Existem por aí, pela blogosfera rpgística, uma profusão de bons artigos com dicas sobre como se criar um bom(?) vilão. O vilão é aquele inimigo difícil de matar, perigoso de se confrontar e que está sempre criando problemas para os defensores da ordem e do progresso; tirando o sono dos fracos e humildes. E finalmente, o vilão tem que ser aquele cara que, quando morto, faça o grupo comemorar como se tivesse vencido um campeonato.
Agora, dado os incidentes recentes no país, após assistir as últimas cenas da TV-Senado, andei pensando: e se eles fossem convertidos para o jogo? Uma idéia medonha! Vamos anotar as principais características destes seres pérfidos, que há tempos, invadem o noticiário nacional.
Poder político e corrupção
O vilão brasileiro precisa descender da elite local, afinal, as classes comuns não lhe dizem nenhum respeito, servindo meramente de massa de manobra. Contudo, ele sabe que a plebe organizada poderá representar problemas e ele nunca quer que isso ocorra.
Uma das suas estratégias é criar segregação entre os aldeões. Um vilão, com poder político, poderia criar impostos, de índices diferenciados para cada grupo de artesãos da cidade. Deste modo, as categorias mais beneficiadas pelos coletores seriam mal vistas pelos outros artífices. O vilão poderia aumentar o imposto sobre os tecidos e reduzir sobre as ferramentas e assim criar um antagonismo entre os tecelões e o ferreiros.
A tendência seria que protestos dos tecelões, para reduzir impostos, implicariam em prejuízo para os ferreiros, que teriam aumentada a própria carga tributária, o que acirraria os ânimos entre os grupos. Não tardaria para que os representantes destas guildas chegassem ao político para fazer “um acordo”. Tal resultado já era pretendido pelo ardiloso vilão desde o início. Porém, ele manipulou os artesãos para que a idéia da corrupção dele próprio partisse dos oprimidos e não do maquiavélico opressor.
O vilão ganha o dinheiro dos impostos, mais um agrado por fora, para garantir que os impostos não aumentem. De brinde, recebe a aliança das guildas, que acreditam estar no controle da situação. Em pouco tempo, ferreiros e tecelões, que fizeram o acordão, formarão a base de sustentação popular do corrupto e pouco se importarão se os camponeses e oleiros estiverem em prejuízo. O devasso conseguiu corromper grupos da base da pirâmide social e trazer para perto dele. Note que ele tanto poderia ser o líder da cidade, quanto uma pessoa influente no comando(um senador ou similar), mas é certo que com o tempo e apoio das categorias privilegiadas, ele ascenda ao poder, é só questão de tempo.
Parentes, Agregados e Aderentes
O vilão brasileiro é longe de ser uma criatura solitária. É muito comum nos prelúdios que os jogadores tenham poucos ou nenhum parente (geralmente ele tem pais mortos, não tem filhos, não gosta de mulher…). Para se contrapor a isto, o vilão brazuca vem de uma família numerosa: 1d4 irmãos, 2d6 primos, 1d10 sobrinhos, 1d8 tios e 1d12 agregados( que envolvem cunhados, namoradas, amantes e amigos íntimos).
Todo este séquito é composto de uma camarilha de preguiçosos, parasitas e presunçosos, que dependem vitalmente da influência do padrinho. O grau de dependência é tanto que mexer com o vilão é brincar com um vespeiro. Os parasitas devem dependência cega ou gratidão irracional ao parente e colaborarão com este em todas as estratégias sórdidas.
Morto o cabeça, o parente mais bem inteirado das práticas malignas rapidamente assume o lugar. Ao contrário dos vilões europeus medievais, o vilão brasileiro não costuma erradicar a linhagem do antigo patriarca. Não só cuidará de todos órfãos, como estará disposto a vingar a honra da família, e não medirá esforços até que a vendeta esteja concluída. O único calcanhar de aquiles na família do vilão brasileiro é alguma eventual ex-esposa ou viúva, que por ventura tenham ficado sem nada. Movida pela vingança e vergonha da ruína, ela será a única que poderá colaborar com os heróis.
Dinheiro e traição
O típico vilão brasileiro é muito bem de vida. Veja como um dragão verde-louro seria.
O dragão comum dorme em montanhas de ouro e gemas, devidamente pilhadas de criaturas mais fracas e aventureiros menos afortunados. Esperto, o dragão de sangue tropical sabe que não se deve deixar tudo na mesma “dungeon”. O dragão, muito espertamente, deixa em local de mais fácil acesso todas as peças de cobre e prata do seu tesouro, juntamente com as pedras semi-preciosas e reluzentes peças de vidro colorido, para dar mais charme ao tesouro e fazer aparentar mais valor do que tem. Caso o dragão perca este tesouro, a perda não será tão grande.
O dragão nunca deixa todo seu tesouro em um só local. Os itens mágicos de menor utilidade para o monstro, como uma espada vorpal-dragonslayer-holy-avenger(um estrago em mãos certas ou erradas), ficaram muito bem mais protegidos se estiverem enterrados sobre 10 metros de rocha sólida, coberta com uma fina camada de chumbo.
A parte mais valiosa do tesouro do dragão: o ouro e platina, é escondida sobre forte proteção. O dragão destina parte destes recursos como pagamento aos monstros que zelam pela segurança auxiliar de seu covil. Todavia, ele também faz o favor de guardar o pagamento dos servos no mesmo cofre onde guarda o próprio tesouro, cobrando pequena quantia pelo serviço. Os monstros agora lutarão com mais afinco para proteger o tesouro do dragão, visto que suas próprias economias poderão também ser saqueadas pelos ambiciosos aventureiros.
Por fim, este brasileiríssimo réptil, será esperto o bastante para deixar parte dos seus investimentos infames investidos na forma de terras. O dragão financia um chefe orc para que faça um forte, encha de outras criatura vis e cumpra favores para este dragão. Vitaminando este orc, o dragão terá parte do tesouro convertido em animais, escravos e terras, que o sabe que são dele, mas que todos os aldeões das regiões próximas acreditaram serem do poderoso chefe orc. O laranja-orc sabe muito bem que ir de encontro aos interesses da fera, só fará com que a criatura invista seus vastos recursos para ampliar o poder bélico do Lorde Robgoblin, do outro lado do vale, e que ele terminaria como o último rei Gnoll, que desobedeceu o dragão e foi morto no cerco orc. Assim, o subserviente chefe continuará mandando os 80% dos lucros das pilhagens para algum atravessador, que transportará os valores para algum lugar nos montes tropicais, em alguma ilha onde o monstro vive.
Fuga e retorno
O que torna o vilão brasileiro mais nefasto é sua incrível capacidade de escapar das mais inequívocas situações de morte certa. Monstros como vampiros e liches tem a capacidade de retornar após serem destruídos, caso os heróis não tomem os devidos cuidados. Como nem todos podem fazer isto, um vilão sempre tem um plano de fuga. E um vilão brasileiro, sempre foge em primeiro lugar. Ele nunca tem coragem de enfrentar ninguém cara-a-cara. Mesmo sendo um guerreiro de 20º nível, o vilão brasileiro prefere fugir velozmente, em sua montaria alada negra, do que fulminar um grupo de heróis de Nível de Desafio similar ao dele.
O vilão brasileiro também prefere ser visto como vítima de uma grande armação contra ele. O nefasto vilão vampiro, quando desmascarado por um jogo de espelhos, preferirá dizer que algum ilusionista hábil fez sumir seu reflexo, do que admitir sua condição cadavérica e enfrentar os acusadores.
O vilão brasileiro também possui um grande arquivo de seus inimigos, com várias acusações que desabonem a conduta heróica dos oponentes: ofensas a algum nobre, fuga de prisão, morte de pessoas inocentes, perturbação da ordem pública, etc. O vilão fará com que todos pensem que os atos contra sua natureza e atos malignos, sejam frutos do rancor e inveja pelo seu sucesso. O vampiro marcará um desafio ao meio-dia, na praça principal, contra os heróis para provar que não é um vampiro. Mesmo que no dia seguinte, ele alegue compromissos urgentes, que o fizeram partir, mas sem antes mandar um presente bonito, pela gentileza dos cavalheiros, que tão pontualmente compareceram ao duelo.
Mesmo que seja destruído, o vilão brasileiro, terá um plano de ressurreição preparado, para quando tudo mais falhar. Alguns sacerdotes deverão já ter recebido adiantado o valor de uma eventual ressureição e haverá servos confiáveis que levaram o corpo do maldito para o templo combinado. Nada pior do que saber que o vilão, a duras penas derrotado, retorne glorioso do ostracismo, quatro anos depois.






Comentários (11) »
Hey, faltaram os Piratas do Tietê! Menos influentes que a corja da Cúpula do Trovão, mas ainda assim brasileiros, e vilões interessantes! Quero ver os PJs enfrentarem o Sindirata!
PS: é que eu li esses quadrinhos do Laerte recentemente, e me empolguei: os PdTs (quase PT…) em uma partida de RPG seriam massa!
A imagem do “Vampiro Brasileiro” ficou tão engraçada quanto uma foto de Chico Anísio…
hehehe
Muito bom. Quase me mijo de rir.
Muito bom o texto!
Quando vemos valores altos de inteligência na ficha de um vampiro, dragão ou lich, acho que seria assim que eles agiriam, eao invez de ficar trancado na masmorra esperando um grupo de aventureiros para lutar até a morte. Ao primeiro sinal de possível destruição o vilão daria no pé, deixando só os capangas pra morrer!
Muito bom… excelente descrisão de um vilão nos moldes tupiniquins… Bom post, bom material para se criar um vilão e infelismente uma triste realidade para o nosso país!
@Leonardo,
Uma verdadeira tristeza.
Não tem foto de petralha não? Seriam todos heróis?
Faltou citar os vilões que “dão cabo” nos proprios parentes para mostrar poder e influência.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092001000200005&lng=e&nrm=iso&tlng=e
O Duquinha, citado na matéria, foi prefeito da minha cidade até o final do ano passado e pretende voltar daqui a quatro anos…
Que pena a terra brasilis ser assim. Que pena…
@Alexandre Fnord,
Li o artigo, bem interessante. Mas acho q políticos que matam parentes são a exceção.
Sempre há conflitos familiares, como o caso de Pedro Collor e o fim de PC Farias, mas a estrutura básica do poder não chega a ruir.
@salvador,
Claro que são! Quanto dinheiro não regataram bravamente nas cuecas?
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