De Deuses e seus Epítetos

De Deuses e seus Epítetos

Combate entre deuses. Corellon Larethian corta fora um olho de Gruumsh.

Combate entre deuses. Corellon Larethian corta fora um olho de Gruumsh.

Um dos temas mais apreciados pelos jogadores de RPG é a fantasia medieval, um gênero que abarca elementos fantásticos de origem mitológica e elementos medievais de origem histórica. Essa combinação faz surgir ambientações com povos extraordinários, criaturas sobrenaturais, artefatos mágicos e, claro, como o título enseja, Deuses, o ponto central do texto que vocês agora lêem.

A religião, seja com aspectos mono ou politeístas, é uma herança cultural de ambas as origens citadas no início do texto. Devido a isso, a ambientação de fantasia medieval é geralmente repleta de divindades. A importância dessas entidades nesse tipo de gênero não deveria estar restrita aos clérigos ou personagens com forte vínculo religioso. Os comerciantes, por exemplo, também fazem rogos ou votos ao fecharem acordos, os viajantes ao entrarem na estrada, os guerreiros ao combaterem seus inimigos etc. Em cenários que seguem esse modelo, os deuses estão expressos na cultura de um povo de acordo com as atividades desempenhadas na comunidade e as especificidades que as deidades exercem seu poder. Portanto, orientações religiosas diferem de uma sociedade para outra, conforme as suas histórias, lugares geográficos, valores morais, interesses etc. Isso é percebido facilmente na presença de divindades da natureza e da magia em cidades élficas ou da força e da guerra em comunidades de orcs.

Bem… Onde entrariam, então, os epítetos?



Os epítetos, títulos ou alcunhas se associam aos nomes de heróis para qualificá-los, podendo representar, assim, marcas físicas, capacidades particulares, feitos realizados etc. Quem não saberia dizer o nome do príncipe dos ladrões? Essas denominações estão fortemente representadas no gênero épico, um dos que mais influenciou o RPG e que nos revela uma grande importância na singularidade do herói (não entendam, aqui, heróis apenas como os bons moços). Nas epopéias, os heróis são tomados como modelos a seguir, e são celebrados por sua distinção dos demais (disposição evidente em uma sociedade cuja estrutura social é uma pirâmide). Entretanto, essa singularidade tem uma implicação especial na manifestação divina.

Os deuses de fantasia medieval são geralmente bem complexos e seus poderes se exprimem em uma multiplicidade de domínios. Assim, essa pluralidade de setores manifesta-se também na quantidade de epítetos específicos atribuídos aos deuses. Isso significa dizer que ao invocar um deus, um indivíduo deve proferir o título que, em contexto, se relacione com aquilo que foi desejado no rogo. Em situações semelhantes na literatura épica, o nome do deus nem é posto na maioria dos casos, mas apenas um termo qualificador, visto que este figura uma marca singular da deidade.

Da esquerda à direita: Bahgtru; Ilneval; Gruumsh, O Deus Caolho; Luthic; Shargaas e Yurtrus. (A família toda reunida!)

Da esquerda à direita: Bahgtru; Ilneval; Gruumsh, O Deus Caolho; Luthic; Shargaas e Yurtrus. (A família toda reunida!)

Usando como exemplo deuses do mundo de D&D, temos, então, Gruumsh, divindade dos orcs, e Labelas Enoreth, divindade do elfos. O primeiro abarca funções relacionadas à conquista, força, ódio, e o segundo ao tempo, longevidade e história. Esses dois possuem um epíteto em comum: The One-eyed God, traduzido em muitos livros como O Deus Caolho. Poeticidade da tradução à parte, se avaliarmos bem os dois deuses, esse termo seria usado sob as mesmas condições, sob o mesmo tipo de invocação? Não. Pois essas denominações, ainda que representem um mesmo tipo de marca física, possuem contextos e funções diferentes. Gruumsh perdeu seu olho em batalha contra Corellon Larethian, líder do panteão élfico, mas por outro lado Labelas trocou seu olho pela habilidade de ver através do tempo. Podemos, portanto, associar essa alcunha de Labelas aos pedidos de revelar o passado ou de conhecer o futuro, e a de Gruumsh às situações de rogo por vingança ou de ódio aos elfos. A própria ambientação de Forgotten Realms orienta sobre as sociedades devotas a Gruumsh, descrevendo que apenas os seus clérigos têm permissão para proferir tal nome, cabendo aos outros chamarem o deus orc pelos epítetos.

No caso de Gruumsh, o jogo explica claramente a importância dessas alcunhas. Entretanto, se olharmos nos livros de RPG que descrevem religiões e deuses, nós perceberemos que eles estão repletos desses títulos, e muitas vezes sem explicação nenhuma. Dessa forma, cabe a nós trabalharmos tal elemento para dar vida ao jogo.

Da esquerda à direita: Hanali Celanil; Labelas Enoreth, O Deus Caolho; Rillifane Rallathil, agachado; Sehanine Moonbow; Shevarash e Solonor Thelandira. (Parte do panteão élfico)

Da esquerda à direita: Hanali Celanil; Labelas Enoreth, O Deus Caolho; Rillifane Rallathil, agachado; Sehanine Moonbow; Shevarash e Solonor Thelandira. (Parte do panteão élfico)

Em D&D esses nomes podem se relacionar às situações das preces, esferas de influência, escolas da magia, domínios, etc. Um clérigo de Labelas, por exemplo, ao invocar uma magia da escola de adivinhação pronunciaria o epíteto Deus Caolho, pois é nessa denominação que está expressa tal particularidade do poder dessa divindade. Desse modo, no roleplaying, alguém, que visse o clérigo no ato descrito acima, poderia com alguns testes de perícias descobrir outras informações, como intenções ou propriedades da magia, que se relacionadas ao título mencionado ganhariam muito mais significação para o jogo.

O epíteto é um instrumento bastante fundamental para a contextualização do cenário de fantasia medieval e que também pode ser refletido de forma interessante nos pontos limítrofes entre ambientação e regra. Seja qual for o sistema, é sempre possível relacionar de maneira criativa e significativa tais elementos para enriquecer seu jogo. Assim, a fantasia medieval não perde algo intrínseco que são os vários aspectos da religião e do herói.

 

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8 Comentários para “De Deuses e seus Epítetos”

  1. Luiz RGF diz:

    Começou muito bem Felipe! Bem-vindo ao nosso “clubinho”.

  2. vanblacken diz:

    muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiittttttttttttttoooooooooooooooo bom meu velho.

  3. Arquimago diz:

    Muito bom mesmo! Bem escrito, curto, mas não muito. Explora bem suas idéias e chega uma conclusão interessante.

    E claro sempre é bom faalr dos deuses que em alguns livros de RPG são relegados a uma pano de fundo e não seres atuantes na criação(mesmo o livro falando que eles existem e poderiam mudar um continente de lugar).

  4. Rodolfo diz:

    Um dos melhores Livros Azuis “Monster Mythologies”.

  5. Danielfo diz:

    Gostei do artigo. Bem técnico. Algo que gosto de fazer, quando tenho mais tempo,é de moldar os costumes das aldeias e vilas menores à influência de uma divindade particular.

    Se um templo de um deus da morte é muito forte num local, é natural que os dogmas deste deus sejam evidentes naquela localidade. Há um sem número de possibilidades.

  6. Allana diz:

    Eu adoro epítetos, acho que é algo para enriquecer muito a figura de um deus em um cenário. E bem, um epíteto sempre diz algo sobre aquela divindade.

    Belo artigo. ;)

  7. Elisa diz:

    Eu gosto de epítetos, mas nunca tinha pensado em sua importância no RPG. Muito bom o artigo, bela estréia, Felipe.

  8. Magno diz:

    Fantastico, pra provar, que nem só de violência desnecessária sem motivo algum(o que não é mal também) vive o D&D por isso ainda tenho esperanças quando jogo com Felipe de gostar mais de Fantasia ^^

E você, o que pensa?