Racismo e a Quarta Edição

Roedor de ossos e impuro, fora!

Que a Ciência tenha provado que a raça humana seja uma só, não foi suficiente para que tais idéias tenham sido descartadas por todos. Mesmo aqueles mais instruídos demonstram o lado irracional de algumas de nossas atitudes mundanas. O simples fato de um ser, mesmo que similar, apresentar diferenças exteriores óbvias é mais que suficiente para que receba as mais diversas hostilidades. Se nós, homo sapiens, nos comportamos assim entre iguais, o que ocorreria entre dúzias de seres, com uma miríade de pensamentos e aparências?

Na edição primordial de D&D (nosso representante padrão de cenário fantástico), as raças eram: humano, elfo, anão e halfling. Na edição seguinte, foi acrescentado o gnomo e o meio-elfo a essa lista. Já na terceira edição, recebeu o meio-orc no Livro do Jogador. Culminamos na 4ªEdição com uma reformulação da lista básica(maiores detalhes aqui), agora temos: draconatos, eladrin, elfo, meio-elfo, anão, humano, halfling e tiefling, tudo isto no livro básico.

Percebam as implicações dessa última lista, considerando que as raças estão todas equilibradas na mecânica de jogo, as chances de serem escolhidas é praticamente igual para cada uma delas. Deste modo, é possível formar um grupo com cinco aventureiros contendo: tieflings, anão, eladrin, halfling e draconanto. Um grupo sem nenhum personagem humano pode ser mais comum do que antes. A mecânica do jogo encoraja bastante as combinações inusitadas, o que força os jogadores e o DM a criarem (ou desconsiderarem) um histórico verossímil que uniu todos estes integrantes em um propósito comum.

A casa caiu meio-orc!

No novo cenário, os halfings são errantes. Geralmente, povos errantes não são bem vistos,  costumam não ter muito o que oferecer aos povos sedentários, pois nômades vivem com pouco (que para eles é mais que suficiente e por isso são felizes). Halflings nômades poderiam ser mal visto pela sociedade, “Se eles não se fixam é porque não gostam de trabalhar.” dirão uns, “Devem ser ladrões!” difamarão outros. E assim, a honra dos simpáticos pequeninos poderá ser muito abalada. Veja com os hippies são estereotipados e talvez faça idéia do que falo.

Eladrins recebem bônus inicial na Inteligência e têm tudo para, que dentre eles, surja alguma ideia ariana. Eles vieram da Agrestia das Fadas, que certamente lhes darão um ar de superioridade. Possuem pequenas habilidades mágicas naturais, que causam impacto aos mais simplórios (vai dizer que um passo feérico não é legal). A própria longevidade do povo-fada seria fator suficiente para proclamar que a raça é superior as outras. Uma parte do povo, mais esclarecida, poderia tratar os demais seres com um respeito mais racional do que emocional. Como uma boa criança que sabe que não deve maltratar os animais, pelo fato deles serem animais e não porque isto é a coisa certa a se fazer.

E se você viesse de um pais devastado por guerras, de costumes sociais estranhos, hábitos religiosos esquisitos, aparência esquisitona, técnicas de combate nefastas e que afirma que todos os outros povos lhe tratam com desrespeito? Ou você está jogando com um árabe nos EUA pós 11/09, ou então você é um Tiefling. Não importa quantas vezes você diga que salvou o dia, sempre irão achar que há algo em você prestes a explodir.

Eles tem até um careca!

É neste barril de pólvora, ops, nesta esfera da aniquilação que estão sentadas as raças do livro básico. Muitos atos de bravura poderão ser suprimidos ou minorados devido a escolha das raças dos jogadores. Os méritos poderão ser atribuídos à sorte ou vontade dos deuses pelos  beneficiados pelos heróis, o que acabará com a fama e glória esperada. Ou então, a fama e a glória pode recair somente ao personagem da raça não descriminada do grupo (o que geraria uma celeuma entre os heróis).

De qualquer modo, dificilmente os jogadores formarão grupos homogêneos, o que é muito bom. Serão eles um equipe mista, que provará aos seus povos de origem que é possível vencer este preconceito irracional existente, levando uma mensagem de amizade e união, que é a própria essência do RPG.

15 thoughts on “Racismo e a Quarta Edição

  1. O bacana é mesmo gerar históricos e motivações diferentes pra personagem, que no fim acaba se tornando um exemplar diferente de todo o resto de sua espécie (ih rapaz, olha o draconato que anda com eladrin, esse aí camufla…) e assim um personagem complexo, de forma que a segregação – tanto dele no mundo dos outros quanto do resto do grupo em alguma aventura em que ele lide com a sua raça – pode gerar conflitos interessantes.

    Tem grupos que seriam improváveis de outro modo (como uma campanha minha com uma wemic, um drow, um anão, um meio-dragão vermelho, um tiefling, uma humana e um genasi da terra), e nos lugares em que eles chegam são olhados com incredulidade, mas essa estranheza é legal, e também pode ser vista em muitas histórias fora do RPG.

    Post show de bola!

  2. Desde que surgiram os Tiefling, eu me pergunto porque não há em nenhum cenário da WotC, algo próximo a Inquisição.

  3. Esse “preconceito” de raças sempre deu um sabor diferente ao jogo (nem que seja com a rivalidade eterna entre elfos e anões), e levar em conta as diferenças raciais realmente pode enriquecer muito a interpretação. A ideia dos eladrin arianos até surgeiu um pouco no FR, na figura dos elfos do sol (que sempre são elitistas e meio abusado com as outras raças, mesmo entre os elfos, embora nada muito extremista), embora eu acho que um holocausto seria algo bem difícil de lidar.

    Quanto à inquisição contra os tifelings, eu acho que seria algo que acabaria abrangendo muita coisa (afinal, a Inquisição queimava não só bruxas, mas basicamente qualquer um que fosse diferente ou que pensasse diferente), e nos mundos de fantasia quase sempre tão politeístas, acabam surgindo várias outras preocupações (como o culto maligno do deus Xiptulaka, eterno rival do deus bondoso Ssey-Lah-uh-quêh).

    Ademais, ótimo post! :D

    • @Allana,
      Por isso falei algo próximo a Inquisição, como Vanblaken colocou no post dele, existem vários grupos xenofobos em FR, Shadowrun, Rifts, etc.

      Mas, não consigo conceber que num mundo de fantasia medieval, onde conceitos como bem e mal são bem delineados (na minha concepção, os tons de cinza dependem de cada campanha) que uma raça que possui suas origens nos demônios/diabos, possua um estigma social menor ou igual que os anões e humanos sofrem com os elfos.

  4. em FR existe um grupo de elfos que se unem pra tentar exterminar humanos, está Lord of Darkness, eles preferem os drows aos humanos.
    e quanto a isso Shadowrun disse tudo com o Poli club humanos(acho que se escreve assim), o KKK anti-metas.
    e eu como bom humano acrdito, atire primeiro, se está gemendo no chão faça as perguntas, se morreu já era, se olhou pra vc e nem se incomodou com o tiro corra como se não houvesse amanhã.

  5. Quando mestro, prefiro ser coerente com o cenário, sou do tipo que espera construções convincentes para permitir que seres diferentes formem grupos sem uma boa explicação, mesmo que esta, seja eu quem tenha que dar…Mas isto é outra estória.

  6. Sem preconceito nos rpgs, de modo interpretado entre personagens, muita coisa se perde. Desafios são diminuidos, personagens tem uma vida e efeito menor em seu histórico, e sem racismo ou intolerância, muitos vilões perdem a razão de ser.

  7. Ainda não mestrei D&D4, mas já joguei. Concordo com o “algo próximo à Inquisição” que largaram ai em cima…

    Quando eu for mestrar, tieflings e draconatos serão alvo de preconceito sim…
    Analisem Forgotten Realms, onde não existiam draconatos até a sua última edição brasileira. Então os draconatos surgiram do nada, com sua aparências demoníacas e vão ser tratados como humanos? NUNCA. Leia-se draconatos e tieflings.

  8. Então, na 4E já consideram que muitos tieflings são discriminados, tanto é que muitos deles vivem em guetos e bairros próprios, segregados e em condições miseráveis. Então geralmente são vistos com desconfiança. Talvez em alguns locais até existam inquisições. Já os dragonborns em geral são mais bem vistos, pois são um povo determinado e muito honrado.

    Outra coisa é que a guerra entre tieflings e draconatos ocorreu a séculos atrás, então não haveria mais essa inimizade racial, além de vários tieflings não serem de fato representantes da cultura de Bael Turath (ao menos não aquele tiefling ladino do gueto. Talvez aquele mercador tiefling misterioso)

  9. Só uma pequena correção ao início do texto: gnomos, meio-elfos e meio-orcs foram adicionados ao livro básico do jogo todos na primeira edição do AD&D. O D&D 3ed apenas trouxe de volta o meio-orc, raça retirada na segunda edição do AD&D.

    Mas eu concordo plenamente nas questões de preconceito em relação a certas raças. Não há nenhuam razão para humanos (considerados na maioria dos cenários como a raça dominante) gostarem de monstros como meio-orcs ou draconatos. Tiefling deveriam ser caçados e exterminados à primeira vista, pois denotam corrupção da alma. E sempre temos raças como os Wild Elfs que são simplesmente xenófobos e atacam qualquer coisa não élfica. Num cenário como FR onde alguams destas raças simplesmente foram adicionadas a um mundo que já existia, a coisa só deveria piorar.

    • @Igor,
      Acho que a raça que mais sofreu preconceito é mesmo o meio-orc. Sobre as curiosidades de AD&D 1ªedição, que eu realmente pulei (penso-XP para vc) no texto é a classe monge, que também dançou na segunda edição de AD&D.

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