Bebidas Fantásticas – parte 2

No artigo anterior falei um pouco sobre a história das bebidas, seus  tipos mais comuns, e matérias-primas para fabricação. Após a  introdução, vamos a parte que relevante do tema: qual o papel da bebida nas sociedades.

Você pensa que cachaça é água?

A álcool é extremamente calórico, além de prejudicial ao organismo e muitos dos danos provocados por ele são cumulativos. Contudo, a expectativa de vida das pessoas era muito baixa (e com dragões voando à solta, baixa mesmo). Logo a morte não é algo que intimidaria o cidadão comum. O camponês está sujeito a várias mazelas e a “marvada” não seria tão maligna assim.

A água, por outro lado, não é muito saudável dentro das cidades, os ribeirões próximos recebem, in natura, todo os excrementos produzidos. Os centros mais sofisticados, constam com sistema de esgotamento que conduzem os esgotos aos rios e já nas vilas menores, as chuvas cuidariam de levar todos os dejetos para os veios de água mais próximos. Os animais que tomam banho e defecam nos riachos e lagos ajudariam a acrescentar parasitas na água usada para o consumo. Em suma, a água limpa não seria um bem tão acessível a maioria das pessoas. Neste aspecto, a bebida é mais pura que a água. A vantagem da água, é que ela é de graça, quando existe
disponibilidade.

O Governos e a Garrafa

As autoridades sempre estiveram atentas às bebidas. Neste caso, é importante lembrar da tendência predominante no governo. Lideranças ordeiras seriam controladoras, os neutros tenderiam a deixar os consumidores livres de controle e uma sociedade caótica ou não teria leis para nada, ou estas seriam rigorosas, ou ainda, poderiam formar rígidas e esdrúxulas normas de controle.

As formas de controle regulariam: a produção,  a distribuição e o consumo. O governo poderia ter direitos sobre a produção de uma determinada bebida popular (ou mesmo todas elas) e só o chefe em comando poderia abrir uma concessão para que um aliado produzisse a bebida. Outra forma de controle é a taxação da produção e/ou da venda, fazendo com que o Estado passe a auferir rendas obtidas pelos produtores.

No caso do controle da distribuição, a liderança local ditaria regras que afetariam os comerciantes. Determinaria se as bebidas poderiam ser importadas ou exportadas da cidade. Uma cidade de alcóolatras, que não fosse uma grande produtora, logo teria leis que dificultariam a chegada de bebida, para equilibrar o problema da balança comercial da cidade; sendo a bebida privilégio de poucos. O líder responsável poderia até mesmo restringir ou proibir a venda delas na localidade.

O consumo das bebidas poderia ser controlado através de leis que impedissem o consumo exagerado por parte dos cidadãos. Leis poderiam limitar os dias que se poderia beber, preservando alguns ou muitos dias de sobriedade ou apenas restringir horários de consumo.

ninguém pode mais beber em paz

Quando o Estado interfere nesta característica social, muitos problemas podem surgir. Leis secas costuma fortalecer os sindicatos do crime, que veem na produção e venda um jeito fácil de ter lucro. Os ladinos poderiam agir nesta área ou serem forçados a se “sindicalizar” para participar.  Há também o caso da embriaguez forçada, o Estado pode obrigar as pessoas a consumir bebidas: um senhor  pode fazer parte do pagamento dos servos em cerveja, já que muitas relações de comércio são à base de trocas, isto seria uma maneira fácil de escoar a produção de cerveja excedente pela parte do nobre e os bêbados ficariam muito felizes.

Leis malucas são interessantes de se colocar nas aventuras. Um cidade que proíbe de se beber na rua, ou de mulheres consumir cerveja, de vender bebida a forasteiros, são alguns exemplos de leis malucas, de efeito notável em  uma aventura. Um  taverna poderia ter um aviso na porta: “Proibida a venda de cerveja para anões!” Isso poderia intrigar os aventureiros a saber o porque do aviso e enriquecer a descrição de uma simples aldeia.

Bebei e comei disse o Senhor!

Em oposição ao caráter mundano da bebida, elas também estão relacionadas ao lado sacro. O vinho, por sua semelhança com o sangue, foi rapidamente associado à Vida. O calor da bebida, o prazer obtido pelo sabor e as alterações  mentais da ebriedade, sempre lhe garantiram um lugar especial nas sociedades onde existia a uva. Neste caso, existe uma comunhão da bebida com a própria divindade, e o consumo dessa passa a ser ritualístico. A bebida poderia ser considerada santificada, como é o caso das bebidas que são oferecidas aos Orixás,  ou ser o próprio Deus sendo ingerido. Cristo diz: “Tomais todos e bebei, isto é o meu sangue.” Este é chamado milagre da transubstanciação, quando o vinho se torna sangue.

Sangue bom!

Sangue bom!

Nas sociedades onde alguma bebida é santa, o seu consumo era muito regrado ou reservado a situações  especiais. Para os católicos, o vinho faz parte da liturgia e na Páscoa ele é tradição no Domingo. Antigüidade, os bacanais eram regrados a muito vinho (e mulheres nuas), porém fora dele as bacantes eram mais comedidas, o excesso era parte do rito religioso (era tão escandaloso que passou a ser proibido em Roma). A nossa cachaça também tem forte sincretismo, é costume até hoje, derramar um pouco antes de beber, para oferecer ao “santo”, um resquício de um costume africano.  Cria- se assim um respeito em relação a bebida, como no RPG as divindades são muitas e bastante atuantes, não é de se desprezar a influência dessas, nos costumes. Bebei, mas não vos embriagueis.

Outras divindades e filosofias podem partir para outro caminho: a da completa abstinência. Sendo inegável a influência mental da bebida, alguns deuses podem enxergar a bebida como maléfica e proibi-la na vida dos seguidores. Estas sociedades, demonizariam a bebida e pregariam verdadeiras cruzadas de fé contra os beberrões. Casos extremos poderiam variar de destruições de destilarias ou peregrinação a casa dos senhores, para que estes proíbam a bebida. Uma vez estabelecida a proibição, um conselho de moralistas, indicariam censores para controlar a condutas dos cidadãos e mantê-los dentro dos rígidos padrões. O Islã é um exemplo de religião que conseguiu banir a bebida com relativo sucesso.

O Ministério da Magia Adverte: Beber atrapalha os componentes verbais

Voltando ao indivíduo, não podemos esquecer dos efeitos da bebida no corpo: a redução da coordenação motora, lentidão no intelecto, problemas na memórias e danos ao organismo. A Bíblia cita Noé como o primeiro a ser derrubado pela bebida (o cara tinha mais de 600 anos, imagina o nível dele de Ranger). Como aventureiros, principalmente os de alta constituição, adoram testar sua resistência no copo, é interessante saber o que aconteceria. O jogador faz um teste de resistência de fortitude, contra a dificuldade sugerida, se falhar sofre os efeitos, se passar ignora e pode continuar bebendo até precisar fazer outro teste, que terá dificuldade maior.

Quantidade de álcool por litro de sangue (em gramas) x Efeito

0,2 a 0,3 g/lequivalente a um copo de cerveja, um cálice pequeno de vinho, uma dose de uísque ou outra bebida destilada. As funções mentais começam a ficar comprometidas. A percepção da distância e da velocidade são prejudicadas.Um teste de fortitude ND 5 evita os efeitos.

0,3 a 0,5 g/ldois copos de cerveja, um cálice grande de vinho, duas doses de bebidas destiladas O grau de vigilância diminui, assim como o campo visual. O controle cerebral relaxa, dando sensação de calma e satisfação. Um teste de fortitude ND 10 evita os efeitos.

0,51 a 0,8 g/l - três ou quatro copos de cerveja, três copos de vinho, três doses de uísque Reflexos retardados, dificuldades de adaptação da visão a diferenças de luminosidade, superestimação das possibilidades e minimização de riscos e tendência à agressividade. Um teste de fortitude ND 15 evita os efeitos.

0,8 a 1,5 g/lMesma quantidade de bebida informada anteriormente. Dificuldades de guiar cavalos e carroças,
incapacidade de concentração e falhas na coordenação neuromuscular.
Um teste de fortitude ND 20 evita os efeitos.

1,5 a 2,0 g/lEmbriaguez, torpor alcoólico, dupla visão . Um teste de fortitude ND 25 evita os efeitos.

2,0 a 5,0 g/lEmbriaguez profunda. Um teste de fortitude ND 30 evita os efeitos.

5,0 g/l- Coma alcoólica. Um teste de fortitude ND 35 evita o efeito.

Falhas

Foi BAATEZU que botou pras nós bebe

Foi o BAATEZU que botou pras nois bebe

1ª Falha- Penalidade de -2 em todos os teste de perícias de Destreza e Inteligência. Bônus de +2 nos testes que envolvam Carisma(pela “alegria”).

2ª Falha- Sofre adicionalmente penalidade de -2 nos teste que envolvam Sabedoria.

3ª Falha- Sofre adicionalmente penalidade de -2 na iniciativa, +1 nas jogadas de ataque (pela agressividade). Perde os bônus de Carisma.

4ª Falha- As penalidade passam para -4 na iniciativa, sofre agora -2 nas jogadas de ataque e dano, -2 nos  testes de Resistência(Reflexo e Vontade). Penalidades de -5 em todas as perícias.  Chance execução de de magia falhar 10%. O personagem fica sob efeito de Confusão, em combate, podendo acertar inclusive aliados (25% de chance).

5ª Falha-Penalidade de -4 no ataque, dano e resistências(Reflexo e Vontade). Chance  execução de magia falhar 25%, chance de esquecer as magias memorizadas, 10%. Penalidade de -10 em todas as perícias. O personagem fica sob efeito de Confusão, em combate, podendo acertar inclusive aliados (50% de chance).

6ª Falha- Penalidade de -10 no ataque, dano, e resistências (Reflexo e Vontade) e perícias. Chance de magia falhar 50%, chance de esquecer as magias memorizadas, 25%. O personagem fica sob efeito de Confusão, em combate, podendo acertar inclusive aliados (100% de chance).

7ª Falha – O personagem desaba, ficando inconsciente. Uma falha crítica no teste representa morte por intoxicação.

Ressaca

No dia seguinte não tem jeito. O personagem beberrão passará maus bocados. Considere que para cada ponto de dificuldade do teste Fortitude que o personagem fez, ele precisará de uma hora de descanso. Até lá mal humor, dor de cabeça e mal-estar o acometerão. Se o personagem falhar em mais de  três testes, ele precisará de um teste de Vontade para lembrar o que ocorrer durante o período que ele bebia. Magias  para curar de venenos, reestabelece o personagem ressacado.

Espero que os personagens aprendam a lição e não precise de A.A.

Comentários (13) »

  • A Rpgista diz:

    Otima série. Só falta agora as canções de taberna e bares medievais, para deixar tudo pronto para a farra da campanha de D&D ;)

  • Matheus Medvedeff diz:

    Muito bom…

    Só faltou você dizer que os bêbados ganham bônus em alguns testes devido à famosa “Sorte de bêbo”…

    Coloca um bônus de +1 ou +2 em alguns testes…

    =]

  • Danielfo diz:

    @A Rpgista,
    Então aguarde a continuação! E uma coisinha, penso como é trabalhoso comentar no seu blog!

  • Danielfo diz:

    @Matheus Medvedeff,
    Fica a critério do DM fazer as modificações. O aspecto de fantasia é plenamente encorajado!

  • A Rpgista diz:

    @Danielfo,

    Heheheh… Se o problema for o blogger ou o site arpgista.net, preciso checar ;)

  • Arquimago diz:

    Huahuhauhua! Muito bom o cartum!!!

    Gsotei das regras e do esquema bem detalhado, só esqueceu de avisar que mestres bebados são imunes.

  • Danielfo diz:

    @Arquimago,
    Bem lembrado, se não, eles não seriam mestres!

  • Dan Ramos diz:

    @A Rpgista, é o blogger. Já desisti de vários comentários quando tinha que autenticar. =/

  • A Rpgista diz:

    @Dan Ramos,

    Culpa do Captcha. Dá reload que muda os textos. Ou então vá para o http://www.arpgista.net comentar lá ;)

    Uma conta no google ajuda a deixar tudo automático :)

    Estou usando o outro blog como mirror/backup do blogger. Dependendo como for, me manda um e-mail para arpgista[a]gmail.com que eu te cadastro lá como leitor, tendo acesso automático para comentários.

    Ou então espere o meu marido biônico entender o uso do open ID :)

  • Dan Ramos diz:

    @A Rpgista, ou vcs mudam para o Wordpress e tudo fica lindo e maravilhoso… =P

  • vanblacken diz:

    ótimo essa, mas como fica o fator para variação de tamanho?

  • Danielfo diz:

    @vanblacken,
    Como o fator de embriaguez é definido em g/l, uma criatura maior teria mais sangue e logo, as mesmas quantidades de álcool fariam efeitos diferentes. Criaturas maiores tem valores de constituição já maior por conta disto, o q implica em melhores testes de resistência.

    Mas se vc quiser,as sugestões são:
    Conceder bônus adicional de +2 na resistência , para cada tamanho acima do Médio. O inverso também se aplica.

    ou

    Dobrar a quantidade de bebida que precisa se ingerir para fazer os testes, para cada categoria de tamanho acima. Um dragão bêbado, seria muito raro.

  • [...] vimos vários aspectos das bebidas nos mundos fantásticos. Todovia faltou uma coisa, por que pedir apenas cerveja na taverna se [...]

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