Contador de estórias

mesa-de-rpg-oriental2Um dia eu cheguei cansado do trabalho, a semana havia sido muito intensa. Os colegas da polícia civil haviam estourado algumas bocas de fumo e os entorpecentes estavam abarrotando a bancada do laboratório. Passei algumas horas “agradáveis” periciando o material e realizando alguns testes de identificação química. Quem quer que vendia o material, estava bem encrencado.

Ossos do oficio a parte, cheguei em casa cansado pra caramba! Entrei em modo de segurança! Beijei minha esposa, tomei um banho, engoli meu jantar, sobrei em uma curva e capotei em minha cama miseravelmente! Quando estava prestes a desativar os sistemas logo de uma vez, eu ouvi uma vozinha meiguinha-docinha-toda-cutchi-cutchi: Tiuooo, conta uma estória pra mim?

Raios!! Deportaram minha sobrinha Belinha para minha casa!? Pior, nem vi ela chegar… Enfim, olhei para o calendário e as férias escolares estavam apenas começando. Eu pensei: Sacripantas! Diacho! Agora f@#$, me ferrei! Mas o que disse foi: É claro meu anjo! Sente aqui na beirada da cama, que irei lhe contar uma bela estória…

Vou ser sincero. Não estava disposto a contar estória alguma. No alto de minha má vontade, iria contar uma versão resumida dos fatos: Ela era pobre.Trabalhava muito. Uma fada apareceu. Emprestou a roupa, o carro e o motorista a prestação. Foi a festa. Embebedou um velho banqueiro, casou em Las Vegas. Viveu feliz para sempre com a pensão gorda. Etc e tal e por ai vai. Conhecendo minha sobrinha ela iria cair no sono rapidinho, tanto fazia com estória meia boca ou estória bacaninha.

Mas resolvi fazer diferente, fora que o enredo anterior era péssimo, apelei a mitologia grega e iniciei a estória de Perseu e seu sério problema com mulheres de cabelo ruim (Medusa), e queda por mulheres submissas e acorrentadas (Andrômeda). Então no meio da narrativa, percebi que a estória era toda, sem tirar nem por, um filme muito antigo que assisti quando eu tinha 6 anos, a mesma idade de Belinha: Fúria de titãs (que a propósito está sendo refilmado!). E que mesmo passados 45 minutos de narrativa, nas altas horas da noite, ela ainda estava acordada e querendo mais! Terminei a narrativa, dei lhe um beijo de boa noite e a pequenina adormeceu em poucos momentos.

Fiquei pensando no olhar encantado de minha sobrinha, de sua imaginação e a alegria da descoberta dos mitos gregos. E de como em uma noite esquecida na década de 80, tive meu primeiro contato com a fantasia ao assistir Fúria de titãs. Os monstros, os deuses e os heróis. Campeões com estórias maiores que suas próprias vidas. Enfim, de manhã corri para a biblioteca do colégio e cacei todos os livros possíveis sobre o assunto. Via filmes de fantasia e aventura na sessão da tarde (clássico, não?), conheci as estórias de piratas, a de cavaleiros medievais, de fantasmas e de tantos outros gêneros fantasiosos. Cada descoberta só renovava o interesse para a próxima. E um dia passando pela Lobraz (antiga loja de departamentos), minha cabeça explodiu! Vi a antiga caixa de jogo de D&D da Grow e um “Estojo de Química do Pequeno Cientista”! Não deu outra, fiz chantagem emocional com a mamãe e me mandei todo serelepe pra casa com as duas paradinhas! O resto é estória!

Acredito, sem sombra de duvida que foram estes os momentos que acabaram me fazendo virar uma pessoa culta, socialmente desenvolta e apaixonado por ciência. (Apesar de um leve tempero de excentricidade). Bem, pelo menos o pontapé inicial. Todo mundo enfrenta muitos desafios e crescimento em 30 anos.

storytellerE para minha sobrinha, que ainda está aprendendo a ler; aquela noite que contei a estória de Perseu a trouxe mais pertinho para o mundo dos livros. Para o inicio de sua longa jornada educacional, para tornar se mais esclarecida e com as competências necessárias para aplicar se nos campos e projetos que ela quiser. Se ela começar a amar o passatempo do tio, e jogar RPG nas tardes de sábado tanto melhor!

O ato de contar estórias para crianças poderia ser muito bem um belo treinamento para suas técnicas narrativas. Pegar aquele monte de sobrinhos na casa da vovó e contar uma penca de estórias diferentes. Que coisa linda de ser ver, hein? Um belo teste de sanidade na sua testa, ô rapaz!!

Mas falando sério, pensem nisto aqui:

Vivemos em um país que infelizmente um pai com o salário que ganha tem que optar entre alimentar a família ou comprar livros (são caros pra chuchu!). Comida no prato ou idéias de fino trato? Antigamente a cultura era passada oralmente, resgatar esse passado, no ato de contar estórias a jovens poderia ser uma boa maneira de aproximar los aos livros. As bibliotecas publicas com seus acervos estão ai, basta montar um programinha, um projeto com os gestores destes locais com uma boa dose de trabalho pessoal (ou de seu grupo) poderia ser o ponto de transformação nas vidas de muitos jovens e adultos. Procurar estudo, ter um diploma não é garantia de estabilidade e riqueza, mas ainda é o melhor modo de melhorar as expectativas de vida de muita gente.

Fora que diminuiria a chance de alguém se marginalizar e acabar me dando mais trabalho e canseira aqui no laboratório forense, DML e afins… Opa, fechei o ciclo!

Então, que tal uma “Iniciativa Cultural”?

Comentários (25) »

  • Cara, curti muito seu texto. Parabéns! No meu caso foi quando eu li a Odisséia, de Homero, que a mitologia me fisgou. Que por sinal preciso comprar para ter em casa. E a chantagem foi com o D&D da Grow e com um computador, Apple IIe para ser mais exato :) Abraços!

  • Delibriand diz:

    Infelizmente, percebo que se a pessoa não teve o hábito de leitura e principalmente a imaginação estimuladas desde cedo, é bem difícil colocá-las na pessoa depois de velha. Inúmeras pessoas que conheço gastam 60 reais num restaurante e não compram um pocket-book de 10 reais.
    Se pretendemos fazer algo, só podemos pelas crianças – o que já é trabalho mais que suficiente, como você viu pessoalmente. :)

  • Arquimago diz:

    Bom começo! Apesar que acho que li uma historia parecida no forum do Vezes da Terceira Terra.

    Também acho que devemos incentivar a cultura, a questão é que muitas vezes a concorrencia de outras coisas como a TV torna o começo complicado mas depois não precisamos mais nos preocupar a literatura ganha!

  • O RPG nunca foi e nunca será a obra-mor da cultura. Mas vale o que nós conseguimos “fisgar” com as nossas tentativas mais pessoas para esse precioso hobby.

    Muito boa postagem!

    Está mandando bem!

  • Maru diz:

    Ótimo começo, Will. A verdade é que a cultura da tv e agora internet, tem bitolado os mais jovens e limitado o pensamento próprio para um pensamento “miojo”, pré-pronto e sem autonomia. A tradição de contar histórias é fundamental na formação de qualquer pessoa, mas infelizmente hoje, só contamos histórias ou conversamos com a família quando falta energia elétrica…mais isso também é outra história…

  • A Rpgista diz:

    Fantástico texto.

    Meu marido biônico acredita, assim como eu, que o rpg e contar histórias é uma forma natural de equilibrar o avanço de tecnologia nas nossas vidas, além do corre-corre incansável. O que afastaria as pessoas, o rpg agrupa e uni.

    O problema nas bibliotecas é que faltam pessoas cultas para iniciar projetos culturais para os outros. Voluntários é o que falta, não espaço ou material.

    Continue assim, com ótimos textos, parabéns!

  • Dan Ramos diz:

    Parabéns Zé, como sempre o que sai da sua cabeça lasanhística é fascinante. =D

    Realmente precisávamos de um Dia de Levar Alguém à Biblioteca. Cada um de nós poderia pegar os filhos, sobrinhos ou primos e levar a um lugar legal pra ler, ou mesmo (para os mais endinheirados) comprar uns livros e deixar os pimpolhos descobrirem a leitura. É uma boa forma de não precisar empurrar livros caros goela abaixo de todo pai de família. Eu vou tentar fazer isso, pode crer.

  • Etriell diz:

    @A Rpgista, Opa! Calma lá! O que falta nas bibliotecas são bibliotecários de verdade. Podem procurar pelas formações. São poucos os “bibliotecários” que são formados no devido curso. O problema é o governo que não coloca bibliotecários no plano de cargos.

    A biblioteca central da ufpb tem uma semana cultural. Tem bibliotecários dispostos. Mas eles não tem números o suficiente. Por 6 bibliotecários pra um prédio de 3 andares pra 3 turnos é crueldade.

    Vc fala de espaço e material? Ambos faltam tb. Biblioteca é um organismo crescente, espaço (físico) vai acabar uma hora ou outra. Sem apoio do governo, uma biblioteca vive, praticamente, de doações (oq trás a tona a falta do material).

    Não faltam pessoas cultas em bibliotecas. Faltam bibliotecarios, incentivo do governo e, o mais importante, contribuição da população.

    De q adianta fazer projeto cultural se o povo n vai querer ir lá pq a internet é mais prática ou mais barata q comprar um livro?

    Algum dia eu posto algo mais a fundo (ui!) sobre o assunto.

  • Etriell diz:

    @Dan Ramos, Já ouviu falar do “Dia da Leitura” do Senac? Ou da biblioteca móvel do mesmo? Tudo isso existe a anos. Mas o pessoal n corre atras de saber disso.

    Tudo isso é ideia antiga e já em prática. O que falta é divulgação maior e incentivo (nem que seja um tapinha nas costas acompanhado de um “Bom trabalho! Continuem assim!”).

  • Dan Ramos diz:

    @Etriell, justamente, nunca ouvi falar. E acho que o ideal seria um dia da leitura voltado para crianças, na verdade uma boa divulgação e boas atrações agregadas para que os pais se sentissem motivados a levar seus pestinhas e apresentar a leitura a eles sem pagar nada.

  • Matheus Medvedeff diz:

    Prayba, você realmente é um tio exemplar…

    Grande iniciativa a sua de abrir oportunidades para sua sobrinha. Seria ótimo se mais pessoas pudessem fazer isso pelas crianças ao seu redor…

  • @Lauri P. Laux Jr, Mitologia grega é tudo de bom! A medida que amadurecia partia para as outras mitologias como a egipcia, céltica, nordica entre outras. Meus olhos se abriram ao ler os trabalhos do catedrático Joseph Campbell, o que desenvolveu o “mito do heroi” que George Lucas usou e abusou em sua saga Star Wars!
    Em o “O heroi de mil faces” percebemos que as culturas e mitologias da humanidade tem muito em comum…
    Valeu pela visita! ^^

  • @Delibriand, Oi, Delibriand! Habituar adultos a leitura é um desafio grande. Considerando que vivemos em mundo muito apressado e competitivo não sobra muito espaço mesmo. Entretanto, quem cultiva a leitura, cognição e expressão da variada gama de conhecimentos em livros, e outras fontes só tem a ganhar frente a tantos concorrentes.
    Lidar com crianças é divertido e gratificante. Mas orientar um adulto significa criar mais um contador de estorias, mais um multiplicador que irá mostrar os prazeres da leitura.
    Abraços e obrigado pela visita!
    =D

  • @Arquimago, Acredito que muita gente tem estorias parecidas. =D O lado legal é que sou mais uma voz no coro de incentivo. Abraços grandes e obrigado.

  • @Fellipe Soares, Para quem quer incentivar tanto a leitura quanto a “sementinha” do RPG não há ferramenta melhor como aqueles clássicos Livro-jogos. ^^
    O resto vem facil! Valeu pelo incentivo! ^^
    []´s

  • @Maru, Valeu velho amigo! Seja sempre bem vindo! A tv e a internet ainda são ferramentas que se bem aplicadas podem ajudar no resgate de valores de antigamente. Basta um pouco de orientação no caso da criançada e um bom discernimento para os adultos.
    Você sabia que o céu mais lindo de minha vida foi quando na adolescência eu passei um final de semana inteirinho acampando no meio da amazônia? Qualquer céu no escuro e longe da cidade tem todas as estrelas possiveis! =D

  • @A Rpgista, Em um tempo em que não temos tempo nem para almoçar junto com nossas familias qualquer oportunidade é valida para estreitar os laços. Eu ainda sinto falta das noitadas de War e banco imobiliario! Eu ainda não tive sorte de viciar a velha guarda de minha familia no rpg ainda…
    Toda a iniciativa é valida, e procurar os voluntarios e cultiva-los na multiplicação destas iniciativas deve ser tarefa de todo cidadão conciente!
    Abraço grande e obrigado por prestigiar nosso blog!
    ^^

  • @Etriell, O governo está incentivando a formação de professores (vide campanha). De repente Etriel, você pode sugerir e cobrar do governo algo do estilo para os bibliotecarios e outros profissionais da área.
    []´s velho amigo.

  • @Dan Ramos, O Senac, o Sesc, o Sesi entre outras instituições fazem o papel delas. (Afinal todo mundo precisa de alguma valvula de escape para abater o imposto de rende não é?) ;)
    Então se ouvir falar de alguma semana cultural não custa nada passar a bola para o maior numero de pessoas.
    ^^
    Abraços, Etriel!
    Abraços, Don!

  • @Matheus Medvedeff, Um médico legista, colega de meu trabalho, todo mundo leva seus filhos a uma banca de revista e incentiva um “domingo cultural”. Cada filho compra uma revista, livro ou coisa do estilo. Lê e comenta com os pais o que for mais pertinente na leitura. Achei super bacana!
    Legal mesmo é a hipermega coleção de brinquedos de star wars que ele possui! Só podia ser um nerd mesmo, né?
    ^^
    Abraços velho amigo!

  • Etriell diz:

    @Will Figueiredo, Esse lance do dia da leitura é toda quinta (no Sesc e não no senac como havia falado antes) se n me engano e existe a muito tempo.

    Deve ser um abatimento bem grande pra ser toda semana né.

  • Etriell diz:

    @Will Figueiredo, temos o conselho regional e federal de biblioteconomia para isso. Mas não adianta muito se os políticos fazem ouvido de mercador. Você n tem ideia da guerra que o CRB e o CFB travam para consertar isso.

  • Elisa diz:

    Bela estréia, Zé.

    Sou suspeita já que sou defensora dos livros e do hábito de leitura, e leitora compulsiva. Nada melhor para aliviar a tensão e se divertir que ler um bom livro. E no caso, para mim, RPG é uma extensão do prazer de ler.

  • nathalya diz:

    esse texto é um masisimo

  • esse texto e legal .eu adoro historia eu tenho 12 anos estuda na antonia tita marciel de campos e eu moro no (excluído pela moderação) na minha escola eu aprendo muito e gosto da minha profi

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