RPG, da ordem ao caos

Tempos de decadência

Tempos de decadência

Hoje resolvi investigar as causas primárias, as bases de formação lúdica que trariam afinidade entre brincadeiras do passado e jogos do presente. O RPG, no Brasil, é um fenômeno dos anos 90,  mas em um passado não tão remoto, os jogos de imaginação não se resumiam ao mero role-playing. Havia vários outros jogos.

Na infância “oitentista”, existiam  action figures os bonecos.  Quem teve algum (coisa que naquela época era muito comum), deve se lembrar que os meninos simulavam uma reconstituição alternativa dos episódios da TV e em uma brincadeira coletiva, todo mundo acrescentava um pouco da sua criatividade à “estória”. Brincar com bonecos não era muito diferente de brincar de RPG. As meninas também tinham sua parcela de jogos de interpretação, mas me arrisco a dizer que brincar de casinha era bem mais focado em interações sociais do que em ação. Enquanto os meninos brincavam com os Personagens, as meninas brincavam com os NPCs (LOL).  Mas independente das tramas que eram construídas, ambas tinham suas complexidades de interação.


Além das brincadeiras com bonecos de seriados de televisão, tínhamos as clássicas brincadeiras tradicionais.  Travesseiros viravam espadas, dedos eram armas laser e todos poderiam voar (até a primeira fratura provocada pela queda).  Acho que as fantasias de Super-homem devem ter levado mais crianças ao hospital do que as que vestiam as do Homem-aranha, pois estes não ficavam saltando de um local alto  gritando “Para o alto-e-avante!”.

Polícia e ladrão, após lei do desarmamento

Polícia e ladrão, após lei do desarmamento

Outro jogo muito legal era o de Polícia e Ladrão (índio e mocinho, cowboy e bandido ou nome similar) que consistia em tentar acertar o oponente com tiros imaginários. Bastava apontar o dedo para um adversário desprevinido e gritar BANG, ele estava morto – um exercício de furtividade e percepção. O  jogo polícia e ladrão, creio ser o pai de  Paranóia. Em Paranóia todos ficam doidos para matarem todos antes que algum maluco o mate antes.  Em P&L é a mesma coisa, ou você mata ou morre! E como em um RPG qualquer, do mesmo modo que existiam tiros imaginários, também existiam coletes imaginários, esquivas imaginárias, miras laser imaginárias e se bobear até granadas imaginárias. Contudo, em P&L, geralmente, a brincadeira acabava numa grande confusão, sempre com discussões para saber quem acertou quem. Só que isto sempre terminava do jeito que começou, sem solução.

Mas eis que surgiu o RPG, com suas regras bem elaboradas e seus equipamentos bem definidos. Agora era possível saber se realmente o atirador teria acertado o tiro,  se ele  errou e até mesmo saber se o alvo escapou do ataque esquivando. Os detalhes vão além do esperado – 0 tiro talvez não tivesse matado o alvo e este pudesse reagir, graças à jogada de dano e absorção, seja por vigor ou armadura. Mas não há defesa que resista ao implacável arsenal de armas que agora está a nossa disposição nos jogos. Nada de dedos apontados e gritar BANG, chegamos à perfeição!

Porém, uma típica sessão RPG  é assim:

Um grupo de mercenários super-equipados caçam um esperto ladrão fugitivo. E o encurralam num galpão escuro.

Mestre: Vocês o perseguem até o galpão abandonado. E agora?

Jogador-1: Morra, bandido! – eu atiro nele; declara ação já rolando o dado e acertando com o valor mínimo.

Mestre: O ladrão está usando um chip camuflador na  armadura,  você tem um redutor de -2 no tiro. Seu  ataque errou!

Jogador-1: Meu personagem tem um visor especial, que anula os benefícios de camuflagens holográficas até nível 3.

Nunca subestime jogadores bem equipados

Nunca subestime jogadores bem equipados

Mestre: A área está bombardeada com rajadas iônicas. Seu visor e armas não funcionam. - Surpresos, idiotas? Vocês deveriam ter…

Jogador-1: Qual a área de efeito da rajada iônica? Você deve ter usado uma mina para me prejudicar, e dependendo da área de efeito eu não teria sido atingido.

O mestre para o jogo, consulta o livro após pressão dos jogadores e pergunta:

Mestre: Quem estava na frente?

Jogador-1 : Eu estava por  último! Minha arma tem o maior alcance, não tem para quê eu andar na frente.

Jogadora-2: Eu sempre vou atrás, porque eu tenho poucos pvs!

Jogador-3: Eu tinha dito que ia entrar pelos fundos. Porque queria pegá-lo desprevenido.

Jogador-4 : Eu estou na frente, mas lembre-se que as rajadas iônicas afetariam também o chip camuflador e eu posso atacar o ladrão com minhas facas de arremesso.

Mestre: O ladrão tem o chip camuflador protegido contra contra rajadas iônicas; ele continua camuflado.

Jogador-3: Minha arma também tem proteção iônica! Eu posso atirar!

Começa o combate. O ladrão foge pela lateral do prédio e a jogadora-2 é morta por uma faca de arremesso;

Jogador-3:  …cara, vc não usou seu bônus de destreza! Deixe de ser burro e soma direito.

Jogador-1: Quem é burro? O único que tinha armas de fogo funcionando estava lá atrás e não viu que o ladrão ia escapar pela janela na lateral.

Jogadora-2 : Como é que a faca de arremesso envenenada pegou em mim?! Eu tava LÁ atrás!

Jogador-4: Como o ladrão atirou em mim, se ele tinha deixado as armas dele no carro, antes de encurralarmos ele aqui?

Começa a discussão. Só que isto sempre terminava do jeito que começou, sem solução.

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