seria duro vê-lo partir, mas logo chegariam a Calimport e cada um seguiria seu rumo. Procuravam não pensar nisso, aproveitando cada dia que ainda resta da viagem.

Os homens cantam ao redor da fogueira e as mulheres servem os alimentos. O jovem janta junto com o líder da caravana e logo se ausenta para longe do barulho do acampamento. Entre as palmeiras do oásis, ele reza para sua deusa e se deita no chão olhando as constelações. Sua jornada ainda longe de acabar. E adormece…


Notas do autor:

Anish, é moreno claro, tem cabelos ruivos escuros, estatura mediana, em torno de 1,80m de altura. Tem 22 anos, é sereno, calmo e gentil. Contemplativo, observa as pessoas e as interpreta o tempo todo. Nasceu escravo em alguma localidade de Calishan, não tinha nome até ser libertado por um grupo de aventureiros estrangeiros. O sacerdote do grupo o adotou como o filho que nunca teve, o nomeou de Anish e o educou no sacerdócio de Mystra. No país de seu pai, aprendeu a arte da caligrafia e atuou como escriba no templo. Saiu em viagem por terras estranhas há 2 anos, seguindo visões da deusa em seus sonhos, reavendo segredos mágicos e ajudando devotos de sua religião. Tenta ensinar os outros pelo exemplo de sua conduta, nem sempre tarefa fácil. Costuma usar a força apenas em ultimo recurso e mesmo assim de forma não letal. Ele lamenta cada morte que não pode evitar, e cada malfeitor que não pode ser redimido.


No próximo episódio: Ação, sangue e pra variar dançarinas de dança do ventre! Afinal, ninguém é de ferro.

Comentários (13) »

  • Matheus Medvedeff diz:

    Interessante.

    Esse personagem está bem ao seu estilo, Zé.

    Gostei da história que ele contou para as crianças e da lição que ele deu. “Precisa apagar o sol.”

    Quero ver quando você começar a colocar os resumos do grupo mais Exaltado, ousado e sem medo dos perigos da Criação de todos os tempos: os Exalted Knights.

  • Arquimago diz:

    Você escreve muito bem!

  • Marú diz:

    Concordo com o Arquimago…pelo que vejo vai nascer um livro daqui a poucos anos…Escolha bem a foto da orelha de trás do livro heim,Will.

  • Danielfo diz:

    Não é porque é colega nosso, mas o texto está incrível.
    Muito inspirador, continue, assim Z!

  • Leonardo diz:

    Gostei muito do texto.
    Fiquei curioso para conhecer a continuação!

  • Dan Ramos diz:

    Tá lindo de morrer, Zé! O bom de campanhas “das arábias” é que elas inspiram a poesia, mas com certeza o mérito literário é seu. Espero que você não desanime e continue, caro amigo!

    Mas me diga, quem jogava nessa campanha? Você era o Mestre? Que sistema? =D

  • Danielfo diz:

    @Dan Ramos,
    Elisa, para de usar o nome de Ramos para escrever as coisas!!!
    Fica gay d+!

  • Dan Ramos diz:

    @Danielfo, vai arrumar o que fazer! XD

  • @Dan Ramos, heuahuaheuahueaheuh! Harmonia pessoal! Harmonia! ^^

    =D

  • Muito obrigado pelos incentivos! ^^ Fico feliz que o texto tenha agradado! Ele estava guardado havia dois anos em um de meus back ups!
    Estou incentivado a continuar com o trabalho!

    =D

    O narrador desta campanha era Felipe Caveraman! O jogo acontecia na casa de maréh sempre aos sabados de manhã bem cedo (horrivel para a pontualidade). Então, já viu, muitos atrasos e um descompromisso de leve acabaram cancelando a série de partidas depois de dois meses de iniciada. Ao menos o primeiro ciclo foi fechado e temos uma estória com começo, meio e fim! ;)

    O sistema usado foi o D&D 3.5. E este texto apresentava meu pc ao narrador. ^^

    Abraços grandes e fiquem ligados nos próximos posts!

  • Elisa diz:

    Lindo texto, só não concordo que jogar RPG cria o hábito da leitura. Cria o hábito de ler e consultar livros de RPG. E também não concordo que jogadores escrevem bem como padrão, eu já li cada coisa que só de lembrar me arrepia. Tanto por erros crassos gramaticais como por falta de coesão textual.

    Nem todos têm a minha paciência, a sua, de Allana e Daniel de romancear os acontecimentos de jogo e fazer contos e introduções a personagens como essa.

  • Dan Ramos diz:

    @Elisa, olha Li, pelo menos um pouquinho acho que estimula a leitura. Se até Rafael que odeia ler conseguiu ler um livro inteiro com mais de 300 páginas… rs

    Claro que tem muita gente que não lê de jeito nenhum, mas esse povo não se conserta nem com milagre. =P

  • Parabéns pelo texto Zé! Ter você como jogador é sempre uma honra. Pena que nossa campanha tinha horários complicados, mas prometo em abril colocar mais um capítulo para o grupo.

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