elf_by_sandaraPensem bem, uma raça que vive por séculos: belos, poderosos, sábios e imortais. Invejados e amados com igual veemência. Já se perguntou por que os elfos não dominaram todos os cenários de RPG em que se encontram? Ambientações por aí lançam vários argumentos: invasões por elfos negros, saída do mundo para uma terra além-mar, um grande dragão assolando a terra; sempre uma desculpa fantasticamente esfarrapada para evitar o inevitável, mas esqueceram do óbvio…

Xharlion e Allissa se apaixonaram em um eclipse lunar de verão e começaram a namorar. Logo os sprites espalharam a notícia, que chegou aos ouvidos do pai dela, Sylvar Arjen Ryevar, que conversando com as árvores, descobre que o elfo é duzentos anos mais velho que a filha. Preocupado com a diferença de idade o pai se posiciona contra o relacionamento. Não permitiria que a sua bela filha se envolvesse com um elfo,  que partiria para o Oeste bem antes dela, deixando-a solitária por séculos, até que a própria tomasse o barco.

Sylvar chamou o pretendente e avisou que aquele relacionamento não teria futuro. Pelos anos de namoro que tinham, já se estava perigosamente próximo de quando um noivado deveria ser formalizado, sendo ele bastante claro nas razões de repúdio ao ato. Após anos de protesto dos amantes e familiares menos conservadores, a garota é levada para longe do amado, para que em outro lugar esquecesse do primeiro amor. Ela, com um sesquicentenário de vida, ainda era muito nova para pensar em casamento, segundo a mãe, que explicou os motivos da contrariedade paterna. Para o patriarca da família, depois dos duzentos, ela estaria mais preparada. Porém, após três décadas, a vigilância de Sylvar já não era tão intensa. Allissa tentou rever o namorado, mas descobriu que ele tinha feito amizade com humanos e virado um aventureiro. Depois de muitos encontros secretos,  em seguida a uma jornada, ela recebeu um anel de noivado, que o próprio Xharlion havia forjado, mas que a morte não o deixou entregar. E assim, como o eclipse, o primeiro amor se foi.

...até que o Oeste vos separe.
…até que o Oeste vos separe.

Após uma década de luto, o pai da jovem se preocupou seriamente com a situação. Sendo motivo de extrema preocupação familiar  ter uma descendência infértil, passou a incentivá-la a fazer atividades externas, para que a filha conhecesse pessoas da mesma idade. Já Laerune se preocupava bem mais com o coração entristecido da filha do que com as convenções sociais e controle demográfico élfico. Vinte anos após a morte de Xharlion, ela conheceu uma nova pessoa, que havia nascido com menos um século de diferença dela. Sylvar aprovou sem restrições o relacionamento, tendo em vista a idade e a honradez  do pretendente.  Orist Freani Sihar, de uma família de oleiros, conheceu Allissa em uma aula de cerâmicas, namoraram o tempo usual, noivaram no tempo devido e marcaram o casamento.

O casal começou os preparativos da festa. Primeiro, a lista de parentes. Orist tinha um irmão meio-elfo, que havia casado com uma mulher que deu a este, numerosa descendência entre os humanos. A lista aumentou sensivelmente para o noivo. Depois começaram a pensar nos amigos mais chegados, o gnomo do jardim, os sprites das flores, a velha ente onde gravaram juras de amor, amigos do peito que os séculos de vivência construíram, os amigos humanos de Xharlion, pelos quais Allissa conservou grande amizade. Por exigência familiar, foram convidados conceituados professores de magia e nobres instrutores de espada cantante, representantes da nobreza e um sem número de membros da alta sociedade.

O preço da comemoração superou a expectativa, os unicórnios puxando a carruagem tiveram que ser substituídos por hipogrifos. O uísque 120 anos, trocado por 80 anos. A decoração tons de Mithril, trocada por dourado, mais barata. A iluminação por Raio de Luar, virou por Luz Contínua. A comida teve que ser aumentada devido aos convidados humanos não gostarem da regrada comida élfica. Mesmo assim, a festa foi linda!

Beba todo seus hidroleite
Beba todo seu hidroleite

Anos de amores se passaram e veio um lindo bebê, de olhos que luziam como estrela, recebeu o nome de Xharlion. Como todo o recém-nascido, apresentava um ciclo de sono irregular, chorando a toda hora. Como os elfos enxergam bem no escuro, em suas terras natais, costumam dormir em pequenos intervalos durante o dia e a noite. Já o bebezinho, nunca sincronizava seus horários de sono com o dos pais – o neném dormia por longos períodos seguidos, ficando outro tanto acordado ininterruptamente, forçando os pais a se manterem acordados por horas a fio. Até pensaram em contratar uma babá humana, mas se preocuparam da criança acabar não se acostumando com o ciclo élfico de sono. O jeito é esperar alguns anos, até que o bebê abandone aquele ciclo de dormida tão ordeiro. Allissa era a que mais sofria com isto, visto que passava mais tempo com Xhar sob cuidados.

Um bebê elfo exige extremos cuidados, a frágil criatura precisa de mais atenção do que bebês de outras raças. Mesmo após dez anos de nascido, quando diminuem os cuidados extremos, já aprendendo a falar e sabendo andar, outra carga de atribuições são conferidas aos tutores. Trocar os lençóis de xixi, pintar e repintar as paredes riscadas da casa, repor as coisas quebradas, remover o menino das árvores seculares e passar curativos nos ferimentos por alguns anos. Sorte que depois de uns vinte e cinco anos, estes tipos de incidentes diminuem.

Quando as crianças elfas estão mais crescidinhas e começam a se juntar em bandos, estão no auge da inconseqüência, simplesmente a razão e os conselhos estão muito além da compreensão das pequenas mentes feéricas. Certos pais, em atitude reprovável, chegam a soltar seus “eladrins” próximo de aldeias humanas, para que os “duendes” extravasem a energia que têm durante a noite, o que origina as crenças humanas sobre pequenas e terríveis fadas. O pequeno Xhar não foi exceção, levado pelo velho tio meio-elfo, que não gostou do tratamento que recebeu de uma aldeia vizinha a que morava.

Você lembra da minha voz...
Treinei por décadas, ganho quanto de bônus?

Finalmente, aos setenta e cinco, alguma responsabilidade. É a época da escola pública obrigatória e é neste momento que os problemas dos pais mais crescem. Quando iniciam os treinos fundamentais de espada e arco e as aulas básicas de magias, novos problemas! O menino quebrou os ovos de hipogrifo da aula de Bestiaria, apanhou do centauro da turma, conjurou fogo “sem querer” nos grimórios da biblioteca de Invocação, acertou uma flecha na bunda do Professor de Antropodendrologia Arcana, engarrafou um sprite, encheu de água a garrafa e vendeu como bebida no baile de fim de década.

Achando pouco, jogou pedras na caverna do ogro, roubou o pégaso da classe de “Combate Alado II” para passear com a namorada, reprovou na aula de “Forjaria de Anéis de Poder”, foi expulso da turma de “Xenofobia contra anões”, ficou cego no curso de “Combate Mágico Simulado III”. Se inscreveu no “Curso prático de luta sob penalidades”, recuperou a vista como cobaia nas aulas de “Cura Avançada I”, foi traído pela namorada, arrumou outra, traiu esta com a antiga. E ainda, abandonou o curso de “Geografia Extraplanar”, concluiu com louvor a cadeira de “Idiomas Antigos”, roubou a Gema Arnor para presentear uma ninfa pela qual se apaixonou, sendo assim expulso da Escola quando faltava pouco para terminar.

Os pais, já cansados de irem à direção tantas vezes, se viram enrascados, de longe este foi o mais caro prejuízo causado por Xharlion e bem acima das peraltices dos elfos da idade dele. Sem condições de pagar o prejuízo e sequer de arcar com as conseqüências sociais disto, Orist e Allissa tiveram que se desgastar ao máximo para tentar compensar parte do dano gerado. Uma pequena fortuna foi oferecida pela Escola para quem recuperasse a Gema de Arnor, mas a ninfa era muito esperta e perigosa.

Xharlion, se sentido mais enganado do que culpado, vai até a escola, forja um anel para localizar a Gema de Arnor, cujo brilho ainda restava nele. Rouba de novo o pégaso, descobre uma ente e conversa com a planta descobrindo o que teria de enfrentar. Vai até a gruta da ninfa, mata à flecha um centauro enfeitiçado que protegia a entrada. Afugenta com fogo mágico o troll que estava no interior da caverna, mas é pego desprevenido pela beleza radiante da ninfa.

Já tou no 20º aos 130, faço o que nos outros séculos?
Já tou no 20º aos 130, faço o que nos outros séculos?

A bela malfeitora, com um punhal tenta esfaquear Xharlion pelas costas, mas este concentrado nos sons dos passos da inimiga, esquiva e a perfura com a lâmina certeira o coração. O anel indica a localização da gema e com um assovio chama o pégaso. Voa  de volta para Escola, entregando a Gema de Arnor para o Diretor e exigindo a recompensa.

Retorna para casa, restaurando a honra e fortuna da família. Pouco depois Allissa e Orist vão à festa de conclusão de curso do jovem Xharlion, com cento e quinze anos completos. Sabiam que Xhar foi um aluno muito bom e dificilmente desejaria passar mais tempo apenas em áreas élficas, quando há terras  tão vastas afora. Enquanto o filho comemora, ambos se entreolham sabendo que logo perderiam-no para o mundo e pensam em ter outro. Lembram-se de tudo que passaram juntos com Xhar…franzem o cenho… e acham melhor esperar uns cem anos para terem o próximo.

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