d20-preto

Milagres acontecem

Não, não estamos fazendo um jabá deste blog (isto aqui é jabá). Estou pegando carona no último texto de Allana, para dirigir-me, desta vez, aos jogadores. Falo do momento mágico em que a sorte está conosco e obtemos um sucesso decisivo nos dados, seja ele 3,10 ou 20.

No último capítulo da Sonata das Sombras ela narra:

Percebendo a brecha na defesa do morto-vivo, o meio-elfo rapidamente se aproximou, aplicando um golpe certeiro no joelho da criatura.

Veja a diferença para esta cena:

Theros brandiu seu martelo pesado de batalha de maneira certeira, esmagando o crânio de um dos zumbis. Isso não foi capaz de desabitá-lo por completo…


Em ambas as narrativas,  os monstros não foram destruídos, mas na primeira, há uma uma aura de perfeição no ataque desferido. Onde quero chegar com isto?

Eu só acerto com um 28.

Eu só acerto com um 28.

Em alguns casos, desafios são quase impossíveis, mesmo para todo um grupo de aventureiros. Veja esta cena do Hobbit:

O dragão arremeteu mais uma vez, mais baixo do que nunca e, no momento em que se voltava para o mergulho, sua barriga brilhou, branca, as chamas das gemas, faiscando no luar – exceto num ponto. O grande arco zuniu. A flecha negra voou da corda direto para o vazio do lado esquerdo do peito, perto de onde saía a pata dianteira….Com um guincho que ensurdeceu os homens, derrubou árvores e partiu pedras, Smaug arremessou-se em chamas pelo ar, virou-se e caiu das alturas, derrotado.

No livro, Bard é aclamado, como salvador. E no jogo de RPG, já imaginou o que teria acontecido?

Mestre: Para multiplicar o dano no dragão você precisa acerta em um ponto específico do corpo dele, que só se revela quando ele voa.

Fulano, jogando com Bard: Tudo bem, meu personagem sabe deste detalhe. O dragão não já está voando quebrando tudo? Vou tentar o tiro, com a minha flecha negra, ela é mágica e causa dano dobrado em dragões.

Mestre: Tudo bem, você pode combinar os multiplicadores se acertar a falha das escamas. Mas o dragão está voando alto e você está tentando atingir uma parte específica muito pequena do corpo dele.

Fulano: Tá! Eu espero ele descer para baforar. Quando ele tiver bem baixo, eu atiro.

Mestre: Ok! Ele veem vindo e vai baforrar em você.

Fulano: Não ainda! Eu atrasei minha ação e vou flechar agora.

Mestre: É mesmo. Faça o ataque, depois ele te ataca.

Beltrano: Tu só acerta com 20 e o dragão te mata em uma rodada! É melhor pensarmos em outra coisa.

Sicrano: Agora já foi! É melhor a gente fugir e encontrar os anões…

Fulano: Lá vai…20!!! 20!!!20!!!

the_death_of_smaug

Duvido tu acertar

Certamente -em jogo-  ao contrário de toda a cidade de Esgaroth, os demais pjs serão os únicos que não aclamarão Bard. Eles sabem que o dragão só morreu porque o jogador conseguiu um acerto decisivo, o mestre fez o dragão cair e levar o dano da queda também. Se não fosse isto, Bard estaria morto.

Reparem na inconveniência de um jogo de muitos protagonistas. Todos querem todos os méritos o tempo todo, mas nem sempre isto é possível. Há sessões em que apenas um jogador poderá ter o momento decisivo. E quando tem êxito, isto obscurece os demais.

Os jogadores poderiam gastar um pouco da interpretação para enaltecer os colegas pelos feitos deles, de vez em quando, mesmo que eles saibam que foi tudo fruto de uma sorte imensa nos dados. Ou pelo menos se calarem. O que fica chato é ter um cara sempre cortando a onda do jogador sortudo. Fica muito estranho, dizer por aí, em ON, que o colega deu um golpe de sorte, já que no RPG, tudo é sorte. E essa nunca fica do lado dos incompetentes.

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