Continuando a série, hoje abordo um atributo do qual supostamente não há muito o que falar. A Constituição é um dos mais queridos atributos, afinal reflete-se nos pvs, nas resistências e na linha Storyteller- com o nome de Vigor- na absorção do dano. Mas em que um atributo tão prático afetaria uma estória?
Esta é uma habilidade física, que em primeiro lugar, afeta a descrição do personagem. Os mais vigorosos tenderiam a ser maiores que os indivíduos medianos da raça, o inverso para os mais frágeis. Um personagem muito forte, porém baixo, poderia ser um exemplo de alta Força com baixa Constituição. Um PdJ grande tem mais massa corporal, logo suportaria mais dano, sem necessariamente implicar ter músculos esmerados.
Outra implicação é a saúde: altos atributos são beneficiados com uma alta imunidade contra agentes patológicos. Tal lógica poderia ser invertida para criar um prelúdio. Um ladino com Constituição baixa cresceu em uma época de peste, portanto tem este atributo reduzido. O mesmo poderia vir de um halfling, que viveu numa época de grande seca e fome, e apesar de hoje estar se alimentando bem, as seqüelas nos atributos foram permanentes.
O jogador e o mestre podem cooperar para criar algo interessante, que una personagem e cenário de maneira convincente. Nos casos acima, houve uma grande seca na região do halfling e um praga na cidade onde morava o ladino; tais eventos podem ter sido ocasionados de maneira natural ou terem sido provocados. Ambas as localidades poderiam erguer altares aos deuses para impedir que tais tragédias se repetissem, até que um vilão macula o templo! Deste modo, você usa um valor de habilidade para incrementar um prelúdio, que vira base para uma estória, da qual o personagem se sente impelido a participar.
D&D vai mais além: a mecânica do sistema gera raças com ajustes nos valores de habilidade. Elfos e Anões possuem ajustes no referido valor, um negativo e outro positivo. Como isto moldaria a cultura de ambas as raças? Elfos tendem a ser mais frágeis e delicados e anões mais robustos e brutos.
Os seres racionais acabam projetando suas principais caraterísticas nos objetos e animais, se identificando com estes no processo. Sendo vigorosos, os anões se satisfariam com ornamentos mais imponentes e rústicos. Se o sujeito agüenta cinco clavadas na cabeça, (graças aos bônus nos pvs) pode dormir num colchão duro. A mobília áspera informa ao visitante que ali não é lugar para fracos e polidos. A decoração e arquitetura tenderia a ser mais linear e imponente. Grandes e pesados portões e imensos baluartes escavados em rocha dura são projeções do espírito anão, oriundo da alta resistência da raça às intempéries.
O pensamento dos elfos seria exatamente o mesmo dos anões, mutatis mutandis. Porém, por serem mais tenros, os elfos se solidarizam com as formas na natureza que mais se assemelhem com eles: as flores, a água, a madeira, a argila, os metais. O elfos não tentam enfrentar a natureza e sim se aproveitar da força desta. Na arquitetura usariam arcos, aproveitariam a ventilação natural, moldariam seus tijolos de maneira sustentável, tudo para erguer arranjos mais confortáveis e fáceis de construir. Como a Constituição também representa a resistência à fadiga, os elfos não gostam de se desgastar com trabalho pesado, sabem que possuem muito tempo para terminar a tarefa e tenderiam a transformá-la em prazer. A mobília dos elfos seria totalmente voltada para o conforto e o relaxamento, o vestuário seguiria esta mesma tendência. Tanto elfos quanto anões são bons ferreiros, mas enquanto o anão se preocupa com o produto final, o elfo está empenhado no processo de criação. O metal é rígido, mas também maleável e cada raça veria nele suas melhores virtudes. Perceba que mesmo um atributo, que no jogo é considerado ruim, poderia ser visto como sinal de sabedoria, mesmo sendo baixo.
Um último aspecto é a morte. Nas edições recentes de D&D, a morte perdeu prestígio devido a imensa facilidade em reviver os mortos. Sou plenamente favorável à perda de Constituição após uma ressurreição. Para o personagem morto representaria um trauma desta trágica experiência, mas para o jogador, uma intimidação eficaz. Xp você ganha fácil, atributo já é outra estória.
Outro teste que havia era a “chance de ressurreição”. Não basta ir no clérigo da esquina e mandá-lo reviver o defunto. O morto tem que conseguir escapar da sentença da Morte (Habeas Spiritum). Cada ponto de constituição daria ao personagem 5% de chance de retornar à vida com sucesso, para tentativas de trazê-lo de volta com magia inferior a Ressurreição Verdadeira. Desta forma, quem está morto tende a ficar morto de vez. Estórias com personagem com vidas infinitas beiram ao ridículo e estragariam os melhores clássicos da literatura. A Vida é bela, mas a Morte é terrível.
Até o próximo capítulo desta série.
Só nao sei se concordo com a idéia de grande constituicao grande corpo… como o atributo espelha saúde, um sujeito meio pequeno, mas que vive na rua, toma chuva, fica sem comer ou come restos por dia, e ainda assim aguenta trabalhar seria um exemplo de alguem com alta constituicao. também nao o impede de ser resistente =P
@Azuil,
Certamente, a constituição tem o aspecto saúde, como falei, que é mais interna do que externa, além da resistência ao cansaço.
A questão é que enfoque vc quer dar a descrição do personagem para se adequar ao valor do atributo.
Mas @Azuil, geralmente quando se pensa em um sujeito mirrado e pequeno tem-se a convenção de que ele não é lá muito saudável, igualmente se associa saúde e resistência a gente parruda. Os casos que vc citou não são o “geral”.
Primeiramente parabéns pelo texto e pelo tema mas assim como o Azuil eu discordo no ponto da constituição interferindo no tamanho do camarada, quanto maior a constituição maior o cara.
Eu acho que isto está muito mais ligado a força, veja que nas competições de homem mais forte do mundo os menores competidores têm 1,80m de altura e com quase todos acima dos 100Kg.
Eu associo a constituição a idéia do maratonista que aguenta o castigo da modalidade, o mendigo que vive no meio do lixo sem ficar doente e o boxer que aguenta várias pancadas sem cair; e nenhum destes casos tem a ver com a “parrudez” do sujeito.
Apenas para completar o que junior disse.
Garanto que 99% dos maratonistas possuem mais Constituição, do que 99% dos jogadores de basquete…
@Rodolfo,
Certamente Rodolfo, vai depender do enfoque que vc quer dar ao personagem. A constituição também está ligado ao ato de realizar tarefas penosas, por longos períodos.
Na minha opinião, constituicao está diretamente ligada a massa corporal. No sentido de tamanho do individo, nao de musculos.
Um gigante tem mais constituicao do que o Hercules por exemplo, mas o Hercules pode ser bem mais forte.
Excelente pensamento Elfo! Uma coisa que sempre falta em jogos de fantasia é exatamente a cultura dos povos/raças/etnias, e é muito bom ver quando alguém faz o exercício de análise comum ao nosso mundo (a cultura sendo um reflexo da vida que o povo leva e de quem ele é), dá aquele estalo na mente “Eita, é mesmo!”
Massa é o d6. Força é vigor, Percepção é carisma e Mecânica além de ser atributo, serve para montar cavalo.
kkkkk
Eu entendi errado o que o elfo tinha falado, mas ele me respondeu o que eu queria saber, eu havia entendido que o que ele achava é que personagens com alta constituição eram grandes, mas ele havia dito sobre o enfoque que o jogador quiser dar ao atributo. Eu falei magro Ramos, e nao mirrado xD o que tambem nao impede um cara mirrado(fraco) de ter boa saúde =)
@Azuil, nada impede, mas não é a predominância, é? Bibona.
@Elisa, justamente: nada impede = não predomina, apenas… nada impede.
Falei logado com o nome de Elisa. #EPICFAIL!
Maaassa. Eu realmente nunca tinha parado par pensar como um ajuste racial de constituição poderia afetar a cultura de certa raça. Interessante ver as coisas sob esse ponto vista.
[...] série de artigos explanei sobre os Valores de Habilidade. Carisma, Constituição, Destreza, Força e Inteligência foram tratados e finalmente cheguei ao último deles: [...]