A parte mais difícil de toda caminhada é o primeiro passo. O mundo parece prender a respiração. O andarilho perdido em seus pensamentos iniciais, nem imagina o que cada curva do caminho pode trazer. O Final da jornada ainda é só uma promessa, apenas uma abstração. O que é concreto? O agora! E o momento é de ansiedade e um frio desconfortável na barriga. É assim no início de todo projeto, na primeira vez que você vai a escola, na primeira vez que você fala em público , na entrega da primeira rosa a sua primeira paixonite, e naturalmente na primeira e famigerada sessão de RPG, no meio de um encontro “cultural e lúdico de jogos de interpretação de papéis” ou sendo curto e grosso “uma cilada”.

Particularmente não gosto de narrar em eventos de RPG, a experiência já é atordoante, imagine para uma pessoa leiga que nunca teve o menor contato com o ambiente? Muito barulho, uma porção de meninos- adolescentes-esfomeados, a procura de um belo rabo de saia (uma jovem caridosa) e sem um tostão no bolso. O próprio comportamento típico beira o constrangedor. Mas enfim, faz parte do pacote de ser adolescente, e convenhamos todo mundo paga esse mico. Elfo que não me deixa mentir todas as barbaridades que fiz quando jovem… A torcida é que todo mundo possa um dia se tornar um adulto produtivo, maduro e feliz. Não custa nada tentar, né?

Dia DRPG, em Macapá

Dia D RPG, em Macapá

Pois bem, estava em minha mesa espartana, no meio do evento do “Dia D RPG” em Macapá, ocorrido neste ultimo final de semana, quando um dos organizadores me pediu para receber um grupo de novatos. Eram três moças e um rapaz, sendo que a experiência prévia de boa parte deles com o jogo foram de observadores em outros eventos. O clássico: – Ah, deixa eu ver primeiro, depois se eu gostar eu jogo com vocês. O jogo que levei para o evento, foi “Mage: the awakening”, um jogo não amigável para iniciantes, com regras um pouco espinhosas e para variar, um livro em inglês. E não seria fácil seguir o rumo típico de construção de personagens, apresentação das regras e natural início da narrativa.

Optei por deixar o livro de lado, as regras e as fichas. Expliquei o que era o RPG, o papel do narrador e dos jogadores e fui ao básico do básico: Imaginação e contar estórias. Perguntei o que cada um queria ser, se fosse possível escolher a vida que gostariam de levar e depois de alguns minutos conversando, já tínhamos personagens com profundidade e não apenas bolinhas amontoadas em uma folha de papel.

Deste brainstorming, partimos para uma narrativa improvisada, o feedback foi rápido, as reações que eu provocava durante a narrativa eram facilmente expressadas pelos jogadores. Lembra daquela ansiedade quando víamos a mocinha ser espreitada por um assassino, nos filmes de suspense? Aquela vontade de avisar:  – Sua burra! Olha ele atrás de você!

Eu provocava este tipo de reação e depois de duas horas de narrativa em conjunto, encerrei a partida, e os jogadores satisfeitos se sentiram incentivados a aprofundar se no RPG e naturalmente nos temas envolvidos na ambientação. Trocamos contatos e o grupo se desfez para aproveitar o restante do evento.

Desta experiência posso refletir desta forma: o primeiro contato com o jogo pode criar fãs devotos ou opositores ferrenhos. E quanto mais familiares são os temas ao futuro jogador, mais fácil é a absorção das informações. Sempre perguntar, antes de introduzir o jogo: Que tipo de filme você gosta?  Tem o hábito da leitura? Qual foi o seu último livro lido? Faz faculdade? Qual tipo de curso? Qual a cor preferida? Curte música, poesia? E quaisquer outras perguntas que achar pertinente para traçar um perfil das competências deste jogador. Possuindo estes dados pode se iniciar todo o processo de criação de personagem, ajustar o fluxo de informações descarregadas ao iniciante, bem como usar termos adequados a sua compreensão.

É fácil perceber que esta mistura de percepção, empatia e expressão são virtudes cultivadas por bons educadores são qualidades que todo narrador deve cultivar, para continuar cativando quem compartilha de seu mundo imaginado, como também abrir os caminhos para os novos peregrinos ansiosos pelo primeiro passo. E não importa qual tipo de RPG ou sabor de narrativa você como narrador ou jogador utiliza, o objetivo ainda é o mesmo: tanto ferramenta pedagógica como diversão simples e pura.

E para ajudar a reforçar esta opinião, minha esposa, que começou a jogar um dia desses, me permitiu transcrever seu depoimento sobre a experiência com D&D:

Eduação com monstros não funciona

Educação, com monstrinhos, não funciona

“Em uma das minhas primeiras experiências que tive, sentia-me mais confiante, para desafiar a mente afiada de jogadores afinados. Eu era a única moça da mesa, e meu esposo, conhecido por seus amigos por “tio Zé”,estava no sofá em modo “se vira sozinha”. E agora? O que farei? Ele não sentou hoje ao meu lado para me emprestar sua opinião. Vou ter mesmo que fazer isto? Aqueles monstros enormes de miniatura no meio do tabuleiro, agora pareciam bem ameaçadores do que eram, e eu parecia bem mais frágil do que sou. Queria pedir com educação , que por gentileza os monstrinhos se retirassem do caminho. O Mestre me descreveu a cena e pensei em uma solução. O resto dos jogadores mais experientes que já estavam preparando uma fuga, ouviram as ações que queria fazer e começaram a dar aquela pressão, de como diz meu esposo,“jogador pitaqueiro”.

Jogadores: Sai daí! Vamos, você não dá conta!

Narrador : E agora Sue, há vários destes por aqui, vocês não tem saída. Então, que você faz? Tem certeza disso?

Ia desistir, mas resolvi seguir em frente. Pego e os dados e os jogo. Pela primeira vez senti uma emoção empolgante para ver o resultado. Sobre a mesa, eles estavam lindos e lustrosos, corajosos, e sortudos, sucesso critico: 20!! Todos ao chão, o caminho estava livre. Quase isso, exagero, o jogo só  estava no começo. Se vocês pudessem sentir minha alegria, os meninos engolindo as palavras.

Introspectivamente pensei : Eu consegui!

-Parabéns, disse o mestre. Você está melhorando.”

E ai? Tem como alguém não se viciar neste hobby?

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